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Jonas ainda é o Jonas e já vê o destino rosa: Vingegaard sobe à liderança, com Eulálio a cair para segundo

O sonho rosa de Vingegaard, que procura um lugar na história, está cada vez mais perto: dinamarquês controlou etapa e atacou na altura certa, vencendo a solo. Eulálio manteve pódio e camisola branca.

Tiago Gama Alexandre
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Chegou a altura que podia ser de todas as decisões. No final de uma segunda semana que até arrancou com um longo contrarrelógio, mas que acabou por ser de transição, a Volta a Itália voltou à alta montanha este sábado, em mais uma luta de Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) contra os outros. No lote dos “outros” estava incluído Afonso Eulálio (Bahrain-Victorious), a grande surpresa deste Giro. O português assumiu a liderança da prova a 13 de maio, resistiu ao contrarrelógio quando todos davam a rosa como perdida e chegou à 14.ª etapa ainda no primeiro lugar, com 33 segundos de vantagem para o dinamarquês. Na sexta-feira, o ciclista da Figueira da Foz até passou por dificuldades, devido a problemas na bicicleta, no início da tirada, mas acabou por chegar tranquilamente a Verbania, alguns minutos depois de Alberto Bettiol (XDS Astana) ter triunfado com um ataque na fase final.

https://observador.pt/2026/05/22/nao-ha-nada-que-abale-um-alberto-veloz-e-a-procura-da-perfeicao-bettiol-atacou-na-altura-certa-e-venceu-eulalio-segurou-vantagem/

“Etapa de recuperação? Não, a recuperação só acontecerá daqui a 2 dias [no dia de descanso]. Hoje [sexta-feira] foi um dia um pouco mais tranquilo, e também longo. Conseguimos manter a maglia rosa, que é o mais importante. Quando assumi a maglia rosa durante a fuga, pedalei à chuva e com gelo no corpo. Foi um dia muito difícil para o corpo. Agora estamos a pedalar com 30ºC. É uma grande mudança, inclusive para os nossos corpos. Estamos a fazer o melhor que podemos com a nossa equipa e os nossos nutricionistas. Sábado? Será um dia muito difícil. Vamos começar e terminar com uma subida muito longa. Espero ter boas pernas e continuar a lutar. O Jonas não precisa de um grande ataque amanhã [sábado]. O Jonas é o Jonas. O único que pode vencê-lo é o [Tadej] Pogacar. E o Pogacar não está aqui. Temos que tentar segui-lo, mas, se ele acelerar, vamos ficar para trás. Teremos que lutar atrás dele. Só tenho que continuar a lutar. É tudo o que preciso de fazer”, assumiu o português no final da etapa de sexta-feira.

“É verdade que esta é a primeira grande etapa de montanha. É a primeira vez que fazemos mais de uma subida de verdade e, obviamente, vai ser um dia difícil. Esperamos ter pernas para ir em busca da vitória. Planeámos tentar ir atrás disso, mas temos de ver o que as pernas vão permitir. Acho que temos força para controlar. Mostrámos nos últimos dias que a equipa está muito forte e que temos capacidade para assumir o controlo da corrida. Acho que será uma etapa a ritmo máximo e acho que estamos prontos. Estamos prontos para um dia duro, quente e vamos fazer tudo o que pudermos. É tudo o que podemos fazer”, disse, por sua vez, o dinamarquês que continua à procura da vitória no Giro d’Italia para fechar o trio de triunfos em Grandes Voltas.

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A 14.ª etapa levou o pelotão para o Vale de Aosta, com uma temível ligação entre Aosta, que não recebia a partida desde 2006, e a estância de Pila, em Gressan, que não acolhia a chegada desde 1992. Com apenas 133 quilómetros, esta era a terceira tirada mais dura desta Volta a Itália, com 4.350 metros de desnível positivo acumulado. O pelotão começava logo a subir, com o Col du Saint-Barthélémy a aparecer ainda nos primeiros 20 quilómetros. Depois de uma longa descida, algo que foi apanágio desta jornada, seguia-se a subida de Doues (5,8 km a 6,2%) e, a partir do quilómetro 72, duas duras subidas: o Lin Noir (7,4 km a 7,9%) e Verrogne (5,6 km a 6,9%). Para o fim estava reservada uma curta incursão no vale, que levava à subida de Pila, situada acima de Aosta e cercada pelas paisagens alpinas com vista para o Mont Blanc. A ligação à estância de esqui contava com 16,5 quilómetros a 7,1%, ainda que os últimos quilómetros tivessem 9% de inclinação média, que chegavam aos 11% a três quilómetros do alto.

Como seria de esperar, a primeira fase da etapa teve bastantes incidências, a começar pelo início de mais uma longa fuga, com mais de 20 ciclistas e sem representantes das equipas dos quatro primeiros da geral. Nessa fase, Jonathan Milan (Lidl-Trek), Paul Magnier (Soudal Quick-Step) e Dylan Groenewegen (Unibet Rose Rockets) já tinham ficado para trás, ao passo que Michael Storer (Tudor) furou, mas conseguiu reentrar na primeira subida, que foi feita a ritmo. De forma natural, esta passou a ser a etapa mais lenta desta edição, com a média da primeira hora a fixar-se nos 25,3 quilómetros. Já sem Christian Scaroni (XDS) e depois de Filippo Ganna (Netcompany Ineos) ter trocado de bicicleta, Jhonatan Narváez (UAE Team Emirates-XDS) assumiu a liderança da camisola dos pontos no sprint intermédio.

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Na aproximação à subida final, Giulio Pellizzari (Red Bull-Bora-hansgrohe) foi o primeiro a mostrar dificuldades, ao passo que Afonso Eulálio passou da roda de Jonas Vingegaard para a parte final do grupo, sempre com a companhia de Damiano Caruso (Bahrain), apresentando dificuldades para lidar com o calor. Nessa altura, destaque para Juan Pedro López (Movistar), que colocou água nas costas do português, que continuou a lidar com a meteorologia com a colocação de gelo nas costas e no peito. Ainda assim, Markel Beloki (EF Education-EasyPost) foi o primeiro ciclista que se encontra a lutar pelo top 10 a descolar do pelotão. A 8,6 quilómetros do fim, Eulálio ficou para trás com Derek Gee-West (Lidl) e Mathys Moutet (Tudor), mas acabou por não conseguir seguir os companheiros de grupo, optando por manter-se com Caruso. Na frente, Giulio Ciccone (Lidl), Enric Mas e Einar Rubio (Movistar), Jan Hirt (NSN) e Wout Poels (Unibet) foram os últimos resistentes, com o veterano neerlandês a perder o contacto a 6,2 quilómetros do alto.

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Pouco depois, Ciccone desferiu um ataque bastante forte que só Rubio conseguiu seguir, ao passo que, mais atrás, Pellizzari perdia definitivamente o contacto com o grupo dos favoritos. A cinco quilómetros de Pila, com a fuga neutralizada, Vingegaard exibiu o seu tão esperado ataque, a que ninguém conseguiu responder, ainda que Felix Gall (Decathlon CMA CGM) tenha conseguido minimizar os estragos ao seu ritmo. Jonas acabou por controlar até ao fim e venceu pela terceira vez nesta Volta a Itália, depois de ter beijado o guiador numa dedicatória para a família e de ter batido o recorde da subida por mais de seis minutos. Gall chegou a 48 segundos, ao passo que Jai Hindley (Red Bull) terminou a 58. Quanto a Eulálio, o ciclista da Bahrain sofreu até ao fim e contou com o enorme contributo de Caruso, que ajudou o português a ultrapassar os ciclistas que foram descaindo do pelotão e ainda conseguiu ajudar o português nos últimos três quilómetros, já depois de ter perdido o contacto com o colega. No final, o figueirense acabou a 2.49 minutos do canibal.

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Com a 51.ª vitória da sua carreira, Jonas Vingegaard deu um passo importante rumo à conquista deste Giro, tendo passado para a liderança com 2.26 minutos de vantagem para Afonso Eulálio que, com o forcing final na reta da meta, conseguiu continuar à frente de Felix Gall, que está a 2.50, dando um passo importante rumo ao top 10 final. Thymen Arensman (Netcompany) é quarto a 3.03, ao passo que Jai Hindley completa o lote dos cinco melhores, a 3.43. No domingo, o português vai vestir a camisola branca, de líder da juventude, classificação em que tem quase dois minutos de vantagem para Giulio Pellizzari.

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