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(A) :: A Banalidade do Mel

A Banalidade do Mel

As causas do mel não o tornam menos delicioso, menos nutritivo, ou aliás menos seja o que for.  Mas a conjunção entre as delícias que causa e os acasos que o causaram dá que pensar. 

Miguel Tamen
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As principais tendências do conservadorismo são: as conservas, as compotas e o mel.  Comparado com conservas e compotas, o mel é banal.  Com efeito, enquanto as conservas e compotas requerem dos agentes humanos conhecimento e diligência, o mel ocorre de modo independente e tecnicamente consiste no vómito de algumas espécies de abelhas.  Deve pois a sua origem a um reflexo e não, como por vezes se acredita nos documentários, a acções coordenadas de sociedades de insectos possuídos por ideias fixas.

Existe decerto sabedoria nas compotas e nas conservas; mas a sabedoria é de quem avisadamente evita fazer compota de tomate, mede os pontos do açúcar, insere peras em garrafas ou cose alcaparras a anchovas.   Por outras palavras, a sabedoria é de quem faz as compotas e as conservas, e ao fazê-las ergue monumentos mais perenes que o bronze, que resistem a anos inteiros, que melhoram com o tempo, e cujas alterações podem ser atribuídas a uma conjunção providencial de usos técnicos, práticas aperfeiçoadas e acasos controlados.

Pelo contrário, não saberíamos com propriedade dizer quem faz o mel, e menos ainda se era sábio.   Não se trata de disputar às abelhas o título de agente.  Os progressos civilizacionais tornaram corriqueira a atribuição desse título; não haveria por isso qualquer razão para que às abelhas, e ainda por cima só às apídeas e a poucas outras, fosse recusado o que se concede liberalmente a lagos, mercados, girafas e crianças.  A razão é diferente.  Tal como não nos consideramos autores das nossas secreções ou dos nossos arrepios, assim uma abelha não é autora da sua regurgitação e por isso do mel.

Se pudéssemos interrogar uma abelha (o que não é o caso) seria tempo perdido acusá-la da autoria das suas regurgitações, e portanto do mel em que elas se precipitam.  E do mesmo modo ninguém é autor daquilo que regurgita, e pela razão compreensível de que regurgitar não é uma acção que se cometa ou que se possa cometer.  Um vómito induzido é uma feliz cooperação de intenções, meios e espasmos, um pouco como uma obra de arte; mas o mel não é de modo algum induzido: as abelhas não tencionam produzi-lo.  É o resultado involuntário de terem mais olhos que barriga.

As causas do mel não o tornam menos delicioso, menos nutritivo, ou aliás menos seja o que for.  Mas a conjunção entre as delícias que causa e os acasos que o causaram dá que pensar.  Com efeito, o que no mel é mais característico é o modo banal como apareceu, sem pensamentos nem planos de ninguém.  Ao contrário das conservas e das compotas, e como as ostras e as tempestades, o mel não é um produto; e os resultados deleitáveis dessa banalidade inclinam-nos a imaginar que as coisas que se passam apesar de nós têm uma certa precedência em relação aos resultados dos nossos esforços.