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Terracota, seda e a inspiração na alta costura: o figurino do musical "Evita"

Tony Miranda assina seis figurinos para o musical, em cena no Capitólio, em Lisboa, com inspiração no luxo e alta costura da primeira-dama argentina, interpretada em palco pela atriz Sofia Escobar.

Sâmia Fiates
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“A única rainha que vesti foi Eva Perón”. A frase é atribuída a Christian Dior, numa altura em que a primeira-dama argentina tinha manequins fixas, com as suas medidas exatas, nos ateliers de várias maisons de alta costura francesas, para facilitar as encomendas. Inspirado pelo trabalho minucioso do mesmo designer, o português Tony Miranda rumou a Paris em busca do sonho da moda no final dos anos 1960 — e mais de vinte anos depois da morte de Evita, chegou a ter uma loja na rua Cambon, a mesma da lendária primeira boutique Chanel. É nos dias atuais, no palco do Capitólio, em Lisboa, que as duas histórias se cruzam. Mais precisamente no figurino que ajuda Sofia Escobar a vestir a pele de uma das figuras femininas mais emblemáticas da história recente.

A memória coletiva da personagem Eva Perón a cantar “Don’t Cry For Me Argentina” na varanda da Casa Rosada, no musical de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice é, habitualmente, num vestido de baile glamouroso branco com cristais, inspirado no modelo Dior la robe Amérique, usado pela primeira-dama argentina em 1951 e imortalizado numa sessão de fotos para a revista Life. É o que vestia Elaine Paige na peça original do West End de 1978; e o que usou Rachel Zegler na adaptação de 2025. Mas a versão portuguesa, em cena desde março, tem um toque de moda portuguesa.

“É um vestido cor de terra, terracota, com organza. Lindo, lindo, lindo. E no momento em que eu o vesti, senti-me mesmo Evita. Ele acertou em cheio no desenho”, conta ao Observador a protagonista, sobre o trabalho do seu conterrâneo de Guimarães. “São coisas que as pessoas não têm noção, mas a forma como o vestido assenta na pele, como o tecido pode transmitir determinado tipo de vibração e luxo, neste caso. A partir do momento em que ela é a primeira dama da Argentina, ela assume toda uma postura a nível emocional e física, da forma como ela se apresenta ao mundo. Realmente era muito importante nós conseguirmos transmitir isso na peça. E nesse aspecto, o Tony Miranda acertou em cheio em todos os figurinos, e nesse especialmente”.

A experiência de quase seis décadas na alta costura pode explicar o à vontade com que o designer português criou a peça. “Mesmo quando estava em Paris, nos anos 1970, já se ouvia falar muito dela. Sempre gostei da Eva Perón como personagem, e continuo a admirar. É uma pena que tenha falecido tão cedo”, assinala Tony Miranda, que diz que para criar os figurinos da personagem, evitou procurar referências das produções internacionais. “Nada me impede de ver, mas não sou o tipo de pessoa que decide copiar pormenores. Tenho aquilo que é meu, que eu gosto. E acho que foi bem conseguido”, garante, sobre as escolhas de design.

Não é a primeira vez que o criador faz peças para o palco. “Quando estava em Paris, já fiz muitos figurinos para teatro, e mesmo cá cheguei a vestir todo o elenco da peça Marlene, com a Simone de Oliveira”, recorda. Entretanto, no caso de Evita, assume uma “falha” na decisão pelo tecido de uma peça em especial.

Trata-se de um vestido que Sofia Escobar usa na cena em que Eva Perón dança tango, que representa o início da relação com Juan Perón. Feito em musselina de seda, um tecido extremamente sensível e frágil, a peça não resistiu ao uso constante que o palco exige. “Eu devia ter pensado que no teatro está-se sempre a vestir e a tirar. Houve um acidente. Sou uma pessoa que quando me paro à frente dos tecidos e gosto, já não me importa que seja frágil, o que interessa é que saia o vestido de baile. Mas está-se a fazer um segundo vestido para substituir este, que está deteriorado, sobretudo porque o tiram muitas vezes”, assinala o designer. O novo vestido não é exatamente igual: tem o tecido substituído por um crepe georgette, um material que mantém a fluidez da seda mas é capaz de resistir às trocas e toques exigentes da dança. Contudo, uma característica importante permanece: as flores pintadas à mão, um trabalho da diretora criativa do atelier, Ana Fidalgo.

Do vestido de baile rodado e com decote sem alças ao tailleur clássico em tweed estilo Chanel, o guarda-roupa do musical explora como a primeira-dama argentina usava a moda de alta costura como arma política. Tony Miranda e Ana Fidalgo trabalharam em seis coordenados, alguns com forte inspiração na era New Look da Dior, que marcou a imagem pública de Eva Perón, mas também em peças históricas usadas pela primeira-dama argentina, que vestia criações de nomes como os franceses Marcel Rochas e Jacques Fath, o italiano Salvatore Ferragamo ou o britânico Norman Hartnell — designer da Rainha Isabel II.

“O Tony Miranda é um estilista de alta costura. Nem todos os estilistas o são. E a Eva Perón era uma mulher de um grande glamour, que nasceu num seio onde não tinha nada e depois foi ganhando o seu poder, o seu mediatismo. Era uma fã de grandes marcas, de grandes estilistas. Trazer um estilista português de alta costura para um espetáculo totalmente cantado em português, e todo interpretado em português, foi algo importante nesta produção, para marcar também aqui uma diferença em relação às outras”, destaca Carla Matadinho, CEO da Yellow Star Company, que fez o convite a Tony Miranda. “Nós temos uma equipa que trabalha connosco, que faz habitualmente todos os nossos figurinos, um diretor de arte que é o Fred Klaus, a Sofia Lima, que é coordenadora da nossa equipa de guarda-roupa. Mas é sempre desafiante trazer pessoas de fora. Acho que aqui foi um casamento perfeito entre trazer um estilista tão experiente como o Tony, de quem eu sou amiga e gosto muito há tantos anos, com um projeto como o Evita, que é uma peça super importante.”

Evita fica em cena até ao final de junho. Depois de as cortinas se fecharem pela última vez, as roupas passam a integrar o acervo da Yellow Star Company. Algumas peças poderão ser expostas na Burgway, a hamburgueria da companhia de teatro, assinala Carla Matadinho, que não esconde o desejo de criar um museu com as roupas que sobem ao palco. Entretanto, pelo menos um vestido deve integrar o acervo do Museu do Teatro, em Lisboa.