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Ameaças de morte, antissemitismo e profecias do Armagedão: as mensagens do padrasto nas redes sociais antes de abandonar crianças

Marc Ballabriga fez uma transmissão em direto de 12 horas no Telegram horas antes de ser detido pela GNR. Semanas antes, garantia num vídeo do Youtube que o Armagedão ia começar nesse dia.

Miguel Pereira Santos
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À saída do tribunal de Setúbal, o padrastro das crianças francesas abandonadas em Alcácer do Sal gritou “Armagedão” — nome da cena bíblica que designa o confronto final entre as forças do bem e do mal. Esta evocação de Marc Ballabriga pode ter sido vista como parte do plano para, tal como combinado entre ele e a mãe das crianças, parecerem “doidinhos” à frente das autoridades e da comunicação social. No entanto, a expressão que gritou após a primeira sessão de interrogatório não foi fortuita. É possível encontrá-la, até bem recentemente, nas publicações que o antigo guarda militar de 55 anos fez em várias redes sociais.

Marc Ballabriga criou, a 6 de abril deste ano, um canal de Youtube onde foi publicando vídeos a um ritmo quase diário. Continuou a fazê-lo mesmo depois de, a 11 de maio, ter fugido de França com Marine Rousseau e os seus dois filhos, de três e cinco anos. O último vídeo foi gravado quatro dias depois da fuga de França e publicado no canal “Revelações Interditas” a 18, na véspera de o casal abandonar os dois menores em Alcácer do Sal. Chama-se “Madrugada de 15 de maio 2026 na província da Extremadura acompanhado pelas cegonhas”. Nesse vídeo, Marc Ballabriga passeia-se por uma pradaria em Espanha (onde tinha uma casa), enquanto descreve a paisagem e partilha pensamentos com um tom premonitório.

“Desejo-vos um bom 15 de maio. Saibam que hoje marca o começo dos preparativos para o início do Armagedão que vai começar a 22 de maio e durar 28 dias”, disse. E continuava: “Vocês vão ter medo, vão ter todos medo. Eu não tenho medo. Estou à espera disto há muito tempo.” Para Marc Ballabriga, 2026 seria o “ano da ação“, ao passo que 2025 tinha sido o “ano da prevenção”, explicava aos espetadores do seu canal, que contava com 178 subscritores este sábado à tarde.

Ao longo de 25 minutos, o ex-guarda militar elogia a paisagem natural que vai filmando — nunca mostra a cara, mas confirma ser Marc Ballabriga — enquanto faz comentários agressivos e desconexos. “Acham que não vale a pena lutar por este mundo? Eu acredito que vale a pena. Venham deter-me, ponham-se no meu caminho. Convido-vos a vir. Acreditem, eu estou em guerra. Realmente, estou em guerra. Posso-vos dizer que as coisas vão ficar feias, porque se a minha raiva ainda não tiver sido libertada…”, dizia o francês naquele vídeo.

"Um conselho: não se aproximem de mim neste momento porque tenho uma raiva tremenda dentro de mim quando vejo como corrompemos este mundo. É melhor não mostrarem as vossas caras de extraterrestres e reptilianos judeus de merda."
Marc Ballabriga, padrasto dos dois menores abandonados em Alcácer do Sal

Alvo principal: judeus

Nessa recente publicação no Youtube — a última antes de ser detido —, Marc Ballabriga faz mesmo várias ameaças de morte. “Aos que se puserem no meu caminho, neste momento, não terei problema em tirar-lhes a vida.” As palavras têm como principal alvo os judeus. O antigo guarda militar apelida-os de “extraterrestres” e “reptilianos” — uma expressão popular entre os conspiracionistas dos anos 90 para se referir às elites mundiais, que alegadamente seriam criaturas humanoides com aparência de réptil.

“Um conselho: não se aproximem de mim neste momento porque tenho uma raiva tremenda dentro de mim quando vejo como corrompemos este mundo. É melhor não mostrarem as vossas caras de extraterrestres e reptilianos judeus de merda“, avisava o padrasto das crianças francesas, no vídeo publicado no passado domingo. Marc Ballabriga repete várias acusações dirigidas aos judeus, referências que fazem parte do argumentário antissemita clássico. E promove a violência antissemita. “Se tiveres de matar para avançar, não serás punido por isso. Pelo contrário, serás recompensado. Porque tens o direito de matar os extraterrestres que violam e corrompem este mundo, que violam e comem crianças, que fazem criação de humanos.”

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O padrasto das crianças abandonadas junto à Estrada Nacional 253 prosseguia o discurso, avisando que a sua postura “amável e paciente” estava a chegar ao fim. “Se for preciso usar a força, vou usá-la. Se for preciso usar os meus poderes, vou usar os meus poderes e tenho muitos.” Nesse sentido, Marc Ballabriga antecipava um confronto com as forças de autoridade, mas admitia estar pronto: “Eu não me escondo. Quando vejo polícias, estendo-lhes a mão: ‘Olá, eu sou Marc Ballabriga, guarda militar reformado. Por acaso tem algum mandado de captura contra mim em França? Um mandado de captura, porquê? Porque ataco os judeus? Sou antissemita, claro que sou antissemita. Assim como Deus. Fui feito à sua imagem. Deus é antissemita, não sabias?'”

Segundo a imprensa francesa, Marc Ballabriga deixou de trabalhar para as forças de autoridade após um período longo de depressão profunda, que terá coincidido com a sua condenação por violência doméstica contra a sua ex-companheira e mãe da sua filha, em 2010. No vídeo, o padrasto das crianças francesas abandonadas em Alcácer do Sal também abordou a sua experiência enquanto agente de autoridade em França. Sobre a guarda militar francesa, criticava a corrupção, dizendo que apenas um em cada vinte oficiais dessa força é “honesto”.

Nesta fase, o discurso de Marc Ballabriga voltava a redundar em mais ódio antissemita. “Digo-vos, enquanto guarda militar, os polícias são cúmplices dos judeus, dos extraterrestres. São colaboradores, todos os polícias da polícia nacional.” Depois, alegava que parte dos agentes das forças de autoridade são, na verdade, clones ou ciborgues. “Há muitos que foram substituídos, ainda restam alguns humanos, mas não muitos.”

Por fim, o antigo guarda militar também faz referências à própria filha, cuja custódia terá perdido por altura da sua condenação, em 2010. Marc Ballabriga chegou a dedicar-lhe um livro intitulado “Renascimento”, que partilhou nas redes sociais, onde diz que esta é a sua “maior força e inspiração”. O francês de 55 anos refere-se a esta separação como um momento de grande trauma. “Larguem a vida da Internet, do anonimato, dos ecrãs. Vocês todos sabem quem eu sou, o meu nome. Se leram o meu livro, sabem todos, mais ou menos, aquilo que eu vivi”, comenta no último vídeo que publicou no Youtube.

No Telegram, Marc Ballabriga continuou ativo, mesmo depois de ter deixado as duas crianças vendadas numa zona de mato próxima de Alcácer do Sal. Desde esse momento, e até serem detidos na quinta-feira, o padrasto fez nove publicações no canal de Telegram e realizou mais de uma dezena de transmissões em direto.

Transmissão em direto de 12 horas no dia da detenção

Contudo, a pegada digital de Marc Ballabriga não se fica pelo Youtube. Na verdade, o padrasto das crianças francesas abandonadas tem um número bastante superior de seguidores no Telegram. Nesta plataforma digital, tinha um canal igualmente chamado “Revelações Interditas” e administrava uma sala de chat à qual podiam aceder os 1.578 inscritos no seu canal. No Telegram, onde era o único utilizador com permissão para fazer publicações, Marc Ballabriga continuou ativo, mesmo depois de na terça-feira ter, em conjunto com Marine Rousseau, deixado as duas crianças vendadas numa zona de mato próxima de Alcácer do Sal.

Desde esse momento, e até serem detidos na quinta-feira, o padrasto fez nove publicações no canal de Telegram e realizou mais de uma dezena de transmissões em direto. Várias dessas lives duravam cerca de meia hora, mas outras estenderam-se por horas. Marc Ballabriga realizou, inclusivamente, uma transmissão em direto que começou na quarta-feira e só acabou no dia seguinte, durando mais de 12 horas.

Não é possível recuperar o conteúdo dessas transmissões em direto, mas as nove publicações continuam disponíveis no Telegram. Às 6h32 do dia em que foi detido, Marc Ballabriga partilhou com os seus seguidores uma música do cantor francês Cali intitulada “La Fin du Monde pour dans 10 Minutes” (“O fim do mundo para daqui a 10 minutos”, em português). Na descrição dessa publicação, o antigo guarda militar francês referia-se novamente ao Armagedão e avisava que sexta-feira, 22 de maio, seria o “último dia antes do fim dos tempos“.

Um dos vários comentários a uma publicação do padrasto é de uma utilizadora chamada Iris, que foi identificada por vários outros como sendo Marine Rousseau. “A libertação está próxima. Que prevaleça a justiça”, terá escrito a mãe das duas crianças francesas.

“Vão conhecer a ira de deus. Já vos avisei o suficiente, chegou a hora do julgamento final… Os primeiros serão os últimos, os últimos serão os primeiros. Aproveitem as vossas últimas horas nesta matéria que perverteu a vossa alma e o vosso karma (missão de vida)”, acrescentava. As publicações no canal “Revelações Interditas” feitas nos dias e meses anteriores seguem o mesmo estilo messiânico e conspiracionista. Marc Ballabriga partilhava músicas, cantava hinos, enviava vídeos de animais selvagens, links para notícias ou para os seus vídeos no Youtube, sempre acompanhados de longos comentários escritos.

Por outro lado, não se registam referências diretas aos dois filhos da companheira, Marine Rousseau, desde que fugiu com os três de Colmar, em direção a Espanha e depois Portugal. O conteúdo que publicava no Youtube e no Telegram era dedicado a todo o tipo de teorias da conspiração. Marc Ballabriga debruçava-se sobre as vacinas da Covid-19, a Inteligência Artificial, uma “teoria da substituição dos animais”, as alterações climáticas ou o nazismo. As publicações mais recentes referem regularmente a proximidade de uma “mudança“, mas estão sempre inseridas numa retórica antissemita e providencial.

Na última publicação que fez antes de ser detido, Marc Ballabriga escreve como se fosse ele próprio o deus da mitologia nórdica, Thor. “Eu, Thor, filho de Odín e de Freya, condeno os judeus reptilianos por terem profanado, violado e pervertido esta pura criação da Virgem Maria, minha querida esposa. (…) Esta noite, à meia-noite, e durante 28 dias, vou limpar, purificar, libertar todos esses sofrimentos causados por estes colonizadores. Esta noite os elementos irão desencadear-se sobre Israel, o meu tridente abater-se-á sobre o Muro das Lamentações.”

Um dos vários comentários feitos pelos seguidores a essa publicação é de uma utilizadora chamada Iris, que foi identificada por vários outros inscritos do canal “Revelações Interditas” como sendo Marine Rousseau. “A libertação está próxima. Que prevaleça a justiça”, terá escrito a mãe das duas crianças francesas. Esta foi uma das poucas interações de Iris no grupo de conversa, ao qual apenas se juntou na segunda-feira, na véspera do abandono dos dois menores em Alcácer do Sal.

Desde a detenção do casal, vários utilizadores juntaram-se a este espaço de conversa para denunciar o envolvimento de Marc Ballabriga no abandono de duas crianças em Alcácer do Sal. “Para quem ainda não tenha percebido, o Marc Ballabriga é o proprietário deste canal”, escreve um utilizador, partilhando notícias sobre a sua detenção.“Marc [e] Iris estão na prisão”, acrescentou outro utilizador francês.

https://observador.pt/2026/05/23/casal-frances-que-abandonou-menores-em-alcacer-do-sal-volta-a-ser-ouvido-no-tribunal-de-setubal/