1986 é um dos anos mais marcantes do século XX em Portugal. É o ano de adesão à Comunidade Económica Europeia. É o ano da eleição mais louca de sempre, com Mário Soares e Freitas do Amaral a disputar as primeiras presidenciais com 2ª volta. É o ano em que Cavaco Silva vence as legislativas e é indigitado primeiro-ministro. E é também o ano do maior escândalo da seleção nacional de futebol. No México, durante aquela que é a segunda participação de Portugal num Mundial, estalou um diferendo que durava há meses entre os jogadores e a direção da Federação Portuguesa de Futebol. A isso acumularam-se casos insólitos na cidade de estágio, Saltillo, como treinos num campo inclinado, seguranças com comportamentos duvidosos, mulheres mexicanas que se tornaram presença habitual no hotel da seleção, comportamentos impróprios de dirigentes e jogadores, ameaças de greves aos treinos e a eliminação na primeira fase. Os problemas tornaram-se assunto de Estado, com comunicados do Presidente e do Governo e o país não perdoou os jogadores.
O Mundial de 1986 tinha tudo para ser um momento glorioso para a seleção portuguesa. Marcava o regresso de Portugal à principal prova de futebol depois de uma ausência de 20 anos — Inglaterra, 66 —, mas uma sequência de eventos levou à revolta dos futebolistas. A 25 de maio de 1986, a nove dias do primeiro jogo no campeonato do mundo de futebol, os jogadores convocaram a imprensa para lerem um comunicado que deu início à contestação pública sobre as condições de treino e os valores das diárias e prémios pagos pela FPF aos atletas. As reações multiplicaram-se, o Presidente da República falou de uma situação “prejudicial à imagem de Portugal” e de “um problema de prestígio internacional”, há quem apelide os jogadores de “mercenários” e o Governo vai fazer um ataque direto ao questionar o profissionalismo dos futebolistas da seleção nacional. “Seja qual for o prisma sob que se analise a atitude reivindicativa dos jogadores, haverá, no mínimo, que a qualificar de antidesportiva, extemporânea e desprestigiante para o país que representam”.
Reconstruímos os dias caóticos que mudaram para sempre o futebol português. Escutámos quem esteve no México, desde jogadores a repórteres. Abrimos os jornais daqueles dias. E analisámos os relatórios da Federação Portuguesa de Futebol. O Escândalo que destruiu a Seleção é um podcast especial do Observador, em 4 episódios, sobre a participação portuguesa no Mundial do México.

O direito a “sonhar”, o “milagre” de Estugarda e o “passaporte envenenado”
Em 1985, depois de uma vitória curta frente à seleção de Malta (3-2), num Estádio da Luz onde já cabiam 120 mil pessoas praticamente vazio, as contas da calculadora diziam que o apuramento para o campeonato do mundo de futebol do México era uma autêntica miragem. Portugal já dependia de terceiros: precisava que a Suécia perdesse e tinha de vencer a poderosa Alemanha Ocidental em Estugarda — detalhe: os germânicos nunca tinham perdido um jogo de qualificação em casa. Ainda no Estádio da Luz, o selecionador nacional, José Torres, encarou os microfones dos jornalistas e proferiu uma frase para a história do futebol português: “Deixem-me sonhar. Deixem-me, ao menos, sonhar mais um pouco.”
https://observador.pt/programas/o-escandalo-que-destruiu-a-selecao/episodio-1-um-passaporte-envenenado/
O sonho aconteceu. A 16 de outubro de 1985, num jogo épico decidido ao minuto 54 por um “golaço monumental” de Carlos Manuel, Portugal conseguiu o “milagre” de Estugarda. O país celebrou a qualificação para o México 86. Governo e Presidente da República deram os parabéns aos jogadores. 20 anos depois, Portugal regressava a um campeonato do mundo de futebol. A última e única vez tinha sido em 1966 com os “magriços” de Eusébio. A festa dos jogadores, ainda na Alemanha, foi regada a vinho, champanhe e whisky sem limites. No regresso a Lisboa os jogadores foram recebidos como heróis. O primeiro-ministro Mário Soares dá os parabéns à equipa e num telegrama enviado para a FPF manifesta-se “emocionado com a brilhante vitória do futebol português”. Ramalho Eanes, o Presidente da República, elogia o comportamento “brioso” da seleção nacional de futebol que “proporcionou a todos a alegria pela passagem à fase final do Mundial de futebol.”
O que ninguém adivinhava era que, escassos meses depois, os mesmos heróis de Estugarda seriam os protagonistas do escândalo mais embaraçoso e fraturante da história do desporto nacional. E que os elogios se transformariam em duras críticas do Estado.

As negociações adiadas para o México
Em dezembro de 1985 realizou-se a primeira viagem de uma comitiva da FPF ao México. Silva Resende, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, foi acompanhado por Amândio de Carvalho, diretor e coordenador das seleções, e José Torres, selecionador nacional. Assistem ao vivo ao sorteio para a fase de grupos: Portugal fica no grupo F, com Polónia, Marrocos e a poderosa Inglaterra. Em 1966 tinham sido os ingleses a afastar Portugal da final do campeonato do mundo. Depois decidem por unanimidade que a seleção portuguesa vai estagiar em Saltillo e que vai tentar chegar ao México o mais cedo possível para poder fazer a aclimatação à altitude.
Algumas semanas depois, entre janeiro e fevereiro, Portugal realiza jogos-treino com seleções que não se conseguiram apurar para o Mundial e José Torres começa a construir um grupo para a competição no México. É também nessas semanas de concentração que os jogadores dão início a um processo negocial que se vai arrastar por meses e vai culminar na revolta dos futebolistas convocados para o campeonato do mundo. Os jogadores querem discutir o valor das diárias, os prémios de jogo e a compensação financeira pela publicidade e por vestirem equipamentos de treino da marca contratualizada com a Federação. Os atletas conversam diretamente com membros da direção, mas nunca comunicam com o presidente, Silva Resende.
As competições nacionais continuam. O FC Porto conquista o campeonato, depois de um duelo até ao fim com o Benfica. No dia seguinte à última jornada começa a concentração dos jogadores convocados para o Mundial do México’86. A 21 de Abril, no Hotel Penta, em Lisboa, os jogadores tiram medidas para os fatos da FPF e participam numa reunião em que é apresentado o regulamento que contém as regras que os jogadores devem seguir durante o estágio. Nesta reunião está quase toda a direção, falta Silva Resende, o presidente. O representante máximo da Federação na sala do Hotel Penta continua a ser Amândio de Carvalho, coordenador de seleções. Com os jogadores a escutar atentamente, o diretor apresenta também as condições financeiras para a participação no Mundial e detalha os valores dos prémios e diárias. Sobre esses valores, avisou desde logo: já estavam aprovados e não haveria espaço para negociação. Os valores propostos pareciam pouco para quem começava a ver o futebol movimentar verbas astronómicas:
- 4 contos por cada dia de estágio com a Seleção.
- 100 contos por cada um dos três jogos da fase de grupos.
- 200 contos de verbas publicitárias fixas por toda a campanha, contratualizadas por Joaquim Oliveira da Olivedesportos.
No total, um jogador que fizesse os três jogos da primeira fase receberia cerca de 700 contos. À época, num Portugal onde o salário mínimo nacional rondava os 22.500 escudos, tratava-se de uma quantia considerável para o cidadão comum, mas irrisória face à escala do negócio do futebol. 700 contos compravam apenas um Fiat Uno novo ou o equivalente a um quinto do preço de um apartamento T2 nos arredores de Lisboa.
A revolta instalou-se quando os jogadores souberam que a FPF ia faturar cerca de 115 mil contos com a participação no Mundial, destinando 15 mil contos para o bolo total a distribuir pelos atletas. David Borges, então jornalista do Record recorda: “Já era muito notório o facto de haver rios de dinheiro a passar pela direita, pela esquerda, por cima e por baixo dos jogadores e aos jogadores não caía nenhuma moeda.” Para agudizar o ambiente, os dirigentes chegaram a avisar os atletas de que os telefonemas internacionais do México para Portugal eram caríssimos e que seriam sobrecarregados com uma taxa de 25%, aconselhando-os a pedir às famílias para serem elas a ligarem de Lisboa para o México para poupar dinheiro. Para além disso, já se sabia antes da reunião que a FPF não iria suportar os custos com viagens ou estadias de familiares dos jogadores no México, que foram permitidas à última hora.
Ainda em Lisboa, antes de partirem para o México, os futebolistas portugueses reúnem num treino no estádio do Jamor. Mandam chamar a direção da FPF. Querem negociar as compensações financeiras que estão estipuladas para a participação no Campeonato do Mundo. O Observador consultou o relatório da FPF sobre o Mundial de 1986 e está escrito que Amândio de Carvalho respondeu apenas que os valores não eram negociáveis. Augusto Inácio, um dos jogadores desta seleção, conta que o coordenador de seleções empurrou a questão com a barriga e disse que “os problemas” iriam ser resolvidos “lá”, no México.
O protesto dos “manequins”
No centro de toda a disputa financeira não estavam apenas as diárias de quatro contos pagas pela Federação. Havia outro problema a afetar o estágio da seleção nacional: o emergente negócio dos direitos comerciais e publicitários, que na altura dava já grandes passos. Pela primeira vez na história da Seleção, o marketing começava a invadir de forma agressiva os equipamentos, os fatos de treino e até os próprios espaços de estágio dos atletas. E no epicentro deste monopólio estava uma figura conhecida: Joaquim Oliveira, o líder da Olivedesportos.
Esta empresa tinha contratualizado com a FPF toda a gestão publicitária daquela campanha no campeonato do mundo de futebol. O total gerado pelas marcas ascendia aos 25 mil contos, mas para os jogadores as condições apresentadas em Lisboa eram inalteráveis: 200 contos para cada um, por toda a campanha. Enquanto a Federação via as suas receitas disparar com a imagem dos atletas, eles recebiam uma pequena parte de um negócio multimilionário. Gabriel Alves, que trabalhava como jornalista na RTP, recorda que os futebolistas eram olhados como “meros manequins”.
A indignação contra a exploração comercial culminou num dos gestos visuais mais icónicos da história do futebol português. Nos relvados de treino mexicanos, os jogadores decidiram entrar em campo com as camisolas de treino (e alguns até as calças) viradas do avesso. O objetivo era óbvio: esconder deliberadamente as marcas que estavam nos equipamentos. Era a recusa firme em dar publicidade às marcas que financiavam a Federação, sem que os futebolistas vissem qualquer contrapartida justa pelo uso da sua própria imagem.

O caótico e caricato deserto de Saltillo
Lisboa – Frankfurt – Dallas – Cidade do México – Monterrey – Saltillo. A 10 de Maio de 1986, depois de uma viagem desgastante com voos de múltiplas escalas e percursos de autocarro, Portugal foi a primeira seleção a aterrar em território mexicano. A ligação entre os dois últimos pontos deste percurso foi feita de autocarro sob forte controlo policial e militar. No entanto, o cenário que aguardava a comitiva em Saltillo estava longe dos padrões exigidos para uma alta competição. O Hotel La Torre ficava isolado no meio do deserto. Quem lá esteve neste período conta ao Observador que se assemelhava mais a um motel, com blocos de apartamentos no piso térreo e uma torre alta com vários andares. O edifício era uma antiga prisão e tinha um muro alto que cercava todo o complexo. Ainda havia zonas com arame farpado.
A proteção era garantida por polícias e seguranças com comportamentos caricatos. “Fumavam charros” e “nos treinos assaltavam os nossos quartos” conta ao Observador Augusto Inácio.
O campo de treinos não ficava perto do Hotel La Torre. Era preciso ir de autocarro, ainda que numa viagem curta, que não chegava a 15 minutos. No primeiro treino, jogadores e equipa técnica ficam em choque. A situação era para lá de absurda. O relvado colocado à disposição da equipa técnica era visivelmente inclinado e cheio de buracos. David Monge da Silva, preparador-físico dessa seleção, explica que se tratava de um “ervado”, a relva não estava bem tratada e tinha tufos de relva seca. Era um piso duro e para além disso, depois de a FPF alertar para os buracos no campo, a organização tapou-os com cimento.
Apesar das condições adversas, a seleção treina e Monge da Silva garante que os testes físicos realizados em Lisboa e no México comprovam que todos os atletas melhoraram de rendimento. Mas o futebol não é apenas condição física, os jogadores precisam de testar as ideias do selecionador e cimentar rotinas, mas a FPF não consegue organizar jogos de preparação. A imprensa da época escreve que a Federação Portuguesa de Futebol não chegou a acordo com o Chile porque os sul americanos pediram 1200 contos e a FPF achou caro. Outros clubes profissionais recusaram jogar. Há apenas planos para defrontar equipas amadoras ou de reservas, mas até aí há problemas. No primeiro jogo treino marcado para Monterrey, a equipa portuguesa vai para o estádio, mas o adversário não aparece. Dias depois, naquele que seria o segundo jogo, ao entrarem em campo os jogadores portugueses percebem que na equipa adversária jogam alguns dos empregados do Hotel La Torre. É um plantel composto por trabalhadores de Saltillo. No resultado oficial fica uma vitória por 11-0 para Portugal e esse jogo acabou por não se realizar até ao fim porque os jogadores portugueses preferiram passar a equipas “mistas”.
Para adensar o sentimento de abandono por parte dos atletas, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Silva Resende, encontrava-se totalmente ausente e incontatável. Isolados, indignados e sem respostas às reivindicações financeiras e logísticas que se arrastavam há meses, os jogadores começaram a desenhar uma posição de força.

O ultimato e a revolta dos “mercenários”
A 23 de Maio, depois de quase duas semanas em Saltillo, Carlos Manuel coloca um pequeno papel no bolso da camisa de Amândio de Carvalho, coordenador de seleções. É um ultimato.
Os jogadores portugueses dizem que lamentam chegar àquela delicada situação e que já tinham feito tudo para que fosse resolvida. Comunicam que se não tiverem resposta às reivindicações que fazem no prazo de dois dias, vão divulgar um comunicado à imprensa e estão até dispostos a tomar posições que não servem os interesses da seleção nacional. Nesta folha, Amândio de Carvalho também pode ler os valores que os jogadores exigem: querem uma diária de sete contos e quinhentos, em vez dos 4 contos que lhes estão prometidos. Nos prémios de jogo para a primeira fase exigem 750 contos em vez de 100 contos. Em caso de apuramento querem receber 1500 contos e nas eliminatórias, em caso de afastamento exigem 50% do valor que seria pago pelas vitórias.
No dia seguinte os jogadores começam a perceber que não vão ter resposta e por isso reúnem-se na sala de refeições depois do jantar. Ficam sozinhos, discutem as posições que estão dispostos a assumir e votam de braço no ar. Os jornalistas, entre cigarros, aguardam largos minutos à porta. Sabem que algo de estranho se passa, não é habitual os jogadores estarem reunidos sozinhos já noite dentro. A reunião dura mais de hora e meia e no fim os futebolistas passam uma mensagem curta à imprensa. “Eles saíram e disseram só que amanhã não há treino. Percebemos que aquilo tinha chegado ao ponto de rutura”, conta ao Observador José Carlos Freitas, enviado do jornal O Jogo ao Mundial de 1986.
No Hotel La Torre há uma sala reservada para os jogadores portugueses, mas às 13h00 do dia 25 de Maio, um domingo, nessa sala estão também jornalistas de Portugal e de muitas outras partes do mundo. Tinham sido convocados pelos futebolistas com a informação de que seria lido um comunicado sobre as condições em que preparam o campeonato do mundo de futebol. Manuel Bento, guarda-redes do Benfica e capitão da seleção, senta-se em frente à imprensa e está rodeado por todos os colegas de equipa. Aos jornalistas apresenta as condições financeiras que estão a ser pagas aos jogadores portugueses e explica os problemas que encontraram na preparação para o Mundial. Exigem negociar, mas da Federação apenas encontram intransigência, por isso anunciam que vão faltar ao jogo treino agendado para essa mesma tarde, dali a 45 minutos, com as reservas do Monterrey.
Este momento dá início a uma revolta pública dos futebolistas portugueses a apenas nove dias do primeiro jogo de Portugal no Mundial . O comunicado dos atletas deixa em choque o país e é então que as principais figuras do Estado tomam posição sobre o assunto, com o Presidente da República a falar numa situação “lamentável”, “prejudicial à imagem de Portugal” e “um problema de prestígio internacional”. Num curto comunicado, Mário Soares, já Presidente da República, diz que segue com apreensão o agravamento das divergências entre a FPF e a seleção no México. O Governo toma uma posição mais dura e posiciona-se contra os futebolistas. João de Deus Pinheiro, o ministro com a tutela do Desporto, que fala pelo Governo, liderado por Cavaco Silva, afirma que “seja qual for o prisma sob que se analise a atitude reivindicativa dos jogadores, haverá, no mínimo, que a qualificar de antidesportiva, extemporânea e desprestigiante para o país que representam”. O ministro diz também que ainda há tempo de corrigir ou pelo menos atenuar os efeitos negativos deste caso e por isso pede aos jogadores que “assumam plenamente a condição de desportistas, de profissionais, e acima de tudo, de portugueses.”
Entre os jogadores que estiveram no México ouvidos pelo Observador, Augusto Inácio recorda a dor que sentiu quando foram apelidados de “mercenários” por estarem a tentar defender os direitos enquanto profissionais: “Claro que me custa ouvir isto, porque a maior honra que um jogador pode ter é envergar a camisola da seleção nacional. É a maior honra.”.
“Portugal, Las Chicas de Saltillo te apoyan”
Longe do rigor exigido numa alta competição, o quotidiano no deserto roçava o facilitismo absoluto. As refeições eram confecionadas por Evaristo (fundador do Solar dos Presuntos), e a chegada tardia do bacalhau vindo de Portugal foi celebrada com um banquete em que foi permitido haver vinho à mesa, até para os jogadores. Noutras refeições, os copos de vinho eram partilhados em segredo e os atletas fintavam a vigilância do preparador-físico Monge da Silva com truques como esvaziar latas de Coca-Cola para as encher com álcool. O ambiente azedou quando o médico Camacho Vieira tentou proibir o álcool à mesa: o relatório da FPF detalha que Jaime Pacheco se levantou indignado, atirou o guardanapo ao chão e garantiu que não comia se não houvesse cerveja. À noite, entre copos de whisky e cigarros, “não havia grande disciplina”, confessa Rui Águas.
O desleixo estendia-se à segurança do Hotel La Torre. Se de dia os atletas descansavam e bronzeavam-se junto à piscina, as noites e os fins de semana traziam uma agitação ruidosa com a entrada livre de mulheres mexicanas nos corredores. O jornalista José Carlos Freitas, que esteve no México em reportagem para o jornal O Jogo, relata uma movimentação que parecia planeada: todas as sextas-feiras entrava no hotel um grupo de 22 mulheres perante o “consentimento tácito” dos dirigentes da FPF. A presença feminina era tão evidente que os repórteres fotográficos chegaram a captar uma claque nos treinos com um cartaz explícito: “Portugal, Las Chicas de Saltillo te apoyan”.
O episódio mais insólito, contudo, foi revelado anos mais tarde por Paulo Futre em entrevista à Antena 1. Algumas mexicanas ricas apaixonaram-se por jogadores e começaram a oferecer-lhes valiosas joias de ouro, contou. Ele próprio teve uma namorada mexicana polícia, que o deixava conduzir o carro dela e por isso bastava-lhe mostrar a identificação policial para não parar nas operações stop. Como muito eram casados e temiam a reação das mulheres em Portugal, o balneário transformou-se numa autêntica feira de negociação clandestina, onde os casados tentavam revender o ouro aos solteiros. Futre aproveitou o negócio de ocasião e regressou a Portugal com um saco cheio de ouro que acabou por vender. Depois da participação no Mundial, alguns destes excessos e episódios de insubordinação vieram a público e ajudaram a denegrir a reputação dos futebolistas portugueses.

As “tréguas” que levam à vitória “contra 12”
Perante as duras críticas que receberam de quase toda a sociedade portuguesa, os jogadores voltaram a convocar a imprensa para anunciar uma “trégua”. Bento fala de novo aos jornalistas, rodeado pelos colegas de equipa, para dizer que aceitam realizar um último jogo de preparação frente ao Tigres, um clube mexicano amador, e que vão continuar a treinar de forma regular, como sempre fizeram. Anunciam que José Torres passa a ser o interlocutor dos jogadores no diálogo com a FPF e reforçando que só decidiram tornar o caso público por estar a ser negada a negociação. O capitão da seleção deixa frases de impacto, de um comunicado escrito pelos jogadores (há fotos de Carlos Manuel a teclar numa máquina de escrever) com ajuda de alguns jornalistas: “A liberdade de dialogar não deve ser retirada ao homem, por nenhum motivo”, “os profissionais de futebol não são crianças, às quais se dão reguadas e se impõem castigos”, “não são mentecaptos manejados a bel-prazer de quem ocupa cargos diretivos.” Acaba a condenar o facto de não os tratarem como pessoas, “com cabeça para pensar e coração para sofrer.”
Apesar do clima de guerrilha e da enorme pressão psicológica, o Mundial ia começar no México, e a estreia correu de forma inesperada: Portugal surpreendeu o mundo e bateu a forte seleção da Inglaterra por 1-0, com mais um golo decisivo de Carlos Manuel. O triunfo histórico camuflou temporariamente o caos de Saltillo. No fim do jogo, perante os jornalistas que estavam no estádio Tecnológico, em Monterrey, os jogadores vão dizer que venceram contra 12 — os 11 ingleses e a Federação Portuguesa de Futebol.
A equipa festejou a vitória até altas horas da madrugada numa celebração oferecida pelo Hotel La Torre com direito a churrasco, mariachis, muito álcool e mulheres. O clima foi de festa.
No entanto, a euforia durou pouco. Durante um treino de preparação regular para o jogo seguinte, contra a Polónia, o capitão Manuel Bento sofreu uma gravíssima lesão, partindo o tornozelo. Portugal perdia ali muito mais do que o seu guarda-redes titular — perdia o capitão de equipa e uma das vozes mais fortes do balneário. Vítor Damas, o veterano guardião do Sporting, foi chamado à titularidade. O desgaste físico acumulado, a desorganização interna e o abalo psicológico da perda de Bento fizeram-se sentir: Portugal perdeu por 1-0 contra os polacos.

O “português burro” rejeita Marrocos e diz adeus ao México
À entrada para a última jornada da fase de grupos do Mundial, frente a Marrocos, há uma conta fácil na calculadora portuguesa: desde que não perca, Portugal segue em frente. Mais, o empate serviria às duas equipas e com isso a Inglaterra ficaria fora da competição.
Ciente dessa conta, José Faria, treinador brasileiro que ocupava o cargo de selecionador de Marrocos, procura os jornalistas portugueses no final da conferência de imprensa de antevisão para lhes propor uma “panelinha”. Pede, “em off”, que perguntem à Federação Portuguesa de Futebol se há interesse em combinar um empate para ambas as equipas conseguirem o apuramento. Os jornalistas regressam ao Hotel La Torre e apresentam a proposta aos diretores da FPF que encaminham o assunto para José Torres, o selecionador português, que vai acabar por dizer que “não se pode confiar nos marroquinos”.
No dia do jogo, já no estádio em Guadalajara, o selecionador marroquino encontra os jornalistas portugueses e pergunta se há resposta à proposta que fez. Os repórteres referem que da parte de José Torres não há acordo. Ao intervalo a seleção portuguesa já perdia por 2-0. Foi nesse momento que segundo José Carlos Freitas, enviado do jornal O Jogo ao Mundial do México, à entrada para o balneário José Faria atirou: “Esse português burro meteu-se com os meus meninos e se f****”. Portugal perdeu por 3-1, com o golo português a ser marcado por Diamantino a 10 minutos do fim.
É o fim da participação portuguesa no Mundial de 1986. Depois de conseguir alcançar o 3.º lugar em 1966, em Inglaterra, os portugueses deixam o México logo na fase de grupos. Este resultado vai alimentar, ainda mais, as críticas aos jogadores, que no regresso a Portugal enfrentarão represálias e semanas de condenação pública.
O fim do “amadorismo no futebol profissional em Portugal”
O regresso a Portugal aconteceu assim sob forte contestação popular e jornalística. O caso Saltillo saltou rapidamente das páginas desportivas para as esferas políticas, chegando a ser amplamente discutido na Assembleia da República.
O Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, liderado por José Eduardo, assumiu a defesa jurídica e institucional dos atletas num braço de ferro histórico contra a direção da FPF. As consequências imediatas foram pesadas: vários dos principais jogadores envolvidos na revolta foram castigados e nunca mais voltaram a vestir a camisola da seleção. Outros só conseguiram regressar anos mais tarde, após longas negociações sindicais.
QUAIS FORAM OS CASTIGOS?
Portugal passaria os dezasseis anos seguintes afastado das grandes fases finais de mundiais de séniores. Mas conquista um campeonato do mundo com os sub-20, em 1989, e consegue revalidar esse título em 1991, numa final disputada num Estádio da Luz a abarrotar: 120 mil pessoas a apoiar a seleção nacional.
A longo prazo, o caso de Saltillo mudou o paradigma do desporto em Portugal. “Nós estamos aqui a falar do futebol profissional português amador, e Saltillo significa, indiscutivelmente, a transformação do amadorismo no futebol profissional em Portugal em profissionalismo”, resume José Eduardo.
A desorganização escandalosa e o amadorismo dos dirigentes da altura obrigaram a FPF a reestruturar-se por completo, profissionalizando as suas estruturas e abrindo caminho para o futebol moderno que hoje conhecemos. Ao Observador, muitos dos jornalistas e atletas que estiveram em Saltillo consideram que os “mercenários” de 1986 foram, na verdade, os “revolucionários” dos futebolistas em Portugal e do próprio futebol.