A moção de Luís Montenegro ao congresso do PSD tem 24 páginas, mas podia ter só as duas primeiras. É que nessas páginas iniciais, o líder do PSD explica porque nada do que vem a seguir, sob um título trumpista (“Fazer Portugal Maior”), tem importância.
No começo da moção, e ao contrário do que se disse, Montenegro não acabou com as linhas vermelhas: alargou-as. Não se aplicam agora só ao Chega, mas também ao PS. O PSD não fará acordos gerais de governação com ninguém. Em vez disso, negociará com todos sobre cada assunto. Eis o problema. Porque o Chega e o PS têm visões opostas sobre quase todos os assuntos. Quem se propõe governar através de combinações ora com o Chega ora com o PS, está a dizer-nos que não tem um programa coerente, mas apenas a intenção de manter-se no meio, equidistante.
Montenegro diz que isso decorre de o PSD não ter “maioria absoluta”. Teria sido essa a vontade do eleitorado. Mas a vontade do eleitorado não pode ser medida só pelo facto de não ter dado a maioria absoluta ao PSD. Porque o eleitorado fez outra coisa: reduziu a esquerda à sua expressão mínima, e deu a maior maioria de sempre à direita. O país votou contra o caos migratório, o colapso dos serviços públicos, e a estagnação económica da governação socialista. Visto que as políticas que levaram a tudo isso exprimem convicções e conveniências do PS, ninguém pode esperar sair daí com o PS.
Faria mais sentido dizer que o eleitorado, não tendo dado maioria absoluta ao PSD, lhe indicou com que lado devia tentar negociar de preferência. Montenegro decidiu ignorar essa indicação. Porquê? Quando as linhas vermelhas se aplicavam só ao Chega, a rejeição do Chega podia explicar essa atitude. Agora, não. Agora, a opção por oscilar entre PS e Chega só pode significar que Montenegro, apesar das páginas “reformistas” da sua moção, não quer comprometer-se com nada, à espera de eventuais eleições. Sendo este o seu cálculo, acaba por ser o cálculo dos outros partidos, que também oscilam como o PSD: o PS oscila entre ser o partido dos “pactos de regime” ou o novo albergue da esquerda radical; o Chega entre ser parte de uma maioria reformista, ou o patrono de todas as insatisfações e expectativas, sejam elas quais forem. Quem está no poder nunca enlouquece sozinho: o desvario é sempre geral.
Nem vou perguntar se isto é bom para o país. Vou perguntar apenas se é bom para o PSD. A moção começa por notar que o PSD tem o governo nacional, os governos regionais e a maioria das câmaras municipais e juntas de freguesia. É o “maior partido português”. Mas o maior partido português, neste momento, não sabe que fazer de Portugal, e parece convencido de que até é vantajoso não saber.
Segundo constou em tempos, Montenegro chegou a imaginar-se em 1986, a caminho de uma maioria à Cavaco Silva. Os paralelos históricos são sempre duvidosos. Mas se tivesse de escolher um para este governo, não estaria em 1986, mas em 1976. Em 1976, o PS também formou governo sozinho e recusou acordos à direita e à esquerda. Ignorou a grande maioria eleitoral, de que fazia parte, que rejeitara o PREC gonçalvista nas legislativas e nas presidenciais. Acreditou que ganharia mais em ser “charneira”, do que em conduzir reformas que, podendo tirar o país do beco sem saída da revolução, o comprometessem com a direita. O resultado foi a degradação constante do Estado e da economia, e, após peripécias várias (entre as quais, uma mão de afogado deitada ao CDS durante a intervenção do FMI), a queda pouco airosa do PS em 1978. Este PSD, tal como o PS de 1976, pensa que no meio está a virtude. Estará, mas não quando a virtude é concebida como indefinição e deriva.