Há, nos nossos tempos, uma nova figura de estilo que floresce nos salões mediáticos e nas cátedras improvisadas dos comentadores de serviço: a “sensação de insegurança”. Não é a insegurança, note-se, essa vulgar e plebeia realidade feita de assaltos, desacatos e inquietações nocturnas; mas a sua versão higienizada, quase estética, como se o medo tivesse passado a ser uma questão de gosto, um capricho emocional das massas.
Dizem-nos, com ar compungido e sobrancelha erguida, que os portugueses não estão mais inseguros – apenas se sentem assim. É um fenómeno curioso: a realidade permanece imaculada, mas o cidadão, esse ser falível, insiste em percebê-la mal. Uma espécie de miopia colectiva, talvez, ou quem sabe uma súbita vocação nacional para o dramatismo.
Ora, os números (esses ingratos, que teimam em nem sempre alinhar com a narrativa) mostram que a criminalidade geral aumentou 8,3% em 2023, e a violenta 5,6% (RASI 2023). Em 2024, a criminalidade geral diminuiu 4,6%, mas a criminalidade violenta e grave aumentou 2,6% (RASI 2024). Nada de particularmente alarmante, dir-se-á. Apenas o suficiente para justificar que alguém feche a porta com mais cuidado ou olhe duas vezes para trás ao atravessar a rua.
Mas isso, evidentemente, será apenas imaginação. No fundo, o debate tornou-se quase semântico: quando certos sectores dizem “é apenas percepção”, esquecem-se de que a percepção social nasce frequentemente da observação empírica do quotidiano. O cidadão não lê o RASI antes de decidir se evita uma rua à noite. Ele reage ao ambiente, aos episódios que presencia, às mudanças do espaço urbano e à quebra de confiança colectiva.
O problema, asseguram-nos, não reside no que acontece, mas naquilo que julgamos que acontece. A realidade tornou-se, assim, um detalhe secundário; o essencial é a pedagogia da percepção. Há, no fundo, uma missão civilizadora em curso: ensinar o cidadão a não sentir o que sente.
Entretanto, o país mudou. Mudou depressa, talvez depressa demais para o conforto de quem aprecia transformações lentas. Em poucos anos, Portugal passou a acolher mais de um milhão e meio de cidadãos estrangeiros, número que, se não impressiona os espíritos cosmopolitas, pelo menos altera a paisagem humana das ruas, dos transportes, dos bairros.
A verdade estatística tornou-se uma criatura tímida: aparece desfocada, surge incompleta, evita nacionalidades e pisa o debate público como quem atravessa um salão cheio de porcelanas. Ainda assim, mesmo nesta penumbra prudente, alguns números escapam ao controlo da etiqueta: os estrangeiros representam entre 10% e 15% da população residente, mas correspondem a 17,4% da população prisional. O dado, por si só, não autoriza simplificações brutais nem teorias preguiçosas sobre causalidade automática; contudo, também não permite sustentar, com a serenidade afectada dos fóruns televisivos, que a variável nacionalidade seja estatisticamente irrelevante.
O segundo acto desta pequena comédia é sugerir que tais mudanças nada têm que ver com a sensação – perdão, percepção – de insegurança. Tudo coexistirá harmonicamente, como num tratado iluminista, onde culturas se entrelaçam sem fricção e a realidade social obedece a princípios de boa educação.
A sociologia, menos dada a lirismos, diz outra coisa, e alguns estudos mostram que mudanças rápidas na composição social podem reduzir a confiança e aumentar tensões locais. Todas as sociedades possuem um certo ritmo de absorção social e institucional; quando esse ritmo é violentamente ultrapassado, surgem tensões menos morais do que estruturais: pressão sobre habitação, serviços públicos e policiamento, desorganização urbana e crescimento de formas de criminalidade que prosperam sempre que um Estado lento e burocrático abre fronteiras mais depressa do que consegue integrar, fiscalizar e organizar.
Até a própria arquitectura estatística europeia admite, ainda que em linguagem burocrática e sem dramatismos inconvenientes, que a imigração produz efeitos distintos conforme o grau de integração, emprego, inclusão social e capacidade de absorção das comunidades anfitriãs. Mas estas são notas de rodapé pouco elegantes num discurso que prefere a pureza moral à complexidade factual.
Repare-se como chegamos, assim, ao ponto admirável em que a causa desaparece e resta apenas o sintoma – e nem esse é admitido. Se o cidadão se inquieta, não será porque algo mudou, mas porque ele próprio se deixou contaminar por ideias erradas. A realidade absolve-se; o povo corrige-se. Há nisto um certo requinte aristocrático. Antigamente, culpava-se o povo por ignorância; hoje culpa-se por percepção. É um progresso subtil.
Mas a segurança, essa coisa antiga e teimosa, não se mede apenas em relatórios. Mede-se no gesto instintivo de evitar uma rua, na hesitação antes de entrar num bairro, na conversa sussurrada entre vizinhos. É uma experiência vivida, não uma tabela de Excel. Quando essa experiência muda, algo mudou, ainda que os números, por uma questão de compostura estatística, não gritem.
O discurso oficial deixa então transparecer a sua fragilidade. Ao negar a ligação entre transformação social e insegurança, não elimina o problema; apenas o desloca para fora do campo do dizível. E o que não se pode dizer em tom moderado, acaba por ser gritado em tom exaltado.
O resultado é previsível. Entre os que dramatizam tudo e os que negam tudo, o cidadão comum fica entregue à sua própria experiência, essa forma rudimentar de conhecimento que não cabe em conferências.
Talvez fosse mais prudente admitir o óbvio, ou seja, que a percepção não nasce no vazio, que mudanças rápidas geram tensões, e que a segurança é um equilíbrio delicado entre factos e confiança. Mas isso exigiria uma virtude rara: a de olhar para a realidade sem filtros ideológicos e sem paternalismo.
Enquanto tal não sucede, continuaremos neste curioso teatro, onde o cidadão tem medo, o especialista explica que não devia tê-lo, e a realidade, discreta, prossegue o seu caminho sem pedir autorização.