A gramática da nostalgia começou com Reagan, passou por Bill Clinton e acabou transformada por Trump numa identidade permanente
Trump não inventou o MAGA. Fez algo mais inteligente. Transformou uma frase antiga numa identidade permanente. Hoje, “Make America Great Again” parece inseparável de Donald Trump, do boné vermelho, dos comícios, dos memes, das guerras culturais e de uma política onde até um copo de leite de aveia pode ser apresentado como ameaça civilizacional. Funciona bem como narrativa, mas merece alguns reparos.
A materialidade do MAGA é mais antiga, mais contraditória e muito mais complexa do que parece. A associação entre o MAGA e Ronald Reagan foi-se perdendo com o tempo. Ainda mais inesperado é recordar que o homem ligado ao primeiro MAGA assinou a maior amnistia migratória da história americana. Se isto fosse ficção, pareceria excesso de ironia.
Em 1980, Reagan usava frequentemente o slogan “Let’s Make America Great Again”. Está em discursos, pins, cartazes e material oficial hoje preservado nos arquivos históricos americanos.
O detalhe importante é o “Let’s”. Parece irrelevante. Não é. “Let’s Make America Great Again” soa a convite nacional. Reagan falava para uma América cansada da inflação, do pós‑Vietname e do pessimismo dos anos Carter. O tom era quase terapêutico. O país podia recuperar confiança. O futuro ainda podia correr bem.
Décadas depois, Trump remove o “Let’s”. Fica apenas “Make America Great Again”. A diferença parece mínima. Politicamente, muda tudo. Reagan convidava. Trump já não convida. Impõe. Reagan sugeria reconstrução coletiva. Trump promete restauração. Talvez o trumpismo inteiro esteja escondido nesta pequena amputação gramatical.
Há outro detalhe importante: para Reagan, o slogan nunca foi religião identitária. Era apenas mais uma ferramenta de campanha. Convivia com “Morning in America”, “A New Beginning” e outros lemas otimistas típicos da época.
O MAGA ainda não era um movimento. Era publicidade política. Aliás, Reagan nem sequer inventou verdadeiramente a fórmula. Antes dele, a política americana já recorria a expressões muito semelhantes: “Make America Great”, “Return America to Prosperity”, “America First”. A política americana recicla slogans como Hollywood recicla franchises. A diferença de Reagan foi a embalagem televisiva: frases curtas, repetíveis, transportáveis em pins, autocolantes e soundbites.
Trump herdou tudo isso. Depois transformou‑o numa identidade política permanente.
Talvez o facto mais desconfortável para muita gente seja este: Bill Clinton também usou a frase. Em 1991 afirmou: “I believe that together we can make America great again.” Hoje, uma frase destas garantiria vários dias de guerra civil no X. Na altura, passou praticamente despercebida. Porque “Make America Great Again” ainda era uma banalidade patriótica. Não implicava nacionalismo agressivo, guerra cultural ou nostalgia civilizacional. Era apenas gramática política genérica. Trump percebeu algo que ninguém tinha realmente levado a sério. Um slogan podia deixar de ser apenas linguagem política. Podia transformar‑se em propriedade. Literalmente propriedade.
Poucos dias após a derrota de Mitt Romney, em 2012, Trump avançou para o registo da marca “Make America Great Again”.
Reagan via slogans como retórica. Trump viu licenciamento, merchandising e branding.
É talvez a diferença mais trumpiana de todas. Um queria reconstruir a confiança nacional. O outro percebeu que um boné podia sobreviver até às próprias contradições do movimento.
O boné merece, aliás, um capítulo próprio.
Reagan tinha pins. Trump criou um uniforme político. O boné MAGA tornou‑se um dos objetos políticos mais reconhecíveis do século XXI. Funciona quase como um código QR ideológico. Basta vê‑lo para presumirmos posições sobre imigração, armas, vacinas, globalização, alterações climáticas, NATO, wokismo e, muito provavelmente, o método correto para cozinhar brisket. Para alguns, o boné deixou de ser merchandising, passando a assumir-se quase como um autêntico marcador tribal.
Também é curioso que o vermelho republicano seja relativamente recente. Durante décadas, as estações televisivas usaram cores diferentes consoante a eleição. Foi no caos eleitoral de 2000, entre Bush e Gore, que o vermelho se cristalizou definitivamente como republicano e o azul como democrata. Antes disso, ninguém olhava para um mapa vermelho e pensava automaticamente em conservadorismo.
A política moderna vive muito destas coincidências televisivas que acabam transformadas em identidade nacional. Nada supera, porém, a ironia migratória.
O homem associado ao primeiro MAGA assinou, em 1986, a Immigration Reform and Control Act, que legalizou cerca de três milhões de imigrantes indocumentados. Reagan defendia publicamente a imigração legal e descrevia os Estados Unidos como uma “cidade brilhante no cimo da colina”, uma nação aberta, confiante e capaz de absorver sucessivas vagas de imigração. Hoje, no universo MAGA contemporâneo, a palavra “amnistia” tornou‑se politicamente tóxica. Aliás, muitos conservadores continuam a referir‑se ao diploma como “Reagan Amnesty”.
Há qualquer coisa de maravilhosamente cruel em imaginar certas contas das redes sociais a descobrirem isto pela primeira vez.
Adicionalmente, a inversão simbólica estende‑se aos muros. Reagan ficou associado à frase: “Mr. Gorbachev, tear down this wall.” Trump construiu boa parte da sua identidade política em torno de: “Build the wall.” Os contextos são diferentes. A inversão continua extraordinária. Um presidente ficou ligado à ideia de derrubar muros. O outro à de os construir.
Por fim, e apesar da mensagem que se tenta transmitir, também “America First” não nasceu com Trump.
Nos anos 40 existiu o America First Committee, um movimento isolacionista que tentou impedir a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Incluía figuras respeitáveis, mas também sectores profundamente nacionalistas e antissemitas. Contudo, após Pearl Harbor, o movimento praticamente evaporou.
Décadas depois, Trump ressuscitou o slogan como quem encontra uma cave vintage da política americana.Talvez seja esse o verdadeiro génio político do movimento Trump: perceber que slogans antigos são emocionalmente mais fortes do que slogans novos, porque já transportam memória coletiva.
“MAGA” funciona precisamente porque é vago. Nunca explica quando a América foi grande, nem para quem, nem em quê. Cada eleitor projeta ali a sua nostalgia privada: os anos 50 industriais, os anos 80 de Reagan, salários mais altos, fábricas abertas, menos globalização ou simplesmente o tempo em que acordar não implicava fazer barulho com os joelhos. O slogan acomoda milhões de nostalgias diferentes ao mesmo tempo e talvez seja precisamente essa elasticidade que lhe permite sobreviver às constantes inversões, recuos e improvisações políticas do próprio movimento. Talvez por isso tenha sobrevivido à derrota de 2020.
Normalmente, slogans morrem quando os líderes perdem eleições, aqui aconteceu o contrário. “MAGA” deixou de ser campanha, tornando-se uma infraestrutura emocional permanente. Media próprios, linguagem própria, comunidades digitais, merchandising e uma economia inteira construída em torno de uma sensação de perda nacional.
No fundo, a grande transformação histórica talvez seja esta. Reagan usava o MAGA como promessa. Trump usa‑o como diagnóstico. Reagan transformou o slogan em esperança. Trump transformou‑o em identidade.
Parece a mesma frase mas, na realidade, é quase a frase oposta.
O slogan mudou.
O boné é que ficou.