Uma forte onda de calor está a atingir grande parte da Europa ocidental neste mês de maio, com temperaturas que podem chegar até perto dos 40ºC em vários países, como França e Reino Unido, que se preparam para bater recordes, bem como Portugal. O fenómeno está a ser provocado por uma “cúpula de calor”, ou, como se diz em inglês, “heat dome”.
A Península Ibérica está entre as regiões mais afetadas. Em território português, as previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) apontam para temperaturas próximas dos 40ºC em algumas regiões do sul e do interior (apesar da previsão de chuva e trovoada para esta segunda-feira em seis distritos do continente). No sul de Espanha, de acordo com a AEMET, os termómetros poderão chegar aos 38ºC — uma temperatura invulgar para esta época do ano.
O IPMA já colocou esta terça-feira, devido ao calor, sete distritos sob alerta amarelo. Beja, Évora, Setúbal, Lisboa, Santarém, Portalegre e Leiria. O resto do continente, à exceção do Algarve, entra em alerta amarelo a partir das 9h00 de quarta-feira, alertas que só terminam às 18h00 de quinta.
E o IPMA prevê que várias zonas em Portugal cheguem a máximas de 39ºC, como Portalegre, Évora e Santarém, e possam mesmo ultrapassar esses valores e ir aos 40ºC. E as noites serão tórridas, acima de 25ºC, na zona de Portalegre e tropicais (mais de 20ºC) em muitas zonas do país, a começar por Lisboa, que na quarta terá 36ºC de máxima e 21ºC de mínima e na quinta 35ºC/20ºC. Nenhum distrito terá, aliás, máximas abaixo de 30ºC.
https://twitter.com/ipma_pt/status/2057855012802363593
https://twitter.com/AEMET_Esp/status/2058840529551470698
De acordo com as previsões meteorológicas do IPMA, os dias mais quentes deverão ser, assim, esta quarta e quinta-feira. Mértola surge entre os locais onde os termómetros poderão aproximar-se dos 40ºC durante quarta-feira, que é apontada como o dia mais quente. Também os distritos do interior Norte e Centro, sobretudo o Vale do Douro e a Beira Baixa, estão entre as zonas mais expostas ao calor intenso.
A região de Lisboa e Vale do Tejo deverá registar temperaturas muito elevadas, com maior incidência no Vale do Tejo, no Oeste e na Península de Setúbal. No Alentejo, os vales do Sado e do Guadiana destacam-se igualmente entre as zonas mais atingidas pelo calor. Ainda assim, o litoral Norte e Centro deverá manter condições mais amenas, com temperaturas máximas a situarem-se entre os 20ºC e os 25ºC.
Também França enfrenta uma situação considerada excecional. A agência meteorológica francesa, a Météo-France, alertou para uma “onda de calor precoce, notável e duradoura”, com temperaturas muito acima da média sazonal. Em cidades como Nantes, no oeste francês, os 35ºC previstos representam uma subida de quase três graus face ao recorde anterior para maio.
Na manhã desta segunda-feira, os serviços meteorológicos franceses emitiram um alerta amarelo para 18 departamentos, incluindo Paris e grande parte do oeste de França devido à onda de calor em curso.
No Reino Unido, as temperaturas poderão chegar aos 34ºC, ultrapassando o recorde nacional de maio, que dura desde 1922. De acordo com o britânico The Guardian, Londres está sob alerta de saúde devido ao calor, com as autoridades a avisarem para impactos significativos nos serviços de saúde e um aumento do risco para idosos e pessoas vulneráveis.
O país acabou por registar esta segunda-feira a temperatura mais elevada para o mês de maio, atingindo os 33,5ºC perto do aeroporto de Heathrow, em Londres, superando o anterior recorde de 32,8ºC, ocorrido em 1922.
https://observador.pt/2026/05/23/como-os-britanicos-estao-a-enfrentar-o-maio-mais-quente-desde-2012-temperatura-passa-os-30oc/
A Bélgica deverá atingir os 31ºC, enquanto a Alemanha, o Luxemburgo, os Países Baixos, o norte de Itália e os Balcãs enfrentam igualmente temperaturas na ordem dos 30 a 35 graus.
Na República Checa, o serviço meteorológico emitiu um alerta sobre o risco de incêndios florestais nas regiões central e noroeste da Boémia, que poderá estender-se a outras áreas do país da Europa Central devido às previsões de temperaturas elevadas, que poderão atingir os 33ºC. Praga, localizada na região da Boémia Central, registou máximas de 29ºC durante o fim de semana, muito acima dos valores habituais para maio, quando a temperatura máxima média diária costuma variar entre 18,4ºC (média climática de longo prazo) e 19,6ºC (nos anos mais quentes de que há registo). O recorde histórico para este mês na capital checa é de 32,2ºC, registado a 11 de maio de 1866.
Os meteorologistas explicam este episódio com um fenómeno conhecido como “heat dome”, ou “cúpula de calor” em português. Como o Observador explicava em 2021, trata-se de uma situação causada por uma grande pressão atmosférica que empurra o ar quente para baixo, comprimindo-o e tornando-o mais denso.
O efeito é semelhante ao de uma panela tapada ao lume: o calor acumula-se e permanece durante vários dias. Neste caso, a combinação entre forte radiação solar, ausência de nebulosidade e massas de ar muito quentes provenientes do norte de África está a criar temperaturas excecionalmente elevadas para o final de maio.
https://observador.pt/2026/04/29/mais-calor-em-terra-e-no-mar-caracteriza-estado-do-clima-na-europa-em-2025/
Segundo os especialistas citados pela imprensa internacional, este “heat dome” é particularmente intenso e anómalo para a época do ano. O anticiclone que domina atualmente a Europa ocidental expandiu-se desde o norte de África até ao centro do continente, criando um bloqueio atmosférico persistente. As imagens de satélite mostram uma vasta área de ar seco e estável sobre a Europa, um sinal da força deste sistema.

As autoridades de vários países já emitiram alertas devido aos impactos do calor na saúde pública. No Reino Unido foram ativados alertas sanitários para várias regiões até quarta-feira. Em Espanha há avisos amarelos em algumas zonas do norte do país, sendo que o risco é maior para idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas e trabalhadores expostos ao sol durante longos períodos, como agricultores ou trabalhadores da construção civil.
https://twitter.com/SeguimlaMeteo/status/2058848747661009108
Os cientistas alertam que este tipo de fenómenos está a tornar-se mais frequente devido às alterações climáticas. A própria Météo-France sublinha que as ondas de calor tão precoces tenderão a ocorrer “cada vez mais cedo, mais vezes e com maior intensidade”. A Europa é o continente que aquece mais rapidamente no planeta e os episódios extremos de calor têm vindo a aumentar em frequência nos últimos anos.