Comboios, turbinas, supermercados, agricultura, águas, helicópteros e drones. De tudo um pouco vende Ricardo Machado. E o mais surpreendente é que há 15 anos ninguém sabia quem era o empresário que se casou com uma irmã do ministro Leitão Amaro. Foi para Angola ainda antes de a troika chegar a Portugal em 2011, após a quase bancarrota do Governo de José Sócrates, e enriqueceu em África. Desmente que tenha uma fortuna calculada em cerca de 450 milhões de euros — mas o valor não será muito inferior — e já deu várias entrevistas em que se apresenta como um empreendedor do “capital natural”, que acredita no valor da terra e que criou um grupo empresarial com base numa ideia de sustentabilidade.
Engenheiro agrónomo de formação, natural de Lisboa mas com origens no Cadaval, gosta de boinas à Peaky Blinders, que escondem a sua calvície, quer educar o país a comer melhor e é fanático por água (defende que se devem beber diferentes marcas de água ao longo do dia para potenciar o respetivo efeito) — estas são algumas das características que Ricardo Machado gosta de enaltecer nas interações com a comunicação social.
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O seu nome tornou-se conhecido com as primeiras buscas do processo judicial que investiga o cartel dos fogos, realizadas em março de 2025, mas foi a segunda fase das buscas que visavam escrutinar o “acesso a informação privilegiada junto de decisores públicos” que tiveram Ricardo Machado e algumas das suas empresas como alvos principais.
Terá sido precisamente a sua habilidade para entrar no restrito círculo da nomenklatura do MPLA e a sua eficácia em desenvolver uma boa rede de contactos que permitiu construir os alicerces da sua fortuna pessoal. O poderoso general João de Matos abriu-lhe as portas do poder angolano, a ministra do Ambiente indicou o seu nome a Álvaro Sobrinho, ex-presidente do BES Angola, foi amigo de Hugo Pêgo, ex-marido de Welwitschea ‘Tchizé’ dos Santos, e teve inúmeros contactos com a elite angolana — e tudo isto lhe serviu para construir o Grupo Aenergy. Trata-se de um conglomerado de 17 empresas que nasceu em África mas expandiu para diversas geografias.
Pelo meio, o poder mudou de mãos em Luanda e o novo Presidente, João Lourenço, cortou a ligação com Ricardo Machado — o que deu origem a uma guerra judicial que ainda perdura.
Mas tudo começou com Álvaro Sobrinho e com Ricardo Salgado — a quem Machado tinha acesso direto, um privilégio de poucos. Com base nos autos do caso BES Angola (em julgamento no Juízo Central Criminal de Lisboa), nos quais Ricardo Machado é referenciado por diversas vezes, apesar de nunca ter sido suspeito, arguido ou acusado de nenhum crime, é possível contar a sua rede de contactos.
O Observador contactou Ricardo Machado no âmbito deste trabalho, mas o empresário declinou responder às nossas perguntas.

Como Ricardo Machado aparece na agenda secreta de Ricardo Salgado
A ideia de Angola (e de África) — onde irá acumular uma fortuna avaliada pelo Expresso em cerca de 450 milhões de euros (valor que fonte próxima de Machado desmente) — surgiu de forma inesperada e terá origem numa propriedade emblemática do Ribatejo: a Herdade da Torre Bela, alvo de grandes disputas durante o processo revolucionário do 25 de Abril. A propriedade terá sido comprada por um misterioso investidor na década de 2000. Surgiram vários rumores ao longo dos anos de que seria alguém próximo de José Eduardo dos Santos, mas terá sido o empresário Avelino Neves de Carvalho — próximo de Luís Filipe Vieira e referenciado na Operação Cartão Vermelho — quem adquiriu a propriedade com mais de 1.700 hectares, tida como a maior área agrícola murada.
Engenheiro agrónomo de formação, Ricardo Machado foi trabalhar para a Herdade da Torre Bela porque a mulher de Avelino Neves de Carvalho reconheceu-lhe competência técnica e capacidade de trabalho. Mas Avelino tinha mais mundo do que a Torre Bela. Conhecia muito bem Angola e, em especial, o poderoso general João de Matos — um dos principais generais do MPLA na guerra civil contra a UNITA e que liderou a perseguição final a Jonas Savimbi.
Durante a guerra civil, Avelino Neves de Carvalho tinha feito muitos negócios com os militares do MPLA, o que implicava ter um acesso direto a João de Matos. Neves de Carvalho não andou propriamente na guerra nem lhe forneceu armamento militar, mas a ligação com Matos ficou para sempre. Terá sido Avelino Neves de Carvalho quem perguntou a Ricardo Machado se gostaria de conhecer o poderoso general angolano — que, entretanto, tinha criado o grupo empresarial Genius. Machado respondeu-lhe “sim” porque queria fazer ver a Angola que tinha muito a ganhar com o Protocolo de Quioto, nomeadamente com mecanismos como as novas licenças de carbono.
Em poucos minutos, num encontro nas Amoreiras, em Lisboa, Ricardo Machado expôs o seu ‘pitch’ ao general angolano e recebeu a sua guia de marcha: “Amanhã vais para Angola”. E Ricardo Machado, como bom soldado, foi. Já conhecia Angola de contactos esporádicos ocorridos entre 2006 e 2007.
O que é o mercado de licenças de carbono?
Em 1992, a Organização das Nações Unidas estabeleceu a meta de estabilizar os gases de efeito estufa na atmosfera. Esse compromisso consolidou-se em 1998 com o Protocolo de Quioto, que obrigou as nações mais industrializadas a reduzirem as suas emissões.
Para equilibrar a redução de emissões com o crescimento económico, criaram-se mecanismos como o mercado de carbono — ou comércio internacional de licenças de emissão.
Na prática, transacionam-se autorizações para poluir, permitindo lucrar com a venda dessas licenças. Cada crédito, que equivale a uma tonelada de dióxido de carbono (CO2), funcionava como um qualquer ativo financeiro, transacionado como mercadoria.
O sistema obriga a que as entidades que excedem as suas quotas de CO2 a comprar créditos adicionais. Em contrapartida, quem reduz a sua pegada ambiental (como indústrias que utilizam energias renováveis) pode vender o excesso no mercado.
Em Luanda, foi negociador de Angola na COP de Bali em 2008 e, mais tarde, foi consultor do BES Angola precisamente para a comercialização das licenças de carbono, visto que o banco liderado por Sobrinho tinha-se tornado parceiro de Angola nessa área.
Bastaram-lhe poucos anos em Luanda para começar a aparecer na agenda de Ricardo Salgado — e em 2012, ano de todos os registos apontados por Salgado, isso não era para qualquer um, tendo em conta que o líder do BES estava no auge do seu poder. Estávamos ainda muito longe da queda de Salgado, que arrastou consigo o Grupo Espírito Santo (GES).
No mesmo ano em que as contas do BES Angola levantavam dúvidas, o nome de Ricardo Machado passou a surgir na agenda de Ricardo Salgado. Entre outubro e novembro de 2012, o empresário aparece referenciado quatro vezes nos registos do banqueiro, num período de crescente ansiedade do líder do BES com a situação em Angola.
Os registos, alguns dos quais apagados pelo próprio Ricardo Salgado mas recuperados através de perícias do Laboratório de Polícia Científica da Judiciária, permitem traçar uma cronologia dos registos:
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26 de outubro de 2012: Ricardo Salgado anota na sua agenda a necessidade de “Confirmar vinda Ricardo Machado”. Esta nota surge no mesmo dia em que Salgado anota “Xizé-KPMG” (perto do período em que o BNA pressionava os auditores).
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30 de outubro de 2012: Ricardo Machado, às 11h30 (apagado e recuperado pela perícia das autoridades)
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2 de novembro de 2012: Salgado regista “Ricardo Machado – Cxxx”.
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5 de novembro de 2012: Surge a instrução direta na agenda de Salgado, “Falar Álvaro – Ricardo Machado”, também apagada.
A agenda secreta do ainda Dono Disto Tudo mostra bem como Salgado reunia com as mais altas esferas nacionais e angolanas. Mais do que uma agenda com (poucos) eventos sociais e privados, a agenda de Salgado revelava a sua rede de contactos. Ou seja, Ricardo Machado conseguiu ter acesso (através de Angola) ao então homem mais poderoso de Portugal — algo que certamente não imaginaria quando partiu de Lisboa para Luanda.
O mais curioso é que “Angola” é uma das palavras com mais entradas na agenda de Ricardo Salgado: são mais de 100 menções diretas, sem contar com reuniões com personalidades angolanas. Desde conversas (telefónicas e pessoais) com os generais Kopelipa e Dino e Manuel Vicente (seus sócios no BES Angola), a reuniões com diversos embaixadores angolanos em países da União Europeia ou ao acompanhamento ao pormenor (como em quase tudo o que fazia) da atividade do BES Angola e de outras empresas do GES em Angola — tudo isso era feito com o profissionalismo e a atenção ao detalhe que caracterizava Salgado.
https://observador.pt/especiais/besa-sobrinho-acusado-de-desviar-15-milhoes-de-euros-para-o-sporting/
Para se perceber as relações do líder da família Espírito Santo com o poder político angolano, é preciso recordar que os seus sócios angolanos no BESA eram nem mais nem menos do que as empresas de Manuel Vicente (então presidente da Sonangol e futuro vice-presidente de Angola) e os dois principais generais de José Eduardo dos Santos: Hélder Vieira Dias aka ‘Kopelipa’ e Leopoldino do Nascimento aka ‘Dino’. Eram os representantes da fação militar do MPLA – aquela que ainda é a mais poderosa do partido e de onde, por exemplo, o atual Presidente João Lourenço é oriundo.
Ricardo Salgado estava coligado com o poder político angolano ao mais alto nível.
São os representantes destes acionistas do BES Angola (Salgado, Vicente, “Kopelipa” e “Dino”) que vão determinar em dezembro de 2012 a saída de Álvaro Sobrinho da liderança da Comissão Executiva e a sua passagem à condição de chairman. Para o seu lugar entrou Rui Guerra, quadro do GES de confiança.
O encontro com Salgado no 15.º piso da sede do BES. “Precisamos de 250 milhões de euros”
Fonte próxima de Ricardo Machado — que foi contactado pelo Observador mas não quis responder às perguntas do nosso jornal — garante que dos quatro registos escritos por Ricardo Salgado na sua agenda só se terá concretizado uma reunião. A mesma fonte não adianta uma data concreta, mas confirma que se verificou em 2012.
Ricardo Machado encontrou-se com Ricardo Salgado no famoso escritório no 15.º piso da sede do BES, na Av. da Liberdade, em Lisboa. Mas não esteve sozinho — esse privilégio ainda não era para ele. Machado foi acompanhado de João Moita, diretor de risco do BES Angola, enquanto Salgado estava acompanhado de Amílcar Morais Pires, então chief financial officer do BES e braço direito de Salgado, e de Rui Guerra. Mesmo assim, uma comitiva de peso, o que indicia a importância da reunião para os líderes do BES.
A reunião não terá sido muito longa e apenas tinha um único ponto de agenda: os proveitos das licenças de carbono, nas quais o BES Angola era um parceiro do Governo de Angola, que poderiam ser acrescentados às contas do banco angolano — que estavam com um buraco significativo.
De acordo com fonte próxima de Ricardo Machado, Ricardo Salgado foi direto ao assunto: “Precisamos de 250 milhões de euros”. Uma referência ao valor das receitas necessárias para inscrever nas contas do BES Angola.
Machado terá tentado explicar que os eventuais proveitos estavam longe de tal valor — poderiam oscilar entre os 50 e os 100 milhões de euros —, até porque estavam em causa contratos de futuros. Ou seja, os contratos consistiam em fixar um preço no presente para comprar ou vender um ativo numa data futura. Por isso mesmo, as respostas de Ricardo Machado não iam ao encontro das expetativas da equipa de Salgado.
Nem mesmo uma última insistência para que assinasse um relatório que avaliava tais ativos pelo valor contabilisticamente necessário chegou para convencer Ricardo Machado, assegura a mesma fonte próxima.
Um aumento de 689% nas contas ligado à intermediação do BES Angola junto do Estado angolano na negociação de licenças de carbono
Antes de chegar a Ricardo Salgado, Ricardo Machado teve de começar pelo BES Angola e por Álvaro Sobrinho, do qual foi o braço direito para as licenças de carbono. Apesar de o Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) ter Sobrinho como o principal acusado do caso BES Angola, não deixou de imputar responsabilidades a Salgado e também a Amílcar Morais Pires (ex-administrador financeiro do BES) e a Hélder Bataglia (ex-administrador do BES Angola), entre outros arguidos.
Foi a KPMG Angola (a empresa responsável pela auditoria interna do BES Angola) que levantou as primeiras preocupações. Se entre 2002 e 2010 a auditora não apontou reservas às contas da filial angolana do BES, o cenário mudou, segundo o Ministério Público (MP), nas contas de 2011. A partir daí, a KPMG Angola passou a relatar falta de informação para cumprir as suas funções a identificar deficiências classificadas como de risco elevado — o que não agradou ao presidente da comissão executiva do banco, Álvaro Sobrinho, apontado por Ricardo Salgado para gerir o banco em Angola.
Conforme sustenta o MP, o cenário repetiu-se nas contas de 2012 — e foi neste relatório que surgiu mencionado o dossiê das licenças de carbono que era liderado por Ricardo Machado no BES Angola.
Durante a auditoria, a KPMG detetou um aumento “significativo” de 689% nos proveitos de serviços a clientes — que ascendiam aos 89,6 milhões de euros a 30 de junho de 2012. Estes valores, escreve o MP, estavam ligados à intermediação do BES Angola junto do Estado angolano na negociação de licenças de emissão de carbono — o negócio no qual Ricardo Machado colaborou de forma próxima.
Nas escutas do processo do BES Angola, Ricardo Machado foi intercetado em várias conversas e trocas de mensagens com Álvaro Sobrinho, durante o ano de 2012. Numa delas, a 3 de março de 2012, depois de um telefonema com Ricardo Salgado — que havia recebido “más notícias” em relação aos resultados, “lá da gente” de Sobrinho — o presidente do BES Angola responde-lhe: “Já mandei alterar, eles vão já mandar outro coiso. Estavam ali a esconder alguma coisa, vou já mandar, já vai receber outro…”.
Terminada a chamada, Sobrinho pega novamente, e de imediato, no telefone. Desta vez, para ligar a Henrique Resina, o responsável pelo departamento de compliance do BES Angola.
Henrique Resina (HR): Tou, chefe.
Álvaro Sobrinho (AS): Então, grande homem. Tudo bem?
HR: Tudo a andar.
AS: Oh! Henrique, tenho aí uma… ligou-me o Dr. Ricardo [Salgado] agora. He…
HR: Sim.
AS: Aquilo dos resultados, estão a precisar ali de mais um… Nós estamos, nós estamos para fazer aí um contrato…
HR: Certo.
AS: He…, o carbono, vamos acionar. Aliás, vou assinar para a semana e podíamos levar isso a proveitos, são cerca de 500 milhões de dólares…
HR: Quantos milhões?
AS: Quinhentos! A comissão acho que é de 2% e mais 0,25… Eu peço, tem aí o Ricardo Machado?
HR: Certo. Sim. Quer que eu fale com o Ricardo?
AS: É, o Ricardo Machado. He…, mas é 2 % sobre 500.
HR: lsso dá…, 2… 2% sobre 500…
AS: 10 milhões, dá 10 milhões.

HR: 10 milhões.
AS: Mais, acho que, depois, um fee de gestão por cada… cada “coiso”, como é que é? Cada tonelada.
HR: Eu posso ligar ao Ricardo para ele me dar as condições, se quiser.
AS: Eu, eu acho…, eu acho que ele não tem, eu, eu é que tenho essa cópia, já, para assinar.
HR: Mas então quanto é que é… isto é para resultados agora de Março, não é? Para aumentar os resultados de Março.
AS: É, eu acho que isso dá aí 15 milhões, à volta disso, 15/20. Fizemos bem as contas.
HR: É porque o problema é que a gente, em resultados, vamos tendo pouco, mas eu vou já ao que tivermos. Tomamos este valor e depois mandamos para si para ver se é preciso aqui inventar mais ou não.
AS: Tá bem.
HR: A gente em Fevereiro não inventou nada.
AS: Pois, mas este, este não é inventado, este é mesmo feito.
HR: Pois não. Este aqui temos mas, depois se for preciso mais alguma coisa a gente pode antecipar alguma coisa. Eu vou pôr, para já,… fazer vir as contas…
KPMG alertou para ausência de contratos com as licenças de carbono. DCIAP refere empolamentos contabilísticos
Após analisar a documentação apresentada pelo BES Angola para justificar os referidos proveitos, a KPMG Angola constatou que estes ainda aguardavam validação, escreve o MP no despacho de acusação. Sem a certificação oficial pelo CDM — a sigla inglesa do “Mecanismo de Desenvolvimento Limpo”, um programa de compensação de emissões de carbono das Nações Unidas criado ao abrigo do Protocolo de Quioto —, não há prova da emissão de créditos de carbono (CERs), nem da sua atribuição ao BES Angola como comissão.
Além disso, a ausência de contratos que definam os serviços prestados impede a validação do registo contabilístico dessas comissões.
Consequentemente, não dispomos a esta data de evidência (i) sobre a efetiva atribuição de CER’s aos diversos projetos mencionados nos documentos que nos foram disponibilizados e (ii) consequentemente, sobre a existência dos CER’s atribuídos ao BES Angola a título de comissão. (…) não tivemos acesso a um contrato que nos permita concluir acerca da natureza dos serviços prestados pelo BES Angola e dessa forma aferir sobre o adequado reconhecimento contabilístico das comissões a receber”, concluiu a KPMG.
Já a 15 de fevereiro de 2012, o Banco Nacional de Angola (BNA), o supervisor do setor financeiro angolano, havia reunido com os auditores da KPMG Angola para discutir a situação crítica do BES Angola. Segundo o MP, nessa reunião, o supervisor impôs exigências: um aumento de capital entre 1,5 mil e 10 mil milhões de dólares e o reforço das provisões para crédito. O BNA manifestou ainda a intenção de suspender o financiamento ao BES Angola, proibir a distribuição de dividendos e instalar uma equipa permanente no banco para monitorizar a liquidez.
A reação de Álvaro Sobrinho surgiu logo a 22 de fevereiro de 2012. No rescaldo da reunião com o supervisor, Sobrinho contactou o general ‘Dino’, então chefe da Casa de Segurança do Presidente José Eduardo dos Santos e igualmente acionista do BES Angola, para afirmar que os seus auditores haviam sido “tramados e intimidados aí pelo banco central a meter reservas nas contas do BES Angola”, classificando o episódio como “uma coisa perfeitamente surrealista”.

Apesar da resistência da administração e das ameaças de substituição dos auditores caso houvesse sinalização de reservas, a KPMG Angola manteve a sua posição. No relatório referente ao ano fiscal de 2011, a auditora acabou mesmo por apontar diversas irregularidades que exigiam ajustamentos imediatos às contas do banco.
O negociador de carbono de Angola
A sua trajetória profissional em Angola começou, como referimos acima, com o grupo empresarial liderado por João de Matos — que tinha uma área ambiental. Mas, ao mesmo tempo e com as portas abertas pelo poderoso e influente general, Ricardo Machado foi introduzido nos mecanismos do poder executivo angolano da área ambiental.
Vários rumores sempre ligaram a ascensão meteórica de Machado em Angola à amizade que tinha com Hugo Pêgo, então marido de ‘Tchizé’ dos Santos, filha de José Eduardo dos Santos — algo que Ricardo Machado sempre negou. Fonte próxima assegura que as empresas do Grupo Aenergy pertencem a Machado e nunca tiveram qualquer relação com pessoas politicamente expostas angolanas.
As mesmas fontes assumem, contudo, que foi João de Matos quem lhe terá aberto as portas do poder angolano, fazendo com que conquistasse a confiança para ser um dos negociadores de Angola na COP de Bali, em 2008, tendo colaborado igualmente no desenho de uma estratégia nacional para o setor ambiental e de sustentabilidade angolano.
“Acabei por ser o negociador de carbono de Angola nas Nações Unidas, pois não havia ninguém especializado naquilo. Fui muitas vezes contra países ocidentais, inclusivamente Portugal, porque era preciso proteger os interesses dos países africanos”, afirmou ao Expresso. Fontes consultadas pela revista The Africa Report levantaram dúvidas quanto à afirmação de que tenha sido o negociador de carbono de Angola.
Em pouco tempo, tornou-se um ‘menino querido’ de Maria Fátima Monteiro Jardim, política angolana que construiu a sua carreira durante o consulado de José Eduardo dos Santos, tendo sido ministra do Ambiente entre 2008 e 2017. Esta projeção na diplomacia ambiental permitiu a Ricardo Machado conhecer Angola de ponta a ponta, abrindo-lhe ainda as portas do Standard Bank — um dos principais bancos sul-africanos, com quem o BES Angola também trabalhava — para continuar a negociar créditos de carbono. Machado trabalhava com a casa-mãe do Standard Bank em Londres.
Depois da seguradora AAA — uma empresa controlada pelo Grupo Sonangol e que tinha o monopólio exclusivo dos seguros do setor petrolífero — ter entrado no Standard Bank, Ricardo Machado transferiu-se para o BES Angola. E após Maria de Fátima Jardim, ministra do Ambiente de Angola entre 2008 e 2017, indicar o seu nome a Álvaro Sobrinho, confirmam fontes próximas de Machado. O então líder do BES Angola seguiu o conselho de Jardim, reuniu-se com Machado e com a frieza que o caracteriza avançou para a contratação.
A proximidade com Álvaro Sobrinho registada no caso BES Angola
As interceções telefónicas do caso BES Angola demonstram que Ricardo Machado reportava diretamente a Álvaro Sobrinho, e Maria de Fátima Jardim, que é hoje secretária executiva da CPLP em Lisboa, também é referenciada nas escutas do caso BES Angola.
A 6 de fevereiro de 2012, após informar Sobrinho de que se reuniria com uma “comissão de alterações climáticas”, Machado confirmou o sucesso da diligência: “Estive com a ministra e desencadeei o mandato… vamos ver se conseguimos”. A ministra é Maria de Fátima Jardim, então titular da parte do Ambiente no Governo de Angola e que tinha poder de decisão e de influência sobre a questão das licenças de carbono — uma matéria em que Machado a tinha assessorado durante anos.
Três dias depois, e sem que exista qualquer indício que relacione essa comunicação com os contactos que Ricardo Machado terá tido com “a ministra”, Machado volta a ter um contacto que foi registado pelos investigadores do caso BES Angola como relevante. Sobrinho confirmou-lhe ter lido os seus emails e a realização de “transferências”. “Aquelas transferências já foram feitas, tá? Já dei autorização”, lê-se nos autos do caso BES Angola.
Não é claro que transferências são estas, qual a sua justificação e quem são os seus intervenientes.
Numa troca de mensagens no mês seguinte, a 8 de março, Ricardo Machado envia uma mensagem ao então líder do BES Angola afirmando estar com os “auditores internos do carbono” e sublinhando que a “receita do carbono é fundamental” para provar as dificuldades de investir em Angola. Sobrinho responde a essa mensagem com “Ok” a que depois Machado responde: “Desculpe esta sms era para o Ricardo Abreu…”.
Ricardo Abreu era o vice-governador do Banco Nacional de Angola. Ou seja, Ricardo Machado estava a recorrer a um dos seus muitos contactos junto da elite angolana para ter uma espécie de carta conforto para mostrar aos auditores da KPMG.
Foi no fim desse mês de março de 2012, perante a queda de valores do BES Angola, que Álvaro Sobrinho deu instruções para acionar 500 milhões de dólares provenientes das licenças de carbono.
A relação com outros “Santos”: de Angola, mas não “Espírito”
Se Ricardo Salgado fez da aliança com a nomenklatura de José Eduardo dos Santos um dado relevante no final do seu longo reinado como líder do GES — e até pensou que Angola poderia salvar o grupo da família Espírito Santo —, Ricardo Machado fez da sua rede de contactos com o poder político angolano uma forma de criar de raiz um grupo empresarial.
Regressando ao encontro em 2012 com Ricardo Salgado na Av. da Liberdade, em Lisboa. Foi aí que Ricardo Machado começou a aperceber-se que algo de errado se passava com o BES. Aquele pedido para proveitos irreais das licenças de carbono tinha subjacente um alerta vermelho claro — que Machado não ignorou. Além de ter aconselhado amigos próximos a retirarem dinheiro do BES, Machado também começou a pressentir a guerra de poder sem quartel que se estava a desenvolver no BES Angola entre Salgado e os seus sócios angolanos, por um lado, e Sobrinho e a sua família, por outro lado. E começou a pensar no seu futuro.
A conjugação do conhecimento financeiro consolidado no Standard Bank e no BES Angola com o conhecimento sobre o mercado energético africano foi o rastilho para a fundação da Aenergy.
Como qualquer empresário de sucesso, Ricardo Machado recorda como ganhou o ‘seu primeiro milhão de euros”: como consultor de um projeto de sustentabilidade que resultou de uma parceria entre o Ministério do Ambiente liderado por Maria de Fátima Jardim e a petrolífera Total, conta fonte próxima.
Mais tarde, a sua empresa Aenergy entrou no radar da multinacional norte-americana General Electric (GE) quando desenvolveu um project finance para construir um parque eólico do Tombua (província do Namibe). O projeto não foi avante, mas Ricardo Machado ficou com bons contactos com o banco alemão Commerzbank e com fornecedores como a GE e a Siemens.
A seguir veio a execução do primeiro grande projeto de sustentabilidade energética: a Central Térmica de Malange, constituída por unidades de produção de energia assentes em geradores da GE que serviam para fornecer eletricidade à região de Malange. É a partir deste projeto que a empresa de Machado vai tornar-se parceira exclusiva da GE para Angola e para os países vizinhos e encontra um modelo de negócios que repetirá noutros projetos de energia.
Ricardo Machado montava o project finance, angariava o financiamento junto de bancos europeus e americanos, contratava os fornecedores (a própria GE mas também fornecedores alemães, húngaros e checos) e garantia à cabeça que o Estado de Angola pagava o fornecimento de energia — cujo preço, qual lema de marketing, o próprio Machado garantia que era o mais barato de África.
A empresa cresceu velozmente e em 2017 já tinha a operação de 13 centrais elétricas num contrato de 940 milhões de dólares, financiado pela GE Capital, o braço financeiro da General Electric, a gigante norte-americana do setor energético.
Machado misturava várias características: a sua rede de contactos junto da nomenklatura do MPLA, a força diplomática dos Estados Unidos (cuja embaixadora ajudava as empresas americanas a ganhar contratos em Luanda) e a capacidade financeira de um gigante como a GE.
É na mesma altura que também assina um acordo de 800 milhões de dólares com o Ministério dos Transportes para o fornecimento de 100 locomotivas — negócio que o próprio descreveu ao Expresso como o maior de 2017 em África. Também aqui a GE tem um papel fundamental porque é a produtora e fornecedora dos motores e das respetivas locomotivas — e estava há anos para conseguir esse contrato com Angola. Foi Ricardo Machado que, uma vez mais, conseguiu que Augusto Tomás, ministro dos Transportes, e Armando Manuel, ministro das Finanças, dessem luz verde ao negócio.
O sucesso fulgurante de Ricardo Machado num país que a “gasosa” (sinónimo de corrupção) faz parte do quotidiano dos angolanos, alimentou rumores em Luanda de que Machado seria o “testa de ferro” de ‘Tchizé’ dos Santos. No centro da suspeita estava uma revelação da reportagem “O Banquete”, da Televisão Pública de Angola (TPA), que em 2013 noticiou o alargamento do objeto social da Aenergy ao setor ferroviário. Na altura, surgiu como representante dos acionistas João Manuel Perdigão Abrantes, tio de ‘Tchizé’, irmão de Maria Luísa Abrantes.

Já antigos colegas no Standard Bank apontavam uma “relação especial” com a família presidencial à revista The Africa Report. A suspeita baseava-se na amizade com o marido desta, Hugo Pêgo, de quem foi colega na universidade. Pêgo conhecera ‘Tchizé’ numa discoteca em Lisboa, num encontro que culminou em casamento — que muitos ligaram à ascensão de Machado. “Muita gente pensou que eu fui parar a Angola por intermédio do meu amigo Hugo, mas a verdade é que, depois de ele casar, estivemos uns três anos sem contacto”, afirmou o empresário ao Expresso.
A tese de favorecimento voltou a ganhar força em 2015 com o primeiro contrato com o Estado para o fornecimento de carruagens. Em 2020, o presidente dos Caminhos de Ferro de Luanda, Júlio Bango, afirmou à TPA que a execução pela Aenergy foi uma “indicação direta, ordem superior” e que, “passado um tempo”, se soube que a empresa pertencia a “‘Tchizé’ e outras pessoas”.
Ricardo Machado nega categoricamente qualquer vínculo com ‘Tchizé’ dos Santos. “De vez em quando privava com eles, mas a empresa era só minha”, garantiu ao Expresso.
O empresário justifica o crescimento meteórico que levantou rumores com o binómio preço/financiamento e o apoio diplomático: “O que contribuiu para os meus negócios com o regime foi a General Electric. Cresci pelo preço mais baixo por megawatt integrado com financiamento, juntamente com o lóbi dos embaixadores dos países a quem eu comprava equipamento”.
Em resposta à revista Visão, foi taxativo: a Aenergy era integralmente sua, sem qualquer associação, direta ou indireta, a atuais ou antigos membros da antiga família presidencial angolana.
E tudo João Lourenço levou. Como Ricardo Machado entrou em guerra judicial com Angola
A ascensão de João Lourenço à presidência de Angola em 2017, sob a bandeira do combate à corrupção, marcou o início do colapso do império que Ricardo Machado edificara em Luanda. O novo executivo acusou formalmente a Aenergy de diversas irregularidades, incluindo uma alegada tentativa de faturação dupla de quatro turbinas, estimando na altura um prejuízo para o Estado angolano superior a 200 milhões de dólares.
Em setembro de 2019, o Governo angolano rescindiu unilateralmente 13 contratos e arrestou o património da Aenergy. Ricardo Machado desmente a versão angolana, alegando ter sido alvo de uma extorsão da GE Africa, que teria falsificado documentos para justificar a rutura e assumir os projetos.
Esta versão ganhou força com a condenação de Wilson da Costa, ex-gestor da GE em Angola, em Nova Iorque a 10 anos de prisão por falsificação documental — já cumpriu três anos. O desfecho nos EUA resultou de denúncias do próprio empresário português, contra o Estado angolano, junto do Centro Internacional para a Resolução de Diferendos relativos a Investimentos (ICSID) e do próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos — equivalente ao Ministério Público português.
Fontes próximas de Machado garantem que o empresário português, a sua família e as suas empresas submeteram-se a essa investigação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e nada foi encontrado.
Ricardo Machado sempre rejeitou qualquer esquema com Wilson da Costa para favorecer a Aenergy, contrariando o noticiado pela Sábado. Em direito de resposta, o empresário afirmou que as provas revelam que foi alvo de extorsão e não cúmplice: “As mensagens trocadas entre quadros da General Electric demonstram que a Aenergy foi alvo de extorsão” e não “a existência de qualquer contrapartida por manipulações documentais”, lê-se no texto enviado àquela revista. O litígio com a multinacional terminou com um acordo confidencial que incluiu o pagamento de uma indemnização a Ricardo Machado.
O português recorda ainda que o próprio Departamento de Justiça dos Estados Unidos terá reconhecido o impacto devastador da fraude no processo contra o ex-gestor da GE, ao concluir que “a atividade da Aenergy foi destruída em consequência das mentiras de Wilson da Costa e das falsas alegações de dupla faturação, que minaram a confiança entre a Aenergy e Angola”, lê-se ainda no mesmo direito de resposta.
Com os restantes litígios encerrados, Machado avançou na qualidade de acionista com um processo de 170 milhões de dólares contra o Governo de Angola no tribunal arbitral do Banco Mundial, em Washington — o primeiro a avançar ao abrigo do Acordo de Promoção e Proteção Recíproca de Investimentos entre Portugal e Angola.
Angola e os Espírito Santo marcam o percurso do empresário Ricardo Machado. Mas, curiosamente, é no seu regresso a Portugal que Machado vem a comprar a um empresário espanhol (que tinha adquirido à massa falida do Grupo Espírito Santo) a herdade do Vale Feitoso, em Idanha-a-Nova, a maior parcela privada e muralhada em Portugal, antigo feudo da família Espírito Santo. Por alguma razão, quando deu a entrevista ao Expresso em dezembro de 2025, Machado foi apresentado como o “novo dono de um bocado disto tudo”. Exagero ou não, o futuro o dirá.