Cerca de três horas terão passado até que alguém salvasse B., de cinco anos, e Z., de três, depois de serem deixados pela mãe e pelo padrasto à beira da estrada nacional 253. Foi junto a uma vedação, ao pé de um canal cheio de água e não muito longe de arrozais alagados, entre Alcácer do Sal e a Comporta, que Alexandre Quintas viu os irmãos, que correram “a chorar e a gritar” atrás do seu carro.
Às costas, levavam mochilas com o que os adultos lhes tinham deixado: duas mudas de roupa, bolachas, uma garrafa de água e duas peças de fruta. Os pequenos sacos não deixaram dúvidas ao padeiro de Monte Novo que lhes abriu a porta do carro: tinham sido abandonados.
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Pouco depois, entre brincadeiras e já alimentados pela família Quintas, com gelados para os cativar, os menores relataram aos militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) aquilo em que Alexandre Quintas já acreditava. A mãe e o padrasto tinham-nos deixado, vendados, mandado procurar um brinquedo, e depois desapareceram. As autoridades ainda procuraram Marc Ballabriga e Marine Rousseau nas imediações, sem sucesso. O seu paradeiro foi desconhecido até se sentarem, um dia e meio depois, num café em Fátima, onde uma mulher desconfiou do casal e chamou a GNR.
Era o fim de uma fuga que começou em Colmar, França, sem qualquer aviso e que deixou surpreendidos tanto a família como o ex-companheiro de Marine e pai dos menores, que fizeram queixa junto das autoridades — até porque os menores estavam há dias sem ir à escola.
Marine Rousseau e Marc Ballabriga foram presentes a um juiz no tribunal de Setúbal na tarde desta sexta-feira, por suspeitas de violência doméstica e de crimes de exposição ao abandono. O Observador faz a reconstituição dos momentos desde que a família entrou em Portugal até ao momento em que o casal deu entrada no Tribunal de Setúbal.
A chegada a Portugal depois de atravessarem dois países
É dia 11 de maio e um Opel cinzento pára junto da bomba número 1 de um posto de abastecimento no IC5, em Miranda do Douro, a poucos quilómetros da fronteira espanhola. Uma mulher, que seguia sentada no lugar do passageiro, sai do carro para pedir ajuda ao funcionário a encher o tanque. Nas imagens captadas pelas câmaras de vigilância, também o condutor abandona o veículo com matrícula francesa. Lá dentro, é possível ver duas crianças a mexerem-se.
Para pagar o combustível, a mulher utilizou um cartão multibanco — o que deu um sinal às autoridades francesas que já seguiam o sinal do seu telemóvel. Foi com esta transação que a polícia que procurava Marine percebeu que a mulher de 41 anos já se encontrava em território português e, passado pouco tempo, teria acesso às imagens que mostravam Marine, Marc, B. e Z. em Miranda do Douro.
Depois deste “deslize”, Marine não voltou a fazer um pagamento com cartão, pelo que o seu próximo destino não é conhecido. Durante oito dias, andaram por Portugal sem serem detetados.
O último almoço em família
Estavam mais de 30ºC em Alcácer do Sal e o calor levou turistas e locais às esplanadas na margem do rio Sado, que não há muito tempo inundou toda a baixa de Alcácer. Marine e Marc não foram exceção. À hora de almoço de terça-feira, por volta das 12h, os dois adultos dirigiram-se, com as duas crianças, ao snack-bar Rustikus. Em declarações ao Correio da Manhã, uma funcionária do estabelecimento descreveu que B. e Z. comeram ambos “carapaus fritos e beberam leite achocolatado”.
De acordo com Teresa Pinto, as crianças “estiveram a jogar à bola” enquanto Marine e Marc permaneciam na mesa, e não recorda qualquer comportamento suspeito. Estiveram pelo menos duas horas no restaurante até voltarem a entrar no carro de matrícula francesa e prosseguirem a sua viagem.
O “senhor de óculos e barba” que escondeu as crianças
O que aconteceu logo a seguir ao almoço permanece uma incógnita. Foi só pelas 16h que o carro de cor escura e matrícula francesa voltou a ser avistado, mas desta vez fora do centro de Alcácer do Sal. Também não foi numa via movimentada, aliás, foi por esse motivo que o Opel chamou a atenção de Luís Henrique, que se dirigia no sentido oposto, na N253, rumo à Comporta.
O casal francês parou junto ao canal que segue em paralelo à estrada nacional que liga a Comporta a Alcácer do Sal, como relatou a testemunha à CMTV. “Estava a passar por Monte Novo [do Sul] e vi um homem com duas crianças a passar rente ao canal”, descreveu Luís Henrique. Foram “quatro ou cinco segundos”, mas o homem que seguia de mota pela N253 diz ter visto o que mais tarde descobriu ser B. e Z., um em cada mão do “senhor de óculos e barba”.
Quando fez contacto visual com Marc, o padrasto terá “recolhido as crianças para as suas pernas”, o que fez Luís Henrique pensar “que se passava alguma coisa de errado”. Naquele curto período de tempo, também foi capaz de identificar a mãe, Marine, que estava sentada no Opel à margem daquele canal a beber água. A agora testemunha ia a caminho de casa, chegou ao destino, e resolveu voltar àquela localização. “Mas quando lá voltei, já não vi nada”, acrescentou.
Os gritos e lágrimas que alertaram Alexandre Quintas
Três horas passaram entre as duas crianças e os dois adultos serem vistos juntos na estrada, até à chegada de Alexandre Quintas, a caminho do trabalho na padaria da família. Três horas em que estiveram sozinhos.
Os dois menores franceses correram atrás do carro do padeiro junto à vedação que separa a estrada do canal. Gritaram e choravam. Após alguma hesitação, Alexandre decidiu parar o carro e abrir a porta do carro, onde também seguia o seu filho de quatro anos. “Quando vi a mochila que levavam, com uma muda de roupa, água, duas peças de fruta e umas bolachas percebi que tinham sido abandonados”, relatou ao Observador.
Na sua casa foram alimentados, receberam gelados para quebrar o gelo e acabaram a brincar com os brinquedos preferidos do filho mais novo e a pintar desenhos. Acalmaram.
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A tradutora que ajudou os irmãos franceses a relatar o abandono à GNR
Poucos minutos após a chamada de Alexandre Quintas, um destacamento composto por cerca de seis agentes e três carros da GNR chegou ao pequeno aldeamento de Monte Novo do Sul (vivem seis a dez pessoas no local) para tomar conta da ocorrência. Na padaria Quintas e com a ajuda de uma médica francesa e amiga de um dos filhos do padeiro que serviu de tradutora, os militares da GNR interrogaram as duas crianças com o objetivo de entender o que se teria passado e para tentar confirmar as suspeitas de abandono.
Foi neste período de tempo que B. relatou terem sido vendados pelo padrasto e mandados procurar um brinquedo num “jogo” que terminou com a saída discreta dos adultos e as duas crianças a ficarem sozinhas num mato próximo daquela localidade.
Os irmãos também conseguiram identificar a mãe, quando lhes foi mostrada uma imagem de videovigilância em que esta surgia a abastecer o carro. “Maman, maman!“, disse B., o irmão mais velho.
B. e Z. ficaram internados durante duas noites
Apesar de as crianças não terem qualquer ferimento visível quando foram encontradas por Alexandre Quintas, as autoridades decidiram que seria melhor B. e Z. serem vistos por profissionais de saúde. Assim, os bombeiros chegaram a Monte Novo do Sul por volta das 23h, como relataram testemunhas ao Observador, depois de terem sido acionados pelo Centro de Orientação de Doentes Urgentes às 22h06.
Feitos alguns exames no local, as duas crianças acabaram por ser transportadas para o Hospital de São Bernardo, em Setúbal, onde ficaram internadas no serviço de pediatria. Ao Observador, fonte oficial desta unidade local de saúde garante que B. e Z. apresentavam “um bom estado de saúde” e que permaneciam naquelas instalações apenas por uma questão de monitorização. Os dois menores franceses acabaram por ficar no hospital durante duas noites.
O casal sorridente que alertou a dona do café O Vasco
Um galão, uma chávena grande de café e bolos. Foi este o pedido feito por um casal de franceses pelas 9h no café O Vasco, em Fátima. Izabel Santos, proprietária do estabelecimento, contou à CNN Portugal que os dois chegaram “sorridentes” ao café e que lá ficaram várias horas. A mulher passou uma grande parte do tempo a escrever numa agenda, com deslocações frequentes até ao carro. Já o companheiro “estava com muita labuta no telemóvel”.
“Estavam calmamente, tranquilamente, sorridentes um com o outro e a brincar com todos os clientes que chegavam”, contou a proprietária. Chegaram mesmo a ser interpelados por uma outra cliente que falava francês, que ficou curiosa com a situação e questionou o casal sobre o seu local de origem. “Eu moro no mundo”, respondeu o homem.
Outra mulher desconfiou do casal. “A minha prima disse-me: ‘Será que são estes os franceses que andam à procura?”, admitiu à CNN Portugal. Decidiu apontar a matrícula do Opel cinzento que estava estacionado perto da entrada e de onde a mulher francesa entrava e saía repetidamente, e contactou a GNR. A chamada e o alerta chegaram aos militares pelas 14h56 e, pelas 15h30, as autoridades identificaram os dois franceses como Marine Rousseau e Marc Ballabriga. A detenção ocorreu “sem resistência nenhuma”.
Família de acolhimento recebeu os dois irmãos
Nessa mesma tarde, os dois irmãos, B. e Z., depois de continuarem com um quadro clínico estável e sem qualquer problema de saúde após duas noites naquela unidade, receberam alta do Hospital de Setúbal.
No seguimento de uma decisão do Tribunal de Família e Menores de Santiago do Cacém, a tutela das crianças francesas — que estavam a ser acompanhadas pelos serviços da Embaixada de França — foi atribuída a uma família de acolhimento francesa, segundo a RTP. 48 horas depois de terem sido abandonados e após duas noites passadas numa unidade de internamento, B. e Z. dormiram numa casa em Portugal.
Pais das crianças passaram a noite na GNR de Fátima
Após a identificação no café O Vasco, Marine Rousseau e Marc Ballabriga foram transportados até ao destacamento da GNR em Fátima.
A detenção, por suspeitas de violência doméstica e de exposição ao abandono, acabou formalizada pelas autoridades e o casal passou a noite de quinta-feira nas instalações. Aos militares, optaram por não prestar quaisquer esclarecimentos e, segundo o Jornal de Notícias, também não perguntaram pelo estado de saúde das crianças que tinham abandonado 48 horas antes.
“Temos de parecer doidinhos”
No dia seguinte, militares da GNR de Setúbal encaminharam-se para Fátima para recolher Marine e Marc para os trazer de volta para a península a sul de Lisboa. Segundo o depoimento de um militar da GNR, foi nesta viagem que o casal foi ouvido a dizer: “Temos de parecer doidinhos.”
Pelas 12h50, os dois franceses chegaram ao destacamento de Palmela, onde o militar deixou o momento da conversa registado, com a audiência em tribunal marcada para “depois de almoço”. Mas a curta estadia do casal nestas instalações não foi pacífica. Ao que o Observador apurou, Marc terá estado “aos gritos” com os militares da GNR.
A canção de Marine e a declaração de Marc
Numa carrinha da GNR e acompanhados por meia dúzia de militares, o casal francês chegou ao Tribunal de Setúbal poucos minutos após a hora prevista. Quando as portas foram abertas, ouviu-se Marine a cantar, momento que foi nitidamente captado pelas câmaras e microfones dos jornalistas que aguardavam a chegada do casal.
Marc foi o primeiro a sair, algemado, e a gritar “Je vous aime” (Eu amo-vos, em francês) em direção às câmaras, apesar de não ser claro a quem se dirigia esta mensagem. Marine continuou a cantar, mesmo fora da carrinha e com as mãos abertas atrás das costas, enquanto atravessava a porta que liga a garagem aos corredores do tribunal, onde foram ouvidos por um juiz.
A mãe terá recusado prestar declarações e só o padrasto terá sido interrogado. Um interrogatório interrompido perto da meia noite e que continua este sábado, a partir das 10h00, para conhecerem então as medidas de coação. Até lá, a noite será passada nas celas da GNR de Palmela.
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