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(A) :: "Abandono teve características que roçam alguma crueldade", diz psiquiatra Gustavo Jesus. "Separar agora os irmãos seria altamente nefasto"

"Abandono teve características que roçam alguma crueldade", diz psiquiatra Gustavo Jesus. "Separar agora os irmãos seria altamente nefasto"

Vínculo materno é "o mais forte da natureza", pelo que o abandono das crianças francesas é "particularmente chocante", com "características que roçam alguma crueldade", diz o psiquiatra Gustavo Jesus.

Manuel Nobre Monteiro
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O vínculo entre uma mãe e um filho é “provavelmente o vínculo afetivo mais forte que existe na natureza”. É a partir desta ideia que o psiquiatra Gustavo Jesus tenta explicar o caso que está a marcar esta semana: o abandono de duas crianças de três e cinco anos numa estrada em Alcácer do Sal, depois de terem sido trazidas de França pela própria mãe e pelo padrastro. O médico admite, no podcast “História do Dia” desta sexta-feira, que comportamentos desta natureza podem ser explicados por “doença mental grave”, mas também levanta a hipótese de traços de psicopatia. Para as crianças, nota, o caso foi “uma experiência grave de abandono”.

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O psiquiatra explica que existe uma diferença entre a ligação materna e paterna aos filhos, ainda que reconheça a força do vínculo dos pais. A relação da mãe com o bebé começa ainda durante a gravidez, prolonga-se no parto e no pós-parto, através de alterações hormonais como a libertação de oxitocina, e é reforçada pela dependência absoluta da criança nos primeiros tempos de vida. “É bidirecional a necessidade que ambos sentem de estar juntos”, diz, acrescentando que “isso é reforçado biologicamente pelo nosso cérebro, até porque evolutivamente foi útil para a espécie humana que a mãe fosse muito agarrada aos seus filhos”. No caso do pai, o vínculo “depende mais da presença e do envolvimento nos cuidados”, enquanto o da mãe “é pré-contacto, porque é uma coisa determinada no próprio nascimento”.

É precisamente por esse vínculo ser tão forte que um caso de abandono desta natureza se torna “particularmente chocante”. Gustavo Jesus faz, no entanto, uma distinção entre situações de alienação parental (em que um dos progenitores afasta os filhos do outro, muitas vezes em contextos de separação conflituosa) e aquilo que descreve como um verdadeiro comportamento de abandono. “Uma coisa é um pai ou uma mãe levar os filhos para longe do outro e isso não quer dizer que não tenha um forte vínculo parental com as crianças. Na cabeça daquela pessoa, eventualmente está a fazer o melhor para os filhos”, explica. Outra realidade, muito diferente, é aquela em que as crianças são deixadas sozinhas e desprotegidas.

“Temos aqui um comportamento de abandono e de um abandono que se revestiu de características que roçam alguma crueldade”, afirma no programa da Rádio Observador, referindo-se às notícias sobre as crianças terem sido vendadas e levadas a acreditar que estavam a participar num jogo antes de serem deixadas para trás. “Imaginarmos os nossos filhos com três e cinco anos a serem deixados desprotegidos aos perigos da natureza e aos perigos de qualquer outra situação, sem que nós pudéssemos ajudá-los, isso para nós é incompreensível“.

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É neste ponto que entra a análise psiquiátrica. “Podemos concetualizar casos assim como uma doença mental“, diz Gustavo Jesus. O médico refere que certas psicoses ou depressões graves com sintomas psicóticos podem levar mães a agir de forma aparentemente incompreensível para quem observa de fora. “Vamos supor que uma mãe considera que o pai está possuído pelo demónio. Que há forças malignas que possuem o pai e que, portanto, ela deve afastar os filhos dele”, exemplifica. Nesse contexto delirante, explica, deixar as crianças sozinhas pode surgir como uma tentativa de proteção. “No contexto de uma doença psicótica, pode passar a ser compreensível”, diz.

O psiquiatra lembra ainda que existem situações extremas em que as mães chegam a matar os filhos num contexto de doença mental grave. “Do ponto de vista psicopatológico chama-se homicídio altruísta”, refere, sublinhando que “as pessoas acham que as crianças estarão melhor mortas do que a sofrer”. Embora diga que estas ideias são “absurdas” para quem está saudável, Gustavo Jesus insiste que a doença mental pode distorcer profundamente a perceção da realidade.

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“Traços de psicopatia”: ausência de empatia e comportamento orientado para benefício próprio

Mas a hipótese de doença psiquiátrica não é a única possível. “Se não for à luz de uma doença mental, então teremos de pensar em traços de personalidade. E os traços de personalidade que fariam alguém abandonar os seus próprios filhos nessas condições seriam traços de psicopatia”.

Segundo explica o médico, a psicopatia caracteriza-se pela ausência de empatia e pela incapacidade de reconhecer o sofrimento dos outros. “Um psicopata tem sempre tendência para exercer os seus comportamentos no sentido dos benefícios próprios, independentemente do mal que vai causar”, diz.

Ainda assim, Gustavo Jesus admite que há elementos do caso difíceis de encaixar nessa hipótese. As crianças tinham água, fruta e mudas de roupa, ou seja, “há aqui pequenos gestos de cuidado“. “Uma mãe rouba os filhos do pai para depois os abandonar? Se não tivesse qualquer vínculo afetivo, pura e simplesmente deixava-os com o pai”, observa.

“Há muita informação [em falta] que não nos permite concluir se se trata de uma doença mental, se se trata de um caso de psicopatia”, resume. Para já, sabe-se que o padrasto das duas crianças, um homem de 55 anos, é conhecido pela polícia e pelos serviços judiciais franceses por ter transtornos psiquiátricos.

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“Separá-las seria altamente nefasto”. As consequências no desenvolvimento psicológico das crianças

Independentemente das causas, o impacto nas crianças já está feito. “A experiência já existiu e foi uma experiência grave de abandono”, afirma Gustavo Jesus à Rádio Observador, explicando que o efeito varia consoante a idade e a fase do neurodesenvolvimento, mas alerta que mesmo crianças muito pequenas podem sofrer consequências profundas.

“Há sempre uma experiência de desamparo. De repente, as crianças sentirem que não estão a ser tratadas, que há uma incapacidade de perceber o que vai acontecer a seguir“, nota o médico, acrescentando que essa sensação é “altamente ansiogénica”.

A criança mais velha, de cinco anos, poderá conservar a memória direta do episódio, mas isso não significa que a mais nova, de três anos, fique imune ao trauma. “A criança mais pequena pode ter essa experiência de abandono vivenciada de uma forma mais emocional e com impactos na vida adulta”, diz.

“A experiência é altamente nefasta, é grave, já tem um impacto no desenvolvimento psicológico. Mas tudo o que vai acontecer a partir daqui vai moderar ou amplificar os efeitos deste evento”, sublinha o psiquiatra, mantendo a esperança de que as crianças não sejam separadas. “Neste momento, provavelmente o vínculo mais saudável que essas crianças têm é uma com a outra. Separá-las também seria altamente nefasto”, conclui.