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Gerir cada euro como se fosse o último

Discutir o financiamento das freguesias é, na prática, discutir como queremos que o Estado funcione no terreno.

Luis Correia
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Quando falamos do Fundo de Financiamento das Freguesias (FFF), a maioria das pessoas não sabe do que estamos a falar. É compreensível. Mas é este fundo que garante o funcionamento das 3.258 freguesias do país — o nível da administração pública mais próximo dos cidadãos, o principal ponto de contacto entre o cidadão e o Estado, aquele que conhece o território ao detalhe e responde às necessidades concretas das comunidades.

O FFF funciona de forma simples: as freguesias recebem 2,5% da receita de IRS, IRC e IVA cobrada no país. Em 2026, isso traduz-se em cerca de 406,7 milhões de euros distribuídos por todas as freguesias.

Estamos a falar de cerca de 406 milhões de euros — menos de 40 euros por cidadão, por ano, para financiar o nível de administração mais próximo das pessoas. É, grosso modo, o que o Estado investiu numa única grande obra pública recente: a ligação do Marão. Uma infraestrutura liga territórios; as freguesias ligam o Estado à vida concreta das pessoas.

O Fundo de Financiamento das Freguesias representa apenas 2,5% das principais receitas fiscais do Estado. É com essa fração que se sustenta o nível de administração mais próximo dos cidadãos, aquele que assegura o contacto diário com a população e que, na prática, dá resposta a grande parte das necessidades concretas das comunidades.

O que fazemos com estes recursos

As freguesias asseguram a gestão e manutenção de espaços públicos, desde zonas verdes a equipamentos comunitários. Garantem pequenas intervenções que fazem a diferença no dia-a-dia — arranjos de caminhos, limpeza urbana, resposta a ocorrências imprevistas.

Paralelamente, desempenham um papel social crescente: apoio a idosos, acompanhamento de famílias vulneráveis, articulação com instituições locais.

São também dinamizadoras da vida comunitária, apoiando associações, promovendo atividades culturais e criando espaços de encontro entre gerações.

Em situações adversas, são as freguesias o primeiro nível de resposta às populações, assegurando intervenção imediata no território com os meios disponíveis.

O desafio da eficiência

Os custos operacionais aumentaram significativamente. O gasóleo, essencial para tratores, carrinhas e equipamentos, subiu mais de 30% desde 2013. A inflação acumulada neste período ronda os 25%. Mas o FFF mantém-se nos mesmos 2,5%.

Esta pressão permanente obriga-nos a gerir cada euro como se fosse o último — a definir prioridades com rigor, a decidir com rapidez e a eliminar qualquer margem de desperdício.

É esta disciplina de gestão, imposta pela escassez, que explica a capacidade de resposta das freguesias.

Mas este equilíbrio é conseguido à custa de uma pressão constante sobre os recursos disponíveis e de uma dependência crescente da capacidade de gestão local. Não é um modelo sustentável a longo prazo sem ajustamentos.

Uma reflexão necessária

Discutir o financiamento das freguesias é, na prática, discutir como queremos que o Estado funcione no terreno.

Portugal construiu uma rede de proximidade que funciona, que responde e que faz a diferença no dia-a-dia das pessoas. As freguesias são a expressão mais direta dessa capacidade.

A forma como as financiamos não é neutra. É uma escolha sobre o tipo de Estado que queremos: mais distante ou mais próximo, mais reativo ou mais preventivo.

Com 2,5%, as freguesias garantem presença, resposta e coesão no território. Reconhecer isso não é uma questão de valorização institucional — é uma questão de eficácia.