Setenta anos separam o Torreense daquela final no Jamor. O FC Porto venceu a prova rainha na temporada 1955/1956. Nesse dia, o conjunto de Torres Vedras perdeu aquela que seria a mais importante competição do seu palmarés mas ganhou algo mais difícil de conquistar: história. Esse capítulo repete-se esta época, com o clube à procura de um final mais feliz que o último, mas ainda com outro atrativo. A Taça que o Torreense quer conquistar frente ao Sporting disputa-se entre dois jogos que poderão levar o conjunto azul-grená ao mais alto patamar do futebol português no duelo frente ao Casa Pia, o 16.º da Primeira Liga.
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A primeira mão ficou empatada sem golos, as decisões serão jogadas em Rio Maior na próxima quinta-feira. O Municipal de Rio Maior poderá ser a próxima casa do Torreense, em caso de subida do conjunto azul-grená. Para já, a casa da equipa ainda é o Estádio Manuel Marques, que parece cada vez mais pequeno para aguentar o boom repentino do clube de Torres Vedras que tem em mãos mais dois jogos que definem o seu futuro a curto prazo. É lá que, como na última quarta-feira, os adeptos atestam a vitalidade do clube: são muitos e vão para dar espetáculo nas bancadas.

“Quando passa o comboio, é golo do Torreense”
No Jamor não será diferente, garante Frederico Martins, adepto e antigo atleta do clube. Hoje, depois de deixar o futebol em 2024/2025, tem um pequeno café na estação de comboios da cidade. “Quando passa o comboio, é golo do Torreense”, conta ao balcão. Querem-se, por isso, “todos os comboios possíveis e imaginários” para “caçar o leão”, com a ajuda de muitos adeptos que se vão organizando para pintar as bancadas do Estádio Nacional de azul-grená.
Há cerca de um ano, o Torreense fechava com uma derrota frente ao Mafra (2-0) a sua participação na Segunda Liga. Na altura, o clube já tinha sido eliminado da Taça de Portugal há quase seis meses e aquela derrota não decidia nada. Hoje, o contraste é notório: são seis dias que o clube de Torres Vedras, qualquer que seja o desfecho, já pode apontar na sua história mais do que centenária. O contraste é ainda maior quando se compara o atual Torreense ao de 2010/2011, que militava num terceiro escalão que albergava 48 equipas e em que só duas subiam para a Segunda Divisão. Tudo isto antes da criação da Liga 3, onde também jogou até chegar, mais tarde, às portas da Primeira Liga. Os tempos são muito diferentes dessa altura. Respira-se muita confiança em torno do Torreense. É só ouvir o ambiente nas redondezas do estádio. “Hoje é para ganhar, não?”, ouve-se perto do Mercado Municipal ainda a horas do jogo começar. “Vamos ver… 2-0, por mim, estava bom”, respondem.
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O que traz de volta o café da estação, que Frederico garante ditar o ritmo dos golos que o Torreense marca. Numa altura em que o clube se fecha sobre si, devido à fase decisiva da época em que se encontra, é numa estação ferroviária que se tenta perceber como é que aquele clube outrora da Zona Sul do terceiro escalão tem à porta o comboio da Primeira Liga e ainda uma passagem para o Jamor. A entrada do empresário Qi Chen em 2015 visava inicialmente garantir a estabilidade financeira e a formação de jovens atletas chineses. O clube, no entanto, acabou por recuperar a maioria do capital da SAD em 2019, por 350 mil euros, após um período de deterioração de relações e da perceção de que o objetivo de subir à Segunda Liga tinha deixado de existir sob o comando do investidor chinês.

O cenário confirmava-se ao balcão do café. Apesar de sempre ter sido “histórico”, nessa altura o Torreense “era um clube mau pagador, tinha dívidas à autarquia”. “Hoje em dia, não”, conta Frederico Martins, que representou o clube por três épocas como sénior. “O grupo que está atualmente à frente do clube não tem limites. Ninguém conseguiria adivinhar há cinco anos que o Torreense estaria onde está hoje”, afirma. Não foi a visão de uma só pessoa mas sim de muitas, que foram passando pelo clube ao longo dos últimos anos. “Foi uma grande caminhada de lá para cá. Deve ser atribuído o mérito a toda gente que a fez, nos últimos seis anos”, acrescentou. “Hoje em dia, toda a gente glorifica o Torreense, toda a gente quer estar do lado do Torreense. Foi a melhor coisa que fizeram no Torreense. Meteram o Torreense com o nome direito e limpo, que não tinha”, explicou. O ex-atleta revela que sabe “perfeitamente quem investiu no clube há cinco anos”, mas não quer “entrar em nomes”. Mas dá uma garantia: “O clube vale hoje 10 ou 20 vezes o que valia”.

A melhoria das infraestruturas depois de recuperar o capital social da SAD
A transformação foi além dos resultados em campo. As infraestruturas foram melhoradas e a criação de “três campos de treino” acabou com a “dispersão” da formação, que estava espalhada por recintos que não pertenciam ao clube. Esta melhoria estrutural permitiu que os jovens atletas passassem a estar “mais perto de casa”, conferindo ao emblema uma “nova dinâmica” que proporciona uma proximidade entre escalões e departamentos, que só a proximidade física permite. Com Frederico, concorda António Santos, sócio do clube há 53 anos. O investimento na formação “foi um grande desenvolvimento para o Torreense”. O sócio número 252 entende que a formação do clube contribui para “um grande desenvolvimento mesmo ao nível da população” de Torres Vedras. “Ver essas pessoas aí… um carinho que nunca se via. Antigamente as caras eram quase as mesmas, ia-se a um café e as caras eram sempre as mesmas, e aqui era igual. Mas agora, com esta coisa da academia e tudo, muito ao nível da região, vê-se muita gente nova, muitos rapazes novos da formação. Rapazes e raparigas novos, o que dá logo outro ambiente a tudo isto“, explica.
No centro das infraestruturas está o Estádio Manuel Marques, que “quase de certeza não vai ser” o palco dos jogos na próxima época, caso o Torreense suba de divisão. A situação é vista com alguma apreensão porque “não jogar no próprio estádio é como não dormir em casa”. É “mau para todos nós”, diz Frederico. “Desde o comércio local até aos jogadores e à própria cidade”, explica, abordando a vida que a cidade ganha em dia de jogo do Torreense.
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À frente da administração do Torreense está atualmente Nuno Carvalho, um dos acionistas do clube. De acordo com uma declaração de transparência divulgada pelo Torreense, a 30 de abril de 2025, a Sport Clube União Torreense Futebol SAD assenta a sua estrutura num capital social de um milhão de euros. Nuno José Feliciano de Carvalho, que à data desempenhava funções como vice-presidente do Conselho de Administração, detinha uma participação direta de 17,62% no capital da sociedade. De acordo com o mesmo documento, o maior bloco acionista pertence à Sintoverde – LDA, com 33,0645%, seguida pela SCUT SGPS com 25,0125% e pelo próprio Sport Clube União Torreense, que preserva uma quota direta de 21,087%. A declaração dá ainda conta da família Almeida Ferreira Carvalho, com Pedro Nuno, Tiago Nuno e João Nuno a controlarem, cada um, uma participação indireta qualificada de 17,048%, através da Sintoverde.
A presente administração é a cara de um Torrense que tenta ainda vencer as dores de crescimento. Uma delas é o preço a pagar pelo sucesso: sair do Estádio Manuel Marques. Com ou sem subida, o clube quer melhorar a sua casa, com obras previstas no estádio já para o início da próxima temporada. Um novo relvado e uma nova bancada central nascente estão nos planos azul-grená para o Manuel Marques, que se projeta com capacidade mínima de 5.000 lugares.

Os novos sócios depois do brilharete da Taça. Entre eles, os adeptos do Sporting
O atual momento do Torreense convida a uma adesão cada vez mais intensa de novos associados. Um deles, em fevereiro, foi Filipe Gomes, de 21 anos. “Sou de Lisboa, mas o meu pai é daqui. Como queria apoiar um clube de fora de Lisboa, há cerca de cinco anos comecei a acompanhar o Torreense. Agora, sempre que posso, apanho o autocarro para vir apoiar a equipa a Torres Vedras”, conta o adepto, explicando que já colocou “umas quantas pessoas” a falar do Torreense em Lisboa.
“Ali na zona de São Domingos de Benfica já consegui convencer umas quantas pessoas. O meu primo tem lá um café e quando há jogos do Torreense há pessoas que vão lá e ficam ali a ver comigo. Tanto que o Torreense já começou a ser falado naquela zona por minha causa”, garante. O caso de Filipe é diferente do de muitos sportinguistas que se fizeram sócios do Torreense para poder adquirir bilhete para o Jamor. Foi registado um aumento de cerca de 2.000 associados nas últimas semanas, com os adeptos do Sporting a assumirem grande parte desse número de novos filiados. Muitos chegaram a adiantar um ano de quotas para garantir entrada no Estádio Nacional. Frederico Martins pede “respeito” e que “não levem” para a zona afeta aos azul-grená adereços relacionados com o Sporting.
Os 2.000 novos associados juntam-se a Frederico, a António, a Filipe e a Manuel Rosado, sócio n.º 1 do clube torriano. Manuel Rosado está a meses de fazer 100 anos. “Oxalá consiga lá chegar”, afirma. O sócio n.º 1 dos azul-grená era vivo não só quando o Torreense perdeu a final no Jamor com o FC Porto, como também quando o Jamor foi inaugurado. “São muitos anos de Torrense”, mas garante que nunca”‘desatinou” pelo clube. “Nunca me envolvi em zaragatas por causa do futebol e nunca cometi nenhuma loucura pelo Torreense”, assegura. É assim que olha para o clube: de uma forma mais “sóbria”.

Os banhos no Rio Sizandro, com passagem pelo campo do Torreense
Manuel Rosado recorda que a sua ligação ao Torreense começou de “forma muito natural” durante a infância, descrevendo o antigo campo do clube como um “bem comum”. Naquela época, as crianças e jovens atravessavam o campo do Torreense para chegar ao Rio Sizandro, onde tomavam banho “num ‘pegozinho’”. Manuel frequentou as imediações do campo “desde os cinco anos”, inicialmente acompanhado pelos seus irmãos. Para ele, o Torreense era, acima de tudo, “o clube da terra”, onde convivia com todos os seus “companheiros de juventude”. Era ali que, dos mais novos aos mais velhos, a cidade se juntava à segunda-feira para ver os jogos.
“O hábito comum era sair-se do emprego para ir ao Torreense assistir aos treinos de futebol”, lembra. Como os treinos decorriam todas as tardes, os sócios aproveitavam a “prerrogativa” que tinham para as acompanhar, acabando por “queimar um terço” do dia no campo entre o treino e as habituais “ralias” e “discussões” que ali se geravam. Mas, no Torreense, antes de dominar o futebol, dominava o basquetebol. O ritual da cidade começava, aliás, nos jogos de basquetebol. O programa “era ir ver primeiro o basket e só depois o futebol”. A transição deu-se mais tarde, quando o Torreense começou a “marcar uma posição mais vincada” e a dominar no campo de futebol, o que fez com que o interesse se canalizasse para os relvados. A decisão resultou, alguns anos depois, na final de há 70 anos no Jamor, que o Torreense disputou com o FC Porto de José Maria Pedroto, ainda jogador dos dragões, naquela altura.
Não é só no futebol masculino pelo qual o clube atualmente se destaca. O Torreense mantém estruturas de alta competição no futebol feminino e no futsal masculino, integrando os respetivos escalões mais altos a nível nacional. No futebol feminino, a equipa sénior disputa a Primeira Liga. No futsal masculino, o clube assegura a permanência no primeiro escalão, igualmente (foi eliminado esta semana nos quartos da Primeira Liga frente… ao Sporting, perdendo em casa por 5-0 e no Pavilhão João Rocha por 7-5). O futebol masculino tem agora a oportunidade de replicar os feitos, com a oportunidade de subir à Primeira Divisão, com uma final da Taça de Portugal entre os jogos do playoff de subida.

Agora, 70 anos depois, o Jamor repete-se nos livros de história do clube. A final começou já a ser jogada nos bilhetes. Sobre os novos consócios, Manuel Rosado diz que “não praticava tal coisa, mas cada um é livre de fazer o que quiser”. “Não mando na consciência das pessoas”, rematou. A sua presença no Jamor não tem grande questão: não vai. Vai acompanhar “à distância”, como tem feito nos últimos anos. “As pessoas, com a idade, vão-se desinteressando e desligando”, desabafa. O sócio número 1 do Torreense não desliga, no entanto, para lembrar que a chave do passado que pode funcionar para o presente e futuro do clube é “o carinho e apoio infinito da população” aos atletas. “Os jogadores andavam nas palminhas das mãos”, recorda.
É essa proximidade entre adeptos e atletas que pode fazer a diferença, não só contra o Casa Pia, como contra o Sporting no próximo domingo. O “carinho” sublinhado por dois dos sócios mais antigos do clube. O Torreense quer chegar ao fim da próxima quarta-feira com uma Taça de Portugal e um regresso à Primeira Liga garantidos, sem nunca perder o senso de proximidade a que o Estádio Manuel Marques convida. Por um lado, um futebol que chega longe. Por outro, os jogadores e os adeptos que se querem perto. Num cenário de grande mediatismo e alguma tensão, a minutos de começar o primeiro jogo do playoff, esse contraste fica patente na disponibilidade do filho do treinador dos azul-grená, Luís Tralhão, admitir que o pai “tem estado calmo e confiante lá em casa”, nas semanas que antecederam um cenário que se desenha em duas frentes: Primeira Liga e Taça. Outro dos exemplos é o pai de Léo, médio do conjunto torriano, que apoia os azul-grená desde que o filho chegou a Torres Vedras. “Vim do Brasil para ver este jogo e é para subir”, afirma.
Para já, há uma pausa na decisão de quem compõe a Primeira Liga 2026/2027. As atenções voltam-se agora para o Jamor, que representa a pequena ponta de um icebergue que já albergou banhos no Rio Sizandro, já teve mais basquetebol que futebol, procura um regresso ao mais alto patamar do futebol nacional e reedita uma presença septuagenária na final da Prova Rainha. Esse icebergue tem um nome e marca golos ao ritmo dos comboios: Sport Clube União Torreense.