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(A) :: Isabel Moreira, a censurada

Isabel Moreira, a censurada

A quantidade de gente que prefere achar que não é publicada porque incomoda alguém poderoso, ou é demasiado acutilante é extraordinária.

Carlos Maria Bobone
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Como acontece a todas as vítimas desta prática censurável não só no nome, Isabel Moreira queixou-se em alta-voz, com as palavras que quis, num sítio onde podia ser lida por todos, de estar a ser censurada. A censura não costumava funcionar bem assim, mas a verdade é que as palavras evoluem, sobretudo no campo ideológico de Isabel Moreira, em que homem pode significar mulher, casamento pode significar outra coisa, e censura pode significar que nos pagam para falar.

É isso mesmo. Isabel Moreira contou que um canal de televisão lhe pagava para comentar a actualidade, embora depois não a pusesse a falar. O pior é que a estação e a deputada tinham assinado um contrato de exclusividade que, qual bruxa e pequena sereia, roubava a voz à heroína. O pobre e infeliz rouxinol, engaiolado pelo contrato, não pode ir cantar para outra janela. É claro que se soltássemos todos os rouxinóis em situação semelhante teríamos de chamar o Hitchcock outra vez, mas este conseguiu, mesmo com a censura, ser ouvido, pelo que vale a pena olhar para ele.

Deixemos por agora de lado o problema de saber se um deputado devia ou não sujeitar-se a um contrato destes; mesmo que admitamos que não há problema nenhum, é mais ou menos fácil pensar em maneiras sensatas de enquadrar uma situação destas. Quando o guarda-redes suplente do Sporting fica no banco, também não pode ir jogar para o Benfica; é difícil dizer que o Sporting lhe está a roubar a oportunidade de ser jogador de futebol – está a dar-lhe a oportunidade de ser jogador de futebol, mesmo quando não joga. Não é propriamente estranho falar menos do que se queria quando se tem um contrato de exclusividade; é precisamente o silêncio, não a fala, que a exclusividade compra. Se lhe pagassem pelo que diz, a exclusividade não servia de nada; comentava o que tinha para comentar, mudava de casaco, e sentava-se num canal diferente, a dizer as mesmas coisas às mesmas pessoas. O que a exclusividade quer é garantir que a pessoa não diz o que quer que seja noutro lado qualquer. É verdade que lhe estão a pagar para estar calada, mas julgo que, mesmo usando as mesmas palavras, toda a gente percebe a diferença entre isto e pagarem-lhe para a calar.

Note-se, ainda, que embora estejamos prestes a inverter esta pirâmide, não comentar na televisão ainda é o estado normal da maioria das pessoas. Não há um direito a entrar em estúdio de que Isabel Moreira esteja a ser privada, e talvez fosse bom ganhar um bocadinho de perspectiva sobre o assunto antes de clamar contra a censura. Isabel Moreira não está a ser impedida de falar na televisão – está a ser paga por falar na televisão. Não fala sempre, pode não falar há muito tempo, mas é isso que costuma acontecer à maioria das pessoas. Não é costume escolher quando se quer ir à televisão, e estar a ser pago para ir quando a televisão precisa não é bem a versão mais opressora de censura.

Mais, é preciso uma dose de auto-confiança bem assinalável para, diante de uma situação destas, julgar que se está a ser alvo de censura. A todos nós, quando não nos confiam um trabalho, o demónio que ataca é o da inferioridade: escolheram outro em vez de mim, o outro é melhor do que eu, não me escolheram, sou apenas uma reserva. A Isabel Moreira não lhe ocorre que possa simplesmente ser pior do que os outros comentadores, que lhe paguem como se paga no teatro a um actor substituto – para o caso de alguém torcer o pé ou, no caso, perder a voz. Não, o significado de não ser chamada é, para Isabel Moreira, o contrário. É melhor, mais incómoda, mais perigosa, ameaça os interesses instalados, e daí que uma estação conceba este maquiavélico plano: sustentá-la, para depois não a deixar rugir. Ela não joga, não por ser pior, mas por ser melhor. Há alguém, lá em cima (não excluímos a hipótese de ser o próprio Deus), que treme só de a ouvir, e portanto está disposto a esta sofisticada forma de suborno – que ela só aceita porque foi enganada – para a impedir de dizer o que tem de ser dito.

E é isto que leva ao lado mais interessante deste caso. Não se trata apenas de Isabel Moreira. Há multidões inteiras a julgarem-se censuradas, e eu próprio vejo isso ao escolher que textos se publicam ou não publicam no jornal. A quantidade de gente que prefere achar que não é publicada porque incomoda alguém poderoso, ou é demasiado acutilante, ou simplesmente porque há nos jornais (as verdadeiras vítimas de verdadeira censura, convém lembrá-lo) uma vontade rapaz de silenciar opiniões é extraordinária. Nesse sentido, as declarações de Isabel Moreira até fazem um certo dó. Sem conhecer os contornos do caso, as probabilidades jogam a favor da versão mais prosaica: provavelmente, algum editor achou pouco interessante o que Isabel Moreira tinha para dizer, ou um analista verificou que as pessoas adormeciam mais facilmente no sofá enquanto ela falava; que ela tenha de se agarrar a uma ilusão grandiosa de censura, que viva convencida de que tem opiniões polémicas, ou corajosas, ou minoritárias (que causa é que Isabel Moreira não venceu, nos últimos vinte anos de causas fracturantes?), é triste, mas também revela uma coisa importante.

O fim da censura não parece ter trazido liberdade; por toda a parte se vêem acusações de censura, como se o fim da censura oficial a tivesse espalhado pelo mundo, em formas cada vez mais fortes e sofisticadas. Primeiro foram os jornais, que se transformaram, na opinião pública, de vítimas em censores: na opinião pública, todos os jornais são escritos a azul. Eliminaram-se os jornais, surge a cultura do cancelamento; já não é o governo, já não são uns quantos falcões da imprensa, já não é ninguém em particular: já são todos, é a sociedade em geral que censura, é a censura que avançou para todo o lado.

É uma daquelas regras curiosas das sociedades, que se vê também com o lobby, por exemplo: as sociedades contemporâneas têm uma dificuldade enorme em arranjar formas legais de lidar com os males que não conseguem eliminar, e isso leva a que, muitas vezes, princípios errados – que admitem e regulam o inadmissível – sejam mais eficazes a conter um mal do que a sua proscrição completa. Talvez não haja solução óbvia para o problema, mas a censura não parece ter desaparecido por já não existir: Isabel Moreira, censurada por ser paga para falar, que o diga.