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(A) :: A Espanha não mudou

A Espanha não mudou

Sánchez quer uma Espanha no centro de um bloco à margem das grandes potências. As críticas à NATO e a Israel têm esse fito. Não é a primeira vez que a Espanha o tenta, nem será a última em que falha.

André Abrantes Amaral
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Pedro Sánchez está na primeira linha dos europeus que confrontam Donald Trump e criticam Israel. Quando se opôs ao aumento da despesa em defesa até aos 5% do PIB, mas também quando exige que a UE tome medidas duras contra Israel ou quando criou um movimento chamado Mobilização Progressista Global que, no mês passado, juntou em Barcelona pessoas como o presidente do Brasil ou Hillary Clinton. Se com isso Sánchez procura sobreviver politicamente, parece cada vez mais certo que também deseja criar um novo bloco em que a Espanha tenha um papel predominante no contrapeso às grandes potências.

O fenómeno não é novo. Desde que perdeu a hegemonia para a Inglaterra e para a França que Madrid procura recuperar a glória perdida. Luta que se tornou desesperada quando, entre 1895 e 1898, perdeu o domínio de Cuba e das Filipinas para os EUA. A raiva contra Washington vem daí. Não da injustiça; não pela igualdade. Mas simplesmente porque os EUA expulsaram a Espanha do continente americano e da sua única possessão asiática. Desde então que a Espanha sonha virar o continente americano contra os EUA, pelo que se compreende que a recuperação da Doutrina Monroe pela administração norte-americana cause tantos abalos em Madrid.

Quem olhe para a política e nesta só veja lutas pessoais e ódios de estimação é natural que se deslumbre com Sánchez. O homem confronta Trump, olha-o nos olhos e não tem medo de lhe dizer que não. Sucede que os heróis são muito poucos e mesmo os que o são têm a história atrás deles a explicar-lhes o que fazer e a dizer-lhes se vão ser bem-sucedidos. No que respeita a Sánchez essa mesma história dá-lhe pistas erradas e acaba por lhe dizer que não. Na verdade, convém não esquecermos que o seu plano nem sequer é original. Na Primavera de 1943, quando a Alemanha nazi dava os primeiros sinais de fraqueza e o regime de Franco fazia marcha-atrás para regressar à neutralidade do início do conflito, surgiu um chamado Plano D. Consistia este em reunir à volta da Espanha os estados católicos e outros que eram ou tinham tentado ser neutrais. Portugal, Suécia, a Suíça, Irlanda, Finlândia, Hungria, todos eles, juntamente com o Vaticano (que o Franquismo tão mal tratou) iriam criar com a Espanha um bloco a favor da paz dirigido por Madrid. Naturalmente, em 1943, a paz só era possível se as grandes potências pusessem termo à guerra e oficializassem o equilíbrio existente no campo de batalha. Um mero pormenor porque o Plano D também previa o apoio dos estados latino-americanos. Um problema maior porque nenhum Estado, fosse católico ou laico, neutral ou beligerante, grande ou pequena potência, livre ou dominado, europeu ou da América do Sul, menos ainda o Vaticano, mostraram qualquer interesse no plano espanhol. O historiador Javier Tusell esclareceu que apenas a Finlândia lhe deu alguma atenção, mas porque era uma forma de afastar a União Soviética ao mesmo tempo que não se comprometia com a Alemanha. O dito plano foi rapidamente descartado até porque o então ministro dos negócios estrangeiros espanhol, Francisco Jordana, era um homem culto com alguma noção da realidade. E do ridículo.

Mas este episódio não foi único. No período entre as duas guerras mundiais, a Espanha sonhou transformar-se na maior potência das novas pequenas nações europeias nascidas da Paz de Versalhes. Assim, entrou em força na Sociedade das Nações na expectativa de que a igualdade legal entre os estados lhe permitisse recuperar a antiga supremacia. Até a não entrada dos EUA (que enfraqueceu a instituição) foi encarada por Madrid como uma oportunidade. Hoje sabemos que a Sociedade das Nações falhou porque, sem os EUA, foi incapaz de se impor à vontade dos mais fortes.

Desde cedo que a Espanha assumiu uma grandeza imperial que Portugal não procurou. O enaltecimento do heroísmo e a necessidade dos grandes feitos, dos grandes sonhos é uma compensação da grande perda que ocorreu nos séculos XVII e XVIII e se acentuou nos XIX e XX. Daí o interesse especial da última crónica de Arturo Pérez-Reverte em que discorre sobre o facto de Cervantes, um herói de Lepanto, ter escrito acerca de um louco que se passeia por Castela até chegar às praias de Barcelona em vez de sobre a batalha onde o próprio ajudou a derrotar o turco. Como diz Pérez-Reverte, Cervantes sabia por experiência própria que o heroísmo não se sente quando se pratica. Faz-se e já está. Por muito genial que seja o escritor não há palavras que descrevam o momento. Mas essas palavras podem contar o percurso feito para lá chegar. Quando gritar alto se tornou virtude, D. Quixote é o herói que busca em silêncio a beleza e o significado da vida. E encontra-a. Ao ponto de, talvez, loucos sermos nós. Os que nos julgamos grandiosos. Ou como a Espanha quando busca um passado que não existe mais.

A hegemonia internacional coloca um problema existencial às potências. Às que ainda o são, o dilema é como não a perder. Às que já não o são, o drama é como viver com a perda. A Espanha está nesta fase há séculos. O fim do Franquismo e a entrada na CEE deram-lhe a possibilidade de fazer as pazes com a história e ganhar a paz de espírito com o desenvolvimento e uma projecção económica por via do castelhano. Foram os tempos de Suárez, González, Aznar e Rajoy. A deambulação pelos campos de Castela parecia ter finalmente encontrado um fim. O que Pedro Sánchez nos mostra não é força, mas que isso falhou. Que a Espanha ainda não mudou e que os fantasmas estão de volta.