Há poucas coisas mais irritantes na vida do que ter de suportar a sobranceria de um político que fala connosco como se fôssemos (nós, não ele) tontos, ou lorpas, ou pascácios. Infelizmente, acontece muitas vezes — e talvez isso ajude a explicar um bocadinho a reconhecida falta de confiança no regime. Afinal, se esse regime não confia em nós para nos tratar como adultos, por que razão havemos nós de confiar no regime? De qualquer forma, esta semana foi de mais. Depois de o Chega, o Bloco de Esquerda e o Livre terem proposto, em iniciativas diferentes, a abertura dos arquivos sobre as FP-25 de Abril e sobre a rede bombista de extrema-direita que atuou durante o PREC, o PS e o PSD foram a correr à cave buscar um tapume. Se depender deles, não será desclassificado documento nenhum sobre estes temas que o bloco central decidiu serem “sensíveis” e que decretou servirem apenas para acicatar “guerras culturais”.
Pedro Delgado Alves foi, como sempre, o principal porta-voz de um regime assustado com fantasmas. No Parlamento, o deputado socialista começou por admitir o óbvio: o bloqueio do acesso a estes documentos pode “dificultar o trabalho historiográfico”. Mas, depois, decretou que esse é “um sacrifício que a democracia vai voltar a ter de pagar”. Trata-se, sem dúvida, de uma frase grandiloquente. É preciso uma elevada dose de autoconfiança para um deputado vestir a farda da República, como se fosse uma estátua viva, e decidir, por si, quais são os interesses patrióticos que devem impor à democracia o pagamento de “sacrifícios” pesados.
Como um Cícero de São Bento, Delgado Alves continuou o seu exercício retórico. “A pergunta que devemos fazer é: 50 anos é tempo suficiente para não recearmos abrir os documentos? Não sei. E, na dúvida, perante as intenções declaradas de querer abrir uma guerra cultural, perante o momento de radicalização e de extremismo e de vontade de voltar a cavalgar estes temas, eu acho que não devemos fazer este exercício de viajar no tempo”. Olhando para os diferentes projetos, mas focando-se principalmente no do Chega, claro, fulminou: “Eles não são úteis à democracia em 2026”.
Uma pessoa ouve isto e fica, desde logo, com duas dúvidas. Pedro Delgado Alves consultou os documentos que decidiu remeter para as catacumbas do regime? Leu-os? A resposta, obviamente, é: não consultou nem leu. Sendo assim, como pode saber, com as certezas de um pregador, que o seu conteúdo “não é útil à democracia em 2026”? A confiança do deputado do PS nos eleitores está próxima do zero. Ele entende que, se nos retirarem o véu da santa ignorância que nos protege da verdade histórica, vamos todos transformar-nos em centauros políticos, metade cidadãos e metade “populistas”. Perante esse escandaloso perigo, os tutores do regime não podem permitir que nós, coitados, tenhamos acesso a informação sobre aquilo que realmente aconteceu há 50 ou há 40 anos. Como crianças, temos de ser protegidos de nós próprios.
Isto é especialmente perturbador por estarmos agora a terminar um longo período de comemoração dos 50 anos da revolução. Há não muito tempo, um governo do PS decidiu (e bem) que essa data merecia a instalação de uma Comissão que derramou sobre o país uma sucessão de exposições, concertos, livros e colóquios. Mas, aparentemente, esqueceram-se de nos avisar que este extenso “exercício de viajar no tempo” carregava uma limitação inultrapassável: só tínhamos autorização para lembrar os períodos do regime onde havia rios de mel, pássaros coloridos e pastos verdejantes; os momentos de sombra, nevoeiro e sangue teriam de se manter ocultos porque “não são úteis à democracia”. É o mesmo vício de raciocínio que levou a que o chamado “Relatório das Sevícias”, onde se documentavam as prisões políticas e as torturas cometidas pelo poder revolucionário, tivesse sido considerado “secreto” até 2021.
Pedro Delgado Alves cometeu uma derradeira, digamos, indelicadeza: usou as famílias das vítimas como escudo da sua decisão política. O deputado do PS afirmou no Parlamento que evitar aquilo que na sua cabeça seria “uma guerra cultural” é um dever “perante todas as vítimas da violência política, da extrema-esquerda, da extrema-direita, de onde quer que ela venha, e perante os seus familiares”. Ao contrário do deputado socialista, eu não presumo saber o que pensam os familiares das vítimas do terrorismo. Mas sei que todos estes circunlóquios do PS e do PSD me deixam com uma desconfortável dúvida: o que é que o PS e o PSD nos estão a tentar esconder?