Há acontecimentos importantes. E depois há as ocorrências que marcam de facto a história da humanidade, as que mudam tudo para sempre, aquilo a que José Sócrates, e muito bem, chamava sempre que inaugurava uma fábrica condenada à falência ou duas ventoinhas, “momentos históricos”.
Um desses momentos históricos foi vivido na passada segunda-feira, na vila minhota de Monção, quando o actual primeiro-ministro inaugurou o Minho Park, uma zona empresarial de 56 hectares situada junto à fronteira com a Galiza, em Espanha. Consciente da desmesurada solenidade da ocasião, o dr. Montenegro esteve à altura e afirmou: “Aqui vive-se melhor. Quero deixar um convite, aos menos jovens e aos mais jovens, para que olhem para projectos como este e pensem naquilo que podemos fazer se cá ficarmos todos. Se aproveitarmos o nosso potencial cá dentro, em Portugal, em vez de o esbanjarmos noutras paragens. E para o aproveitarmos obtendo a qualidade de vida que muitos querem, legitimamente.” De seguida, enquanto não se aliviava de portentosos clichés como “fazer convergir vontades” e “a capacidade de acreditar nas pessoas” (faltou, por pouco, o “construir o futuro”), o dr. Montenegro explicou que a região oferece “um factor de competitividade enorme e não há muitos lugares na Europa e no mundo que o possam oferecer com tanta consistência”. Espectacular.
Espectacular e plausível. Realmente, não existe nenhum motivo para que “os menos jovens e os mais jovens” do Alto Minho troquem a sua terra pelos sonhos ilusórios das “outras paragens”. Imagine-se, por facilidade geográfica, que uma dessas paragens é a Galiza, que começa a 500 metros de Monção. Não há nada na Galiza que permita superar os níveis de conforto de um português. Bem, nada excepto o salário médio, que lá é de uns 2000 euros e no Minho de 1200. Mas tirando isso, não há nada na Galiza que possa atrair um português. Bem, nada excepto a carga fiscal, que do lado de lá pesa muito menos do que do lado de cá. Mas pronto, tirando o salário médio e carga fiscal, não há nada que faça com que uma pessoa viva melhor na Galiza do que no Minho. Bem, nada excepto a taxa de esforço na compra ou aluguer de casa, que lá é metade da de cá. Certo, mas tirando o salário, o fisco e a habitação, não há nada que convença alguém a deixar o Minho pela Galiza. Bem, nada excepto o preço dos carros, que a diferença nos impostos faz com que lá sejam 20% ou 30% mais baratos. Caramba, mas tirando o salário, o fisco, a habitação e os automóveis, não há qualquer vantagem em viver na Galiza em vez do Minho. Bem, há também o preço dos combustíveis, o preço da comida nos supermercados, as diferenças no imposto sucessório, o gás, a electricidade, as portagens, a educação, os custos e qualidade da saúde e a circunstância global de, após pagar todas as despesas previsíveis, o galego médio conseguir poupar uns milhares por ano e o minhoto médio atingir a idade da reforma com a conta vazia. Sim, mas a Galiza não tem um Minho Park. Pois, isso não tem.
O argumento de que o Minho é uma região comparativamente pobre de Portugal não vale: a Galiza é uma região comparativamente pobre de Espanha. E a Espanha é um país comparativamente remediado da Europa. Ou seja, ao contrário do que sugere a ladainha promocional do dr. Montenegro, quase todos os lugares do Ocidente oferecem condições de vida melhores do que o Minho e o território que desce do Minho ao Algarve, com inclusão das ilhas. Um estudo recente do Deutsche Bank mostra que o aluguer de um T1 em Lisboa excede a totalidade de um salário médio: em Madrid e Milão anda pelos 70%, em Varsóvia e Dublin pelos 60% e em Amesterdão e Paris não chega a metade do salário.
Em muitíssimo grosso modo, Portugal subsiste graças a esmolas do exterior, as quais atenuam insuficientemente uma cultura de dependência dos empregos públicos, uma vocação para o paternalismo que “legitima” a asfixia fiscal, a burocracia impossível, a rigidez laboral, uma produtividade reles, uma economia privada que se arrasta por sectores arcaicos e mal remunerados e, não se pode negar, uma extraordinária e colectiva “capacidade de acreditar nas pessoas”, sobretudo em políticos que têm o descaramento de nos impingir fancaria como se fosse o ouro das Sete Cidades de Cíbola. E que, mediante um saudável caldo de cobardia eleitoral, inércia e feitio, nem sonham beliscar o estado das coisas.
Claro que, a esta hora, já vozes patrióticas se levantam contra o critério exclusivamente material e garantem que o que Portugal tem de bom não tem preço. E citam os maiores demagogos das últimas décadas para decretar que não há sol como o nosso, comida como a nossa, vinho como o nosso, café como o nosso, felicidade como a nossa, conversa fiada como a nossa. É uma alucinação bonita. Infelizmente não é sólida o bastante para impedir que dezenas de milhares de materialistas, em larga medida jovens e licenciados, fujam daqui a cada ano e à primeira oportunidade. Dia sim, dia sim, eles contribuem para as longas filas nos aeroportos, com a esperança de uma vida melhor pela frente e uma nação à deriva nas costas. E o Minho Park lá para trás.