Palcos de rostos voltados para o ecrã em qualquer lugar! Da paragem do autocarro à fila num qualquer serviço, divide-se atenção entre mundo real e escrutínio digital com a sensação de que é necessário publicar qualquer coisa pessoal e acompanhar publicações de outros. Poucos suportam o silêncio, a quietude das coisas, menos ainda os que conseguem deter-se no azul do céu ou no horizonte do mar. Absorvidos por historietas, comentários e lições, procuram pessoas, mas encontram ecos no vácuo — vozes que se repetem numa necessidade de pertença ao rebanho de Nietzsche onde é preciso aprender a comer, educar e a pensar! Em vez de presença e escuta, vigora a submissão à montra das excentricidades.
Há um misto de angústia e ânsia neste teatro de maus atores com plateia obrigada a aplaudir…, mas pouco importa a representação se não puder ser medida em likes. No passado, a aprovação era analógica, a satisfação ligava-se à autonomia e à capacidade de viver de acordo com as próprias convicções. Hoje, parece ter estacionado nas metas e propósitos sujeitos à voga. É inútil negar, estamos demasiado condicionados por protocolos, seguimos à risca a convenção, a terapia, a mentoria, o layout de uma vida boa … se não cumprimos estamos fora, não existimos. Nada é mais assustador do que a inexistência.
A nossa imagem digital tem vida própria, age sem permissão e encobre a essência atrás deste boneco perfeito que apresentamos na reunião de trabalho, no grupo de amigos, e em especial no feed do Instagram. Sempre animado de vida imprópria e falas decoradas é fraude melhorada, corrigida, a substituir humanidade insuficiente.
É neste intervalo entre o que somos e o que mostramos que a mente vacila. As redes ditas sociais são espelhos deformantes — todos são felizes, produtivos e com dias muito interessantes. Nós, espectadores enredados na armadilha, comparamos os bastidores mal iluminados da nossa vida com a vida dos outros em palcos fluorescentes que se acendem para a encenação. Perdemos sempre!
Ansiedade, sensação de que algo está a acontecer, medo de perder o imperdível, receio de ficar para trás quando só vale fazer parte dos primeiros. Queremos saber quem são, quem vai à frente, perseguir, copiar, e porque não, ultrapassar a performance dos melhores através do ecrã como se fosse janela para a vida que importa. Não desligamos porque queremos ficar, mas porque temos medo de sair! Dependemos cada vez mais do deslizar de dedo, mecanismo inocente num mundo de conteúdo irrelevante onde o que conta é a sensação de possibilidade.
Falamos com muitos, escutamos pouco … quem sabe já não conseguimos escutar ninguém! Presentes em todo o lado e ausentes de nós. Sabemos bem quem somos, mas preferimos um outro que talvez nunca venha a existir, um protótipo de resiliência irritante. Hoje quase é dispensável o valor intrínseco e já não há felicidade silenciosa. Seremos tanto mais felizes quanto mais pudermos exibir? É mesquinho sim!
O problema não são as redes em si, mas a reconfiguração das pessoas, um processo sem princípio nem fim — obsessão de ser continuamente mais do que já fomos, escalada árdua com danos colaterais nos outros. Talvez não seja excessivo deixar em aberto: serão as redes sociais antissociais?
Com noção deste perigo há uma razão principal pela qual continuamos a voltar. Por detrás do ruído esconde-se um impulso profundamente humano: transcender! As redes sociais alimentam a reinvenção de uma personagem singular que se aproxime da imortalidade. O que nos agarra é algo impalpável que permaneça além de nós. Com este recorte de vaidade é muito fácil entrar num ciclo de dependência com características peculiares.
Alguns estudos das neurociências sugerem que o uso excessivo das redes sociais pode provocar descontrolo da atenção e sobrecarga sensorial, semelhantes ao Transtorno do Processamento Sensorial, desajuste entre aquilo que o corpo sente e o que a mente processa. Outras pesquisas sinalizam alterações no córtex orbitofrontal relacionadas com uso excessivo do TikTok, rede social considerada altamente viciante, e são cada vez mais os alertas científicos.
Falamos de um volume massivo de estímulos visuais e auditivos de alta intensidade, luz azul, cortes rápidos e sons agudos que elevam o limiar de excitação cerebral e tornam entediantes experiências do mundo real, como uma conversa tranquila ou o som do vento.
Enquanto os olhos e ouvidos estão num ambiente digital frenético o resto do corpo está imóvel numa postura de fechamento sem fome, sede ou sono. Este descompasso envia sinais contraditórios ao sistema nervoso, que podem resultar em fadiga sensorial e dificuldade em retornar ao “aqui e agora”. Após o uso, ocorre um declínio nos níveis de dopamina, neurotransmissor que regula o sistema de recompensa, e a ansiedade causada pela carência resolve-se com o regresso à fonte do vício.
Soluções? Óbvias e ao alcance de todos. O primeiro passo é naturalmente perceber que o problema existe e tem impacto na performance intelectual e emocional. Falamos de consciência, vertente neuropsicológica abordada por António Damásio no seu recente livro A Inteligência Natural: a lógica da consciência (2025), de onde retiramos a importância do sentimento de interioridade para este contexto em jeito de advertência: “A interoceção é um dos fundamentos da nossa humanidade. As maravilhas da exteroceção só podem ser devidamente apreciadas no contexto de uma interoceção normal.” (p.89).
Seguimos o pensamento do autor para alertar que, centrados no ecrã e com os sentidos voltados para fora, receamos que estejam em risco tanto a mente como a consciência, dimensões distintivas desta espécie que um dia fomos.