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E o mais livre filme de Cannes 2026 é a “aventura sonhada” de Valeska Grisebach

O concurso concluiu-se nesta sexta-feira com a elevação de “The Dreamed Adventure” ao patamar dos melhores. Rami Malek canta uma oitava acima no novo de Ira Sachs, Lukas Dhont é uma desilusão.

Francisco Ferreira
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Depois de ter filmado Western (2017), Valeska Grisebach (n.1968), excelente cineasta e nome maior do cinema alemão revelado neste milénio, percebeu que, mais tarde ou mais cedo, acabaria por regressar à Bulgária (onde o supracitado filme se passava), por ter encontrado naquele país uma estranheza peculiar, resultante da evolução histórica do Leste europeu. Espaço carregado de simbolismo, historicamente subjugado aos vizinhos e com passado comunista na segunda metade do século XX, é hoje limite de uma fronteira (da União Europeia com a Turquia e o Médio Oriente) ainda permeável a várias formas de actividade ilícita, nomeadamente, um ponto nevrálgico de prostituição, tráfico de pessoas e contrabando de bens. À linha meridional daquele país junto à fronteira turca chamou a cineasta de Western, aludindo a uma ideia de faroeste que o leitor subentende pelas nossas palavras.

Nove anos depois, eis que The Dreamed Adventure prossegue este inquérito, novamente com a ajuda do rosto expressivo de Syuleyman Alilov Letifov. Na ficção, o homem de meia-idade chama-se Said, espécie de filho pródigo de uma no man’s land em que os seus inimigos ainda recordam crimes passados. Em Matochina, junto à fronteira turca, roubam-lhe o carro; nisto, uma mulher da sua idade, Veska (Yana Radeva), oferece-lhe auxílio, pois conhece-o de outras vidas.

https://www.youtube.com/watch?v=Js1IBgEcaeE

Ambos estão, por motivos distintos, ligados a Illiya (Stoicho Kostadinov), cacique local que controla uma nova geração de pequenos mafiosos que traficam imigrantes e gasóleo. Mas há aqui, apesar da ameaça que se sente pairar, mais buddy movie e ironia de gente madura do que drama. Valeska inventa um grupo de personagens sempre disponíveis para partir para onde o filme as quer levar. As cenas são sempre bem construídas e é literalmente impossível prever a seguinte. O guião sugere com inteligência um cruzamento entre passado e presente lançado pelo pretexto de um acerto de contas que ninguém está realmente interessado em fechar. Por um lado, “não tenho saudades do comunismo”, diz Said. Por outro, “a arqueologia é coisa para europeus…”, ouve Veska, em jeito de raspanete, dos seus conterrâneos que, embora europeus, não se sentem como tal. Belíssimo filme este que, só por milagre, poderá cair nas graças (e no palmarés) do júri presidido por Park Chan-wook. Pois foi do melhor que se viu em Cannes.

Rami Malek “over the top” em The Man I Love

Já aqui se escreveu o que, regra geral, foi entendido pela crítica de Cannes 2026, excepto para alguns atarantados: esta edição deixou a desejar, nem os consagrados estiveram ao seu nível, nem os estreantes, na sua maioria, cobriram a aposta que o festival neles investiu. Caso especialmente aflitivo é o de Ira Sachs porque The Man I Love é um filme cheio de valor, na abordagem ao seu período histórico (a Nova Iorque da epidemia da Sida no final dos anos 80), na construção do seu melodrama triangular, no trabalho de quase todo o elenco.

E foi apenas o segundo filme anglo-saxónico a concurso, numa edição em que as homenagens também não correram especialmente bem ao festival. A que foi dada ao neo-zelandês Peter Jackson, que veio receber uma Palma de Ouro honorária, foi momento morno e o segundo prémio equivalente acabou por ficar tocado pela ausência inesperada de Barbra Streisand, por motivos de saúde. Tanto assim foi que Cannes 2026 inventou “do nada” uma terceira Palma de Ouro honorária a John Travolta, a propósito do auto-biográfico e simpático Propeller One-Way Night Coach, que a plataforma Apple se encarregará de divulgar. Um filme com a singeleza dos ingénuos. A obra de Ira Sachs tinha, por isso, a responsabilidade acrescida de vincar o cinema americano e de recuperar um cineasta a sair de fase menos boa.

The Man I Love não vem apenas da canção de George e Ira Gershwin eternizada por Walsh no filme homónimo com Ida Lupino. O título, de facto, é uma equação desde o início. Quem ama é Dennis (que papel fabuloso de Tom Sturridge, o melhor dos secundários vistos em Cannes). O homem amado é Jimmy (Rami Malek), que se agarra o mais que pode à vida quando o filme deixa entender que ele já está infectado. Jimmy e Dennis são um casal quando se instalam naquele prédio de Nova Iorque em que já vive Vincent (Luther Ford). À sua maneira, também este amará o protagonista.

https://www.youtube.com/watch?v=K0RO2oN2bFQ

Não há antipatia qualquer por Rami Malek, que é um ator do método, já oscarizável (pelo seu Freddie Mercury), pronto a receber a luz da ribalta. Mas é exagerado o que ele dá a Ira Sachs, na composição, no timbre, no estilo afectado, como se (dizêmo-lo em sentido figurado) passasse The Man I Love a cantar uma oitava acima do resto do filme. A sua prestação compromete o melodrama.

Não se escreve aqui que não há reconhecimento do trabalho. Nada disso: Malek, afinal, pode muito bem sair do palmarés de Cannes com o prémio de interpretação masculina também disputado por Javier Bardem (El Ser Querido), Gilles Lellouche (Moulin), Niels Schneider (L’inconnue) e, num patamar abaixo, Adam Driver (Paper Tiger). O que se escreve é que a performance de Malek está deslocada do filme magoado e vulnerável que The Man I Love prometia. Outra vez: olhe-se para Tom Sturridge. É fenomenal o que faz na contracena.

Já com Lukas Dhont, chegou a desilusão porque Coward morre na indulgência e quando o belga tenta resgatar o melodrama, já é tarde de mais. Tudo certo que se tente fazer um filme queer em tempos de guerra (a escolhida é a I do século XX, especialmente sangrenta e dura de representar com seriedade), mas convenhamos: a guerra de Dhont é uma encenação plastificada e a aplicação do queerness àquela realidade histórica, tal como é dada, é impossível de ser sustentada e credível.

Ficam só as intenções, o esboço das ideias da reflexão identitária, naqueles dois rapazes, Pierre (Emmanuel Macchia) e Francis (Valentin Campagne), mutuamente atraídos na frente de combate, travestidos de mulheres nos espectáculos teatrais que oferecem ao resto dos soldados (e que existiram, de facto). Onde está o jovem e sensível cineasta belga que vimos despontar com entusiasmo aqui em Cannes, em 2018, com Girl: O Sonho de Lara?

O autor escreve segundo a antiga ortografia.