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(A) :: "Armagedão", gritou o padrasto das crianças à saída do tribunal onde voltará este sábado. MP pede prisão preventiva para o casal

"Armagedão", gritou o padrasto das crianças à saída do tribunal onde voltará este sábado. MP pede prisão preventiva para o casal

Mãe das crianças não terá prestado declarações, e só padrasto terá falado. Interrogatório interrompido à meia noite é retomado de manhã. Homem saiu como entrou: a gritar. MP pede prisão preventiva.

João Porfírio
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Manuel Nobre Monteiro
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“Armagedão”, foi o grito de Marc, o padrasto das crianças francesas abandonadas na zona de Alcácer do Sal, à saída do tribunal de Setúbal, de onde foi o último a sair, após a mãe dos dois irmãos, Marine. Aos murros na carrinha policial, os dois foram transportados de volta às celas da GNR de Palmela, onde vão passar a noite, já que o interrogatório foi interrompido perto da meia-noite e será retomado na manhã deste sábado, às 10h00. O Ministério Público pede prisão preventiva para ambos. A palavra bíblica para “fim do mundo” dita pelo homem repetiu o ciclo de incidentes que se iniciara à hora de almoço, também em Palmela, com o casal.

Antes disso, na viagem de Fátima, onde foram detidos, até precisamente Palmela, onde pararam para almoçar, o casal veio a falar abertamente e à vontade nas traseiras da carrinha que os transportava sem perceber que estavam a ser compreendidos por um dos GNR que entendia bem francês. “Temos de parecer doidinhos”, terão dito Marine e Marc. O militar não demorou a transmitir às autoridades o que ouvira. Como avançou a RTP e soube o Observador, o militar que ouviu a frase prestou depoimento no posto de Palmela à chegada e esse depoimento terá sido usado nos interrogatórios no Tribunal de Setúbal já que o seu depoimento foi enviado de imediato para o magistrado que tem a tutela do caso. A frase poderá vir a ter peso nas medidas de coação que só deverão ser conhecidas este sábado: o interrogatório foi interrompido pouco antes da meia-noite, o casal irá dormir na GNR de Palmela e voltará ao tribunal de manhã, às 10h00.

A mãe e o padrasto das crianças francesas abandonadas em Alcácer do Sal chegaram na tarde desta sexta-feira ao tribunal de Setúbal, depois de terem sido transferidos das instalações da GNR de Fátima. A mãe foi a primeira a entrar na sala para ser ouvida, com apoio de um tradutor, não prestando declarações, sabe o Observador. Só o padrasto manifestou estar disponível para responder às questões do juiz. A sessão, para aplicação de medidas de coação, começou pelas 18h40, duas horas e meia depois da chegada do casal, e foi interrompida mais de cinco horas depois, sem ter terminado.

Fora a partida da GNR de Fátima, e no momento da detenção, quinta-feira, em todas as paragens da viagem houve tumultos. Sobretudo por parte do padrasto, Marc. Quer na paragem em Palmela, onde estiveram uma hora, para almoçar, quer à chegada ao tribunal em Setúbal.

À entrada do tribunal, a carrinha da GNR não cabia na garagem e teve de encostar, de marcha-atrás, a traseira à entrada. À saída, rodeados dos militares da GNR, Marc, o padrasto, gritou “eu amo-vos a todos” em francês [Je vous aime], não sendo claro se se dirigia aos militares da GNR que o acompanhavam ou a quem estava à porta, como os jornalistas. Já Marine, a mãe, estava a cantar alto, num comportamento estranho.

https://www.youtube.com/watch?v=Fhz4sNJ67Fc

Comportamento que já antes, em Palmela, ao início da tarde, o casal, Marine Rousseau e Marc Ballabriga, tinha tido no posto da GNR onde fizeram a paragem para uma refeição. Há relatos de gritos com os guardas e também murros na cela.

Em Portugal, a mãe e o padrasto das crianças são suspeitos dos crimes de violência doméstica e exposição ou abandono, além dos crimes que lhes são imputados em território francês.

Éric Straumann, presidente da Câmara Municipal de Colmar (onde reside a mãe das crianças), afirmou esta sexta-feira à AFP, citada pela BFMTV, que não foi apresentada nenhuma denúncia contra a mulher até ao momento do desaparecimento das crianças.

“Não havia qualquer indício de problemas sociais ou comportamentais com as crianças. Uma delas frequentava a creche e a outra a escola e ninguém notou nada de estranho”, acrescentou o autarca francês, sublinhando que esta família “não dava problemas”. Só a ausência das crianças das aulas levou a que fossem dados alertas. Ainda assim, Marine terá deixado um filho de 16 anos sozinho em casa.

A mulher francesa de 41 anos e o homem de 55 anos, igualmente francês, foram detidos pela GNR esta quinta-feira, quando se encontravam na esplanada de um café perto da cidade de Fátima, completamente calmos e sem oferecer qualquer resistência. A denúncia de um cliente acabou com as buscas das autoridades.

https://observador.pt/2026/05/22/estavam-juntos-ha-apenas-algumas-semanas-quem-e-o-casal-que-abandonou-as-criancas-em-alcacer-do-sal/

O pai dos dois irmãos já estará em Portugal, de acordo com o Correio da Manhã. O cidadão francês terá chegado durante a madrugada desta sexta-feira. O homem terá agora de comprovar junto do Juízo de Família e Menores que tem todas as condições para que lhe seja atribuída pelo tribunal a tutela dos menores, que está agora entregue a uma família de acolhimento de origem francesa. As duas crianças foram primeiro recolhidas pela família do homem (à beira da estrada entre Alcácer e Comporta, sozinhas, a chorar e desorientadas) que as encontrou e seguiram depois para o hospital de Setúbal, de onde tiveram alta ao fim de dois dias.