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Viviane Gornick: Nova Iorque a seus pés

Será um livro de memórias, mas não será tradicional. "A Mulher Singular e a Cidade" parece mais a memória articulada, erigida em tom quase ensaístico, sobre a vida, a sós ou não.

Ana Bárbara Pedrosa
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Lê-se como quem passeia, entre a vida e a cidade ao mesmo tempo. Num momento, estamos com Leonard, melhor amigo da narradora; noutro, estamos em pontos diferentes da vida de Gornick, com relações que lhe marcaram a vida, e em momentos, à partida parcos, que servem para que o livro entre no tal tom ensaístico. Nisto, parece haver tanto da autora quanto da cidade no livro. Nova Iorque, ao invés de ser pano de fundo, é parte do livro, é relação intrínseca com a autora. É na relação com a cidade que se criam as expectativas de futuro e de carreira (viver na casa tal, na rua tal, ter a vida tal), e é nas caminhadas pelas suas ruas que a cabeça se obriga a mexer interiormente. A páginas tantas, sobre Leonard, a narradora diz: “Também ele tem a necessidade de sentir betão debaixo dos pés.” (p. 25).

Ora, a vida urbana aparece no livro como lugar de liberdade e anonimato ao mesmo tempo, e o leitor tem a sensação de aceder a ruas que são vida, e não cenário. Ao mesmo tempo, a cidade, enorme, mexida, que parece estender-se com as caminhadas feitas, é uma forma de organizar o pensamento. Os vendedores de rua, os barulhos, as conversas ocasionais, tudo cria uma espécie de comunidade sem posse, permitindo uma espécie de proximidade sem cara, já que a multidão acaba por implicar uma certa distância mesmo na partilha de espaço.

Parece que o texto avança sem grandes pretensões, porque a própria prosa tem uma limpidez que engana. Parece espontânea, e a autora salta de um tema para o outro, e vai de um amante ao outro, ou a outros assuntos, quase por acaso, mas só com ingenuidade não se vê a construção depurada do ritmo e do enredo. Há um substrato emocional a aguentar o peso de cada episódio, e cada um tem potencial para erguer uma reflexão que fica a arder o livro inteiro. O tom de Gornick é o de quem conta, o de quem conversa, e acaba por enganar: há uma arquitectura sob a prosa, transformando pequenas cenas em observações maiores sobre assuntos de calibre, como o fracasso, a independência, o envelhecimento. O próprio quotidiano nem chega bem a ser matéria narrativa, antes instrumento de pensamento, agora cristalizado na prosa. Desde um encontro aleatório a uma conversa com um amante, tudo existe não apenas para dar factos, mas para dar o que espoletam sobre a percepção do mundo.

Há, no livro, muito do que a vida tem, como relações falhadas, sonhos que foram ao ar, expectativas que não serviram para nada, e até algum desencanto. Ao longo das suas páginas, vemos escolhas e, de um modo lasso, a vida a acontecer, muitas vezes de forma banal, quase como quem não merece um episódio, e talvez seja por isso que, mesmo atado ao chão de Nova Iorque, o livro pareça ter um cunho universal – não porque a urbe o é, mas porque a incompletude, o querer andar para chegar a algum lado, o parece ser. Ao mesmo tempo, e ainda que Gornick nos ponha no centro da sua caminhada por Nova Iorque, a própria narrativa parece ir no sentido contrário, pelo menos no sentido em que se nota a ausência de um centro dramático que alavanque o leitor.

Em vez disso, o livro faz-se por acumulação: episódios, encontros, lembranças, conversas, observações que parecem soltas até que se forme uma imagem maior, um todo orgânico. Ora, esse todo orgânico não corresponde a um conjunto de dados biográficos, mas à composição de uma consciência, o que significa que não interessa propriamente o que aconteceu à autora, mas a forma como foi interpretando o que lhe aconteceu, e que pessoa saiu desta série de elementos.

Neste sentido, o livro até se afasta de parte da literatura memorialística contemporânea, que parece ter uma tendência para partir de um trauma fundador que justifique a escrita, que etiquete e salve o livro. Em Gornick, a matéria narrativa é coisa mais difusa – o tempo passa, as amizades sobrevivem ou não, os amores morrem e encontram abrigo silencioso no passado, as expectativas dão mortais para trás – e o resultado disto é a sensação de que a vida está desligada de uma crença que se tem em tenra idade, e que se volta para o épico ou para a epifania cristalina.

Com tudo pesado, A Mulher Singular e a Cidade não conta bem uma história ao leitor. Quem o lê e o fecha fica com a sensação de ter tido uma companhia, um outro olhar, um mergulho não na intimidade mas na vida que se vai delineando e que é pensada e repensada, reinterpretada e sentida. E, tendo o seu cunho biográfico, não dá ao leitor a sensação de saber alguma coisa que possa nomear-se ou numerar-se sobre Vivian Gornick. Em vez disso, parece que se andou com ela pelo tal betão, vendo a cidade e vendo os seus olhos, mais do que a ela – e vendo a cidade que passou a ser parte dela também.

A autora escreve segundo a antiga ortografia.