Aquilo que começou como uma página satírica nas redes sociais transformou-se em poucos dias no maior fenómeno de contestação política e social na Índia. Em causa está o Partido do Povo da Barata, conhecido nas redes sociais como Cockroach Janta Party (CJP), que foi fundado por um estratega de comunicação indiano, Abhijeet Dipke, de 30 anos, que estuda na Universidade de Boston, nos Estados Unidos.
Em declarações à Associated Press, Dipke explicou que o projeto “não foi intencional”, mas começou apenas como uma página satírica surgida na sequência das polémicas declarações do presidente do Supremo Tribunal indiano, o juiz Surya Kant, que comparou os jovens a “baratas”.
“Há jovens que são como baratas, que não arranjam emprego ou que não têm qualquer lugar numa profissão”, disse Kant numa audiência em que acusou muitos jovens de serem “parasitas” que colocam em causa as instituições. As declarações de Kant causaram grande polémica no país, onde, como lembra a AP, as gerações mais jovens se têm sentido crescentemente descontentes com a classe política devido ao aumento do desemprego e à subida do custo de vida.
Em resposta às declarações controversas, o jovem Abhijeet Dipke criou uma página no Instagram — o “Cockroach Janta Party” —, uma paródia ao “Bharatiya Janata Party”, partido do atual primeiro-ministro, Narendra Modi.
Em menos de uma semana, a página já tinha mais de 15 milhões de seguidores, quase o dobro dos 8,8 milhões do partido do poder. Subitamente e de forma orgânica, o partido satírico, que não tem existência jurídica real como partido político, tornou-se a maior plataforma de agregação do descontentamento entre os jovens indianos.
Em várias páginas em redes sociais, o CJP tem publicado imagens provocatórias, memes e piadas, incluindo uma publicação com os pré-requisitos para se tornar “militante” do partido: estar desempregado, ser preguiçoso, estar cronicamente online e ser capaz de reclamar profissionalmente.
“Temos de compreender que, há cinco anos, ninguém estava disponível para falar contra Modi ou contra o governo. Os tempos estão a mudar”, disse Dipke à AP, explicando que o forte crescimento do CJP assenta nos “jovens que estão verdadeiramente muito frustrados” e “zangados com o governo” — e que não tinham, ainda, uma plataforma para mostrar esse descontentamento.
Apesar de o CJP não ser uma verdadeira entidade política, o sucesso da página satírica parece seguir o que tem ocorrido noutros países asiáticos, como o Nepal, o Bangladesh e o Sri Lanka, onde foram as camadas jovens a protagonizar manifestações que conduziram a mudanças políticas.
Dipke disse à AP acreditar que o movimento que criou “vai mudar o discurso político” e que, se for necessário, sairá do online para ir para a rua.