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(A) :: Estavam juntos há apenas algumas semanas. Quem é o casal que abandonou as crianças em Alcácer do Sal?

Estavam juntos há apenas algumas semanas. Quem é o casal que abandonou as crianças em Alcácer do Sal?

A mãe trabalhava como sexóloga e dava consultas de terapia a crianças com trauma. O padrasto foi condenado por agredir a ex-mulher, em 2010, e perdeu a custódia da filha.

Miguel Pereira Santos
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Marine Rousseau e Marc Ballabriga foram detidos esta quinta-feira em Fátima por suspeitas dos crimes de violência doméstica e de exposição e abandono de duas crianças. São a mãe e o padrasto dos rapazes de três e cinco anos que foram abandonados esta terça-feira numa zona de mato junto à Estrada Nacional 253, em Alcácer do Sal.

O casal foi detido pelas autoridades a mais de 200 quilómetros do local onde as crianças tinham sido encontradas, dois dias antes, por um padeiro. A GNR relata que ambos estiveram durante horas “de forma descontraída e a consumir” numa esplanada de um café em Fátima. Até à noite de sexta-feira, os dois suspeitos não tinham sido “muito cooperantes”, não tendo dito “grande coisa” às autoridades, acrescentou o porta-voz da GNR à SIC.

No entanto, já é possível traçar um perfil da mãe e do padrasto das crianças abandonadas. Marine tem 41 anos, formou-se em psicomotricidade e trabalhava como sexóloga. Por sua vez, Marc tem 55 anos, trabalhou como guarda militar e, em 2010, foi condenado a nove meses de pena suspensa por assédio e violência contra a sua ex-mulher. Ao contrário do seu companheiro, Marine não tem antecedentes criminais conhecidos. O casal começou a sua relação há apenas algumas semanas, segundo avançou o procurador de Colmar, a cidade francesa onde vivia a família, à BFMTV.

Mãe. A psicóloga que fazia terapia a crianças com trauma e se especializou como sexóloga

“Como sexóloga, ajudo todas as pessoas que sofreram traumas a recuperar a serenidade e a satisfação sexual!” Assim se apresenta Marine Rousseau na sua página de Facebook, que utilizava sobretudo para divulgar a sua atividade profissional. A mãe das crianças abandonadas em Alcácer do Sal partilhou em várias ocasiões um link que permitia agendar consultas de sexologia online: “Olá, e parabéns pela decisão que acabou de tomar! Durante a sessão, vou guiá-lo para uma melhoria, ao seu ritmo! A sua sexualidade merece, sem dúvida, uma atenção especial!”

Marine licenciou-se em Psicomotricidade, uma abordagem terapêutica e educacional que se foca na relação entre mente e corpo, na Universidade Paris VI Pierre e Marie Curie, em 2008. Foi enquanto especialista nesta disciplina que realizou terapia a crianças, adolescentes e adultos com problemas psicomotores, na década depois de se formar. Até 2022, deu consultas em clínicas localizadas em várias cidades em França: nos arredores de Paris, em Provins, em Bar-sur-Aube e também em Troyes.

Tinha acabado de terminar o seu segundo curso superior, outra vez na capital de França, mas desta feita em Sexologia na Universidade Paris VII Diderot. A partir de então, Marine passou a dedicar-se à terapia sexual como trabalhadora independente, contando atualmente com mais de quatro anos de experiência na área. “Exerce em consultório privado, realizando sessões de sexoterapia individual ou de casal, bem como sessões de acompanhamento pós-abuso sexual com a EFT [sigla em inglês] (Terapia de Liberação Emocional) ou situações de confronto com a sexualidade de menores que tenham tido um efeito traumático ou desorganizador”, lê-se na página online da empresa da mulher de 41 anos.

Marine também se apresenta como professora na Universidade Paris VII, tal como em “diversas instituições de formação profissional”. Na página da sua empresa, a suspeita de abandonar os filhos promove uma “masterclass” destinada a pais e a encarregados de educação para que estes saibam como abordar o tema da sexualidade com os respetivos filhos. “[É para] qualquer pessoa que queira falar sobre assuntos relacionados com o sexo quer seja às crianças, aos adolescentes, aos jovens, respeitando a sua sensibilidade e seu nível de desenvolvimento”, explicou num vídeo publicado no Facebook.

No entanto, as sessões de terapia não se destinavam apenas a lidar com questões de foro sexual. Segundo a terapeuta, as suas consultas também se destinavam a que tinham traumas resultantes de “uma agressão, uma humilhação, uma dor, [ou] palavras ofensivas”. A informação relativa à vida privada de Marine é mais escassa, mas o procurador de Colmar avançou à BFMTV que a relação com Marc Ballabriga, o padrasto das crianças, começou apenas há algumas semanas.

Padrasto. Antigo guarda militar, condenado por violência doméstica e com transtornos

O padrasto das crianças abandonadas em Alcácer do Sal foi anteriormente condenado por crimes praticados contra uma antiga companheira. Em 2010, Marc Ballabriga foi considerado culpado por assédio e violência doméstica contra a mãe da sua filha e condenado a uma pena suspensa de nove meses de prisão.

Por esta altura, o homem de 55 anos atravessava um longo período de depressão que o levou a abandonar a guarda militar, segundo o jornal Le Parisien. No entanto, uma avaliação psicológica a que foi submetido na altura descreveu-o como alguém “sociável”, “responsável” e “bem equilibrado”.

No entanto, a BFMTV avança, com base numa fonte próxima da investigação, que o padrasto das duas crianças, um homem de 55 anos, é conhecido pela polícia e pelos serviços judiciais franceses por ter transtornos psiquiátricos. Na sua página pessoal de Facebook, Marc Ballabriga fez, ao longo dos últimos anos e até recentemente, várias publicações antissemitas e defendendo teorias da conspiração.

Passados dois anos da sua condenação, Marc Ballabriga sinalizou às autoridades francesas aquilo que considerou serem “comportamentos preocupantes” que o levavam a suspeitar que a sua filha pudesse estar a ser vítima de abusos sexuais do novo companheiro da sua mulher. A denúncia não foi suficiente para abrir um inquérito criminal ao padrasto da filha, mas deu origem a uma investigação, segundo um documento judicial de 2012.

O Juiz do Tribunal de Menores de Perpignan pediu que fosse realizada uma investigação ao ambiente familiar em que vivia a filha de Marc Ballabriga para encontrar “indícios favoráveis à permanência no domicílio [em casa da sua mãe] ou, pelo contrário, à sua retirada”. Na altura, a relação entre os pais da criança era descrita como “muito conflituosa” desde a condenação do pai por atos de violência contra a mãe.

O homem agora suspeito de ter abandonado os dois meninos encontrados em Alcácer do Sal terá perdido, de resto, a custódia da própria filha, por volta de 2013. Em várias publicações no Facebook, garante que nunca o poderiam acusar de abandonar a filha, que é a sua “maior força e inspiração”, e que vive na esperança de que a filha venha a saber um dia do amor que tem por ela.