O petróleo volta a condicionar a economia mundial, e o impacto não se limita aos mercados financeiros ou às decisões do Banco Central Europeu. Também chega às prestações da casa das famílias portuguesas, além de agravar outros custos associados à inflação, da energia aos alimentos.
No centro desta nova escalada da cotação do barril de petróleo está o estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes a nível global para os combustíveis fósseis. Cerca de 20% do petróleo mundial transportado por via marítima atravessa diariamente este chokepoint (ponto estratégico de estrangulamento do comércio marítimo) entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico. Sempre que a circulação é ameaçada, os mercados reagem imediatamente. É certo que a região vai encontrando algumas alternativas, como o oleoduto saudita que liga os campos petrolíferos ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho, além de outras ligações terrestres através dos Emirados Árabes Unidos e do norte do Iraque até à Turquia.
Ainda assim, estas rotas são insuficientes para estabilizar o mercado petrolífero e compensar os efeitos do bloqueio em Ormuz. Desde o início do conflito no Médio Oriente, a 28 de fevereiro, e do consequente encerramento quase total do estreito de Ormuz, os receios em torno da oferta global de crude intensificaram-se, impulsionando o preço do Brent em cerca de 60%, dos 70 para os atuais 110 dólares por barril.
Mas o efeito não se fica pelo petróleo.
Do Estreito de Ormuz à prestação da casa de muitos portugueses, o mecanismo económico é relativamente simples de compreender. O bloqueio deste estreito tem impulsionado o preço do petróleo, influenciando diretamente a política monetária do BCE. Perante o risco de uma nova pressão inflacionista ditada pela subida dos preços da energia, o banco central da Zona Euro é forçado a subir as suas taxas de juro, movimento que tem pressionado em alta as Euribor, às quais está indexada a maioria dos créditos à habitação em Portugal. O movimento tornou-se particularmente evidente desde março, refletindo a crescente convicção dos mercados de que a inflação energética pressionaria o BCE a subir as taxas de juro. Petróleo mais caro significa maiores custos de transporte, pressão sobre a produção industrial e aumento dos preços no consumidor. O regresso da inflação dita uma política monetária restritiva pelo BCE.
Os mercados antecipam a subida das taxas de juro, sobretudo o monetário, ainda antes de o BCE agir. E é precisamente isso que já se começou a refletir nas Euribor. A taxa a 12 meses, devido ao prazo mais longo, acompanha quase a papel químico a evolução do petróleo e, consequentemente, as expectativas para a política monetária do BCE. Desde o início do conflito no Médio Oriente, a Euribor a 12 meses já subiu mais de 60 pontos base, descontando atualmente uma primeira subida de 25 pontos das taxas de juro do BCE na reunião de 11 de junho, outra no final do verão e, provavelmente, uma terceira na última reunião do ano, a 17 de dezembro.
Para muitas famílias portuguesas com crédito à habitação a taxa variável, e cujo crédito ainda não foi revisto, isso significa prestações mensais mais elevadas nos próximos meses. Ou seja, o conflito geopolítico no Golfo Pérsico acaba por entrar diretamente no orçamento das famílias portuguesas através de vários efeitos sucessivos em cascata: aumento dos combustíveis e da inflação, juros mais altos e agravamento da prestação do crédito à habitação.
A Europa surge particularmente vulnerável porque continua fortemente dependente de energia importada. Ao contrário dos EUA, que são autossuficientes em petróleo e gás natural, a Zona Euro permanece mais exposta a choques petrolíferos como o atual no Médio Oriente. Se Ormuz continuar parcialmente bloqueado e o petróleo permanecer em níveis elevados durante vários meses, o problema deixará de ser apenas energético ou geopolítico. Passará a representar também um risco económico e social crescente para a Europa e para as famílias portuguesas.
Se, por hipótese, o estreito reabrisse plenamente nas próximas semanas, o petróleo dificilmente regressaria de imediato aos níveis anteriores ao conflito. A oferta continuaria pressionada, os navios precisariam de tempo para reequilibrar cadeias logísticas e reabastecer stocks, permaneceria um prémio de risco geopolítico na região do Golfo e os seguros marítimos tenderiam a manter-se mais caros durante algum tempo. Além disso, muitas tripulações já exigem remunerações mais elevadas devido ao aumento do risco, uma pressão que poderia persistir durante algum tempo mesmo após uma eventual reabertura de Ormuz. Tudo isto contribuiria para manter o petróleo em níveis relativamente mais elevados do que antes do conflito.
Perante uma reabertura de Ormuz, seria plausível uma descida do Brent para perto dos 80 dólares por barril. Nesse cenário, pelo menos duas das atuais subidas das taxas de juro do BCE deixariam provavelmente de ser antecipadas pelos mercados, podendo mesmo desaparecer a expectativa das três subidas atualmente descontadas. Este cenário poderia ditar uma queda da Euribor a 12 meses à volta de meio ponto percentual, um alívio para as prestações da casa.
