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(A) :: Acusação contra Castro, mais sanções e movimentações militares. EUA insistem no diálogo, mas deixam "último aviso" a Cuba

Acusação contra Castro, mais sanções e movimentações militares. EUA insistem no diálogo, mas deixam "último aviso" a Cuba

EUA moveram navios para as Caraíbas, aplicaram sanções económicas e acusaram o líder revolucionário Raúl Castro de crimes cometidos em 1996. Semelhanças com ação na Venezuela faz soar alarmes.

Madalena Moreira
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O que deve ter uma mochila de emergência que deve ser mantida em casa? Como se faz um torniquete? Como se pode identificar um “ataque inimigo”? E o que se deve fazer nesse caso? As respostas a todas estas questões estão incluídas num panfleto que tem sido distribuído pelo Governo cubano durante as últimas semanas. Com o título “Guia Familiar para a Proteção contra a Agressão Militar”, o documento procura preparar a população cubana para uma possível ofensiva militar dos Estados Unidos a Cuba.

“[Os EUA] ameaçam lançar um ataque militar e destruir a nossa sociedade com o objetivo de perpetuar o capitalismo … e aniquilar o sonho do nosso comandante-em-chefe Fidel Castro. Caso o inimigo ataque, a nossa Revolução vai defender-se até à vitória ser atingida e o agressor ser expulso”, pode ler-se no panfleto, citado pelo LA Times. A hostilidade dos Estados Unidos em relação à ilha 150 quilómetros a sul da Florida é antiga, mas, sob a administração de Donald Trump, as tensões entre Washington e Havana atingiram o maior pico dos últimos 60 anos.

https://observador.pt/especiais/a-criacao-de-um-estado-cliente-dos-eua-e-o-regresso-do-cla-castro-trump-procura-uma-tomada-amigavel-de-poder-em-cuba/

O currículo da política externa do Presidente norte-americano contribui para alimentar a ansiedade em Cuba: apenas em 2026, a Casa Branca já capturou o chefe de Estado de um país e matou o Líder Supremo de outro. A administração Trump afirma que não está à procura de um novo conflito, procura uma “tomada de poder amigável” e, mais recentemente, diz que o Governo cubano está “desesperado” por fazer um acordo. Mas a imprensa norte-americana destaca que esta posição pouco faz para acalmar os ânimos, uma vez que foram exatamente essas as palavras utilizadas por Donald Trump imediatamente antes de interromper negociações diplomáticas para lançar ataques contra a Venezuela e o Irão.

Uma visita a Havana, sanções e detenções. Uma semana de ações de Washington em relação a Cuba

Os relatos de negociações entre diplomatas cubanos e norte-americanos já remontam ao ano passado e já tinham sido confirmados em 2026 por Washington e Havana. Porém, na semana passada, foi dado um passo extraordinário neste sentido: o diretor da CIA, John Ratcliffe, visitou Cuba, onde se encontrou com vários oficiais cubanos, entre eles Raúl G. Rodríguez Castro, conhecido como Raulito, neto e guarda-costas do antigo Presidente e líder revolucionário.

Se, por um lado, os EUA estenderam uma mão negociadora, por outro a pressão continuou, com uma sucessão de ações contra Cuba durante esta semana. Na esfera económica, os EUA anunciaram segunda-feira a aplicação de sanções contra onze responsáveis cubanos, incluindo o ministro das Comunicações e vários líderes militares. Sanções que surgem em paralelo com a manutenção de um bloqueio comercial ao petróleo, o que motivou sucessivos apagões na ilha, cada vez mais frequentes durante os últimos meses.

https://twitter.com/Southcom/status/2057131106005090406

Na esfera militar, o Comando militar sul dos EUA relatou a chegada às Caraíbas esta quarta-feira de um novo grupo de navios de combate, incluindo o porta-aviões Nimitz.

Os desenvolvimentos políticos foram ainda mais numerosos. Também na quarta-feira, Washington acusou Raúl Castro, de 94 anos, do homicídio de quatro pessoas em 1996, quando o Exército cubano abateu dois aviões civis, acusando-os de realizarem operações infiltradas para os EUA.

A acusação contra Castro é comparada pela imprensa à que foi feita contra Nicolás Maduro que, em 2020, foi acusado de comandar a alegada rede de narcotráfico “Cartel de los Soles”. Cinco anos depois, o “cartel” — que não é uma organização formal, mas uma rede descentralizada — foi considerado uma organização terrorista, meses antes de Washington lançar o ataque de 3 de janeiro contra Caracas.

Esta semana, o Departamento de Estado norte-americano anunciou ainda a detenção da irmã do diretor executivo do GAESA, o núcleo das Forças Armadas que controla cerca de metade dos negócios de Cuba. “Administrações anteriores permitiram que as famílias das elites cubanas militares desfrutassem de estilos de vida extravagantes, financiados com dinheiro de sangue, enquanto as pessoas que reprimem nos seus países sofrem em circunstâncias cada vez mais terríveis. Já não é assim”, declarou o secretário de Estado, Marco Rubio.

EUA procuram acordo negociado, mas lançam bases para “justificar” ataque

No domingo passado, o Axios avançou, em exclusivo, que Cuba teria adquirido 300 drones de combate e estaria a planear um ataque contra os Estados Unidos. “É preocupante. É uma ameaça crescente”, declarou um oficial norte-americano ouvido pela publicação, com conhecimento dos relatórios das secretas dos quais consta a informação — que foi, posteriormente, negada por Havana.

Brian Fonseca, especialista em Cuba e estudos de defesa na Universidade Internacional da Florida, argumenta que “o Exército cubano nunca lançou um ataque preemptivo contra os EUA”. “Seria suicídio”, caracterizou o especialista ao Wall Street Journal. Por esse motivo, considera que a divulgação da informação à imprensa foi uma escolha deliberada por parte da administração Trump para “fazer com que Cuba pareça uma ameaça iminente“, o que permitiria justificar um ataque.

"A campanha de pressão dos EUA para restaurar a democracia em Cuba entrou agora oficialmente na sua próxima fase. As acusações constituem um sinal claro para que os cubanos colaborem, sob pena de os Estados Unidos virem atrás de um dos líderes originais da revolução."
Jason Marczak, diretor do centro para a América Latina do think tank Atlantic Council

Contudo, publicamente, a Casa Branca não demonstra qualquer inclinação para uma operação militar. Esta quinta-feira, em declarações aos jornalistas, Trump e Rubio insistiram que estão à procura de um “acordo negociado” que tem como objetivo uma mudança de regime. Apesar de o conflito no Médio Oriente continuar, Cuba tornou-se esta semana o foco da política internacional da Casa Branca, tendo o Presidente norte-americano falado sobre o tema todos os dias.

“Eu consigo fazer um acordo, quer o regime mude ou não”, disse na terça-feira. “Não vai haver escalada, não acho que seja necessário”, afirmou na quarta. “Os outros Presidentes olharam para isto durante 50, 60 anos, [quiseram] fazer algo. E parece que vou ser eu a fazê-lo. Ficaria muito feliz”, disse depois, na quinta-feira, na Sala Oval. No mesmo dia, Marco Rubio vincava que este “algo” seria concretizado pela via diplomática. “Vamos dialogar com os cubanos, mas, no final de contas, eles têm de tomar uma decisão“, afirmou.

Terá sido essa a mensagem que Ratcliffe transmitiu aos oficiais cubanos com quem se reuniu em Havana. A visita foi um “último aviso” e um alerta que a “janela de oportunidade para fazer concessões se estava a fechar”, avança a CNN, que cita responsáveis norte-americanos com conhecimento das negociações. A acusação contra Castro reforça este mesmo ponto sem retorno nas relações entre Washington e Havana, considera Jason Marczak, diretor do centro para a América Latina do think tank Atlantic Council.

“A campanha de pressão dos EUA para restaurar a democracia em Cuba entrou agora oficialmente na sua próxima fase. As acusações constituem um sinal claro para que os cubanos colaborem, sob pena de os Estados Unidos virem atrás de um dos líderes originais da revolução”, pode ler-se num artigo de análise ao significado e consequências da acusação contra Raúl Castro.

Havana aceita dialogar, mas não cede na linha central: a resistência e sobrevivência aos EUA

“Viva Raul” e “Pátria ou Morte”. Os cânticos foram ouvidos esta sexta-feira de manhã num protesto contra a acusação contra o antigo Presidente, que juntou milhares de cubanos em frente à embaixada dos Estados Unidos em Havana e que contou com a presença do Presidente Miguel Díaz-Canel e de vários membros da família Castro, incluindo Raulito.

Apesar de os diálogos com os EUA continuarem, o chefe de Estado cubano viu na acusação contra Castro a mesma narrativa que o professor da Florida Brian Fonseca vê na divulgação dos relatórios das secretas sobre drones: a busca por um pretexto para lançar um ataque. “[Os EUA procuram] justificar a loucura de uma agressão militar contra Cuba”, afirmou Díaz-Canel, que considerou a decisão uma “ação política, sem qualquer base legal”.

O protesto e as palavras do Presidente mostram que o aumento da pressão de Washington sobre Cuba não mudou uma das linhas chave do regime: a resistência aos Estados Unidos. A abordagem resulta porque a Casa Branca também não tem particular interesse em avançar com um ataque militar, que provocaria uma crise humanitária às portas do país, atiraria um regime de quase 70 anos para algo imprevisível — dadas as características do regime, a possibilidade de encontrar um líder de transição como Delcy Rodríguez na Venezuela é reduzida — e que, na prática, poderia criar dificuldades.

“Tudo se resumiria ao tempo que conseguiriam aguentar com táticas de guerrilha. A estratégia central do Partido Comunista de Cuba é a sobrevivência“, sintetizou Evan Ellis, professor de estudos da América Latina no U.S. Army War College, ao Wall Street Journal.

Mas o antigo diplomata norte-americano Ricardo Zúñiga considera que este braço de ferro de Cuba com Donald Trump — ao contrário do que aconteceu com a última dezena de administrações norte-americanas — não é sustentável a longo prazo. “A frustração de ambas as partes poderá conduzir a um conflito, simplesmente porque Washington quebra a comunicação com o Governo cubano através desta acusação”, afirmou à CNN.