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Bruno Gonçalves: "Prefiro competir com o padre Guilherme, partilho com ele mais público do que com o Bardella ou o senhor Grila"

O Observador entrevistou Bruno Gonçalves em Estrasburgo numa entrevista com regras: evitar assuntos de atualidade, ser realizada num bar e acompanhada de uma cerveja.

Rui Pedro Antunes
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João Porfírio
photography

Bruno Gonçalves, tal como Sebastião Bugalho, também tirou o fato antes da entrevista, aparecendo com um look mais urbano-desportivo. Jurou ao Observador que era a primeira vez, desde que tomou posse há quase dois anos, que viu Estrasburgo de dia. Escolheu uma esplanada para a entrevista, mas como um saxofonista estava a fazer demasiado barulho para que se ouvissem as perguntas, a conversa teve de decorrer no interior de um bar ali ao lado, chamado Oktoberfest. Nome apropriado para uma entrevista com três premissas: realizar-se num bar, ser acompanhada por uma cerveja e fugir dos temas de atualidade.

O eurodeputado e ex-candidato à liderança da JS pediu uma cerveja sem álcool, ao contrário do que faz nos fins-de-semana. Até porque, por razões de saúde, anda a querer afastar-se da apologia do álcool. Sente-se, nessa matéria, “mais próximo da Gen Z do que dos millennials“.

Sobre ser alvo das revistas cor-de-rosa pela sua vida privada, Bruno Gonçalves diz não estar a par. E atalha: “O valor individual das pessoas nunca se mede por com quem está, mas por aquilo em que acredita.” Garante que não é agenciado pela Notable, agência de vários famosos, mas admite que agências de comunicação ajudaram no movimento cívico que criou (o “Bora”). Considera, numa reflexão mais teórica, que até há algo de artístico nas funções de um político e chega a citar Paulo Portas quando este um dia disse que “a política é uma arte performativa”.

Pareceu mais incomodado quando confrontado com o dilema de Pedro Nuno Santos, que um dia se auto-impôs a ideia de que era incoerente ter um Porsche e ser de esquerda. Fugiu à questão sobre se comprava peças de roupa caras, dizendo que se há algo de que não abdica é da liberdade de fazer o que entender. Até como consumidor.

Defende o mercado livre, não tem horror a Parcerias Público-Privadas e assume-se como um “social-democrata” (aviso: não confundir com o Partido Social Democrata português). Tendo Olof Palme como referência, chega até a reivindicar a flexisegurança como um modelo tradicionalmente de esquerda.

Engenheiro mecânico de profissão, quando provocado sobre o engenheiro que apostou nas energias limpas (José Sócrates), é rápido a desviar para outro engenheiro que começou a “descarbonização” e que “é hoje secretário-geral das Nações Unidas”, António Guterres.

O Bruno Gonçalves definitivamente não é “mais velho do que a Sé de Braga”. Incomoda-o um bocadinho esse idadismo de que é alvo?
O idadismo já está na pergunta e, portanto, é difícil escapar dele na resposta. Sobre a cerveja sem álcool, ela é um apanágio, sobretudo, dos dias de semana. Os fins de semana podem ser coisas um pouco distintas. Ainda que eu tenha tido um grande distanciamento nos últimos meses — um pouco menos ideológico, mas muito mais do ponto de vista da saúde — dessa apologia permanente do álcool. Talvez nisso me aproxime muito mais da Gen Z do que da geração Millennial, da qual faço parte. Há todo o mérito na pergunta sobre a idade da Sé de Braga. Ela é, aliás, contestada e uma referência para qualquer orgulhoso bracarense. No meu caso, nascido em 1996, resta-me dizer que tenho tanto orgulho na história da minha cidade como no percurso político que fui desenvolvendo. E, portanto, essa marca característica do nosso percurso acaba por ultrapassar sempre, até do ponto de vista do mérito, a idade porque muitas vezes vamos aprendendo com os mais novos. E noutras vamos aprendendo com os mais velhos.

O “é tão novo” é uma expressão que o irrita?
Não sei. Sou tão novo?

Imagino que lhe digam algumas vezes, já apanhei em alguns momentos.
Acho curioso, porque gosto. Primeiro porque não é por gostar de coisas diferentes. A partir do momento que temos, até do ponto de vista da responsabilidade, uma exclusividade maior, temos também, de um ponto de vista de consequência, a necessidade de provar mais o nosso valor. E portanto, essa ideia do “é tão novo”. É tão novo para quê? Para desempenhar um cargo? Para ter opinião? Para desenvolver pensamento? Para desenvolver atividade? É curioso, porque todas as grandes empresas do mundo nasceram de ideias dos tão novos. Todas as grandes revoluções nasceram pelas mãos dos tão novos. E, portanto, isso se calhar está muito mais associado a uma ideia de energia. A minha formação é em Engenharia Mecânica e se há uma coisa que podemos constatar, os mais novos e os mais velhos, é que a altura da vida em que nós temos mais energia é precisamente quando somos mais jovens. E, portanto, interpreto “o tão novo” como um elogio, até porque a única certeza que temos na vida desde que nascemos é que morremos. Estamos mais próximos da finitude da vida quanto mais velhos somos. E, portanto, prefiro estar mais próximo do meu nascimento do que da minha morte, e interpretá-lo como um elogio.

Já que quis ir aí, vou dar-lhe agora essa oportunidade, a de falar do movimento que criou [o Bora]. Consegue conjugar o verbo borar, não?
A primeira vez que perguntei…

Eu boro, tu boras…
A dopamina deveria estar numa supercarga nesse momento, mas perguntei ao meu primeiro convidado do nosso movimento “Bora” porque é que ele bora?

O Rui Paula.
Exato, perguntei-lhe: porque é que tu boras? E é curioso, porque o Rui Paula achou aquilo muito natural. E depois, a nossa convidada mais jovem, a nossa embaixadora mais jovem, que é aliás uma deputada da direita parlamentar, do PSD…

A Eva Brás Pinho.
Sim. E foi a Eva que me disse, mas isso não é um pouco cringe? Isso não é mesmo estranho de perguntar? E aí entendi, há uma diferença geracional de mim para a Eva Brás Pinho. O que quer dizer que os quatro ou cinco anos que nos separam são, até do ponto de vista de comunicação, provavelmente aquilo que os meus pais sentiam comigo nos meus 15 anos.

Os novos vão crescendo, não é?
Isso. Portanto, eu não sei. Não consigo conjugar o verbo borar, mas sou criativo o suficiente para poder inspirar essa palavra “Bora” a poder ser um verbo, sobretudo no imaginário dos mais jovens e dos menos jovens que queiram partilhar comigo este caminho de humanizar a sociedade e pelo menos transmitir nas redes sociais, nas redes digitais, aquilo que nós já pressentimos no mundo real. Que é: podemos ter diferenças amplas e grandes, mas quando nos sentamos a conversar, a probabilidade de nos respeitarmos é muito maior, e é aí que nós temos de transformar o espaço digital.

Há alguma ambição por trás desse movimento?
Há uma ambição muito grande, que é de mudar a forma como nós olhamos uns para os outros.

Ambição pessoal?
Essa é uma ambição pessoal. A minha ambição pessoal, aliás, é a razão pela qual faço política, é transformar o espaço onde me insiro. Não há maior ambição do que essa. E, portanto, o Bora tem essa ambição. É uma ambição pessoal, coletiva, individual, de mudar a realidade onde nos inserimos. E acho que nós chegamos a um ponto em que, indiferentemente de sermos pessoas de direita, de esquerda, tendencialmente concordarmos mais ou menos com o mercado livre, ou com uma ação dirigista da economia, independentemente de nós concordarmos mais com o espectro político de ser mais estreito ou mais largo, tanto do ponto de vista utópico como do ponto de vista real, tem que haver a habilidade para conversar. Tem de haver habilidade para nós entendermos que, dentro das balizas que nós entendemos na sociedade como aquelas que são aceites, do respeito pelo próximo, de um conjunto de direitos que são, em Portugal, entendidos como os direitos constitucionais, nós termos a capacidade de conversar. E isto seria muito normal de se fazer há duas, três décadas. Acho que isto seria normal de se fazer há uma década. O Bora, provavelmente, há dez anos não existiria. Não haveria necessidade para ele. O preocupante é haver a necessidade e, mais do que isso, haver apetite para isso. O que me tem surpreendido muito, mais do que nos mais novos, também nos mais velhos, é a forma como olharam para este movimento, que é um movimento de colocar pessoas a conversar com uma coisa inédita, extraordinária, como uma coisa muito necessária. Talvez o caminho que nos tenha trazido até aqui seja o mais preocupante. E aí sim, tão ambiciosos quanto possível.

Dedica uma parte, também, da sua atividade política a tentar desmentir algumas daquelas que são as mentiras do espaço público, do Chega, etc. Tem um espaço de debate com a Rita Matias, no canal Now. Há uma altura em que ela o acusa de ser pouco masculino. Isso incomodou-o particularmente?
Não sei a que é que isso se refere. Somos todas pessoas conscientes. Não me recordo desse momento em particular, mas não preciso ter uma capacidade de imaginação muito grande para perceber que isso vai de encontro àquilo que é narrativa de movimentos populistas, não só em Portugal, mas por todo o mundo. Essa ideia de que a masculinidade significa a opressão do sexo oposto. Ou, pelo contrário, a expressão maioritária das características masculinas num homem tem que significar a sua menor consciência perante o mundo, isto é, perante o outro ter mais respeito, ter mais dignidade, podermos respeitar a diversidade, não é a minha definição de masculinidade. A minha definição de masculinidade é ser consciente, pelo menos do ponto de vista do respeito pelo próximo. E é por isso que essa entrada no capítulo do género tem sido, para mim, até mais nefasta na consequência que ela depois aporta para os mais jovens, porque deixam de entender e isso vi em muitas escolas do país ao longo das últimas semanas, há uma geração que é crescentemente…

Sente lá a machoasfera, nas escolas?
Sim, acho que é real.

São os pequenos homens que odeiam mulheres?
Não sei se são os pequenos homens… Não consigo saltar para estas conclusões de forma tão precipitada e porquê? Tentei ao longo das últimas semanas desenvolver um pensamento que, aliás, admito que está por concluir. O que é que consigo denotar desta Gen Z? É uma geração desconfiada e, portanto, há uma falta de noção da confiança como princípio basilar da comunidade. E quando a desconfiança impera sobre os pais, sobre os amigos, sobre os namorados, namorado ou namorada, há a ideia de que o indivíduo está sempre acima de tudo, mas, mais do que isso, é o indivíduo que vale per se, ou seja, que não pode confiar no outro. Em cima disto, temos a geração pressionada. Eles sentem-se pressionados pelos pais, seja nos exames, sentem-se pressionados a amar de forma diferente. Isto é, muitos deles nunca perceberam o carinho e as emoções, nunca foram educados para isso, mas assistiram ao longo da sua vida, ao longo dos últimos 15 anos, a evoluções tecnológicas que nós não fomos capazes de ter nos últimos 200 anos e, portanto, a rapidez foi muito maior, mas está em cima disto também uma pressão diferente. E é a pressão do julgamento constante das redes sociais. São pessoas que nasceram a comunicar já com o universo de centenas de milhares, de dezenas de milhares, e quando são influencers de centenas de milhares de pessoas. Ou seja: a atividade deles não é apenas julgada pelos seus pares nas escolas, pelos colegas de turma, pelo diretor da escola, pelo professor, está a ser julgada sistematicamente por um conjunto de pessoas. É por isso que também acho que esta geração é simultaneamente, isto pode parecer até contraditório, muito consciente dos riscos do espaço digital.

Estão mais alertados para isso.
Muito mais. E já têm, aliás, ferramentas para isso, ou seja, nas redes sociais eles têm uma conta primária, depois têm uma conta secundária, que é fechada, depois têm os close friends da rede secundária e depois, muitos deles, ainda têm uma conta terciária que é para não ter uma cara e serem os indivíduos anónimos. Mas eles já fazem isto porque percebem a consequência de divulgar publicamente tudo aquilo que são os seus dados, as suas opiniões.

Dizem imbecilidades nessas contas [anónimas].
Naturalmente. Dizem muitas. E gostava de ir ao terceiro ponto sobre esta geração que acho que é, depois de ser a geração pressionada, a geração ansiosa. Aliás, há um livro sobre isso, mas a conclusão é imediata. Uma geração que passa por dia mais de oito horas no telemóvel, em termos de tempo de ecrã, uma geração que, em média, nos foi dizendo que dormia cinco ou seis horas por dia e que tem, aliás, do ponto de vista sintomático, uma expressão muito grande daquilo que são doenças do ponto de vista de saúde mental que já são preocupantes enquanto comunidade, não podemos deixar de, ao mesmo tempo, perceber que essas tais imbecilidades vêm daquilo que são as influências. Ora, se lhes perguntarmos se acham que têm acesso a mais informação do que, por exemplo, eu tive, eles dirão que sim. Se lhes perguntarmos, acham que podem validar essa informação. Isto é, se receberem uma informação, têm todos os mecanismos do ponto de vista de liberdade para perceberem se é verdade ou mentira, respondem que sim. Mas depois de lhes perguntar, mas dedicam tempo a isso? Eles respondem que não. E, portanto, eles preferem já absorver o conteúdo que lhes é fornecido por um influenciador A ou B, a quem eles atribuem credibilidade, ou sobre quem refletiram, perante uma mensagem da qual gostaram, e, a partir daí, tirar uma eleição: se o indivíduo A, que tem a opinião B disse isto, então isto é verdade. E, mesmo que não seja verdade, isto enquadra-se naquilo que eu penso e, portanto, também não quero encontrar um contraponto. É curioso que a geração que é consciente da sua maior liberdade e é também consciente dos maiores riscos e do quão nefastas podem ser as redes sociais, é também aquela que menos faz para combater essa parte que eu não acho que é tédio, porque acho que o tédio criativo, é uma coisa muito diferente, mas faz menos para combater essa passividade perante a informação.

"Não sou agenciado pela Notable. A Notable ajudou-nos [...] Nós tivemos uma ou duas agências de comunicação que ajudaram na divulgação do projeto [Bora]. Eu sempre trabalhei as minhas redes sociais de forma individual e assim continuarei a fazer."

O Bruno é agenciado pela Notable?
Não, a Notable ajudou-nos com… Nós tivemos agências de comunicação… Nós tivemos só uma ou duas agências de comunicação que ajudaram na divulgação do projeto. Sempre trabalhei as minhas redes sociais de forma individual e assim continuarei a fazer.

Há alguma coisa de ator naquilo que é a maneira de estar de um político? É preciso algum acting na maneira como se comunica?
Sim, ouvi o Paulo Portas, uma referência para a direita portuguesa, dizer uma vez que a política é uma arte performativa. E, portanto, isso vem da inspiração até greco-romana. Acho que a política, mais do que uma arte performativa, tem de ser uma arte orgânica e, portanto, acredito em comunicar aquilo que é real. E fi-lo, aliás, numa fase muito prematura da existência das redes sociais na política em Portugal e fi-lo porque acho que podem ser um canal muito importante de comunicação direta com as pessoas. Isto é: estou no Parlamento Europeu e durante estes momentos em que represento um conjunto de pessoas que são os cidadãos europeus, tenho também a possibilidade de explicar aquilo que são as minhas posições e nós temos feito isso e acho que as pessoas estão cada vez mais interessadas por esse tipo de conteúdo.

O Bruno tem sido alvo também de algumas revistas cor de rosa — pouco nos interessa com quem é que namora ou não — mas incomoda-o essa exposição mediática?
Pois, não sei. Acho que a partir do momento que são um instrumento, uma ferramenta quase política da introdução dos temas sem introdução.

Mas isso é para o diminuir ou é puro voyeurismo?
Não faço ideia, vamos lá ver, não acompanho.

Para o diminuir ou para o valorizar.
O que estou a dizer é que acredito que provavelmente quem faz a pergunta tem muito mais informação sobre as revistas cor de rosa do que eu tenho. Não me senti diminuído por nenhuma notícia de nenhum teor. Sei qual é o meu valor, sei o que é que faço enquanto representante, sei o que é que faço enquanto político e mais do que isso as pessoas procuram a minha opinião sobretudo para entender aquilo que penso sobre o país e sobre a Europa. E a minha opinião é muito clara e acho que o valor individual das pessoas nunca se mede nem por com quem está, mas sobretudo por aquilo em que acreditam.

Precisamente por aí e para perceber um bocadinho onde é que se situa ideologicamente queria perguntar-lhe se se define como um socialista ou como um social-democrata ao estilo de Olof Palme…
Social-democrata, ponto.

Não do Partido Social Democrata português.
O Partido Social Democrata português não é um Partido Social Democrata. Isso é muito claro.

E o Partido Socialista é socialista?
Não, o Partido Socialista é o partido da social-democracia em Portugal. E portanto se nós quiséssemos fazer uma revisão histórica dos nomes entenderíamos que o socialismo hoje que existe na Europa é um socialismo democrático e portanto é um socialismo que passou aliás por fases nomeadamente…

O PS devia chamar-se PSD para corresponder àquilo que é essa matriz de hoje.
Não. Honestamente acho que esse debate até é pouco interessante para as pessoas. Isso faz uma grande confusão quando são jornais internacionais a falar da realidade política em Portugal.

Mas é feita uma grande confusão quando são jornais internacionais a falar de atualidade política em Portugal.
 Vamos lá ver, no Parlamento Europeu, o PSD, aliás o PPD-PSD, porque PSD é um abuso sobre aquilo que é a sigla do Partido Social Democrata português senta-se na família do Partido Popular Europeu. E, portanto, senta-se com o Partido Popular Espanhol, senta-se com os conservadores cristãos alemães e senta-se com o conjunto de partidos que têm uma influência muito mais conservadora e muito mais da democracia-cristã do que naturalmente da socialdemocracia. Até porque a socialdemocracia e, aí sim, sem qualquer abuso de nome e replicando apenas o grupo no qual me insiro no Parlamento Europeu, o grupo dos sociais-democratas é o grupo do qual o Partido Socialista faz parte.

Já foi PES (Party of European Socialists). Já coincidiu o nome do partido com o nome da bancada.
Hoje há uma diferença, a diferença ideológica. Podemos recuar, veio sobretudo pela diferença que existia no pós-unanimidade desta Internacional Socialista, que é aliás uma internacional de partidos sociais-democratas com alguns partidos de género mais socialista porque a socialdemocracia não impera em grande parte do globo fora da Europa. Com a cisão com a aliança progressista, isto é um contexto histórico que levou depois a uma quebra até do ponto de vista de alinhamento entre o S&D e o Partido Socialista Europeu. Sou um social-democrata convicto, sou uma pessoa que acredita num Estado como articulado, um Estado como organizador e um Estado como capacitador das competências no mercado livre.

E cabe o setor privado aí ou não?
No mercado livre só cabe essencialmente o setor privado.

Parcerias Público Privadas é algo indesejável nesse modelo de sociedade que defende?
Pelo contrário. Colocamos demasiado ênfase nas perguntas para depois daí extrairmos respostas em função do passado. Já tivemos casos e ainda temos hoje na saúde, por exemplo em Portugal, as Parcerias Público ou Privadas, não estão vetadas. Têm é que corresponder a um critério que é de comparação com o público. Isto é: quem é que presta o serviço por aquele preço ou por aqueles critérios que estão estabelecidos. Não tenho do ponto de vista dogmático nenhuma reserva quanto a isso. Acredito que o mercado livre e que o capitalismo desenvolveram, sempre que regrados, mais riqueza e mais riqueza partilhada. E sempre que não regrados, isto é, sempre que a nossa fé excede a nossa capacidade de organizar a sociedade, acontece aquilo que temos hoje, que são desigualdades e assimetrias brutais. E é aí que o Estado também tem um papel fundamental. O Estado não deve ter um papel excessivamente regulatório, não deve ser sequer um Estado assistencialista, mas deve ser um Estado que ajuda os diferentes setores, sejam eles do setor público, cooperativo ou privado, a organizar-se e ter uma ideia. Por exemplo, na política industrial para onde é que nós queremos caminhar? E qual é o papel do Estado? O Estado português já teve papéis importantíssimos como por exemplo na dinamização de uma economia em Portugal que fosse a energia produzida através de fontes renováveis.

Quando tinha um engenheiro a liderar um governo, avançou-se nessa área.
O primeiro engenheiro a avançar nessa área foi um que hoje é secretário-geral das Nações Unidas. E, portanto, a agenda de descarbonização em Portugal começou mesmo com o engenheiro António Guterres e depois evoluiu com outros governos. E governos diferentes tiveram iniciativas. Temos de olhar para os resultados e os resultados são muito simples e indesmentíveis. Portugal produz hoje na União Europeia o megawatt-hora mais barato dos 27 Estados-membros. Isto é uma conquista política do país que não tem paralelo provavelmente na nossa história de produção energética. O que é que isso significa? Significa que se falarmos de Inteligência Artificial, há empresas que olham para Portugal como o país de entrada na União Europeia, porque a energia é mais barata. Aquilo que esta mudança de paradigma significa, e também para mim do ponto de vista de intervenção do Estado e do privado. Chegámos a um espaço quase permanente, a um fórum quase permanente de resposta à catástrofe na União Europeia do ponto de vista de competitividade. Mário Draghi apresenta um relatório, Enrico Letta apresenta outro sobre o mercado interno. Todas as semanas temos debates no Parlamento Europeu sobre a má ou a falta de competitividade do espaço europeu. Logo a seguir saltamos para a conclusão seguinte: tivemos demasiado investimento direto estrangeiro em setores críticos sobre os quais hoje temos pouco controlo, mas não fomos sobretudo capazes de fixar os mais jovens, que são a geração mais qualificada que esta União Europeia já produziu, para produzirem cá. Porquê? Uns encontram as barreiras regulatórias como um grande problema. Ainda que Mário Draghi diga que as barreiras regulatórias se todas somadas não representam sequer 5% do desvio entre a União Europeia e EUA, do ponto de vista de Produto Interno Bruto. E a diferença é muito maior do que os 5%, como nós sabemos. Ao contrário de outros países, se nos quisermos colocar no topo, que acho que é aí que a União Europeia se deve colocar, teremos de comparar com a política industrial dos Estados Unidos e com a política industrial da República Popular da China, uma política de mercado livre, mas com entidades regulatórias muito fortes. Nos Estados Unidos há multas severas caso uma fusão, uma merge, uma entidade privada não obedeça à lei. Vemos isso de forma muito mais gráfica com a administração de Trump. Um espaço muito grande para a atuação das empresas, mas onde as empresas não atuam à margem da lei. E temos outro exemplo, totalmente diferente, não do ponto de vista da economia de mercado, mas do ponto de vista da interferência do Estado na República Popular da China, onde os planos quinquenais definem sobretudo os setores críticos, que são setores altamente regulados, e é para setores não críticos que o mercado funciona, mas de acordo com aquilo que é a estratégia da República Popular Chinesa. Aqui na União Europeia nós fizemos talvez o pior dos dois mundos: retirámos a política industrial porque achávamos que a interferência dos Estados ou a intervenção dos Estados não era positiva para desenvolver uma economia plena de mercado, mas ao mesmo tempo não fomos capazes, do ponto de vista regulatório, de fomentar as melhores práticas nas nossas instituições públicas e muni-las dos melhores recursos. Ficámos naquela espécie de meio caminho, que não é nem tanto a Este, nem tanto a Oeste, e acabamos por ser aquilo que somos hoje, que é uma potência terciária do ponto de vista das novas economias, na Robótica, na Inteligência Artificial. E é uma pena que assim seja porque nós continuamos a ser, do ponto de vista científico e do ponto de vista das qualificações humanas, que é o essencial para qualquer economia se desenvolver, um dos continentes, se não o continente mais desenvolvido do mundo.

"O primeiro engenheiro a avançar nessa área foi um que hoje é secretário-geral das Nações Unidas. E, portanto, a agenda de descarbonização em Portugal começou mesmo com o engenheiro António Guterres e depois evoluiu com outros governos."

Revê-se mais em Pedro Sánchez ou em Keir Starmer?
Honestamente, entre os dois, revejo-me mais provavelmente na afirmação ou na firmeza de Pedro Sánchez e na possibilidade do diálogo e na convicção do diálogo de Keir Starmer. Não consigo decidir entre os dois, seja de forma clara. Primeiro é preciso analisar contexto e nós não vamos ter tempo nesta pergunta para fazer isso.

Não tem de o fazer.
Não é por falta nem de conhecimento, nem de vontade, é porque não quero depois ser interpelado de uma forma em que escolher entre A e B é posto só no prisma de querer promover.

Mas às vezes, entre Kamala Harris e Donald Trump conseguia escolher.
Sim, mas vamos lá ver.

Sem pensar. E sem contextualização.
Naturalmente, mas há coisas que são menos óbvias na vida. A não ser que me diga que tudo tem uma resposta de sim e não, na qual não acredito, provavelmente não consigo dar uma resposta. Nem quero dar uma resposta imediata a essa pergunta sem contexto.

Quer ver que há uma que consegue dizer sim ou não? As duas pessoas que referi são dois chefes de Governo. Quer um dia ser primeiro-ministro de Portugal? Sim ou não?
Não, não tenho essa ambição pessoal. A minha ambição é ajudar a mudar o país e contribuir para que jovens como aqueles que conheço…

…pode só deixar aí gravado no microfone a expressão “Eu não quero ser primeiro-ministro de Portugal” para depois usarmos.
Não. Fez-me uma pergunta hoje, 20 de maio de 2026, e estou a responder perante aquilo que sei. Se tenho essa ambição pessoal, se tenho esse grande desígnio pessoal, não tenho. Se gostava de ter um impacto no meu país que ajudasse sobretudo as pessoas que conheço da minha geração, os mais jovens a fixarem-se em Portugal, a ter uma social-democracia desenvolvida como são os países nórdicos no continente europeu, adorava fazer isso. E acho que vou fazê-lo ao longo da minha vida de diferentes formas. Já o fiz no setor privado, estou a fazê-lo hoje em representação do país no Parlamento Europeu e terei tempo diferente, seja através da expressão política, da expressão artística, do trabalho. Seja ele no setor público ou no setor privado, de o fazer, esse é mesmo o meu grande desígnio e a minha grande ambição.

A derrota para a liderança da JS desencantou-o de alguma forma?
Não, ao contrário. O meu desencanto… Sou muito rápido a responder às perguntas, menos àquelas em que não tenho uma resposta firme porque acho que quando avançamos para as decisões, temos de ter um quadro de reflexão anterior a essa decisão. E a minha decisão de candidatura justificou-se precisamente com o desencanto, com muitas coisas que aconteciam na Juventude Socialista e que, aliás, são transversais a muitas juventudes partidárias. Mesmo que fosse um erro, sou muito mais da apologia da cultura do erro, o erro como aprendizagem, mas para mim não foi sequer um erro ou um dissabor. Aprendi muito. Conheci muitas pessoas por todo o país e outras com quem tive a oportunidade de aprofundar relações, mas também essa candidatura à JS faz parte do meu percurso. E ter perdido uma eleição também faz parte do meu percurso e tenho tanto orgulho nisso como em tantas outras coisas em que fui o melhor sucedido.

Pedro Nuno Santos creio que o escolheu, ou teve uma decisão importante na vinda para aqui, ele é uma referência para si, não?
Pedro Nuno Santos foi secretário-geral do PS e, ao contrário do momento que se tenta criar hoje contra os socialistas enquanto os socialistas individuais, acho que os socialistas são todos necessários e Pedro Nuno Santos também é necessário ao PS.

Pedro Nuno Santos, numa entrevista, não conseguiu dizer o valor do salário mínimo, não vou perguntar ao Bruno esse valor.
Mas eu respondo: são 920 euros. Também posso dizer o preço da carne e do leite. Já agora, digo-lhe que na Bélgica e em Estrasburgo não é proporcionalmente maior quando comparado aos salários.

Mas, como abraça essas causas, o que lhe queria perguntar se é mais correto LGBTQI+ ou LGBTQIAPN+ e se consegue explicar o que dizem essas siglas?
Tenho cuidado em defender os direitos humanos. A partir daí não entro nessa… Com aquilo que as pessoas sentirem melhor, eu sinto-me bem. Posso ser é muito claro: sou um defensor dos direitos de todas as pessoas do coletivo homossexual, transexual, por uma razão muito simples, é que elas são pessoas. Defenderei o direito delas como defenderei os direitos de qualquer uma das pessoas, sejam elas portuguesas ou não portuguesas. E isso é muito importante. Porque também não sou daqueles que classificam os direitos humanos como sendo direitos nacionais ou do contexto ao qual nós pertencemos.

Já vamos sair do Pedro Nuno Santos, mas ele como pessoa de esquerda sentiu que estava a ser incoerente a ter um carro como um Porsche. Porque sentia uma certa incoerência entre aquilo que era o estilo de vida. O Bruno compra peças caras? Isso é algo que lhe faz sentido?
Não tenho um Porsche, se é essa a pergunta. Peças caras, depende. Acho que já tive uma fase da minha vida em que era um consumidor mais frequente, hoje devo dizer que sou um consumidor muito desleixado. E, portanto, nem tempo, nem vontade. Prefiro muito mais experiências.

Não é que ser do PS tenha que ser a apologia da pobreza.
Deixe-me interromper, porque acho essa afirmação até desonesta: O PS não é a apologia da pobreza.

Foi o que eu disse.
Mas a interjeição coloca a possibilidade do PS poder ser o partido da apologia da pobreza. E o PS é o partido da apologia da riqueza, mas é riqueza para todos. E, portanto, não quero que os mais ricos sejam mais pobres, quero é que os mais pobres sejam mais ricos. Esta nota é muito importante, porque esta discussão de esquerda-direita tem sido colocada num tom, muitas vezes, que acho deselegante. Como também não acho que as pessoas de direita sejam apenas pessoas que querem que os mais ricos sejam mais ricos e que os mais pobres sejam mais pobres. Precisamos de honestidade intelectual em todos os debates. E, também, por isso, sendo uma pessoa do PS, sendo uma pessoa de esquerda em Portugal, sendo um social-democrata convicto, sou também uma pessoa que goza de um estatuto pleno de liberdade. Foi, aliás, por isso que me inscrevi no PS e não no outro partido. Foi o partido daqueles que existiam em Portugal, aquando da minha filiação, onde entendi que tinha maior espaço de liberdade. Era o partido de Mário Soares. É a partir dessa inspiração que gozarei da minha liberdade em todos os aspetos da minha vida, seja enquanto consumidor, seja enquanto agente político, seja enquanto cidadão, desde o dia em que nasci até o dia em que morra.

O Bruno, creio, defende a despenalização das drogas leves. É consumidor?
Não, não sou consumidor de drogas leves, nem drogas pesadas.

Nunca fumou um charro?
Já fumei, mas acho que isso é um pouco irrelevante até para o nosso debate. Não me associo às causas, nem defendo posições, por me sentir mais próximo delas de um ponto de vista pessoal. Aliás, partir para esse debate simplesmente porque uma pessoa é ou não consumidora… Imaginemos que alguém amanhã apareça a querer despenalizar as drogas pesadas. Se os comentários forem, mas é porque é consumidor… É um debate até ad hominem. Não é um debate político, é uma crítica à pessoa. Sou a favor da despenalização das drogas leves, porque aquilo que elas em casos, como o português, revelaram, é que aumenta a saúde pública e diminui os consumidores. É precisamente para querer combater o tráfico, querer diminuir o número de consumidores e é precisamente por reconhecer o efeito nefasto em muitas vidas que têm as drogas leves que nós precisamos de ser a favor das melhores políticas públicas que possam reduzir o consumo. E, já agora, aproveito para introduzir um outro tema, que para mim não é uma droga leve, mas que é um vício hoje com impactos muito razoáveis na sociedade e para o qual nós devemos estar mais do que alerta, atentos e avançar assim que possível com iniciativas legislativas que têm a ver com o jogo online. Outro dia reunia com os responsáveis da Santa Casa que diziam que há vários estudos que demonstram que no jogo online há menos pudor em jogar do que há no jogo físico, desde logo porque a pessoa deixa de ter de se deslocar e passa a estar em casa, provavelmente quase no anonimato dentro do quarto na sua privacidade, a fazer ou apostas no jogo ou a rodar uma slot machine de um casino online. A quantidade de vidas que ficam completamente arruinadas, a quantidade de créditos que têm sido feitos em Portugal com um risco altíssimo e que depois condenam pessoas a anos de miséria, hoje já deveríamos ter uma reflexão, ainda mais quando em cima disto temos uma quantidade enormíssima de casinos que são ilegais online. Tenho tentado promover aqui no Parlamento Europeu esse debate e levá-lo-ei tão longe quanto conseguir, que é promover uma regulação europeia de combate ao jogo ilegal online, sabendo que ele tem impactos em todas as faixas etárias.

Já jogou, já teve conta em algum sítio?
Já tive conta em apostas desportivas, provavelmente. Nunca foi para mim um tema muito relevante. Já conheci pessoas que pediram empréstimos muito superiores aos seus ordenados, a bancos e a instituições de crédito bancário diferentes, ao mesmo tempo, para poderem apostar. E que arruinaram as suas vidas. Estamos a falar de pessoas que levantaram 30 mil euros e que perderam esse dinheiro numa noite. E depois tiveram não só a experiência de ter de contar à família, aos entes mais próximos, como tiveram de pagar a vergonha social disso. E, em cima disso, ter de pagar uma dívida. Enquanto sociedade, não podemos fechar os olhos a isto e ainda menos quando o jogo é online, não está regulado. Estamos a falar de casas de apostas, muitas delas nem sequer têm uma coisa que, por lei, é obrigatória, que é a possibilidade de auto-exclusão do jogo. E é curioso, porque é um pouco como as redes sociais: nas escolas perguntávamos aos mais jovens o que é que eles achavam sobre a proibição das redes sociais. Achava, tendencialmente, que esta geração seria contra a proibição. Por várias razões, acho que é uma geração mais libertária do ponto de vista dos direitos adquiridos individuais. E as respostas, 80% a 90% foram tendencialmente contra. Seja a partir da proibição, seja a partir do controlo parental. E se nós olharmos para o caso do jogo, os dados demonstram que a maior parte dos jogadores considerados como tendo desenvolvido o vício do jogo, já pediram a auto-exclusão das casas de apostas. Onde é que eles não o podem fazer? Precisamente no jogo ilegal, quem beneficia e que lucra com isso.

Só para ir um pouco aos gostos culturais: que livros do José Saramago é que já leu?
O Convento, for sure. Assim, de repente, provavelmente só o Memorial.

Aqui, em Estrasburgo, Aviateurs diz-lhe alguma coisa?
Aviateurs é um bar conhecido em Estrasburgo, como sendo a única possibilidade de uma pessoa que trabalha nas instituições europeias de sair à noite depois da um ou duas da manhã, algo por aí.

Já lá foi?
Já lá fui e recomendo como uma primeira experiência para quem visitar Estrasburgo. E também recomendo como tendo sido uma primeira experiência a não repetir.

Tem mais de 3 mil seguidores no Instagram que o Sebastião Bugalho, sabia?
Não fazia ideia.

Isso deixa-o satisfeito?
Não. O Sebastião é um grande quadro do PSD. Deve ser um social-democrata cristão e é uma pessoa que tem feito um percurso também notável na sua afirmação política, pública, sendo jovem. E essa consequência de sermos mais ou menos seguidos nas redes sociais em função das opiniões que damos, ela é tão momentânea quanto os mandatos que nós desempenhamos, o mais importante é o impacto que nós temos na vida dos outros.

No TikTok tem mais de 100 mil seguidores.
Pois, não sei. Não, a última vez que vi tínhamos 80 e tal mil.

Se calhar são bots.
É curioso porque, no passado, já tivemos de reportar na página de Instagram, muito no início, porque de repente tínhamos mais de 2 mil seguidores. Numa altura quando tínhamos 5 mil ou 7 mil seguidores não contaram muito porque podiam ser seguidores comprados por alguém. Para diminuir. Porque os bots têm esta coisa: ainda diminuem o engagement, a partir do momento que o algoritmo deteta que são bots, imaginemos, chineses ou indianos a comentar as coisas, pode diminuir também a entrega do conteúdo às pessoas que realmente querem ver.

"O Jordan Bardella conheço, o Numeiro sei quem é e o Tiago Grila também salvo erro é o influencer com o caso de atropelamento. Prefiro competir com o Padre Guilherme, até porque provavelmente com o Padre Guilherme partilhamos do mesmo público com mais probabilidade do que com o Jordan Bardella ou o senhor Grila."

Mas o que lhe queria perguntar era se estava a competir com Jordan Bardella ou com o Sr. Mirtilo, o Numeiro ou o Tiago Grila.
Enfim, não sei quem é o Sr. Mirtilo.

Os outros conhece?
O Jordan Bardella conheço, o Numeiro sei quem é e o Tiago Grila também salvo erro é o influencer com o caso de atropelamento.

E o Padre Guilherme, que é outro fenómeno do TikTok?
Eu prefiro competir com o Padre Guilherme, até porque provavelmente com o Padre Guilherme partilhamos do mesmo público com mais probabilidade do que com o Jordan Bardella ou o senhor Grila.

Como dissemos, é de Braga, a cidade dos arcebispos, como é a sua relação com a Igreja Católica e, já agora, com a fé?
Foi sendo muito diferente. Fui batizado, fiz a primeira comunhão, fiz mais umas etapas, acho que fiz até o Crisma, mais por influência dos meus pais do que por influência própria. Hoje situo-me muito claramente no agnosticismo. Tenho ainda assim muita admiração pelos valores cristãos, até porque eles não são fundadores, eles derivam até de outra religião, que nós hoje desconhecemos. Como uma religião Islâmica, como sendo fundadora de muitos dos princípios das religiões monoteístas.

"Fui batizado, fiz a primeira comunhão, fiz mais umas etapas, acho que fiz até o Crisma, mais por influência dos meus pais do que por influência própria. Hoje situo-me muito claramente no agnosticismo.

A doutrina social da Igreja tem valores de esquerda.
Acho que não são de esquerda. Já tentei refletir sobre isso, são mais do que de esquerda. A doutrina da Igreja Católica, apostólica romana, tem sobretudo no seu código, se formos ver aquilo que são os 10 mandamentos, os 10 mandamentos não são mais do que um código civil. Era a forma de organizarmos uma sociedade há dois ou três mil anos e dizer: “Não podes roubar”; “E não podes olhar para a mulher do outro”, “E também não podes mentir”. Aquilo que nós hoje temos do ponto de vista até jurídico é baseado nestes valores: da confiança, da verdade, do respeito ao próximo. Se isso são valores de esquerda, então ainda sou mais de esquerda.

Só para terminar e lhe perguntar, se pudesse escolher uma figura histórica, pode estar viva, ou já pode estar morta, para beber uma cerveja consigo nestes últimos 40 minutos, quem é que seria? Com uma regra: vou vetar uma pessoa.
Posso adivinhar quem é que vai vetar?

Sim.
Começa por M?

Sim.
Mário Soares.

Ia vetar Mário Soares, precisamente. Não sei se era a sua escolha.
Agora poderia responder Francisco Salgado Zenha só para a contenda, até porque partilharam muito durante muito tempo. Provavelmente, a minha escolha seria Mário Soares. E posso dizê-lo porque Mário Soares é uma referência internacional portuguesa, não é uma referência portuguesa internacional. E tem tanto de pragmático como de libertário, no sentido em que me incluo. Se tivesse de olhar para outros exemplos, poderia querer falar de Bruno Kreisky, pelo que fez do ponto de vista da organização na Áustria dos direitos dos trabalhadores. Poderia falar de Olof Palme, pelo desenvolvimento de um modelo social-democrático nórdico, com uma economia de mercado que ainda hoje existe, até do ponto de vista dos debates. É curioso porque em Portugal o debate da flexisegurança é quase sempre associado à esquerda e à direita, quando, muitas vezes, se tiver a proteção social certa e a organização, isto é, contratação coletiva, organização sindical, é um modelo tradicionalmente de esquerda. Ou até de Willy Brandt, mas vou escolher uma referência… Viva ou morta, já agora?

"Uma das minhas escolhas seria Nelson Mandela. Estive no museu do Apartheid na África do Sul e foi um dos museus em que me lembro de chorar a ouvir relatos daquilo que era a perseguição à comunidade negra ou preta e a forma como era violentada gratuitamente pelos brancos na África do Sul. Aquilo que ele fez, a forma como ele não só pacificou um país, mas como dialogou internamente estando preso, é notável. Nelson Mandela, por 40 minutos, já acho um abuso de pedido de tempo a Nelson Mandela para falar com um mero brancarense."

É indiferente. 
Vou então escolher duas. E vou a duas não-europeias. Uma Nelson Mandela, porque o exemplo que ele consegue dar… estive no museu do Apartheid na África do Sul e foi um dos museus em que me lembro de chorar a ouvir relatos daquilo que era a perseguição à comunidade negra ou preta e a forma como era violentada gratuitamente pelos brancos na África do Sul. Aquilo que ele fez, a forma como ele não só pacificou um país, mas como dialogou internamente estando preso, é notável. Nelson Mandela, por 40 minutos, já acho um abuso de pedido de tempo a Nelson Mandela para falar com um mero bracarense. Mas, referência viva, até porque além de gostar dela temos uma boa relação, mas raramente vamos falando, Jacinda Ardern. Fui secretário-geral da União Internacional de Juventudes Socialistas. Jacinda foi presidente 20 anos antes. Foi a primeira mulher a ser a primeira-ministra da Nova Zelândia. Foi também a mais nova a sê-lo e acho que o seu percurso, além de notável, é muito humano. E deixa-me a mim a pensar muitas vezes sobre uma coisa tão simples como seria um mundo governado maioritariamente por mulheres. Nunca o tivemos nas nossas sociedades modernas, ao longo destas muitas centenas de anos. Nunca o tivemos na História de Portugal. E, portanto, talvez ela possa ser uma inspiração, não só para as jovens e menos jovens mulheres que nos acompanham, mas possa e deva ser também uma inspiração para políticos como eu.

O Observador viajou a convite do Parlamento Europeu