O termo anda a circular no espaço anglo-americano desde que a editora de cultura do The New York Times, Nadja Spiegelman, convidou a jornalista Jia Tolentino e o comentador político Hasan Piker para conversar sobre uma tendência cada vez mais popular: realizar pequenos furtos como forma de protesto político. (Vale a pena conhecer este Hasan Piker, uma espécie de Joe Rogan da esquerda, aqui em conversa com Ross Douthat.)
A palavra “looting” tem uma origem contestada: com origem no hindi, teria servido para designar, no contexto do império britânico, o furto ou a pilhagem feita pelos nativos com o objetivo de a distinguir da “pilhagem” feita pelos ingleses – naturalmente, muito mais civilizada. O termo ter-se-ia depois normalizado em língua inglesa e passou a ser usado, no século XX, para circunstâncias específicas de pilhagem ou saque em contexto de manifestações ou protestos.
A destruição de bens fez sempre parte da história do protesto político (não foi isso que aconteceu com a Boston Tea Party?), mas a palavra “looting” é mais associada a situações como a dos motins de Londres, no verão de 2011, ou a dos protestos após a morte de George Floyd, no verão de 2020, com situações de “looting” que pareciam tudo menos desorganizadas.
O trabalho de Vicky Osterweil, ativista anarquista, publicado precisamente em 2020 mas ainda antes desses protestos, permite-nos compreender porquê. Em In Defense of Looting, encontramos um argumento típico da tradição anarquista e que tem tido uma enorme influência nas ações do movimento Antifa: uma resistência pacífica e legal é aqui entendida como uma forma de manter o status quo – já a verdadeira resistência deve admitir formas tumultuosas e violentas de protesto e reconhecer que roubar bens e destruir propriedade privada são estratégias legítimas e adequadas de redistribuição de riqueza. O “looting” torna-se um modo de ação política.
Para Nadja Spiegelman, seria possível encontrar precisamente este espírito na nova tendência que pulula nas redes sociais: mas em vez do “looting” violento e agressivo, estaríamos perante “pequenas ações de saque” – i.e., “microlooting”. A conversa abre com alguns exemplos: partilhar a senha da Netflix, usar ferramentas que permitam superar a paywall dos artigos de jornal ou, claro, sair do supermercado sem pagar o que levamos.
A admissão de Jia Tolentino de que já o fez em certas condições gerou uma reação indignada, sobretudo porque a jornalista desvaloriza o ato: na sua opinião, não é politicamente significativo como forma de protesto (trata-se de um ato individualista que carece da dimensão pública, simbólica e coletiva da ação direta anarquista), mas também não é significativo como falha moral. “Não me senti nada mal depois de o ter feito”, admitiu, e a razão é política: as grandes superfícies têm demasiados lucros e pagam muito pouco aos trabalhadores. É mais do que justo que sejam “roubados”. A Climáximo, atenta às tendências norte-americanas, não diria melhor.
E é precisamente este aspeto que Nadja Spiegelman pretende discutir: é que não se trata de “roubar por fome”. As pessoas que publicitam o “microlooting” nas redes sociais fazem-no com raiva e uma justificação moral: “se os ricos não cumprem as regras, por que razão eu o devo fazer?” De outra forma: devemos cumprir as regras e respeitar as leis se o sistema parece injusto e desequilibrado?
Reconheçamos que o termo é bem concebido: trata-se, de facto, de uma micro-ação uma vez que pequenos furtos de loja não têm um impacto real significativo (o preço do bem já inclui este risco). Mas as suas implicações não parecem exatamente “micro”: se aceitarmos que é possível quebrar algumas regras por razões políticas, como poderemos evitar a contínua inclinação do plano moral?
Nos Estados Unidos, esse aspeto é particularmente relevante se tivermos em conta os dados recolhidos recentemente nos inquéritos sobre o apoio à violência política. De acordo com o American Political Perspectives Survey 2025, cerca de 1 em cada 3 adultos jovens (geração Z e Millennials) manifesta apoio à violência política. Mais interessante ainda, o inquérito revela que:
o apoio à violência política é mais elevado entre aqueles que se identificam como politicamente “muito liberais [de esquerda]”;
as mulheres da Geração Z com orientação liberal mostram-se mais favoráveis à violência política do que os homens da Geração X e da geração Baby Boomer; e
os norte-americanos com o nível de escolaridade mais elevado são cerca de duas vezes mais propensos a apoiar a violência política do que aqueles com menos escolaridade formal.
Os dados são confirmados pela Gallup:

Será, assim, surpreendente o contínuo apoio expresso a Luigi Mangione (Carsie Blanton, mais uma vez)? E que Hasan Piker, quando confrontado com o assunto, prefira falar de como Brian Thompson, na qualidade de diretor executivo da United Healthcare, estava envolvido em “social murder”?
É verdade que a moralidade, ao contrário do que os racionalistas nos querem fazer crer, é fortemente contextual: em determinadas circunstâncias estamos dispostos a tolerar coisas que, em abstrato, não aceitaríamos. E o contexto não é irrelevante nos Estados Unidos: como Spiegelman faz notar, em 1965 um CEO recebia 21 vezes mais do que um trabalhador médio, mas em 2024 essa diferença era de 281; por outro lado, a confiança no governo tem caído a pique.
No Reino Unido, e a par do gravíssimo problema de habitação, encontramos uma inflação tão elevada que o governo trabalhista sugeriu durante a semana às grandes superfícies que estabelecessem um limite máximo para bens essenciais. A proposta foi timidamente retirada, mas as pessoas parecem facilmente seduzidas por este tipo de promessas.
O custo de vida que, aos poucos, vai destruindo a coesão social na Europa pode acabar por gerar um contexto em que as regras morais se tornam menos claras e as gerações mais novas se tornam mais dispostas a deitar tudo a perder.
Mas desvalorizar os meios usados por desejarmos os fins políticos que eles prometem pode constituir o mais grave deslize dos nossos tempos: como poderemos estabelecer o que é inadmissível se tivermos destruído o tecido moral em que as sociedades se organizam?