Manter a cidade na Costa da Caparica implica “um compromisso para a vida” com a manutenção das estruturas de contenção do mar, defendeu em entrevista à Lusa o investigador José Carlos Ferreira, da Universidade Nova de Lisboa.
Desde o início do século, o mar avançou pelo menos 200 metros, o que leva os cientistas a estudarem todos os cenários, incluindo a retirada da cidade, a renaturalização da Cova do Vapor, com demolição das construções, e a relocalização da Fonte da Fonte da Telha.
“Conseguimos identificar pelo menos 200 metros de recuo [da linha de praia], o que é bastante, sobretudo na área em frente à Cova do Vapor”, disse o investigador.
De acordo com José Carlos Ferreira, que tem trabalhado no terreno com a equipa da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), o que está a acontecer nesta zona acontece noutras áreas baixas e arenosas da costa portuguesa. A “grande diferença” é que na Costa da Caparica existe uma cidade.
“Esta zona é mais crítica”, admitiu, ao referir-se à subida do nível médio do mar.
A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) está neste momento a proceder a trabalhos de reposição de um milhão de metros cúbicos de areia nas praias da Caparica.
A empreitada é acompanhada por uma exposição no paredão da Costa, na qual podem ver-se imagens que documentam os primórdios da localidade.
À praia, sucedia-se um terreno arenoso que chegava à igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, situada a escassas centenas de metros da rotunda de entrada na Costa da Caparica, na Avenida 1º de Maio.
O templo foi construído entre 1880 e 1882 no local de uma antiga ermida feita de tábuas e junco por pescadores oriundos de Ílhavo e do Algarve.
“Antes de artificializarmos toda esta zona, antes de construirmos este paredão e toda a defesa costeira, a água, no inverno, galgava e inundava áreas, criando alguns charcos temporários”, explicou José Carlos Ferreira, mostrando no local a área de espraia que servia de amortecimento à entrada do mar.
“Urbanizámos esta área, construímos praticamente até à frente dunar, destruímos as dunas e ao ocupar esta área, ela fica vulnerável”, observou, ao justificar a necessidade de construção de um sistema artificial que requer manutenção regular.
Numa área afetada por tempestades cada vez mais intensas e pela dinâmica do mar do Atlântico, o investimento na manutenção destas estruturas de defesa é, para o investigador, “um compromisso para a vida”.
Os danos causados pelas tempestades do inverno são visíveis no areal, nos acessos à praia e nos pontões, cujas frentes foram destruídas pelo embate do mar.
“Temos um excelente planeamento no país, o que não temos é manutenção destas obras ao longo do tempo. Somos muito reativos. Desde o século passado até aos dias de hoje, a intervenção seja do antigo Instituto da Água ou atualmente da APA, é sempre de reação”, sustentou.
Para o investigador, a aposta deve ser numa cultura de manutenção e acompanhamento, com investimentos menores.
De acordo com a informação afixada na praia, o custo da empreitada de alimentação de areia das praias do concelho de Almada (Costa da Caparica e São João) é de 8,6 milhões de euros, com financiamento de 5,4 da União Europeia.
“Se não há uma manutenção do paredão e do esporão, vai deteriorar-se ano após ano e quando vem uma tempestade como este ciclo do chamado comboio de tempestades, obviamente está mais vulnerável. Não foi mantido e é mais destruído e o resultado é que temos de gastar mais recursos financeiros para o recuperar”, apontou o professor da Nova, cujo polo de ciência e tecnologia se situa no Monte de Caparica.
A previsão, de acordo com José Carlos Ferreira, é que a areia que está a ser reposta nestas praias dure mais cinco anos.
“É uma estratégia. A estratégia [alternativa] era retirar daqui a cidade. Temos de pensar nisso, temos de nos adaptar ao que está a acontecer, com a subida do nível médio do mar”, assumiu.
Por outro lado, exemplificou, as tempestades cada vez mais frequentes e intensas têm também como consequência uma maior carga de energia do mar.
“Há várias estratégias, uma delas é manter o que existe hoje, com estruturas rígidas, com paredões e esporões. É uma estratégia que tende a ser eficaz, mas perdemos praia e alguns sistemas naturais”, indicou.
Outra estratégia é renaturalizar a área e usar as chamadas estruturas verdes, o que passa por restaurar as dunas: “Se calhar vai ter de haver alguma retirada em algumas zonas de risco”, admitiu.
Na Costa, tem sido seguida uma estratégia mista que tenta compatibilizar o sistema natural com a atividade humana. “É importante para o sistema económico, não só local. Não nos podemos esquecer que estas são praias de recreio e lazer para toda a área Metropolitana [de Lisboa]. É uma praia bastante popular”, reconheceu.
No entanto, as vulnerabilidades acentuadas pelas alterações climáticas, pela subida do nível do mar e pela intensificação da erosão, obrigam a estudar outros cenários.
“A Câmara de Almada pediu-nos ´encontrem estratégias e quantifiquem-nas´ e neste momento estamos a fazer isso”, revelou, especificando que no caso de retirada da cidade, há duas hipóteses possíveis, imediata ou faseada, começando pela área de maior risco.
“Do ponto de vista técnico e científico é óbvio que é uma hipótese. Do ponto de vista político, é outra!”, respondeu quando questionado sobre esta possibilidade. A decisão será sempre política. Cabe aos cientistas apresentar planos alternativos e quantificar os custos.
Segundo José Carlos Ferreira, os custos financeiros são fáceis de quantificar, o mais difícil são os custos sociais e culturais.
“O económico-financeiro é fácil, é dinheiro, é preciso dinheiro para retirar as pessoas, para as realojar, para renaturalizar esta área etc… Então e a componente sociocultural? As pessoas que vivem aqui, que gostam de viver aqui? Como é que quantificamos? Estes estudos de análise de custo-benefício são muito interessantes, difíceis de fazer, e estamos neste momento a fazê-los”, avançou.