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A escritora fantasma: Siri Hustvedt e a memória de Paul Auster

Motivado pela morte do marido, o livro "Fantasmas — Um Livro de Memórias" é o retrato de um luto e uma experiência literária, da mais instintiva emoção à erudição e clarividência na escrita.

João Pedro Vala
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No documentário de 2016, 20.000 Dias na Terra, Nick Cave explica que quando, no início deste século, se mudou para a cidade costeira de Brighton, vindo de São Paulo, sentia-se frequentemente deprimido pelo tempo nebuloso de Inglaterra, pelo que criou o hábito de escrever um diário meteorológico, onde ia registando as ocorrências climáticas de cada dia. Através deste mecanismo tão simples, a pequena dor provocada pelo nevoeiro transformava-se na alegria da criação literária, uma vez que os dias de céu limpo pouco interesse literário teriam. Este mecanismo que transforma sofrimento vivido em alegria artística seria posto tragicamente à prova, revelando em certa medida os seus limites, por alturas da gravação de Skeleton Tree, marcado pela recente morte trágica do seu filho Arthur, que pouco tempo antes caíra de um penhasco.

Vem esta introdução a propósito de Fantasmas, o mais recente livro de Siri Hustvedt (com excelente tradução de Tânia Ganho), ao longo do qual a escritora vai tentando ordenar e fazer sentido da dor e do luto resultantes da morte, provocada por um cancro nos pulmões, do seu marido, o também escritor Paul Auster (1947-2024). Em Fantasmas, como acontece, aliás, em maior ou menor medida com toda a grande literatura, a escrita surge como tentativa desesperada de se recuperar o controlo sobre uma vida que teima em escapar-nos das mãos. Percebemos isso mesmo quando, a páginas tantas, Siri Hustvedt desabafa: “Este livro é uma necessidade e não uma escolha” (239), tal como já ficara claro nas cartas que a própria Siri escrevera, no início da relação ao seu então namorado.

Fantasmas mistura então quatro registos diferentes: uma narrativa cronologicamente ordenada, fragmentária e quase diarística da evolução do seu luto, intercalada brevemente por três tipos diferentes de correspondência — as já referidas cartas trocadas entre Siri e Paul no turbulento início da relação de ambos, os e-mails enviados por Siri aos amigos de Paul a reportar a evolução da doença deste e as Cartas a Miles, um livro inacabado que, nos últimos meses de vida, Paul Auster começara a escrever ao neto, que nasceria quatro meses antes da morte deste.

As primeiras cinquenta páginas são fragmentárias, caóticas e pejadas de lugares-comuns. Se, em circunstâncias normais, isso nos faria abandonar o livro, neste caso concreto, o colapso estrutural do livro deriva, em certa medida, do seu sucesso formal, na medida em que a fragmentação, banalidade e caos não resultam de uma, por assim dizer, inaptidão literária, mas antes da captação perfeita da incapacidade de articulação de alguém que acaba de perder o norte, o que torna o livro em muitos momentos extraordinariamente comovente.

Nesse sentido, os estudos e o saber de Siri Hustvedt de nada lhe valem porque, nas semanas e meses subsequentes à morte de Auster, ela não é uma escritora competente, não é sequer a viúva do grande Paul Auster, é apenas uma pessoa exatamente igual a qualquer outra a quem lhe tivesse morrido a pessoa que mais amava, estando por isso inacessível tudo o que mais individualmente a constitui, como aliás se percebe logo nas três primeiras páginas, quando a escritora, habitualmente tão metódica e organizada, confessa: “Pego num papel ou num objeto que requer atenção e depois vejo outro que chama por mim. Pouso a primeira coisa e vejo-a passadas horas”; “Meto-me na banheira com água até meio e apercebo-me de que me esqueci de descalçar as meias” (p. 8 e 9).

Curiosamente, talvez sem que disso a escritora se aperceba, o livro vai evoluindo para formas de luto progressivas muito claras. Se primeiro temos o caos, depois temos a rememoração da infinita bondade do homem que já cá não está. Paul Auster é, quase constantemente, descrito como um homem bondoso e íntegro, o que é percetível não apenas pelo testemunho da mulher mas também pelas lindíssimas Cartas a Miles, onde o multipremiado e conceituadíssimo escritor se entusiasma quase infantilmente pelos sucessos profissionais e pessoais da filha, da mulher e do genro, que, por impressionantes que sejam, nunca chegam perto do seu retumbante triunfo, aqui nunca referido.

De seguida, temos uma tentativa de articulação e racionalização da imensa dor de Siri, sendo aí evocadas as duas grandes tragédias: a simultaneidade da morte do avô com o nascimento do neto e a simultaneidade do diagnóstico do cancro com a morte da neta de poucos meses, resultante de uma overdose acidental por ter consumido drogas que Daniel, o filho do primeiro casamento do escritor, deixara espalhadas pela casa, o que resultaria na consequente detenção e morte de Daniel.

Depois destas quatro primeiras fases, temos o momento em que Siri Hustvedt começa a recordar as falhas de carácter de Paul Auster, datadas sobretudo do início da relação de ambos (descobrimos que, nessa fase, o escritor teria pelo menos duas outras namoradas e que garantira a Siri que o primeiro casamento era um assunto encerrado, apenas para, logo a seguir, terminar a relação de ambos para voltar para a primeira mulher, a extraordinária escritora — nunca aqui referida pelo nome — Lydia Davis). Enquanto se recorda desses momentos difíceis, Siri Hustvedt começa simultaneamente a recorrer de forma sistemática à sua imensa erudição, polvilhando o livro de referências a filósofos, escritores e cientistas consagrados, e a puxar os galões dos seus méritos literários que, como seria de esperar sendo o mundo como sabemos, foram sempre postos à sombra e lidos à luz dos méritos do seu companheiro de vida.

Siri está assim a tentar afirmar-se como uma sobrevivente, como alguém munida de uma identidade própria, não subsumível à do marido, por mais que a crítica especializada assumisse o contrário (“compreendi de que maneira a nossa interação estava a ser apreendida pelas pessoas. O que eu tinha encarado como dois círculos num diagrama de Venn com uma área sobreposta foi transformado num círculo pequeno engolido na totalidade por um círculo grande.” (240)).

Então, Siri começa sem sucesso a procurar Paul Auster nos sítios mais expectáveis (o casaco de cabedal que usara à exaustão) apenas para o encontrar nos sítios mais improváveis e irracionais (o cheiro inexplicável às cigarrilhas que Paul não fumava há anos e que, provavelmente não por coincidência, terão desempenhado um papel não negligenciável na sua morte).

No fim, e perdoem-me o spoiler, esta vontade de individualização praticamente desaparece para se transformar em algo muito mais bonito: Siri parece compreender que não foi afinal Paul quem desapareceu, e que agora a deixara tão sozinha. Paul morreu, sim, e isso não mudará, mas o grande círculo que ele era foi, afinal de contas, absorvido pelo pequeno, que agora parece viver pelos dois, numa vida que esse amor tornou “melhor, mais calorosa, mais dura, mais sábia” (316).