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(A) :: A China central, a Rússia marginal, ambas perigosas

A China central, a Rússia marginal, ambas perigosas

Analisamos a crescente assimetria das relações entre China e Rússia, e o facto de que também Putin não conseguiu o que mais queria em Pequim. E apontamos as consequências para a geopolítica global.

Bruno Cardoso Reis
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Uma longa e tensa história

A relação da Rússia com a China é longa, como é longa a fronteira de mais de 4000 km entre ambos os países, mas não tem sido fácil. Os primeiros choques vieram logo nos primeiros contactos, em meados do século XVII, quando a expansão imperial russa na Sibéria começou a ameaçar a Manchúria. Os imperadores Qing, que tinham derrubado a dinastia Ming, em décadas de guerras em torno de 1644, eram manchus, e fizeram questão de travar a expansão russa na sua região de origem. O resultado foi o tratado de Nerchinsk, em 1689. Foi o primeiro tratado em que a China lidou com outra potência em termos de igualdade, pondo de lado o sistema de Estados tributários que adotara como potência hegemónica na Ásia Oriental. (Quando as elites chinesas, hoje, se queixam de tratados desiguais esquecem, convenientemente, os séculos em que o próprio império chinês os impôs aos seus vizinhos mais fracos.) Curiosamente, um dos principais membros da delegação chinesa, muito elogiado pelo imperador Kangxi (1661-1722) por ter ajudado a ultrapassar um impasse negocial, foi um jesuíta português, Tomás Pereira, residente em Pequim, onde tinha acesso direto ao imperador, que dominava o latim, em que o tratado foi negociado, bem como o mandarim e o manchu.

Embora a Rússia se apresente, hoje, como parte do Sul Global, foi a potência imperialista mais agressiva na exploração da relativa fraqueza chinesa no século XIX. A Rússia aproveitou para anexar mais de 600.000 km2 de território chinês, em 1858. Vladivostoque, a capital do Extremo Oriente russo foi fundada, em 1860, no que tinha sido, até aí, território chinês. Estaline, a partir de 1945, apoiou militarmente os comunistas de Mao Zedong, mas resistiu durante anos a abdicar dos privilégios que tinha herdado do Império Russo no norte da China. A morte de Estaline e a denúncia do estalinismo e do culto do líder pela nova liderança soviética ainda aumentou mais as tensões com Mao, levando à rutura sino-soviética, culminando numa brutal guerra fronteiriça, em 1969. Nessa altura, o Kremlin chegou a ameaçar a China com armas nucleares, como agora faz regularmente com a Ucrânia e os seus aliados.

Tudo isso explica a reaproximação pragmática da China aos EUA, que espantou o mundo, em 1972, mas fazia grande sentido geoestratégico. Nixon tinha alguns defeitos, mas confundir os seus preconceitos com a realidade política global não era um deles. A China também culpou Moscovo, na era Gorbatchev, por encorajar os protestos massivos da juventude chinesa a favor da democracia, em Tiananmen, em 1989. Só com Putin, a partir do acordo de parceria de 2001, começou uma reaproximação. Ela tem-se consolidado com base em interesses convergentes em defender ditaduras. Nesse jogo Putin apostou no modelo tradicional de conquistar território, exportar matérias-primas e investir em armas. A China deu prioridade a modernizar as Forças Armadas – em particular da marinha, chave da projeção global de poder – mas também a liderar no investimento e no comércio externo, na inovação tecnológica e na produção industrial e de matérias-primas críticas. É evidente quem está a ter mais sucesso.

Uma ordem global multipolar para enganar tolos

Esta foi a visão para a política global do comunicado conjunto sino-russo. É evidentemente propaganda enganosa que usa uma retórica de promoção da “democratização” da ordem internacional para legitimar as ambições de ambos como grandes potências, em nome de uma suposta defesa do Sul Global. A prova? A China obriga a Rússia a fazer negócios a preços ruinosos porque Moscovo não tem mercados alternativos. Putin queria fechar, nesta visita, o negócio para um novo gasoduto – Energia da Sibéria II –, e isso não foi possível porque Xi quer espremer o preço e evitar o erro dos europeus de depender demasiado apenas de um fornecedor. A Rússia não é uma grande potência global, mas uma potência regional perigosa, mas com uma economia do tamanho da Itália, e com dificuldade em manter aliados voluntários – até a Arménia decidiu afastar-se. A China sabe isso e trata a Rússia em conformidade, e está a marimbar-se para a ordem multipolar. Pequim tem como prioridade, isso sim, competir com os EUA, em todas as dimensões do poder. E é um parceiro económico indispensável para muitos países – até para os EUA, como vimos com a guerra das terras raras – apesar de um pragmatismo por vezes a roçar o predatório. Os líderes chineses e russos não têm nenhum interesse em tornar a política internacional mais igualitária ou democrática, mesmo que tentem passar uma imagem de defensores dos fracos e de opositores do imperialismo, mas só se for ocidental.

A República Popular da China governa um território com mais de 9 milhões de km2, com mais de 50 grupos étnicos numa população total de 1,4 mil milhões de pessoas. Pode, por isso, ser vista como um velho império continental disfarçado de Estado-nação. O próprio nome do país remete para a centralidade do seu passado imperial. Em chinês a expressão Zhōngguó – 中国 – traduz-se por “Reino do Meio”, mas também pode ser traduzida como o “Império Central”. A ambição de “renovar” esse estatuto de grande potência, dominante na Ásia Oriental durante mais de 2000 anos, é a prioridade declarada de Xi Jinping, o atual imperador vermelho. A quantidade de líderes estrangeiros que tem visitado Pequim no último ano é impressionante – a Asia Society, baseada nos EUA, fez as contas. A conclusão é que Xi viaja menos e são cada vez mais líderes estrangeiros a ir visitá-lo. Em 2025 foram 50 visitas aos EUA e 75 à China. Terá alguma coisa a ver com o tratamento que Trump dispensou, por exemplo, a Zelensky ou Ramaphosa? A proximidade dos encontros de Putin e de Trump e de Xi tornou ainda mais visível esta crescente centralidade da Cidade Proibida na geopolítica global. O discurso oficial chinês apresenta explicitamente estas visitas como a consagração do regresso da China ao seu estatuto como grande potência. E, ao contrário do passado, China não precisa de fazer grandes concessões para ter o privilégio de uma visita presidencial norte-americana. E se muitos têm insistido, com razão, que Trump não conseguiu grande coisa como resultado desta visita, vale a pena sublinhar que Putin também não conseguiu o que mais desejava, como vimos.

Não sou fã do Partido-Estado chinês

Devo deixá-lo claro. Infelizmente, há cada vez mais pessoas tão consumidas pela cegueira ideológica que são incapazes de distinguir a análise de factos e a manifestação de preferências políticas. Quem quiser perceber como funciona o Mundo, tem de abandonar o conforto das grandes certezas alinhadas com os seus preconceitos, como tenho deixado claro aqui, em previsões muitas vezes confirmadas.

Não tinha nenhuma simpatia pela guerra de agressão russa contra a Ucrânia quando escrevi que era uma possibilidade bem real tendo em conta os meios militares mobilizados por Putin, em 2022. Não tinha simpatia por Trump, com o seu isolacionismo nativista e sultanismo político, quando, no verão de 2024, apontei para a sua reeleição como o resultado mais provável das eleições de novembro, bem como para as suas intenções de rever radicalmente a política externa dos EUA. Quando aponto para o facto de que o principal balanço das recentes cimeiras de Xi com Trump e com Putin é confirmar a crescente centralidade global do imperador comunista, não o faço por simpatia pessoal por Xi ou por favorecer o modelo de governação chinês. Faço-o porque ignorar factos é inútil e perigoso. Para resistir a esta tendência o Ocidente teria de mostrar que ainda existe e resiste, reforçando a sua coesão e melhorando a eficácia da sua economia e da sua diplomacia. Com uns EUA mais isolacionistas e estrategicamente mais caóticos isso será mais difícil.