Ponto prévio: podem parar de brincar às flotilhas humanitárias? Não fosse a vergonhosa irrupção do ministro Ben Gvir (um homem que não foi aceite pelo exército israelita nas suas fileiras por causa das suas ideias extremistas e portanto nem sequer cumpriu serviço militar) e esta flotilha talvez só tivesse a destacá-la a espantosa cena de pancada que se armou no aeroporto de Bilbau entre os flotilheiros, os seus amigos e familiares e as forças de segurança aquando do regresso. (Imagine-se que uma cena similiar tinha acontecido em território israelita e a esta hora não haveria ser vivente que não se visse obrigado a solidarizar-se com a flotilha.) As flotilhas com Gaza por destino (na verdade não existem outras), não são nem humanitárias nem flotilhas pois o seu propósito é fazer activismo de bordo para divulgar perante jornalistas e nas redes sociais.
Claro que a reboque da flotilha voltou à superfície o discurso da nossa diferença em relação a Espanha nesta matéria. Corre na pátria que a Espanha, sim, tem política externa, que a Espanha faz bem em quase cortar relações com Israel e em impedir o acesso dos americanos às suas bases militares. E que Portugal, pasme-se, deveria seguir o exemplo do actual chefe de governo de Espanha. Obviamente, no final da tristíssima aventura acabaríamos destratados por todos, a começar pelos espanhóis e a acabar nos americanos, que muito provavelmente por essa altura estariam a firmar vários acordos em que nos ignorariam.
Corre também na pátria que a forma como Israel combate o Hamas e o Hezbollah não só viola o direito internacional mas também que os outros países, nomeadamente os europeus, não procedem do mesmo modo, sobretudo quando e se governados pela esquerda socialista. Há ilusões muito perigosas e ainda mais parvas e esta é uma delas. É dos livros que país algum consegue vencer o terrorismo caso os países seus vizinhos funcionem como santuários para os terroristas. Israel sabe isso e a Espanha dos anos 80 do século passado soube-o tão bem que, em plena Europa, travou uma guerra suja com a França para derrotar a ETA. E, para cúmulo, essa guerra aconteceu quando os socialistas mandavam em Paris e em Madrid.
Mitterrand tornara-se finalmente presidente em 1981, sucedendo ao conservador Giscard d’Estaing, e mostrou-se absolutamente avesso a extraditar para Espanha, que nesta altura já era uma democracia, os militantes da ETA que não só estavam instalados no sul de França como usavam o lado francês da fronteira como base recuada e segura para preparar os atentados que levavam a cabo em Espanha. Entretanto, em Madrid, o governo do conservador Calvo Sotelo dera lugar ao do socialista Felipe González que se confronta com o facto de a França continuar a considerar os bascos, inclusivé os da ETA, como refugiados. Durante mais de um ano o governo socialista de Espanha tenta explicar ao governo socialista de França que nunca conseguirá vencer o terrorismo enquanto aos terroristas bastar passar a fronteira para França para se sentirem seguros. O que acontece a seguir é sabido embora pouco referido porque mediaticamente, não se podendo culpar, nem Franco, nem na sua ausência alguém de direita, o assunto torna-se embaraçoso: no final de 1983 surgem, obviamente patrocinados pelo governo espanhol, os Grupos Antiterroristas de Libertação (GAL). O objectivo do grupo anunciado num comunicado é claro: vingar cada morte causada pela ETA e, não menos importante, estender a acção dos GAL a França cujo governo, diziam, era responsável por deixar os terroristas movimentarem-se e instalarem-se livremente em França.
Antes que 1983 chegasse ao fim o rei de Espanha foi convidado a ir a Paris. A 20 de Dezembro, vai finalmente Felipe Gonzalez. Na véspera, 19, um homem fora assasinado no bar em que trabalhava no país basco francês: quatro homens tinham entrado ao fim da tarde no bar e disparado sobre o camareiro. Este, apesar de também ter disparado, acaba caído no chão. Em Paris, a mensagem foi percebida: o jovem empregado de bar, que por sinal tinha uma arma, era nada mais nada menos que Ramón Oñederra Vergara, membro da ETA militar. Os homens que o abateram não eram ladrões mas sim membros dos GAL. No dia seguinte, 20 de Dezembro de 1983, o socialista Felipe Gonzalez encontra-se em Paris com o governo também socialista da França. A visão dos socialistas franceses, a começar por Mitterrand, sobre a ETA mudara substancialmente. Em breve começam as transferências dos etarras não para Espanha mas para países da América Latina e para territórios ultramarinos franceses.
Até que a ETA anunciasse o seu fim, em 2018, a tensão entre Espanha e França foi frequente neste assunto, mas também se viram surgir do lado francês figuras como a da juíza Laurence Le Vert a quem se deve, entre outras, a prisão do chefe militar da ETA “Txeroki”. Não exclusivamente por causa da pressão dos franceses mas também por causa dela e das concessões que os franceses fizeram, poucos anos depois os GAL cessaram a sua actividade, que é como quem diz que o governo de Espanha resolveu acabar com a guerra suja.
Obviamente que Portugal teve uma política diferente da mantida pela França em relação ao grupo terrorista ETA (alguns etarras iam passando pelo país e já na na fase de declínio montaram uma casa-base em Óbidos mas nunca contaram com a protecção de que chegaram a gozar em França). E obviamente teve uma política diferente da espanhola em relação às Lajes e a Israel. A razão para tal é ou tem sido sempre clara: quem governa Portugal tem de defender o interesse nacional de um pequeno país, país esse que tem na relação estável e confiável com os países seus aliados um pilar da sua luta contra a irrelevância.
Se as tresloucadas declarações de alguns dirigentes socialistas, como foi o caso de Eurico Brilhante Dias sobre as Lajes e de José Luís Carneiro sobre Sanchez enquanto “exemplo de que é possível fazer política com coração e visão de futuro”, indicam uma mudança de orientação naquele que é um partido de governo, é melhor prepararmo-nos para momentos não só difíceis como muito constrangedores. E, claro, as conversas mais difíceis serão precisamente as que os nossos socialistas tiverem de manter com outros socialistas. Caso não acreditem no que escrevo podem perguntar a Felipe González, para muitos o “Señor X” referido nos papéis apreendidos aos GAL.