“Clubes, eu? Sou selecionador, não olho para a proveniência dos jogadores. Só tenho jogadores da seleção, não de uma ou outra equipa”. Mais politicamente correto era impossível. Não podia deixar de ser. Desde que assumiu o comando da principal seleção espanhola após a inesperada queda nos oitavos do Mundial de 2022, e depois de tudo o que a Real Federação Espanhola de Futebol atravessou na sequência do polémico beijo de Luis Rubiales a Jenni Hermoso, Luis de la Fuente tentou sempre assumir um papel de senador do futebol nacional. Acima de clubes, de interesses, de vontades. Ao nível dos jogadores, da estrutura, de todos os que fazem parte da equipa – daí a proximidade que tem com o grupo. No entanto, há realidades que não se podem esconder e a lista de 26 convocados à procura do segundo Mundial na história conta o resto.
Pela primeira vez, o Real Madrid não tem qualquer representação na Roja. Nem Álvaro Carreras, nem Dean Huijsen, muito menos Dani Carvajal, Dani Ceballos, Raúl Asensio ou Fran Garcia. Em contrapartida, o Barcelona tem quase um terço dos eleitos, numa lista de mantém a base, aposta em alguns dos jogadores que estão habitualmente nos convocados e que decidiram sair sobretudo para Inglaterra e não volta a esquecer os outros clubes da La Liga como Real Sociedade, Athl. Bilbao, Osasuna ou Celta de Vigo. O futebol espanhol mudou, com muito toque da formação blaugrana naquilo que são as novas gerações que estão a aparecer e cada vez menos representatividade do clube mais vezes campeão europeu. E mudou também porque, ao contrário do que aconteceu em tantas outras boas gerações, tem uma figura acima de todas as outras.
Aos 18 anos, Lamine Yamal chega ao Campeonato do Mundo em busca de um dos poucos títulos que ainda lhe faltam no currículo. Ainda andava nas camadas jovens quando a Espanha caiu nos oitavos do Mundial do Qatar, também não esteve na conquista da Liga das Nações de 2023, assumiu o papel de principal estrela a partir do Europeu de 2024 quando a Roja venceu a Inglaterra por 2-1 com um golo de Oyarzabal a quatro minutos do fim, esteve também na final perdida com Portugal na Liga das Nações do ano passado. O grande segredo da Espanha sempre foi o coletivo e a capacidade de criar uma identidade de jogo em posse que a coloca por cima em vários momentos. Com a chegada do avançado do Barcelona, o individual também ganhou outro protagonismo com o decorrer da partida. Mais: esta pode ser a oportunidade para Lamine Yamal ir à procura da sua primeira Bola de Ouro, depois de ter ficando na segunda posição em 2025.
O que fica a faltar? Fugir a um dia mau. Olhando para o trabalho de Luis Enrique na seleção, percebendo o que a equipa era capaz de fazer em campo, foi isso que fez com que a Espanha caísse de forma precoce nos oitavos frente a Marrocos após desempate por grandes penalidades. Foram 120 minutos de sentido único, acabou num par de minutos com sentido de volta a casa. É isso que até agora De la Fuente tem conseguido contrariar, com uma taxa de 100% de finais em todas as grandes provas e de 66,7% de sucesso nas decisões que só não chega aos 100% porque Portugal foi mais forte no último desempate por penáltis. Agora, com o contrato renovado até 2028, chega o maior dos desafios. Um desafio que, em paralelo, acaba por ser uma luta contra o passado recente: desde que foi campeã mundial em 2010, a Espanha não voltou a passar dos oitavos de final da competição, tendo mesmo ficado pela fase de grupos na “ressaca” dos sucessos em 2014.

BI
- Ranking FIFA atual: 2.º (a 1 de abril de 2026)
- Melhor ranking FIFA: 1.º (julho de 2008 a junho de 2009, outubro de 2009 a março de 2010, julho de 2010 a julho de 2011, outubro de 2011 a julho de 2014, setembro de 2025 a abril de 2026)
- Patrocinador: Adidas (desde 1991)
- Alcunha: La Roja
- Presenças em fases finais: 16
- Última participação: 2022 (oitavos, Marrocos)
- Melhor resultado: campeão (2010)
- Qualificação: 1.º lugar do grupo E da UEFA (16 pontos em 6 jogos com Turquia, Geórgia e Bulgária)
- O que seria um bom resultado? Voltar a ser campeão (ou chegar à final)
Jogos desde junho de 2025
- Jogo particular, 9/6: Peru (neutro)
- Jogo particular, 4/6: Iraque (casa), 1-1 (E)
- Jogo particular, 31/3: Egito (casa), 0-0 (E)
- Jogo particular, 27/3: Sérvia (casa), 3-0 (V)
- Qualificação UEFA, 18/11: Turquia (casa), 2-2 (E)
- Qualificação UEFA, 15/11: Geórgia (fora), 4-0 (V)
- Qualificação UEFA, 14/10: Bulgária (casa), 4-0 (V)
- Qualificação UEFA, 11/10: Geórgia (casa), 2-0 (V)
- Qualificação UEFA, 7/9: Turquia (fora), 6-0 (V)
- Qualificação UEFA, 4/9: Bulgária (fora), 3-0 (V)
- Final Four da Liga das Nações, 8/6: Portugal (neutro), 2-2 e 4-5 g.p. (D)
- Final Four da Liga das Nações, 5/6: França (neutro), 5-4 (V)
O onze
- 4x3x3: Unai Simón; Marcos Llorente, Laporte, Pau Cubarsí, Cucurella; Rodri, Fabián Ruíz, Pedri; Lamine Yamal, Nico Williams e Oyarzabal
O treinador
- Luis de la Fuente (espanhol, 64 anos, desde dezembro de 2022)
- Outros clubes: Portugalete, Aurrerá, Sevilha (formação), Athl. Bilbao (formação), Bilbao Athletic, Alavés, Espanha Sub-19, Espanha Sub-21 e Espanha Sub-23
- Títulos (5): 1 Campeonato da Europa de Sub-19, 1 Campeonato da Europa de Sub-21, 1 medalha de prata nos Jogos Olímpicos, 1 Liga das Nações e 1 Campeonato da Europa

O craque
- Lamine Yamal (18 anos, avançado do Barcelona)
- Outros clubes: Barcelona (formação)
A revelação
- Marc Pubill (22 anos, central do Atl. Madrid)
- Outros clubes: Levante e Almería
O mais internacional e o maior goleador
- Sergio Ramos (180 internacionalizações) e David Villa (59 golos)

Os 26 convocados
- Guarda-redes (3): Unai Simón (Ath. Bilbao, Espanha), David Raya (Arsenal, Inglaterra) e Joan García (Barcelona, Espanha)
- Defesas (8): Marc Cucurella (Chelsea, Inglaterra), Álex Grimaldo (Bayer Leverkusen, Alemanha), Pau Cubarsí (Barcelona, Espanha), Aymeric Laporte (Ath. Bilbao, Espanha), Marc Pubill (Atl. Madrid, Espanha), Eric García (Barcelona, Espanha), Marcos Llorente (Atl. Madrid, Espanha) e Pedro Porro (Tottenham, Inglaterra)
- Médios (7): Pedri (Barcelona, Espanha), Fabián Ruiz (PSG, França), Martín Zubimendi (Arsenal, Inglaterra), Gavi (Barcelona, Espanha), Rodri (Manchester City, Inglaterra), Álex Baena (Atl. Madrid, Espanha) e Mikel Merino (Arsenal, Inglaterra)
- Avançados (8): Mikel Oyarzabal (Real Sociedad, Espanha), Dani Olmo (Barcelona, Espanha), Nico Williams (Ath. Bilbao, Espanha), Yéremy Pino (Crystal Palace, Inglaterra), Ferran Torres (Barcelona, Espanha), Borja Iglesias (Celta de Vigo, Espanha), Víctor Muñoz (Osasuna, Espanha) e Lamine Yamal (Barcelona, Espanha)
O local do estágio
- The Read House Hotel, Chattanooga, no Tennessee (treinos: Baylor School)
A antevisão
A ligação a Portugal
- Álvaro Carreras acabou por ficar de fora, o bracarense Victor Gómez também fez parte da lista dos pré-convocados mas não entrou na lista final, mas é das laterais que chegam as principais ligações da Espanha a Portugal: Pedro Porro, lateral direito do Tottenham que esteve três temporadas no Sporting (primeiro por empréstimo do Manchester City, depois a título definitivo), e Álex Grimaldo, lateral esquerdo do Bayer Leverkusen que passou sete épocas no Benfica antes de sair para a liga alemã, entraram nas opções de Luis de la Fuente para lutarem pela titularidade com Marcos Llorente e Marc Cucurella. Existe uma nuance entre os dois trajetos, com Porro a ter a primeira chamada à equipa A quando estava em Alvalade e Grimaldo a chegar a esse patamar apenas na Bundesliga.