O fim de um sonho pode ser o início de um futuro risonho. Que o diga Afonso Eulálio. No sábado, o regresso da alta montanha à Volta a Itália acabou com o grande percurso do português da Bahrain-Victorious como líder da primeira Grande Volta da temporada, com Eulálio a despedir-se de uma camisola rosa que foi meritoriamente sua durante os últimos nove dias. Conquistada na etapa 5, no dia 13 de maio, o ciclista que nasceu na Figueira da Foz há 24 anos sobreviveu durante mais de uma semana e tornou-se no segundo português que liderou a prova italiana durante mais dias, só superado por João Almeida. Para lá de ter voado na estrada com a maglia rosa e de ter sobrevivido no contrarrelógio, Eulálio nunca conteve o seu sorriso e uma felicidade contagiantes, com destaque para o episódio dos óculos oferecidos a Hannah Walker, comentadora do Eurosport, que correu o mundo.
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Foi com o português de rosa que a Bahrain terminou um jejum de vitórias em Grandes Voltas que perdurava desde a Volta a França-2023, com Alec Segaert a levar de vencida a 12.ª etapa. Curiosamente, o francês tem sido o colega de quarto de Afonso Eulálio ao longo desta corsa rosa. Olhando ainda aos números, Portugal é agora o país que mais liderou o Giro e nunca conseguiu vencer a geral, com 26 dias de rosa. Antes da etapa de sábado, em que se esperava que o português perdesse a camisola rosa, Loïc Segaert, treinador e diretor desportivo assistente da equipa do Médio Oriente, falou da ambição de Afonso, que foi “a melhor descoberta” da sua formação. “Depois da Volta a Portugal [de 2024] fizemos teste na Toscana e vimos o tipo de pessoa que ele é. O único problema foi a bicicleta dele não ter viajado com ele”, começou por dizer ao portal neerlandês WielerFlits.
Ele ainda é um pouco jovem e inexperiente. Precisamos de orientá-lo um pouco, talvez ainda lhe falte alguma consistência. Causou uma impressão muito positiva e, depois disso, dissemos: ‘Já temos informações suficientes sobre ele, vamos arriscar e oferecer-lhe um contrato’. Ele é o rapaz das ‘piadas de tio’, alguém que tem algo a dizer sobre tudo. Às vezes é engraçado, outras vezes nem tanto (risos). É uma pessoa simpática. Ainda tem muito que aprender e ele mesmo sabe disso. Quando estávamos a preparar-nos juntos para o contrarrelógio, ele disse-me várias vezes que queria saber de todos os detalhes. Podes não estar à espera disso de um brincalhão como ele, mas não o subestimes. O Afonso não vai entregar a vitória de graça, mas, sendo realista, acho que alguns ciclistas ainda o vão ultrapassar. No dia de descanso temos de avaliar os danos para a próxima semana”, concluiu Segaert.
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De forma incontornável, o sucessor de Eulálio é Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) que venceu pela terceira vez nesta Volta a Itália em Pila e deu um passo importante rumo à vitória final, que será a sua primeira na corsa rosa. Para já, o português caiu para o segundo lugar e tem agora como foco terminar nos dez primeiros e conquistar a camisola branca, de líder da juventude. Este domingo, Eulálio partiu de branco, já que tem quase dois minutos de vantagem para Giulio Pellizzari (Red Bull-Bora-hansgrohe). A título de comparação, o dinamarquês que lidera a corrida chegou, no sábado, aos três top 10 neste Giro, os mesmos do português. Ainda assim, Vingegaard venceu todas as etapas em que acabou nos dez melhores, ao passo que Afonso tem como melhor resultado o segundo lugar da quinta tirada.
A segunda semana terminou com uma etapa tranquila e de transição, com o foco a virar-se para os homens mais pesados e rápidos do pelotão. A 15.ª tirada começou em Voghera e, 157 quilómetros depois, teve a tradicional chegada a Milão, num dia que teve apenas 200 metros de subida. Depois da partida, o pelotão seguiu em Voghera até ao quilómetro 35, quando mudou em direção a Pavia, local em que estava instalado o sprint intermédio. Depois, o trajeto virava para norte até chegar a Milão pela Viale Toscana, a 70 quilómetros do fim. A partir daí estava reservado um circuito de 16,3 quilómetros com quatro voltas, sendo que a segunda passagem pela meta coincidia com o quilómetro Red Bull. Apesar de ter algumas curvas, o circuito era bastante acessível e convidativo à penúltima chegada para os sprinters, antes da última etapa em Roma.
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A segunda etapa mais tranquila deste Giro começou com Martin Marcellusi (Bardiani CSF 7 Saber), Mattia Bais e Mirco Maestri (Polti VisitMalta) e Fredrik Dversnes Lavik (Uno-X Mobility) a integrarem a fuga do dia. A primeira decisão do dia ficou guardada para o sprint intermédio, que foi bastante discutido por Marcellusi e Bais na frente, bem como no pelotão, com Paul Magnier (Soudal Quick-Step) a bater Jonathan Narváez (UAE Team Emirates-XRG), que foi lançado por António Morgado, e a empatar a luta pela maglia ciclamino a 131 pontos. Já em Milão, Enric Mas (Movistar) teve um problema na sua bicicleta, que foi prontamente resolvido, numa altura em que a organização da Volta a Itália decidiu tomar os tempos à entrada para a última volta, de modo a prevenir incidentes, numa situação que levou Vingegaard a deslocar-se ao carro do diretor de corrida para se queixar do perigo e das barreiras.
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O ritmo prosseguiu alto durante a última volta, já sem os homens da geral, a fuga entrou no último quilómetro ainda na frente e acabou por discutir a vitória, com Fredrik Lavik a lançar o sprint e a vencer com alguma facilidade, batendo Mirco Maestri e Martin Marcellusi. Esta foi a segunda vitória do norueguês no WorldTour, depois de ter triunfado no Tirreno-Adriático do ano passado. Para além disso, esta foi a primeira vitória de sempre da Uno-X numa Grande Volta e a primeira da Noruega no Giro desde 2009. No pelotão, Paul Magnier foi o mais rápido e voltou a passar para a liderança da classificação dos pontos, num dia corrido a 51,391 km/h, que fazem desta a etapa mais rápida na história da Volta a Itália. Nas contas da geral, Vingegaard chega ao último dia de descanso com 2.26 minutos de vantagem para Eulálio e 2.50 face a Felix Gall (Decathlon CMA CGM).
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