A 15 de maio de 1891, o Papa Leão XIII publicava a encíclica Rerum novarum, um dos textos centrais da Igreja Católica contemporânea. Com o subtítulo “Sobre a condição dos operários”, o documento denunciou as desigualdades sociais e a precariedade dos trabalhadores naquele momento decisivo da história, na viragem do século XIX para o século XX, marcado por uma revolução industrial que transformava radicalmente o mundo do trabalho. Leão XIII acreditava que o Catolicismo tinha algo a oferecer ao mundo naquele tempo de mudança: os fundamentos para uma sociedade justa e solidária, o apelo à colaboração entre trabalhadores e patrões, a dignificação do trabalho humano.
Não foi, por isso, por acaso que o Papa Leão XIV escolheu o dia 15 de maio para assinar formalmente a sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, divulgada esta segunda-feira pelo Vaticano e apresentada de forma inédita, pelo próprio Papa numa conferência que reunirá o cofundador da Anthropic Christopher Olah, as teólogas Anna Rowlands e Leocadie Lushombo, e vários cardeais. Apenas dois dias depois da sua eleição, quando discursou aos cardeais que o haviam elegido, o Papa Leão XIV explicou que tinha sido aquele texto de 1891 a motivá-lo a escolher o nome: “O Papa Leão XIII, com a histórica encíclica Rerum novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial.” O diagnóstico de Robert Prevost, o primeiro Papa oriundo dos EUA, era claro: o mundo atravessa hoje uma nova revolução industrial, sobretudo marcada pela emergência da inteligência artificial, o que exige à Igreja que volte a pronunciar-se de modo firme sobre como responder aos desafios desta nova transformação.
A inteligência artificial, de resto, tem sido um dos temas centrais do pensamento do Papa Leão XIV, que tem usado várias intervenções para alertar para os riscos desta tecnologia e para os desafios que ela coloca à dignidade humana. Agora, a inteligência artificial é também o tema central da encíclica Magnifica Humanitas, o primeiro grande documento programático de Leão XIV, na qual o primeiro Papa norte-americano reflete sobre os grandes desafios do mundo contemporâneo: além da IA, que ocupa uma grande parte do documento com mais de 80 páginas, o Papa detém-se longamente sobre o tema da verdade e da transparência — e ainda sobre a questão da guerra e da paz. De forma particularmente veemente, Leão XIV é taxativo num aspeto: na era da IA e dos desenvolvimentos tecnológicos que transformam a natureza dos conflitos armados, a Igreja tem de ultrapassar a teoria da “guerra justa”, preferindo a promoção do perdão pelo diálogo e pela diplomacia. Poucas semanas depois da troca de galhardetes entre o Papa e Donald Trump a respeito da guerra no Irão, Leão XIV inclui na sua primeira encíclica uma forte condenação do rumo que o mundo está a tomar, aumentando “as distâncias entre os povos” que colocam em risco “o árduo itinerário para um mundo mais unido e fraterno”. De forma ainda mais explícita: “Qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, por isso, inaceitável.”
Logo no início de Magnifica Humanitas, uma encíclica dividida em cinco capítulos, Leão XIV faz uma recordação explícita da inspiração que foi buscar a Leão XIII e à sua Rerum Novarum, expressão latina com que começava esse documento e que se traduz como “novas questões”. Também hoje, diz Leão XIV, há novas questões, pelo que a Igreja não deve “simplesmente repetir” os ensinamentos do passado, mas tem de “pedir a Deus a sabedoria para interpretar as grandes tendências do nosso tempo”. Neste discernimento, diz o Papa, a inteligência artificial e a robótica surgem como as grandes evoluções que estão a “transformar o nosso mundo”.

E, como sintetiza a primeira frase de todo o documento, “a magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”. Leão XIV não é particularmente fatalista sobre o mundo de hoje, dizendo que “cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo” e que “sobre cada época (…) paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto”. Por isso, o Papa começa por, de forma clara, afiançar que a tecnologia não é necessariamente “uma força antagónica em relação à pessoa” e não é inerentemente boa nem má. “A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças”, diz o Papa. “Na teoria, em si mesma, ela não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam.”
“Não podemos considerar a IA moralmente neutra”
O ponto de partida para a reflexão sobre os desafios da IA no contexto de uma encíclica social escrita à luz da Rerum Novarum é, por isso, a Doutrina Social da Igreja, o pensamento social cujas bases foram precisamente lançadas por esse documento do final do século XIX, a que o Papa dedica o primeiro capítulo da encíclica. Lembrando não só Leão XIII, mas vários dos Papas que aprofundaram e desenvolveram este tema nas décadas seguintes, Leão XIV sublinha que a Doutrina Social da Igreja não é um mero “manual de instruções”, mas uma ajuda para ler a história humana à luz do Evangelho.
No segundo capítulo, Leão XIV parte da Doutrina Social da Igreja para vincar o ponto fundamental do seu texto: a dignidade de cada ser humano, inalienável e inegociável, independentemente de ideologias e desenvolvimentos tecnológicos. Se novas realidades podem levar a que se pense no ser humano como “um recurso” que pode ser “usado e explorado”, a Doutrina Social da Igreja diz o oposto: que a dignidade fundamental do ser humano “não se adquire nem se merece, nem precisa de ser demonstrada”. A este propósito, Leão XIV sublinha o pensamento da Igreja sobre a inviolabilidade do direito à vida da conceção até à morte, o que torna imorais não apenas o aborto e a eutanásia — temas já bem presentes no discurso habitual da Igreja —, mas também a morte de qualquer inocente, e destaca ainda a necessidade de “decisões concretas” que favoreçam as minorias e os grupos mais desfavorecidos, incluindo, nos dias de hoje, ainda as mulheres.
Os migrantes são objeto de especial atenção nesta encíclica, com o Papa a considerar que é neste tema que reside “um teste decisivo para a justiça social”. “A forma como uma sociedade os trata revela se a sua noção de justiça é orientada pelo medo ou pela fraternidade”, escreve o Papa. “Neste âmbito, a justiça social implica, pelo menos, dois compromissos complementares. Por um lado, salvaguardar o direito à esperança de quem é obrigado a partir, garantindo vias seguras e legais, condições de acolhimento dignas e percursos concretos de integração. Por outro lado, promover igualmente o direito de permanecer em paz e segurança na própria terra, enfrentando as causas profundas que forçam à migração, incluindo as relacionadas com as injustiças económicas e a crise climática. Quando estes direitos são respeitados, as migrações podem tornar-se uma oportunidade de encontro e enriquecimento mútuo entre povos.”
Leão XIV aplica estes princípios não apenas à organização política das sociedades, mas também às dinâmicas internacionais. “À medida que aumentam as distâncias entre os povos, vão ganhando terreno lógicas de contraposição e agressividade, e o árduo itinerário para um mundo mais unido e fraterno sofre novos e dolorosos reveses”, lamenta o Papa, evocando palavras do Papa Francisco para admitir que, neste contexto, falar de um “caminho partilhado rumo a um desenvolvimento mais justo para toda a família humana ‘soa como um delírio’”. Ainda assim, acrescenta Leão XIV, a humanidade não deve perder a esperança — e isso passa, por exemplo, por “formas de cooperação” e “instituições internacionais mais eficazes, capazes de salvaguardar o bem comum global sem anular a legítima pluralidade dos povos e dos Estados”. O Papa regressa a este tema várias páginas mais à frente, falando sobre a crise do multilateralismo no capítulo da encíclica em que se foca explicitamente sobre as questões da guerra e da paz. “Com efeito, a promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito pelo direito dos povos a existir, a salvaguardar a sua identidade e a contribuir com a própria originalidade para a família das nações. Qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, por isso, inaceitável.”
Mas o Papa diz que todos estes princípios se aplicam, igualmente, dentro de portas: na sequência da crise dos abusos sexuais de menores, a própria Igreja tem de levar a cabo um “exame de consciência” interno, ouvindo as vítimas e purificando as estruturas e as relações eclesiais.
Focando-se concretamente nas questões da tecnologia, Leão XIV retoma o princípio da destinação universal dos bens para sublinhar que as novas tecnologias não podem estar concentradas nas mãos de um conjunto limitado de pessoas. É neste contexto que surge o terceiro capítulo da encíclica, explicitamente dedicado à inteligência artificial. Leão XIV começa por denunciar os perigos do “paradigma tecnocrático” de que já falava o Papa Francisco: sobretudo, o risco de que cada decisão humana passe a ser exclusivamente ditada por parâmetros de eficiência. No caso da IA, o Papa pede, acima de tudo, clareza e transparência sobre o que esta tecnologia faz (pode imitar alguns comportamentos humanos) e sobre o que a IA não é (não tem uma consciência moral nem capacidades afetivas). Esta distinção é fundamental para que sejam construídas regulamentações legais justas sobre esta tecnologia.
“O uso da IA nunca é uma questão puramente técnica: ao interferir em processos que afetam a vida das pessoas, ela incide sobre direitos, oportunidades, reputação e liberdade”, sublinha Leão XIV, deixando duras críticas a usos da IA que passam por delegar em sistemas automáticos decisões que exigem o critério humano, como por exemplo a seleção de quem tem acesso a determinado serviço ou trabalho. Isso, diz o Papa, “significa confiar-lhe a tarefa de redefinir os limites das possibilidades humanas” e transforma a injustiça numa pretensa “objetividade”.
“Neste processo, o que se perde não é apenas a empatia para com o excluído — que pode ser imitada artificialmente —, mas a responsabilidade política, porque o descarte dos fracos é revestido de neutralidade e objetividade, perante as quais é impossível protestar. E assim, a injustiça torna-se silenciosa, e desaparecem do horizonte a compaixão, a misericórdia e o perdão, não como mera aparência, mas enquanto gestos políticos”, diz Leão XIV. “Daqui decorre uma consequência simples, mas imperiosa: não podemos considerar a IA moralmente neutra. Na realidade, todo o artefato técnico traz consigo escolhas e prioridades: o que mede, o que ignora, o que otimiza e a forma como classifica pessoas e situações. Se um sistema for concebido ou utilizado de modo a tratar certas vidas como menos dignas, ou a excluí-las sem possibilidade de apelo, não se trata de um mero instrumento ‘a ser bem utilizado’: introduz já um critério que contradiz a dignidade inalienável da pessoa. Por isso, o discernimento ético não pode limitar-se a perguntar se utilizamos um determinado sistema para um fim bom ou mau, mas deve também questionar-se sobre a forma como foi projetado e que ideia de pessoa e sociedade está inscrita nos dados e nos modelos que o orientam.”
Leão XIV também faz outro apelo: a IA deve ser “desarmada”, diz. “Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também económica e cognitiva. Trata-se da corrida ao algoritmo mais eficaz e ao banco de dados mais vasto, com o objetivo de consolidar uma vantagem geopolítica ou comercial sobre todos os outros”, sublinha, para logo sintetizar: “Desarmar significa quebrar esta equivalência entre poder técnico e direito de governar.”
“Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano. Significa retirá-la dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável, devolvendo-a à pluralidade das culturas humanas e das formas de vida. A tarefa, hoje, não é apenas ética ou técnica: é ecológica no sentido mais radical, porque envolve uma nova dimensão da nossa Casa comum. A IA é o ambiente em que estamos imersos e o poder com que temos de lidar. Por isso, não basta regulá-la: deve ser desarmada e tornada acolhedora”, destaca o Papa, que também se dirige, a dada altura da encíclica, diretamente aos criadores das plataformas de IA: “A inovação tecnológica pode ser, em certo sentido, uma forma humana de participar no ato divino da criação. Portanto, os programadores assumem um particular peso ético e espiritual, pois cada escolha feita no projeto expressa uma visão da humanidade. Tal como o autor de uma obra artística ou literária é responsável por ponderar os valores que ela expressa, também eles são chamados a tratar com a devida seriedade os valores que infundem nos seus projetos: com transparência, com responsabilidade em relação às comunidades envolvidas e com a atenção necessária em confirmar que quanto está a ser cultivado é efetivamente um bem.”
Por fim, Leão XIV garante que “o humanismo cristão não rejeita a ciência e a técnica”. Destacando que “a inteligência criativa do ser humano é um dom que pode aliviar sofrimentos e abrir novas possibilidades”, o Papa sustenta que esta “deve permanecer orientada ao bem comum, à justiça, ao cuidado dos mais frágeis e da criação”. E é por isso, conclui, que não está em causa uma necessidade de escolher “entre entusiasmo ou medo, mas entre duas formas de construção: um progresso que serve à pessoa e aos povos, ou um progresso que os submete às lógicas de poder”. Se a IA tornar a vida humana “mais humana”, defende Leão XIV, “podemos reconhecer nela uma boa possibilidade a ser vivida com responsabilidade, num caminho de reconstrução paciente e partilhada”. Mas se, pelo contrário, “o poder cresce enquanto o coração seca e os laços se rompem, então estamos diante duma nova forma de Babel: uma construção grandiosa, mas desumana”.
O fim da teoria da “guerra justa” numa era de realismo “irresponsável”
A partir da reflexão sobre a IA, Leão XIV parte para um olhar sobre o mundo atual e debruça-se sobre temas como a questão da verdade (e o modo como as novas tecnologias podem ameaçá-la), a proteção do trabalho humano (é a IA que deve ser desenhada para apoiar os trabalhadores, e não os trabalhadores que têm de se adaptar à exigência das novas máquinas), o modo como o novo ambiente digital promove novas formas de escravatura, os riscos que a recolha de dados em massa representam para a promoção das injustiças e, de forma bastante desenvolvida, a questão da guerra e da paz no mundo contemporâneo.
É, aliás, à guerra e à paz que Leão XIV dedica o quinto e último capítulo da encíclica, com um alerta para o modo como os desenvolvimentos tecnológicos estão a transformar a natureza dos conflitos armados — por exemplo, através da delegação em sistemas de IA de decisões que implicam a vida e a morte de pessoas.
Leão XIV recorda o século XX, marcado pelo pós-Segunda Guerra Mundial e pelas Nações Unidas, como proposta de um futuro livre de guerras, vistas como um último recurso extremo num mundo orientado para a paz. “Hoje, porém, assistimos a uma verdadeira mudança de paradigma no discurso público e nas decisões em matéria de rearmamento, com uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional, enquanto precisamente se degradam aqueles critérios éticos que tinham limitado o seu uso”, destaca o Papa. “Conflitos regionais que se arrastam no tempo, escaladas de tensões e ameaças cruzadas tornam-se quase habituais, e ressurgem formas de luta por expansão territorial que se pensavam superadas. A opinião pública é progressivamente orientada e condicionada por narrativas mediáticas de polarização, amplificadas com frequência por algoritmos que valorizam o confronto e a oposição.”
O Papa lamenta também a “preocupante perda de memória histórica”, por exemplo no que respeita ao Holocausto e às duas guerras mundiais, que “facilita a reescrita seletiva ou distorcida do passado, num clima em que as notícias falsas e as manipulações narrativas obscurecem as lições aprendidas”.

No mundo digital, “a guerra não é só combatida, mas também preparada culturalmente através de narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo”. Trata-se de um novo contexto para a polarização e o ressentimento, denuncia o Papa. “É neste clima que a humanidade se encontra a resvalar para a cultura violenta do poder, onde a paz já não aparece como uma tarefa a assumir, mas como um intervalo precário entre conflitos”, diz Leão XIV, imediatamente antes de uma das afirmações mais contundentes de todo o texto: “Hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da ‘guerra justa’, invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra, mantendo-se o direito à legítima defesa entendida no sentido mais estrito.”
A antiga teoria da “guerra justa” esteve recentemente no centro do debate público a propósito da guerra lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irão. Em abril, durante a sua viagem a vários países africanos, Leão XIV pronunciou-se repetidamente contra a guerra, num conjunto de declarações que foram entendidas como críticas diretas a Donald Trump e à política externa norte-americana, o que levou Trump a insultar diretamente o Papa e aprofundou ainda mais o fosso já existente entre Washington e o Vaticano. No governo norte-americano, particularmente através de figuras como o secretário da Defesa, Pete Hegseth, teses como a da guerra justa e outros argumentos teológicos e religiosos têm sido usados para justificar o conflito armado.
Tudo isto é agravado, diz o Papa, por um contexto em que se multiplicam novos grupos armados (como grupos jihadistas) que acabam com “o monopólio estatal da força”, que “combinam vagas motivações ideológicas com interesses económicos muito concretos, transformando a guerra num verdadeiro modo de viver para gerações inteiras de jovens e crianças: o objetivo já não é uma vitória definitiva, mas a perpetuação do conflito como fonte de poder e rendimento”. Neste contexto, a entrada em força da inteligência artificial no mundo das armas representa um risco adicional: “A crescente facilidade com que os sistemas de armas com autonomia operativa podem ser utilizados torna a guerra mais ‘viável’ e menos sujeita ao controlo humano, contrariando o princípio de que o recurso à força armada deve ocorrer como última alternativa em caso de legítima defesa.”
“Fala-se por vezes de ‘agentes morais artificiais’, como se uma máquina pudesse garantir, com maior coerência do que um ser humano, a distinção entre o bem e o mal. Ora, o juízo moral não se reduz a um cálculo: implica consciência, responsabilidade pessoal e reconhecimento do outro como pessoa”, destaca o Papa. “Por isso, não é lícito confiar a sistemas artificiais decisões letais ou, de qualquer forma, irreversíveis. Não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável. A IA não retira ao conflito a sua intrínseca desumanidade: apenas o torna mais rápido e impessoal, baixando a fasquia do recurso à violência e transformando a defesa em previsão operacional, com as vítimas reduzidas a dados. Habituamo-nos, assim, à ideia de que a violência é inevitável e deve apenas ser otimizada.”
Ao mesmo tempo, continua o Papa, isto acontece num mundo marcado pela crise do sistema multilateral. “As instituições criadas para salvaguardar a ideia dum destino comum dos povos e dum bem comum mundial parecem enfraquecidas, não apenas devido a limitações estruturais, mas porque muitas vezes falta uma vontade partilhada de as apoiar e reformar, e de reconhecer a sua autoridade moral”, diz Leão XIV, lamentando que a força do direito internacional esteja a ser substituída pelo direito do mais forte. “Neste contexto, a construção da paz passou para segundo plano: em nome de lógicas de poder, deixam-se de lado a cooperação para o desenvolvimento, o desarmamento, a prevenção de conflitos e a construção da confiança mútua.”
Leão XIV critica o “falso realismo, baseado não só na lógica dominante da força, mas também numa convicção cultural e antropológica, como se a guerra fosse inevitavelmente parte da natureza humana”, e denuncia como “verdadeiramente irresponsável” a “Realpolitik, esta forma de ‘realismo’ político, que semeia nas consciências e na cultura a resignação perante uma guerra inevitável, e qualifica a paz e o diálogo como posições utópicas ou irracionais, que ignoram os riscos em jogo”.
O Papa dedica a reta final do documento à construção da “civilização do amor”, recordando que cada pessoa pode fazer a sua parte. Leão XIV cita até O Senhor dos Anéis, de Tolkien, para descrever a responsabilidade humana: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar.”
“A civilização do amor não nasce dum gesto único e espetacular, mas duma soma de pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumanização”, destaca Leão XIV, propondo cinco caminhos concretos: desarmar as palavras, construir a paz na justiça, assumir o olhar das vítimas, cultivar um saudável realismo, revitalizar o diálogo e o multilateralismo.
Do arranque discreto à colisão com Trump: um ano de Leão XIV
O primeiro grande documento programático do Papa Leão XIV surge na altura em que o norte-americano cumprir um ano de pontificado. Eleito a 8 de maio de 2025, ao fim de apenas quatro rondas de votação num dos conclaves mais incertos da história recente da Igreja, o cardeal Robert Prevost — natural de Chicago, mas com grande parte da sua vida eclesiástica passada entre o Peru e o Vaticano — e inaugurou o seu pontificado a 18 de maio desse ano, vendo-se confrontado com a missão de suceder ao carismático Papa Francisco, protagonista de um pontificado reformista que trouxe a Igreja Católica para alguns dos debates cruciais do mundo contemporâneo, aproximando-a de crentes e não-crentes, mas abrindo também profundas divisões dentro da Igreja, aprofundando o fosso entre conservadores e progressistas.
Quando o nome de Prevost foi anunciado na varanda da Basílica de São Pedro, o primeiro dado que saltou à vista foi, evidentemente, o passaporte norte-americano. Era a primeira vez na história que ocorria algo até então considerado impossível: a eleição de um Papa natural dos Estados Unidos. Rapidamente, Prevost foi considerado “o menos americano dos cardeais americanos”. Missionário e antigo superior-geral dos agostinianos, Prevost tinha passado a maioria da sua vida eclesiástica no Peru (de que também tem nacionalidade), antes de ser chamado a Roma pelo Papa Francisco. A pergunta surgiu rapidamente na cabeça de muitos: no mundo atual e na era de Donald Trump, o que esperar de um Papa norte-americano?
A resposta pode ter sido dada pelo próprio Leão XIV nas primeiras palavras que dirigiu ao mundo a partir do Vaticano. “Que a paz esteja com todos vocês”, disse, evocando aquela que a Bíblia diz ter sido a primeira saudação de Jesus aos seus discípulos depois da ressurreição. De seguida, pediu “uma paz desarmada e paz desarmante”, expressão que se tornaria uma espécie de lema do seu pontificado. A insistente defesa da paz num mundo em guerra representou uma parte significativa do primeiro ano de pontificado de Leão XIV — e colocou o pontífice em rota de colisão com o Presidente dos EUA, Donald Trump.
Em abril deste ano, no contexto da escalada bélica no Irão, Leão XIV aproveitou as suas muitas intervenções durante a viagem a África para condenar a guerra e, embora nunca tenha dito diretamente o nome de Trump, não foi difícil perceber quem era o destinatário de muitas das mensagens do Papa, que chegou a dizer que Deus “não ouve as orações daqueles que lançam as guerras” e que o mundo está “a ser devastado por um punhado de tiranos” (apesar de o Papa ter vindo, depois, dizer que não se referia explicitamente ao Presidente dos EUA). Trump respondeu com fortes insultos contra o Papa, que garantiu que não deixaria de defender a paz. Perante as críticas de Trump e as afirmações de elementos do governo norte-americano (como o secretário da Defesa, Pete Hegseth, que tem recorrido com frequência à retórica religiosa para justificar a guerra), Leão XIV sublinhou que não tinha interesse em discutir com o governo dos EUA, mas apenas em vincar a mensagem de paz do Evangelho.
Se Trump chegou a achar que podia beneficiar da eleição de um norte-americano para o trono pontifício, rapidamente percebeu que não tinha um aliado de Washington no Vaticano. Na primeira viagem que fez ao estrangeiro, ainda para cumprir o compromisso de Francisco de visitar a Turquia para assinalar o aniversário do Concílio de Niceia, Leão XIV decidiu acrescentar uma paragem no Líbano para deixar uma mensagem de paz no Médio Oriente. No mesmo dia em que os Estados Unidos aprovaram o regresso dos pelotões de fuzilamento, Leão XIV fez questão de divulgar uma mensagem em vídeo manifestando a forte oposição da Igreja à pena de morte. Longe de um aliado da política de Washington, Leão XIV poderá ser, nas palavras recentes de uma historiadora britânica, “a única pessoa que pode parar Donald Trump atualmente”?
Mas, mais do que no contexto internacional, os principais desafios de Leão XIV poderão estar dentro da própria Igreja. A eleição de Prevost colocou no trono pontifício um homem muito diferente do antecessor. Enquanto o Papa Francisco teve um pontificado profundamente reformador que começou a dar nas vistas logo nos primeiros minutos, Leão XIV teve um arranque mais discreto. Durante algum tempo, analistas e jornalistas em todo o mundo tiveram dificuldades em perceber que homem era este: discreto e reservado, recuperou algumas tradições (tanto a nível da indumentária como da residência no Palácio Apostólico, por exemplo), ao mesmo tempo que afirmava a importância da continuidade do caminho reformista iniciado no pontificado de Francisco e herdeiro do Concílio Vaticano II.
Também não foi preciso muito tempo para que ficasse evidente que um dos grandes desafios de Leão XIV era a unidade dentro da Igreja, ameaçada durante o pontificado de Francisco. Se as reformas de Bergoglio e as suas afirmações progressistas em temas fraturantes como a moral sexual e familiar tinham aproximado a Igreja do mundo moderno e do universo dos não-crentes, também lhe tinham valido profundas inimizades entre os setores mais conservadores e tradicionalistas: as restrições à missa em latim, a abertura à bênção de casais homossexuais, o debate sobre a ordenação de mulheres e a controvérsia em torno do acesso dos divorciados à comunhão levaram a ala conservadora da Igreja a desejar a eleição de um pontífice menos radical (o cardeal húngaro Péter Erdő, considerado um tradicionalista moderado, era visto como o candidato desta ala no conclave de 2025).
Para garantir a unidade interna da Igreja, Leão XIV sabe que tem de ser cauteloso no modo como aborda a ideia de continuidade em relação ao Papa Francisco — e tem tido a espinhosa tarefa de gerir os dois pólos deste problema. De um lado, tem casos como o dos bispos alemães, que aprovaram formalmente a bênção de casais homossexuais e que arriscam abrir um cisma com Roma caso avancem com o projeto definitivo sem o aval do Vaticano. Do outro lado, tem a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, o grupo ultra-tradicionalista fundado pelo francês Marcel Lefebvre nos anos 70, que estava num processo de reaproximação a Roma desde Bento XVI e que agora se encaminha para uma nova rutura com o Vaticano com a ordenação de novos bispos sem o aval do Papa agendada para o dia 1 de julho.
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Ambas as ruturas ameaçam a unidade interna da Igreja Católica. O Papa Leão XIV sabe disso e também sabe que as questões da moral sexual são as mais divisivas. Por isso, quando foi questionado sobre o assunto a bordo do voo de regresso da sua viagem a África, procurou o consenso: defendeu que “é muito importante que a unidade ou a divisão na Igreja não andem em torno de assuntos sexuais”, sublinhou que há temas “maiores e mais importantes como a justiça, a igualdade, a liberdade de homens e mulheres, a liberdade de religião” e procurou uma interpretação mais conservadora da perspetiva de Francisco: a de que “todas as pessoas recebem bênçãos”. Ao mesmo tempo, como nota a Associated Press, Leão XIV encontrou-se recentemente com os académicos Stephen Bullivant e Stephen Cranney, conhecidos no contexto da sociologia da religião pelo estudo do fenómeno tradicionalista e dos frequentadores da missa em latim — um sinal de que o Papa estará atento a esta realidade e interessado em compreender quem são estes católicos a encher as missas tradicionais.
O primeiro ano de Leão XIV foi, ainda, dedicado a atar algumas das pontas soltas deixadas pelo Papa Francisco. Exemplo claro disso foram as muitas celebrações do Ano Jubilar de 2025, que duraram até janeiro de 2026, ou algumas viagens que já estavam programadas por Bergoglio (a próxima viagem a Espanha, por exemplo, resulta parcialmente de um compromisso assumido por Francisco de visitar as Canárias, ponto quente do drama da imigração). Ao mesmo tempo, Leão XIV tem sido lento a implementar mudanças no Vaticano (“não tem pressa de fazer reformas”, na análise da CNN ao pontificado do primeiro Papa norte-americano) e ainda só fez um conjunto muito limitado de nomeações para cargos na Cúria Romana. O facto de ser canonista de formação e de ser conhecido pelo rigor com que trata as questões relacionadas com a lei interna da Igreja deixam antever, contudo, que do pontificado de Leão XIV não se deverão esperar os improvisos e surpresas típicos de Francisco.
Simultaneamente, Leão XIV tem procurado trazer para o centro da discussão na Igreja um tema que lhe é particularmente caro: a dignidade humana no contexto da inovação tecnológica e da inteligência artificial. Leão XIV é o primeiro Papa da era digital; antes de ser eleito Papa, o cardeal Robert Prevost tinha uma conta no Twitter que alimentava frequentemente e movia-se com facilidade no mundo digital (onde chegou, por exemplo, a criticar o vice-presidente dos EUA, JD Vance). Também por isso, o Papa Leão XIV parece estar particularmente atento aos problemas da tecnologia moderna, particularmente aos desenvolvimentos da inteligência artificial e aos desafios que ela representa para o mundo do trabalho. A sua primeira encíclica, agora publicada, vinca precisamente essa ideia fundamental de que a humanidade permanece “magnífica” independentemente de qualquer avanço tecnológico.