Escândalos atrás de escândalos. Atentados ao Estado de Direito em sequência ininterrupta. Destruição das instituições até ao risco máximo de desagregação de um Estado soberano da União Europeia. Apoio e exploração de regimes sanguinários e torcionários que se dedicam a oprimir povos inteiros e cujo sentido político é totalmente contraditório com a autodefinição proclamatória de cada uma das democracias europeias. Agitação e manipulação da opinião pública em cópia com o preceituário de todos os radicalismos de má memória. O assalto diário às estruturas administrativas, económicas e comunicacionais do país. Esta é a história do governo PSOE liderado por Pedro Sánchez nos últimos anos. Nada, porém, que comovesse a comunicação social portuguesa, sempre tão tenra e alerta a qualquer deslize do rigor democrático noutras latitudes e longitudes planetárias – ou quase. Notícias destes crimes e despudores nem vê-las. Mas houve sempre abundante tempo de antena para exibir todos e cada momento de propaganda à conveniência de Sánchez, devidamente intercalados com vídeos gloriosos do santo da democracia Lula da Silva no ginásio, a mostrar a sua imortalidade física e política.
Foram realmente uns anos inspiradores do lado de cá e de lá de Badajoz-Caia. Eis que agora chegámos ao zénite de toda esta comédia triste. José Luis Rodríguez Zapatero está a ser investigado pela prática de crimes gravíssimos. E o que esta investigação já permitiu desvendar permite concluir o que já sabíamos há muito – que este ex-Presidente do Governo espanhol, mentor de Sánchez, e mestre das técnicas viscosas de apropriação e abuso do poder político, além de ser um ponto ancilar do governo do PSOE desde o seu início, foi um colaborador, para proveito próprio e do seu partido, da ditadura criminosa de Chávez e de Maduro, manchando a reputação da Espanha como democracia defensora dos direitos e liberdades humanas.
Não sei quantos destes crimes serão provados e causa de condenação em tribunal. Para repetir o que tentei repetir durante anos a propósito de Sócrates: os factos são mais do que suficientes para formarmos um julgamento ético e político sobre Zapatero. E que quem esteve ao lado da tropa de choque para impedir o escrutínio democrático deste mundo de penumbra, e gritou desalmado o seu apoio incondicional até à véspera do fim, não merece consideração política de qualquer espécie. Em Portugal e em Espanha.
Um cínico manipulador das partes sensíveis da alma da esquerda política que operou para, sem qualquer escrúpulo, e arrastando consigo para o fundo as instituições e o Estado de Direito, enriquecer e tentar perpetuar o poder do seu partido nas mãos de malfeitores como ele próprio, Zapatero é quem é: o epítome do demagogo polarizador que faz Gerhard Schröder parecer um tipo decente. A fauna que Zapatero apascentou é fascinante. Feministas que usam recursos do Estado para passar a vida com prostitutas, socialistas que prezam a modéstia dos bens próprios a enriquecer saqueando dinheiro, não só dos contribuintes seus compatriotas, como da população oprimida e esfomeada da Venezuela. Democratas que usam o aparelho do Estado para perseguir adversários políticos. Arautos da tolerância que pregam a política da exclusão dos que ousam contestar a generosidade do seu poder.
Tudo isto a Espanha tem imposto nas barbas de uma impávida e hipócrita União Europeia, que se arvora em heroína dos “valores europeus” da democracia desde que seja contra agentes mais fracos e da cor política errada. Não se atreveram, contudo, a pronunciar uma sílaba de repreensão em nenhum momento deste repugnante desfile de desvarios e malefícios. Estas coisas da responsabilidade democrática são contagiosas. Faz parte. Só que tem de haver consequências. Em Espanha e na Europa.