Enquanto esperava o 25 fui surpreendido por um autocolante num poste. O 25 é o eléctrico que sai da Praça da Figueira para Campo de Ourique. A parte em que ele me serve é curta: da paragem perto do teatro da Barraca até ao cimo da Rua de São Domingos. São quatro paragens que chegam para manter e aumentar o meu amor por Lisboa. Tendo em conta que faço isto quando saio na estação de Santos, vindo do comboio de Oeiras, posso testemunhar que o segredo para sermos gratos passa na nossa capital pelo uso dos transportes públicos. Sempre que, por alguma razão excepcional, vou para Lisboa de carro, torno-me uma pessoa pior.
Mas falava de um autocolante num poste ao lado da paragem junto à Barraca. O autocolante publicitava “Vida Local in Portugal” e tinha um lema que seguia em inglês: “decolonize your tourism”. A tradução faz-se sozinha neste lema que me apanhou de surpresa: urge descolonizar o nosso turismo. Fiquei com aquilo na cabeça. Foi como se tivesse ouvido uma beatitude num sermão que não sabia estar a acompanhar. Ressoou novamente: em verdade, em verdade vos digo que bem-aventurados são os que descolonizam o seu turismo. Talvez valha a pena tentar alguma exegese já que o autocolante não explicava mais.
De um modo geral, os intelectuais têm concordado que é triste ser turista. Jean Baudrillard, por exemplo, dizia que o turista vive na hiper-realidade, um mundo de simulações, coleccionando artefactos de algo que lhe pareça genuíno mas que lhe escapará sempre. Roland Barthes explicava que o turismo converte uma cultura em mitos consumíveis e estereotipados. Susan Sontag afirmava que fotografar é reconfortante para o turista porque atenua a desorientação real que existe quando viajamos. Sim, ser turista implica para muitos pensadores uma capa de ridículo disfarçado de lazer que convém denunciar.
E eis que o autocolante fazia o pleno: praticava o acto burguês ao mesmo tempo que ele era purificado. Sim, admitia-se que a pessoa turistava mas à medida que turistava ganhava consciência da desinspiração do seu gesto e fazia por descolonizá-lo. Este turista desalienado joga no campeonato duplo de oprimir e libertar, de contribuir simultaneamente para o esquema neoliberal e sabotá-lo. O turista descolonizado pode ser uma personagem fascinante, uma síntese surpreendente de onde nasce uma dialéctica hegeliana: ele é o seu próprio conflito e é desse conflito que virá uma redenção pessoal e colectiva.
De que Portugal precisa então? Turistas em processo de descolonização: gente que traga a sua peçonhenta superioridade económica para morrer e nascer de novo, estrangeiros privilegiados que conheçam no nosso país uma estrada de Damasco que os derrube do cavalo, milagres existenciais em forma de investimento e subversão. Não é pedir pouco mas é pedir o urgente. Aquele autocolante no poste perto da paragem do 25 era publicidade e era programa político. Era todo um novo mundo para quem se julga poder tomar conta do mundo existente.
No fundo, a descolonização do turismo não deixa de ser também a nova face do turismo religioso. Mas é um turismo religioso secularizado. Pode não ter capelas mas não prescinde dos grandes objectivos do peregrino. Afinal, não se pode viajar para ficar na mesma. Se saio do meu país, é bom que, entre tanta coisa nova, encontre também alguma medida de transcendência. Quando o turista se descoloniza, ele supera-se não apenas para o país que visita mas para a nova pessoa que entretanto se tornou. Se tivermos a sorte de encontrar um turista descolonizado estaremos na presença de um santo contemporâneo. Portugal precisa de continuar a ter milagres para mostrar.