Sebastião Bugalho estava de fato e gravata, mas mudou de roupa para a entrevista, que tinha três premissas: realizar-se num bar, ser acompanhada por uma cerveja e fugir dos temas de atualidade. O eurodeputado deixou o estilo yuppie elegante eurocrata e ficou informalmente beto. Calças de sarja bege, camisa e um corta-vento azul escuro. Revela ao Observador que foi o mesmo que utilizou na campanha das Europeias de 2024 e com o qual acredita ter criado uma tendência. “Vários miúdos da JSD compraram e têm igual”, conta. O que está a querer dizer, pergunta o Observador, é que o corta-vento é o seu Loden verde, o casaco de Freitas do Amaral que fez moda na campanha das presidenciais de 1986? “Isso mesmo”, diz sem se encolher.
Durante a entrevista, o eurodeputado não olhou uma única vez para o relógio automático suíço, comprado em Hong Kong, e de que diz gostar por ser discreto. Bebe a cerveja mais rápido do que a conversa e cedo começa a pedir a segunda — que já não chega. Assume que já fumou um charro. Leu três livros de José Saramago, os que abordam a religião e Deus. Confessa que há dias em que sente falta dos estúdios da televisão, onde acredita que sentia a mesma adrenalina de um jogador quando entra no campo antes do apito inicial. Jurou não mentir ao longo da entrevista e, no fim, confessou que gostaria um dia de ter bebido uma cerveja com o antigo primeiro-ministro britânico trabalhista, Harold Wilson.
Diz não ter nada a ver com Trump e acaba por confessar que o Presidente dos EUA seu contemporâneo de que mais gostou foi Barack Obama. Tem uma queda por Presidentes escritores. E por speechwriters de Presidentes. Citou JFK de cor, embora alerte que a frase é de Ted Sorensen. É dele que gosta mais, desde ali até à Lua (“We choose to go to the Moon“). Já sobre o gabinete de Obama, quando o Observador pergunta por Jon Favreau, responde com Ben Rhodes.
Dá um murro na mesa, figurado, quando o Observador regista uma admiração improvável por Costa. Mas o que o incomoda mais é sugerir que essa ligação vem de uma irmandade da elite lisboeta. Diz que é um privilegiado fruto do seu trabalho (“trabalhei muito”) e não do berço. Vai mostrando fair play perante o desconforto. Arrasa Chicão, mas consegue apontar méritos a Marx. Elogia os Bush pai e filho, mas não tem Boris Johnson como referência porque falhou. Bugalho não quer perder, mas sugere que já não quer tanto chegar lá. E percebeu pelo caminho, que para chegar lá, a primeiro-ministro, é preciso querer muito.
Mete Bad Bunny e Pavarotti na mesma frase, sem ninguém lhe perguntar por música. Diz ser conhecedor de todas as pistas do Lux, inclusive a de baixo, mas lembra que a grande vantagem de ir àquela discoteca de Lisboa é precisamente poder não se lembrar da música que passa em cada um dos pisos. E em Estrasburgo? Nada como voar no bar Aviateurs, mas avisa: “A música é má”.
A entrevista — uma das duas que o Observador fez aos dois eurodeputados portugueses mais novos, que são também estrelas mediáticas — decorreu no bar do hotel onde Bugalho estava hospedado. O próprio gosta de jogar pelo seguro: “Gosto daquilo que foi tentado em vez daquilo que é novo”. Prefere que lhe chamem antiquado em vez de velho. Diz que é conservador, mas não reacionário.

“Há dias em que talvez me arrependa de trocar os estúdios de televisão por Bruxelas”
Está arrependido de ter trocado o esplendor dos estúdios, no chamado prime time do cabo, pela burocracia pouco visível de Bruxelas?
Hoje não, mas há dias em que talvez sim. A Europa também pode ser esplendorosa em certas ocasiões. Não tem o brilho mais frequente da televisão, que por norma brilha todas as horas. Na Europa temos que esperar mais pelo brilho.
Mas é difícil lidar com essa falta de atenção mediática?
Não, porque há coisas para fazer. Há trabalhos, viagens, dossiers, ficheiros, missões parlamentares. Temos coisas para fazer e para nos entreter, mesmo que não haja a mesma atenção mediática, nem a mesma cobertura mediática, porque as três instituições neste momento estão muito ativas — a Comissão, o Conselho e o Parlamento — e nem os jornalistas portugueses conseguem multiplicar-nos pelos 21 eurodeputados portugueses. Mas o que me está a perguntar é como é que foi conviver com a desatenção quando antes tinha tanta? Julgo que eu consegui substituir por uma dose equilibrada de trabalho parlamentar e também pelo facto de estar na Comissão dos Negócios Estrangeiros ter muito que viajar. Acabei de voltar do Japão e da Coreia do Sul e, nesse sentido, apesar de estar farto de aviões, não estou farto de conhecer realidades novas.
Mas viaja mais agora do que antes?
Muito mais. Nos últimos dois anos estive em todos os continentes. Agora, em agosto, irei à Gronelândia. Neste momento, sou praticamente residente no aeroporto. Os senhores dos detetores de metais em Lisboa já quase que me deixam passar sem eu passar no detetor de metais.
Pode tentar convencer-nos que delira com a PAC, com o FEDER, mas é justo dizer que passou de ter essas boas audiências. Até creio que, em certa altura, foi ali meio disputado, estava na CNN, foi para a SIC notícias. Na verdade, passou de ter essas boas audiências para ninguém ligar nenhuma.
É exatamente como está a dizer. Ninguém me liga nenhuma, inclusive vocês.
Isso tem consequências no seu ego?
Como sabe, o meu ego é absolutamente indestrutível.
Mas não teve [de alguma forma] influência no ego?
É muito diferente. Porque, antes, praticamente tinha que ter opinião sobre tudo, tanto tinha que estar informado e preparado sobre tudo. Falava com muitos professores universitários, com especialistas, com muitos políticos e governantes, e até deputados que estavam com as mãos na massa, para saber a última. Mas era um trabalho muito diferente. Também havia novidade todos os dias. Mas eu não tinha nenhuma responsabilidade. Ou seja: a não ser que eu cometesse um deslize profundo em relação a um facto, ou uma estatística, ou um número, ou que fizesse figura de parvo na televisão, que também acontece de vez em quando, não havia mal nenhum. Eu só me representava a mim mesmo. Agora tenho uma responsabilidade um pouco maior. E essa responsabilidade é um peso, mas tem que ser levado a sério. É uma vida muito menos simples. A sensação de entrar num estúdio de televisão, quando se gosta de televisão, é muito idêntica, julgo eu, à dos ex-jogadores de futebol, que se transformaram em comentadores desportivos, que foram meus colegas na CNN e na SIC Notícias, a sensação é muito idêntica àquele momento em que entramos no estádio com o onze inicial, antes do apito e de começar a partida. E era uma sensação de estar em casa. Na Europa nunca se está em casa. Ela é a nossa casa, por todas as razões, culturais, históricas, políticas, mas no Parlamento Europeu é difícil uma pessoa sentir-se em casa, porque as coisas mudam muito rapidamente. Nós somos muitos, somos 720, 27 países, 24 línguas. Tanto desconhecido convive connosco todos os dias. Então é tudo muito diferente. Se a sua pergunta é se eu fiquei menos confiante ou menos bem disposto por causa disso? Não. Mas tive que me ambientar e adaptar a isso, sem dúvida. Até à meteorologia.
Houve algum momento em que pensou: o que é que eu fui fazer à minha vida?
Houve, mas não tinha nada a ver com a minha rotina diária. O momento em que eu pensei o que é que eu fui fazer na minha vida foi quando estava a regressar de Kiev no comboio noturno de volta para a Polónia. Tem que se sair de comboio e tem que ser durante a noite, que é para não levarmos com o míssil, mas continuam a ocorrer bombardeamentos à roda da linha de comboio. E todos recebíamos as notificações a dizer ameaça de míssil num raio de 250 a 500 metros. Só que, num comboio, ao contrário daquilo que se passava quando estávamos num ministério, ou numa escola, ou num hotel, não há bunker. Então, quando recebi o alerta de um míssil e estava no comboio, aí, sim, pensei o que é que eu fui fazer à minha vida, mas felizmente o míssil não caiu no comboio.
“Nixon, Bush pai e Carter são muito injustiçados”
Por falar em ego. O Sebastião citou o Kennedy no discurso que o trouxe até aqui à Europa, o de lançamento da candidatura como cabeça de lista. Não estou a dizer que se comparou com o Kennedy…
Eu tenciono continuar vivo mais uns anos.
Não sei se há alguém que lhe quisesse esse mal todo.
Pois, não sei, terá que perguntar ao próximo entrevistado [Sebastião Bugalho sabia que o próximo entrevistado seria o eurodeputado do PS, Bruno Gonçalves].
No discurso de lançamento dessa candidatura, cita o discurso do Kennedy que é conhecido como We choose to go to the moon…
We choose to do those things and the others not because they’re easy but because they’re hard.
Exatamente esse. É para si uma referência, o Kennedy?
O Kennedy politicamente, não tanto. O Ted Sorensen que lhe escreveu os discursos e que lhe escreveu o livro que lhe valeu o Pulitzer, o Profiles in Courage, sim.
Mas não é, porquê? Por não ser conservador? Por ter falhado no Vietname?
Não, o Kennedy era super conservador, era católico. O Kennedy é o presidente dos Estados Unidos da América, provavelmente a par com o Ronald Reagan, que fez mais discursos a referir a Deus Nosso Senhor. Portanto, eu acho que ele era um conservador, claro que era. Não tem a ver com uma razão ideológica. Ele foi presidente muito pouco tempo. Portanto, seria precoce fazer uma avaliação do seu mandato, à beira de Lyndon B. Johnson e das conquistas que LBJ teve depois no seu mandato, como o maior resultado na primeira eleição a seguir à morte de Kennedy, depois não é recandidato, mas quando é eleito tem o maior resultado estatístico de sempre, Lyndon Johnson tem muito mais conquistas políticas. Talvez não as tivesse tido sem o presidente Kennedy ter o seu mandato, mas não foi um presidente consequente, não teve tempo para ser consequente. Mas do ponto de vista literário, o Ted Sorensen era um speechwriter extraordinário e sem dúvida inspirador. Olha esta frase, tão distante do que é hoje a América: “We shall pay any price, oppose any foe, and support any friend for the survival or the success of liberty.” É exatamente o oposto do que os americanos estão a dizer agora, mas é uma coisa deslumbrante. Nós faremos qualquer coisa pela sobrevivência e pela vitória da liberdade. Isso somos nós europeus. Hoje nós é que somos os americanos do passado. Isso é que é extraordinário no discurso do Kennedy. Mas eu estava mesmo convencido que essa mensagem de vamos fazer as coisas difíceis fazia sentido, porque eu acho que isso é inevitável. Mesmo que em Portugal todos os políticos, todos os partidos tenham uma norma de fuga ao realismo, nós quando olhamos para aquilo que o Parlamento Europeu está a negociar com a Comissão no âmbito do quadro financeiro plurianual para 2028 a 2034, se entrevistar a Carla Tavares, que é uma das negociadoras do Parlamento Europeu e é socialista, ela própria lhe dirá que as coisas vão ter que ser diferentes. Vão ter que ser mais difíceis.

Só para recentrar aqui um bocadinho e sermos acusados mais uma vez de não dar atenção ao plano de plurianual.
Este é mais interessante do que todos os outros porque este será completamente diferente. Portanto, a coesão deixará de estar autónoma e será reduzida. A Defesa estará na competitividade, tudo será um bocadinho diferente.
E assumirá a entrada na Ucrânia?
Não, e não faria sentido que o fizesse.
Porque não é Estado-membro?
Não é Estado-membro e está em guerra. Agora, obviamente que nós esperamos que os 90 mil milhões de euros que estamos a emprestar à Ucrânia sejam ressarcidos como dano de guerra pela Rússia. É um dos nossos objetivos políticos.
Estávamos a falar do Kennedy. Perguntava-lhe se tem algum presidente norte-americano preferido? Pode ir até George Washington.
Eu gosto do LBJ pelo facto de ele ser muito consequencial. Consequente, consequencial é inglês. Ele é muito consequente do ponto de vista dos direitos civis. Claro que o desastre do Vietnam é dele, mas do ponto de vista dos direitos civis, ele concretiza a agenda do Kennedy e torna-a mais larga. E depois, a mim parece-me que o Bush, apesar de, obviamente, que as armas de destruição maciça no Iraque não estavam lá, portanto está manchado por essa falha, como o Tony Blair também está, mas o Bush faz uma fusão muito interessante entre o idealismo de democracy building dos democratas e a assertividade realista militarista dos republicanos.
Desde que o Sebastião nasceu, nesse ano era o Clinton era Presidente, tem um preferido?
Não, mas eu…
Ou que se identifique mais.
Eu acho que os Presidentes americanos que falharam, ou que são tomados por falhantes, são muito injustiçados. Falo de três. Richard Nixon, obviamente que merece todo o mal que nós dizemos sobre ele, mas teve uma política externa revolucionária, de aproximação à China, obviamente com o Henry Kissinger, mas era um grande americano. E era uma pessoa fascinante no trato pessoal. Por exemplo, foi o Richard Nixon que conseguiu a reconciliação entre o Gerald Ford e o Jimmy Carter, que tinham sido rivais e adversários, e num voo conjunto para o Egito, em que vão os três como ex-Presidentes a uma cerimónia, é o Nixon, com o seu jeito mais social e mais festivo, que consegue a reconciliação de dois homens que acabaram amicíssimos. Eu acho que os políticos muitas vezes são interessantes pelo que são além da política. E acho que o Nixon devia ser um indivíduo extraordinariamente interessante. Estamos a falar de um homem que, cinco anos depois de voltar da Marinha, depois de cumprir o serviço militar obrigatório, era vice-presidente dos Estados Unidos da América de Eisenhower. Portanto. ele não era parvo. Isto não se consegue assim [Bugalho estala os dedos]. Acho que ele é um injustiçado que merece outro olhar. O Jimmy Carter é um injustiçado que merece outro olhar. Só fez um mandato. teve o drama dos sequestrados no Irão, que é muito atual, mas não conseguiu ganhar a reeleição, e é olhado como um homem sem coragem, mas ao mesmo tempo é provavelmente o ex-Presidente americano que fez melhores coisas enquanto ex-Presidente.
E o terceiro injustiçado é seu contemporâneo?
O terceiro injustiçado acho que é o Bush pai, porque num período muito idêntico àquele que estamos a viver, que é uma mudança de ordem internacional e de mudança drástica das placas tectónicas e dos equilíbrios de poder entre blocos e entre países, nós não falamos de caos no fim da Guerra Fria. Portanto, o muro caiu, a União Soviética acabou e os Estados Unidos conseguiram presidir ao fim da Guerra Fria com uma tranquilidade serena. Isso só se deveu à diplomacia de Bush pai. E ninguém se lembra disso porque ele perdeu para o Clinton.
E teve a Guerra do Golfo.
E ganhou-a. Ganhou-a. Ganhou-a. E, mais do que isso, ganhou a guerra e depois saiu. Não ficou lá a fazer disparates.
Mas desses cinco, se não me está a falhar nenhum, são Clinton, Bush filho, Obama, Trump e Biden. O W é o seu favorito?
Não, não, não. Bem, eu acho que gosto daqueles que…
…vai dizer que o que gosta mais é Jon Favreau, que era o speechwriter do Obama.
Não era o único speechwriter, mas sim, provavelmente era o melhor. Eu gosto, como lhe digo, gosto dos presidentes escritores. Os EUA tiveram três presidentes autores. Lincoln, o discurso de Gettysburg é provavelmente o grande discurso da presidência americana. Kennedy, que não era ele que escrevia, mas era ele que assinava. E Obama, que é claramente um escritor. Que trabalhou com grandes speechwriters, como ainda agora falava do Jon Favreau. Também há outro: Ben Rhodes, que era quem escrevia os discursos sobre a política internacional do Obama e depois foi ser o conselheiro para a Segurança Nacional. Mas sabe o que é extraordinário? Quando o Obama ganha o Nobel da Paz. E ele ganha sem ter feito nada. Deve ser uma sensação horrível, ganhar um prémio que não se merece. Ele pede aos assessores para escreverem o discurso e os assessores não sabem o que é que vão descrever porque ele ainda não tinha feito nada. Então apresentam-lhe rascunhos e ele manda todos para trás. E depois é o próprio Obama que escreve o discurso. É dos poucos discursos que é ele que escreve do início ao fim. E o que é que ele lhes mandou ler? O que é que ele mandou os speechwriters lerem para ajudarem a escrever o discurso do Nobel da Paz? É uma coisa extraordinária, que está nas memórias do Ben Rhodes, que era o outro speechwriter, que se chama The World As It Is. Ele manda-os ler o segundo discurso de tomada de posse do Bush filho, que era sobre a promessa de um mundo onde havia mais democracia. Nós, em Portugal, e aqui na Europa também, muitas vezes falamos do óbvio, do evidente, do superficial e muitas vezes não percebemos que talvez houvesse mais comuns entre os rivais do que aquilo que à primeira vista havia. E é isso que me fascina na política. Eu talvez tenha mais em comum com alguém que vou derrotar ou que me vai derrotar no futuro do que aquilo que aparentemente parece.
“Eu não tenho nada a ver com Donald Trump”
Não escolheu o Trump, o que me parece normal.
Eu não tenho nada a ver com o Donald Trump.
Então conseguiria escolher entre o Trump e a Kamala Harris?
Para Presidente ou para jantar fora?
Para presidente.
As respostas seriam diferentes, não é? Não, acho que a Kamala Harris, se nós ouvirmos os discursos que ela fez na campanha presidencial, nós percebemos que ela tinha razão sobre tudo aquilo que ia acontecer. Em relação ao convívio mais social…
…para quem está a ler não ficar meio perdido, isso foi uma escolha que o atual secretário-geral do PSD não conseguiu fazer?
Certo. Mas eu respeito as opções do secretário-geral do PSD. Eu também não faria um endorsement político à Kamala Harris.
Mas conseguiria escolher entre os dois?
Claro que conseguiria escolher entre os dois. E acho que os dois anos mostram como é fácil escolher. Mas escusa de me tentar aqui pôr em rivalidades com o meu amigo Hugo Soares quando estamos a beber uma cerveja. Estou mais sincero do que é habitual. Escusa de me pregar essa rasteira.
Ia perguntar-lhe agora se é social-democrata ou democrata cristão?
Na Europa somos todos democratas cristãos.
Sim, mas por nome. O Nuno Melo…
Nuno Melo é um democrata cristão.
… O Nuno Melo creio que dizia isso no congresso do CDS: que pela Europa, naquilo que são os democratas-cristãos europeus, o CDS está mais próximo até do que o próprio PSD.
Não sei se isso é verdade, porque felizmente nas delegações…
Do PPE, atenção.
Mas há uma grande autonomia dentro do PPE. Eu tenho colegas…
Até o Orbán lá esteve.
É isso. Enfim, muita haveria a dizer sobre isso. Temos reuniões de grupo parlamentar em que a deputada irlandesa furiosamente pró-Gaza e pró-adoção gay e temos a deputada eslovaca que acha que Israel deve ocupar a Cisjordânia e que o casamento gay ou o aborto são um crime contra a humanidade. Dentro do PPE há o mundo inteiro. Somos 186, está a ver?

“Sou furiosamente centrista”
E onde é que o Sebastião está?
Estou onde sempre estive: sou furiosamente centrista.
Mas definir-se-ia como social-democrata ou como democrata-cristão?
Eu sou um social-democrata, mas naquilo que é a tradição do PSD. Numa tradição de realismo…
Mas a tradição do PSD e a matriz do PSD até é muito mais à esquerda. Não sei se concorda. Basta ver os fundadores…
…não acho nada disso.
…o Pinto Balsemão…
…não acho nada disso, desculpe…
O próprio Marcelo Rebelo de Sousa. É quase centro-esquerda, aquele pensamento.
Eu percebo isso e eu conheci…
…quer dizer, se formos à matriz social da igreja…
…sou católico e tenho um grande respeito e atenção aos Papas e àquilo que nos dizem, àquilo que nos escrevem. Ainda agora o Papa Leão vai publicar uma encíclica só sobre a inteligência artificial. É um homem fascinante. Eu já tive o privilégio de privar com ele. Então, obviamente que eu, como católico, estou atento àquilo que a igreja diz sobre o mundo e sobre a política.
O que é que disse ao Papa?
O que é que disse ao Papa? Disse que era uma grande felicidade conhecê-lo e ele deu-nos uma… Fui com grupo parlamentar, ele recebeu o grupo parlamentar do PPE. Proferiu uma palestra sobre o papel dos católicos na política absolutamente única. Foi um momento muito bonito. Eu conheci o Francisco Pinto Balsemão. Não tenho dúvidas que o Francisco Pinto Balsemão era um homem de centro-esquerda.
E o Marcelo Rebelo de Sousa?
Acho que talvez o Marcelo de Sousa tenha ficado um homem mais de esquerda do que aquilo que foi a vida toda durante a Presidência da República porque assistiu e viu de perto desastres sociais e humanitários que provavelmente o marcaram pessoalmente e ideologicamente. E eu digo isto com profundo respeito e admiração pessoal por ele. Tenho a certeza que o Marcelo de Sousa, que acabou a Presidência, era um homem mais à esquerda do que o Marcelo Rebelo de Sousa que começou a Presidência e certamente o Marcelo de Sousa que foi o presidente do PSD no final dos anos 90. Mas só mesmo para terminar este capítulo. No início, na fundação de partido, não havia outra hipótese que um centro-esquerda porque senão éramos ilegalizados. Por isso é que o Marcelo de Sousa tem discursos em Congressos contra o capitalismo. Por isso é que Sá Carneiro tem discursos a favor do socialismo. Era porque, ou era isso, ou não existíamos. É muito simples isso.
O CDS não era isso e conseguiu existir.
Sim, mas digamos que também não tinha uma agenda propriamente liberalizante do ponto de vista económico, nem conservadora do ponto de vista dos costumes.
Mas se dissermos que o Sebastião é democrata cristão, seria uma boa definição?
Eu sou social-democrata na tradição do PSD e eu explico o que isso quer dizer. Aliás, o PSD é um partido que se afirma contra os excessos. E é um partido que desempenha um papel único no sistema político e que convém que continue a desempenhar, que é o papel de quem protagoniza as ruturas no sistema a partir do sistema, dentro do sistema. E que obriga o sistema a renovar-se precisamente devido a essa pressão contra os excessos. Contra os excessos da Revolução, lá estivemos. Contra os excessos do PREC, lá estivemos. Contra os excessos do Estado, lá estivemos. Contra os excessos do despesismo, lá estivemos. Contra os excessos ideológicos dos outros, lá estaremos. Então é um partido contra os excessos. É aí com isso que eu me identifico.
O Marcelo Rebelo de Sousa, e creio que o Luís Montenegro também, não colocam o cravo na lapela. O Sebastião sente-se confortável com o cravo vermelho na lapela?
Bem, eu nunca tive que me sentar naquela bancada. No dia em que me sentar, posso responder à pergunta.
Teremos que esperar por isso.
Como lhe digo, normalmente só respondo aos dilemas quando sou confrontado com eles. Como, de momento, ainda não fui convidado, nem parece que vá ser, para esse dilema, não lhe consigo responder.
Já lá vamos.
Peço desculpa mas eu neste momento estou a comer estes fantásticos amendoins que estão aqui diante de nós. Está a fugir deles, mas eu não resisto.
Pareceu-me pela sua conversa, que era um bocadinho mais Boris Johnson do que Willy Brandt.
São duas figuras larger than life, mas não me identifico nem com uma nem com a outra. Acho que, como jornalista, fui mais do que um repórter de mexericos, coisa que o senhor Johnson não foi. E acho que, como político, ainda tenho muito que aprender para me comparar com o Willy Brandt.
Mas não aprecia Boris Johnson?
Bem, ele falhou, não é? Quem é que quer falhar?
É por isso? Por ser um derrotado?
Sim, é um homem extraordinariamente culto e que teve uma maioria como os conservadores não tinham há muito.
Há um momento quando ele anda em Kiev, na fase dura…
Estive com ele em Kiev.
Mas quando ele anda com Zelensky, numa fase muito inicial da guerra. Não é depois, quando já era mais tranquilo…
Mas a Roberta Metsola também lá esteve. E acho que o que fez foi um dos gestos admiráveis. Foi a primeira grande líder europeia a lá estar. Tenho a sorte de ser amigo dela e sou um admirador dela. Espero que ela continue a dar o melhor de si ao projeto europeu. É uma amiga de Portugal.
“Eu nunca disse que não seria militante do PSD”
Estava aqui a ouvi-lo e é verdade que podia ter sido deputado pelo CDS e não quis. Aliás, na altura falámos sobre isso. Hoje é militante do PSD. Também disse que não seria, mas…
Não, não, eu não disse que não seria. Eu disse que a independência era um valor. Vou aproveitar e vou fazer uma coisa que nunca faço.
Isto é só a intro da pergunta…
Já que estamos a beber uma imperial, vou ter a coragem de desmentir o meu entrevistador em plena entrevista.
Vamos a isso.
A única coisa que eu disse foi: ‘Espero cumprir o meu mandato da forma mais independente possível. Eu nunca disse que não seria militante. Tenho a certeza do que lhe estou a dizer.
E eu tenho a certeza que o Sebastião Bugalho mede cada palavra quando faz essas proclamações. Mas o que eu lhe ia perguntar é se ainda vamos vê-lo, mais à esquerda de Francisco Rodrigues dos Santos e a fazer vídeos com o Diogo Faro?
Sabe, eu não sou pró-eutanásia, mas se me obrigarem a isso, provavelmente passaria a ser.
Mas como é que tem assistido a isso?
Como é que tenho assistido? Com a televisão desligada.
Vê o Francisco Rodrigues dos Santos sem som, é isso?
Não, nada disso. Não o vejo sem som nem o vejo com som, porque não o vejo todo. Mas, se o vir na rua, cumprimento-o e dou-lhe um abraço. E quero saber dele. Ele entretanto foi pai, tem a sua família, tem a sua profissão. Eu gosto de me dar bem com toda a gente. Não tenho rancores com ninguém.
Quando o vê na rua, cumprimenta-o?
Até somos vizinhos.
Mas cumprimenta-o?
Claro que cumprimento. É uma pessoa que eu conheço.
Ou está sempre a ligar para a câmara a dizer que ele não despeja o lixo no sítio certo?
Nesse caso, seria a junta. E eu seria incapaz de fazer tal coisa. Juro! [Risos]
Já está com essas coisas do Carlos Moedas, que o lixo é da junta, e se estiver junto de um determinado caixote do lixo é que eu é da câmara…
Mas eu não tenho qualquer tipo de ambições autárquicas. Escusa de me fazer essa maldade hoje.
Para encerrar esta questão, como estava a dizer, que dentro do próprio grupo, do PPE, havia diferenças. Passadeiras cor-de-rosa, bandeira LGBTI em edifícios públicos, casas de banho sem género. Alguma destas três coisas o incomoda?
Incomodar não, porque não frequento nenhuma delas. Mas julgo que as passadeiras serão arco-íris. E eu, desde que protejam os pedestres, para mim está tudo bem.
Edifícios públicos?
O que é que tem os edifícios públicos?
A Câmara de Lisboa e a Câmara do Porto, no último domingo, hastearam a bandeira LGBT. É uma coisa que o incomoda?
Não, repare…
É um institucionalista, não estou a dizer que tem que ser especificamente conservador.
Eu sou conservador. Não sou um reacionário, mas sou um conservador. Gosto de instituições, gosto daquilo que é familiar, gosto daquilo que foi tentado em vez daquilo que é novo, gosto dos meus hábitos, gosto que os móveis quando eu entro em casa, estejam no mesmo sítio. Por natureza, não gosto de mudança. Eu sou uma pessoa extraordinariamente cautelosa e prudente. Mas, quer dizer, quando nós nascemos de sete meses e subimos para a incubadora, acho que naturalmente ficamos assim. Mas, para lhe dizer, e para não fugir da sua pergunta: eu sou heterossexual. Nós, quando falamos destes temas, nunca vamos perceber, nem sentir, o que as pessoas, que são homossexuais, bissexuais, ou outra coisa qualquer diferente daquilo que nós somos, sentem quando veem a sua existência e a sua natureza defendida em público. E eu, sem fazer aqui paralelismo inusitado, é exatamente a mesma coisa quando nós vemos alguém, em Portugal, que não é branco, sofrer de racismo. Eu nunca vou perceber nem sentir da mesma maneira. Eu percebo que para um homossexual, um bissexual, ou uma mulher lésbica, aquela bandeira significa a sociedade dizer-lhe: ‘sim, tu pertences aqui’, depois de anos em que a sociedade lhe disse ‘sim, tu tens que te esconder’… Portanto, se essa bandeira significa algo de protetor e, de certo modo, de equilibrar uma injustiça que a sociedade cometeu para com aquelas pessoas durante demasiado tempo, então porque é que eu haveria de ser contra essa bandeira? Ela não mexe comigo, nem para o bem nem para o mal, mas mexe para o bem com um conjunto de pessoas que eu respeito e algumas até que gosto e que conheço. Portanto, o que é que importa a bandeira? Desculpe lá, está a ver? É aquela coisa de, eu tenho a mesma tolerância com os outros, que eu espero que os outros tenham comigo, sei lá, quando for Natal e eu quiser ter um presépio num edifício público.

Picou-se com o João Oliveira num debate, que o questionou através do cartão azul que ele, creio que, utiliza para ter mais tempo.
Ele bateu os recordes do cartão azul, as regras do cartão azul foram reinventadas por causa de João Oliveira. Já tem algum legado no Parlamento Europeu.
E ele é sportinguista para estar a exagerar no azul num ano como este. Mas eu ia perguntar-lhe se vê algum mérito nas doutrinas de Marx e Engels?
Há uma coisa que o Marx dizia, que era: os revolucionários são todos reacionários porque estão a tentar acelerar a história quando ela acelera por ela própria. Marx nunca respeitaria Lenine, porque o Lenine tentou acelerar o tempo histórico através das armas e através da revolta social. O Marx achava que a história ia desembocar no comunismo, independentemente da influência ou da indiferença de indivíduos. Portanto, Marx e Lenine nunca se dariam bem, eu acho que essa é a primeira coisa que diria. Em relação ao meu colega João Oliveira, ele pode ser marxista, comunista, estalinista, soviético e essas coisas todas terríveis que eu jamais serei e nas quais eu jamais votarei, mas eu gosto do João. Para mim o João é uma pessoa empenhada, que diz 90% de coisas com as quais eu discordo, mas conseguiu, por exemplo, aprovar a Estratégia Europeia Contra a Pobreza, feita e escrita por ele, com mais de 300 votos no Parlamento Europeu. Ele está num grupo parlamentar que tem 40 fulanos e ele é o único deputado eleito do seu próprio partido. Portanto, algum mérito há de ter.
“Já fui convidado para a maçonaria. Não aceitei”
Só para livrá-lo já de teorias da conspiração. Já esteve em alguma conferência paga pelos Soros?
Não.
É que, como está tão liberal, estava com medo que agora nos comentários começassem a perguntar isso…
Não, eu posso lhe dizer por uma questão de transparência, e sei que valoriza as questões de transparência, não fui pago para realizar qualquer evento ou conferência desde que fui eleito deputado. Nem pelos Soros, nem pelo Orbán.
E já alguma vez foi convidado para a maçonaria?
Já fui convidado, já.
E não aceitou?
Sabe que há, um conjunto de organizações da nossa sociedade…
Não me diga que foi iniciado…
Não fui, não. Nunca fui a nenhuma reunião nem evento, nem sequer orador naquelas conferências abertas que eles às vezes fazem, nem sequer isso fui. Mas tenho amigos que são e não tenho problema nenhum com isso. A maçonaria a tem o seu papel e eu tenho o meu. E eles não coincidem.
E Opus Dei já alguma vez pensou? Já fizeram aquele plano inclinado para ir para uma residência?
Acha mesmo que alguém me ia convidar para uma coisa dessas? Não deixa de ser uma prova de alguma criatividade, que me estejam a perguntar se eu alguma vez fui convidado para uma residência do Opus Dei.
Porque falávamos da maçonaria.
Não é bem a mesma coisa. Acho que os maçons não vivem todos juntos. Acho eu, não sei, nunca lá fui.
Mas convivem secretamente juntos.
Sim, é verdade. Eu não faço nada secretamente. Eu sou um livro aberto. Então, quando chegarmos à segunda imperial, ainda mais aberto.
Saramago? “Sou um grande admirador do Fernando Alexandre, mas Marcelo tem razão”
Ia perguntar-lhe quantos livros de Saramago é que já leu.
Li o Memorial do Convento, porque era obrigatório. Li o Evangelho Segundo Jesus Cristo, que adorei. E li o Caim, que foi o de chorar e rir.
Portanto, leu quase todos os que tinham alguma…
…coisa a ver com a Igreja, claro. E achei aquilo deslumbrante, devo dizer-lhe.
E a proibição.
Sou contra essas coisas todas, como devem imaginar.
Desculpe, a não obrigação de leitura.
Ah, pensei que estava a falar do facto do Governo, na altura, ter sido…
Do Sousa Lara?
Exato, pensei que estava a falar dessa polémica.
Não era.
De qual das polémicas de Saramago é quer falar?
Ia falar agora da mais recente, em que deixou de ser obrigatório, com a hipótese até da escolha de um outro escritor que, por acaso, também é militante do Partido Comunista.
Acho que isso é indiferente. Isso deve ser indiferente.
Marcelo Rebelo de Sousa dizia isso: que é o único Nobel. E que, por isso, devia haver pelo menos algum excerto obrigatório durante o plano curricular.
Eu sou um grande admirador do Fernando Alexandre, mas acho que Marcelo Rebelo de Sousa tem toda a razão.
E por isso que Saramago devia ter o seu lugar...
Não digo com o Memorial do Convento, mas digo, pelo menos, um modelo híbrido. Seria um modelo interessante permitir aos alunos escolherem, pelo menos, um livro de José Saramago. E acho que não seria difícil.
Tenho ideia, e posso estar a fazer um juízo incorreto, que o Sebastião era mais da biblioteca do que de trás do Pavilhão. Na escola, ou no colégio, onde andou.
Então, pronto, se me conhecesse um bocadinho melhor, saberia que é possível fazer os dois.
Na verdade, o que queria perguntar se já alguma vez fumou um charro?
Já fumei um charro, já.
Só um?
Já provei. Sim, já experimentei.
Mas não inalou, é isso?
Não, não, não. Inalei. Experimentei, claro.
Tivemos um primeiro-ministro, que ganhou a primeira maioria absoluta do Partido Socialista, que disse na altura que tinha sido jovem do seu tempo. O atual Presidente da República também disse que fumou uma vez, mas que não gostou. As suas ambições vão tão longe assim?
Longe ao ponto de ter uma relação com as drogas leves distante? Não estou a perceber.
Estava a dizer é que, em determinado momento, duas figuras, um que foi primeiro-ministro com a maioria absoluta e outro que é o atual Presidente da República, admitiram ter fumado um charro. O que eu lhe perguntei é se têm as mesmas ambições políticas deles.
Não, não tenho a ambição.
E foram confrontados com isso em entrevistas.
Não. Não tenho a ambição de ser chefe nem de ser líder, porque para ser chefe e para ser líder é preciso querer-se muito. Foi uma coisa que eu percebi e aprendi nos anos de política partidária que tenho, que são poucos, mas percebi isso muito bem. Para se querer isso é preciso querer-se muito. E há muita gente que quer muito mais do que eu. Se eu não quero assim tanto, é porque não devo ser. E estou convencido que não vou ser. E não tenho nenhum problema com isso.
Mas já quis mais?
Não é já quis mais. Já achei que poderia ser mais coisas. Depois fui conhecer o mundo e conhecer pessoas que já tiveram essas funções muito melhor e percebi que a política de alto nível, de centro decisional e de chefia não é para todos. E talvez não seja para mim, mas voltando um bocadinho aos charros — que são um bocadinho mais exóticos do que as ambições políticas das quais a maior parte não se vão concretizar e são espuma dos dias e espuma desta imperial que está prestes a acabar — eu sou um tipo tremendamente criativo e bem disposto, não preciso de drogas leves para nada. Estou só a dizer que sim, já experimentei porque vim para esta entrevista com a promessa a mim mesmo de não lhe mentir. Portanto, não lhe ia mentir sobre isso. Há tantas mentiras mais úteis do que a do charro.
Eu perguntei-lhe uma vez se esteve na pista de baixo do Lux.
Já estive em todas as pistas do Lux.
Mas não gosta de baixo? Gosta mais do terraço?
Sabe que eu sou uma pessoa, do ponto de vista musical, bastante versátil. Portanto, do Bad Bunny ao Pavarotti a minha playlist de Spotify é bastante polivalente.
Mas não respondeu à minha pergunta. Foi a todas as pistas do Lux, mas não disse se gostava de a de baixo.
Eu pensei que a grande vantagem do Lux é que não tínhamos que nos lembrar do que estava a tocar em cada sala. Mas tudo bem.
Parece-me a mim que é mais de Foxtrot ou da Primorosa. Estou enganado?
Não sei. Eu já gostei mais de cocktails. Agora gosto mais de vinhos e cerveja. Não sei porquê foi uma coisa que me aconteceu.
Está mais a ir aos cafés do que aos bares com a música?
Não. Estou a beber em casa, com amigos. Conversar um bocadinho, com alguma privacidade. Porque não se consegue conversar hoje em dia nos bares, porque a música está muito alta e há muita gente. Mas eu ainda não descobri um bar em Lisboa que toque Keith Jarrett. Eu já pus Keith Jarrett a tocar num bar. Pus o concerto em Colónia a tocar aos berros no Imprensa há uns anos. O Fred deixou-me. Mas quando eu descobrir um bar em Lisboa que toque Dave Brubeck e Keith Jarrett, acho que aí terei encontrado o meu pousio. Mas ainda não encontrei.
Mas não tem saído à noite em Lisboa?
Não. Não tenho saído à noite em Lisboa. Tenciono sair à noite em Estrasburgo, que é uma coisa assim em que vamos enquanto delegação e é divertido estarmos nessa noite.
O seu amigo é seu amigo, acho que posso dizer isto, Sérgio Sousa Pinto, ia muito em Bruxelas a um bar que era o ao Goupil le Fol….
Já lá estive.
Ele ia lá muito com o Mário Soares.
Dos meus anos para os anos dele ficou tenebroso. Não vale a pena, voltares a ser eurodeputado, Sérgio, se estiveres a ouvir isto, só por causa desse bar.
O Sérgio conversa mais com o Miguel Pinheiro às quintas-feiras.
Num podcast fantástico. E invejável, devo dizer.
O bar, os Aviateurs diz-lhe alguma coisa, não?
Diz. A cerveja é fresca e a música é terrível.
Sabe que eles não têm DJ? É uma playlist de Spotify que eles pagaram um DJ para fazer.
Fica aqui provado que o jornalista conhece melhor o pior bar de Estrasburgo do que o eurodeputado que vem trabalhar para Estrasburgo. Fica aqui provado.
Já encontrou por lá o jornalista do POLITICO que escreve sobre a vida noturna dos eurodeputados em Estrasburgo?
Eu já o encontrei, mas não fui encontrado. Acho que o segredo é esse. Sabe quantas garrafas de espumante que são vendidas por dia na plenária de Estrasburgo nos bares do Parlamento Europeu?
Não faço ideia.
São centenas. Mas não por mim, claro que está.
É uma postura relativamente ao álcool bastante aberta por parte do Parlamento Europeu. Mas eles são liberais, não é?
Mas não todos os seus deputados. Não sei se o Parlamento Europeu hoje ainda é uma organização liberal. Sinto-a cada vez mais conservadora, antiquada, em certa medida até anti-europeia. Se somarmos todos os deputados à direita do PPE eles já são mais do que o PPE, que é o maior grupo.
É para equilibrar o liberalismo da Comissão.
A Comissão está cada vez mais realista e mais eficaz. Em Portugal nós continuamos a tratar a União e a Comissão como um anão geopolítico, mas quando começaram os bombardeamentos dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, a União Europeia já tinha um representante permanente especial no Golfo, uma conferência permanente no Golfo, já tinha feito uma cimeira no Golfo, e assim que começou o ataque, o Conselho mandatou a Comissão para três parcerias estratégicas com a Arábia Saudita, o Qatar e os Emirados e começou negociações bilaterais com o acordo comercial com os Emirados, que saíram da OPEP. Esta ideia de que nós não existimos geopoliticamente é tão falsa e tão ignorante, é uma coisa que, sinceramente, me tira do sério. Somos um bloco político que de repente tem o Canadá e a Coreia do Sul a quererem fazer parte do nosso instrumento comum de financiamento para a Defesa. Que outro bloco político ou económico pode dizer isso? Nenhum.
No Trump 1, e isso é um ponto porque estar em todo lado também tem outras desvantagens, havia aquela ideia de que o Presidente dos Estados Unidos não sabia para quem ligar. O Sebastião, se fosse Presidente dos Estados Unidos, não pode ser, porque não nasceu em território americano, português pode ser, o Santana Lopes já lhe disse que podia ser quando fizer 35 anos, que ainda não tem.
Não foi o único.
Quem é que lhe disse também? Pode confidenciar?
Fica para outra entrevista.
Mas dizia ele [Trump], que não sabia a quem ligar. Liga para quem? Para Von der Leyen, que é presidente da Comissão Europeia? Liga para António Costa, que é Presidente do Conselho? Liga para a Presidente do Parlamento, Roberta Metsola, que não tem poder executivo? Liga para a PESC, para a Alta Representante?
Nesse capítulo, admito que tem toda a razão. Aliás, tem sido uma coisa até um pouco confrangedora, que foi o Presidente ucraniano que veio ter connosco, o Conselho Europeu, pediu-nos para nós, enquanto União, enquanto líderes europeus, começarmos a abrir uma janela de diálogo com a Rússia, com Moscovo, com Putin, devido ao aumento de fragilidade interna que o Presidente russo vive. e nós estamos há duas semanas, em vez de estarmos a discutir aquilo que vamos falar com os russos, a discutir quem é que de nós vai falar com os russos. Uma coisa bizarra. A Kallas quer ir. A Ursula Von der Leyen quer ir, apesar de, seguindo os tratados, quem deveria ir seria o Presidente do Conselho, portanto, esse problema para quem é que se liga, obviamente que existe.
Tendo em conta a experiência de António Costa a negociar com os soviéticos, se calhar devia ir ele. A geringonça correu bem.
Eu já me vi, nos últimos dois anos, na circunstância, para mim um bocadinho desconfortável e paradoxal, que é eu defender o mandato do Presidente do Conselho Europeu em debates com Marta Temido, que eu estimo muito.
Já sabemos que o Sebastião Bugalho adora o António Costa.
Adorar também é uma grande distância.
Foi, como primeiro-ministro, ao seu podcast na altura, o que é uma consideração grande que tem por si.
Eu fui o último entrevistador de António Costa como primeiro-ministro.
Mas é de alguma consideração, não?
Foi a generosidade dele.
É um bocadinho daquela irmandade da elite Lisboa? Do qual os dois fazem parte?
Não, ele cresceu em Campo Ourique: Eu cresci em Telheiras. É um bocadinho mais classe média, não é?
Mas, o Sebastião quer convencer-nos que é de uma classe abaixo do António Costa?
Repare, vamos lá ver uma coisa. Andei na creche da Misericórdia, o meu pai nunca teve um relógio automático, os carros dele eram todos japoneses. Essa ideia de que eu sou um privilegiado só porque tive sucesso é um bocadinho deslocada da realidade. Eu não sou de elite nenhuma. Eu fartei-me foi de trabalhar. São coisas diferentes. Mas atenção que eu não tenho nada contra as elites. E eu acho que o António Costa, em certa medida, e com os seus excessos ideológicos e com a superficialidade toda da solução da geringonça, quer dizer que é uma união à esquerda que acabou com o défice zero, portanto é de chorar a rir, não é? É o primeiro-ministro que se alçou e fez campanha contra o Eurogrupo para lá sentar o ministro das Finanças dele no Eurogrupo a fazer exatamente o mesmo que fazia o anterior. Portanto, é tudo uma farsa, e eu denunciei essa farsa durante nove anos, portanto acho que sou insuspeito de ser favorável à mesma, mas gostava de dizer uma coisa: o António Costa, quando o José Manuel Barroso deixou de ser presidente da Comissão Europeia, chamou-o e em público entregou-lhe a chave da cidade de Lisboa. Portanto, eu acho que tem que haver uma espécie de civilidade entre democratas no nosso sistema político, senão está tudo perdido. E repara, veja…
A entrevista vai com 39 minutos e conseguiu ainda não falar do José Luís Carneiro. Vamos tentar manter isso.
Ele é muito menos interessante do que esta entrevista.

“O TikTok tem pouco futuro europeu”
Há pouco estava aí a haver um reel de uma intervenção sua, normal, de aprovação que eu suponho que tem que dar ao Gabinete de Comunicação. Mas como é que um velho, como o Sebastião Bugalho, e isso todos os perfis dizem que é um velho…
Podia ser mais simpático e chamar-me só antiquado.
Lida com as redes sociais. Tem o quê? Tem Instagram, o do WhatsApp também sabemos que usa, mas Snapchat e TikTok não tem? Tem medo dos chineses ou é que não percebe muito bem como funciona?
O TikTok tem pouco futuro europeu. Espero eu que tenha, depois daquilo que vimos nas presidenciais romenos, acho que o TikTok tem pouco futuro europeu.
Acha que o Bruno Gonçalves chega a mais jovens com o TikTok do que o Sebastião Bugalho?
Eu não estou a concorrer com o Bruno Gonçalves para nada.
Com o envelhecimento da população tem sempre uma vantagem competitiva relativamente a ele?
Tenho demonstrado, até pela forma como quando vou a Portugal tento estar um pouco por todo o lado, por todos os distritos, acho que tenho mostrado que não ando exatamente na busca de um eleitorado em concreto, que é estar junto das pessoas, porque eu gosto disso. Eu gosto de estar junto das pessoas. É aquilo que mais gozo me dá na política. E não estou certamente em concorrência com ninguém quando estou junto das pessoas. As redes sociais são um mundo novo e mais preocupante do que as redes sociais talvez seja a inteligência artificial. As coisas que temos visto do ponto de vista da capacidade de manipulação, seja do ónus da prova no Estado de Direito, seja na dignidade das minorias e das mulheres nas redes sociais, isso preocupa-me muito e fico muito contente de ver que, aqui no Parlamento Europeu, conseguimos iniciar, por exemplo, uma revisão da lei da inteligência artificial para podermos, por exemplo, banir ferramentas como o Grok no X, que conseguem simular imagens em que vestem as mulheres ou despem as mulheres simulando a sua imagem ao ponto de poder colocar em causa a sua dignidade. Há dias a própria primeira-ministra italiana foi vítima disso e teve que denunciar isso em público. O caso da inteligência artificial é paradigmático do ponto de vista europeu porque não queremos regular ao ponto de limitar a inovação para não ficarmos para trás na concorrência tecnológica com a América ou com a China, mas ao mesmo tempo temos que regular ao ponto de não deixarmos os utilizadores europeus desprotegidos face a possíveis violações das suas liberdades e da sua dignidade. Esse equilíbrio é muito difícil, mas é a missão da Europa e eu acredito muito nessa missão.
Para terminar uma questão, e enquanto o Sebastião vai responder, eu vou ao Chat GPT pesquisar quem é que ele diria que o Sebastião escolhia. Mas para terminar, queria que escolhesse uma figura histórica que pode já estar morta, ou seja, é um exercício ficcional. Vou estar aqui a beber um copo nesta conversa nos últimos 40 minutos com essa pessoa. Com uma pequena regra: eu vou vetar uma pessoa à partida. A pessoa que eu vou vetar, é que não pode escolher, é o Winston Churchill. E agora o Sebastião vai ter que me dizer a outra.
Escolho o Harold Wilson, que foi o primeiro-ministro britânico, como o Winston Churchill, mas de um partido diferente do dele, do Partido Trabalhista, e eu escolho por três razões. Ele era um homem absolutamente extraordinário. Ele, antes dos 30 anos, foi professor universitário em Oxford, diretor do serviço ministerial durante a guerra, deputado, secretário de Estado, e depois chegou a ministro já com 31, salvo erro. Depois tornou-se líder do partido e conseguiu três ou quatro coisas extraordinárias. Do ponto de vista cultural, foi o primeiro primeiro-ministro na história do Reino Unido a deixar-se fotografar com os joelhos à mostra, o que tem alguma graça. Foi fazer canoagem com o filho numas ilhas sul da Cornualha. Depois ele adorava cerveja, e tendo em conta que nesta entrevista bebemos cerveja, eu acho que ele gostaria de estar aqui connosco. E depois ele foi primeiro-ministro e líder do partido durante muitos anos, mais de dez. Ele ganha duas eleições, depois perde uma, fica na oposição e volta a ser eleito primeiro-ministro, o que mostra alguma resiliência que eu não deixo de admirar. E conseguiu ganhar o referendo sobre a Europa, que era muito divisivo dentro do seu partido. Cosia sempre as pontas no seu partido. Nisso era muito parecido com o Luís Montenegro. E depois tem das anedotas verídicas mais deliciosas da política britânica que eu lhe vou contar se me deixar.
Estamos quase a terminar.
Como esteve 14 anos, líder do partido, no Governo, na oposição, duas vezes, ele teve que lidar muitas vezes com a malta que lhe queria suceder, os seus possíveis sucessores, e distribuindo e redistribuindo, e gerindo os equilíbrios, e trazendo para o governo, e afastando-os do governo. E a dado passo há um fulano, muito importante, se vira para ele e diz, olha lá, eu já percebi que tu andas aqui a distribuir o jogo e que na verdade vais continuar tu, líder do partido, mas explica-me lá uma coisa: se um dia, um fulano no autocarro te atropelar e tu morreres, o que é que nós fazemos a seguir? E o Harold Wilson virou-se para o colega e disse, descobre o sacana do motorista, está bem?
Vou só dizer que a Inteligência Artificial, com o primeiro prompt, disse que não havia dados para responder. E depois eu pedi-lhe então que indicasse personagens que fossem uma referência para o Sebastião Bugalho. E a primeira foi o Winston Churchill, a segunda, Francisco Sá Carneiro, a terceira, Margaret Thatcher, a quarta, Ronald Reagan, a quinta, o Konrad Adenauer, e a sexta, Charles de Gaulle. Com algum deles beberia uma cerveja?
Tem que começar a pagar o Chat-GPT caro, porque esse Chat-GPT é claramente um bocadinho simplista.
Mas nenhum deles?
Não, eu gosto do Francisco Sá Carneiro pelas razões de que as pessoas normalmente não falam sobre ele. O Francisco Sá Carneiro era muito diferente dos homens do seu tempo, e era um homem muitas vezes hostilizado até pelo seu próprio partido. E ele gostava mais de vinho do que de cerveja. Portanto, acho que beberia uma cerveja connosco por simpatia. Mas era um homem muito diferente daquele tempo. E eu tenho uma profunda admiração por ele por duas razões: a primeira é que ele tentou fazer uma comissão de inquérito à PIDE e aos torturados pela PIDE, durante o Estado Novo, quando era deputado na ala liberal. Já imaginou o que é um tipo de ir ao Parlamento Nacional durante uma ditadura pedir uma comissão de inquérito à Polícia Política? Já viu a coragem que era preciso? Com filhos, e com uma profissão, e com clientes? Portanto, ele era de uma coragem imensa. E depois foi aquela coisa que é ele ter escrito um telegrama ao Salazar em 68, quando eles mandam deportar o Soares para São Tomé a exigir a libertação dos Soares, quando ele nem conhecia os Soares. E o Soares obviamente não tinha nada a ver com o Francisco Sá Carneiro. Essa coisa de uma pessoa pôr a liberdade dos outros à frente do seu bem-estar, em tempos de ditadura, quando nós muitas vezes hoje em dia vivemos num tempo em que nos pomos a nós próprios à frente dos outros em tempos de liberdade, para mim isso é sempre uma inspiração. Toda a gente fala do Sá Carneiro, ainda bem, e por razões diferentes, e muitas vezes tentam-se apropriar dele e nem sequer leram um livro sobre ele. O livro do Miguel Pinheiro é um livro absolutamente extraordinário, é uma das melhores biografias políticas que eu já li na vida, mas conta a história desse Sá Carneiro que as pessoas não costumam referir. Que é a história do homem que foi corajoso quando mais ninguém era. E é por isso que eu o admiro, porque eu sei que talvez confrontado com as mesmas situações, eu próprio não conseguiria ser tão corajoso quanto ele.
O Observador viajou a convite do Parlamento Europeu