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Os jornais

Quando o meu pai morreu, alguns dos seus amigos recordaram-no como o maior repórter que conheceram. O cheiro dos jornais, as histórias à mesa: foi essa a vida do meu pai e da minha mãe.

Djaimilia Pereira de Almeida
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Sempre que folheio um jornal, primeiro cheiro-o. Talvez seja o perfume mais antigo da minha vida. Com o meu avô paterno, desde os sete anos, mesmo antes de estar ciente de que era filha de dois jornalistas, escolhíamos jornais, como o meu avô dizia, aos domingos, uma vez por mês.

“Escolher jornais” significava desfazer a pilha que ele ia fazendo ao longo das semanas, em cima da mesa da sala, de edições do Expresso e do Notícias e um ou outro desportivo, jornais e outros papéis, folhas dispersas com cálculos de álgebra, páginas de um diário frio, listas de compras, notas e comentários às notícias, papelinhos, facturas: e então cabia-me conferir as datas e separar o que tivesse menos de duas semanas para guardar e deitar o resto para o lixo.

Esse gesto do meu avô, a conferir a data dos jornais, a baixar os óculos para ler a data, como eu agora baixo os meus, de robe sobre o pijama, às primeiras horas da manhã, antes de se ausentar “para fazer a toilette”, a sala a cheirar a jornal, a mistura do cheiro do papel com o cheiro do café e das torradas e dos cigarros — foi isso a minha infância.

É anterior à consciência de que o meu pai e a minha mãe eram jornalistas, anterior a isso ser para a menina que eu era uma vaidade e uma coisa importante, anterior a isso era o meu avô todo vaidoso a ler as reportagens do meu pai nos extintos Europeu e Diário de Lisboa e lê-las a mim em voz alta para eu ver como o meu pai escrevia bem.

As idas à redacção, brincar com o Telex, os amigos que hoje são nomes de rua de cidades do subúrbio, as pessoas que aprendi em criança terem cara de jornalistas, e eram senhores barbudos ou que eu achava peludos, e mulheres com voz de whisky, maduras e mastigadas, senhores adultos com quem ao fim do dia o meu pai se sentava a beber imperiais, são hoje vultos, vejo a silhueta das máquinas de escrever sobre as mesas, cheiro o fumo, ouço o toque dos telefones, depois, através do fumo, uma redacção já noutro hemisfério, a tipografia onde era impresso o Jornal de Angola, perto da casa onde vivíamos em Luanda, e aquele cheiro intenso e fundo a tinta, que se sentia na rua passando à porta e lá dentro era inebriante, o som das máquinas, a redacção aí, quente e suada, os amigos fotógrafos, musculados e atrevidos, as fantasias cubanas, o jazz e a revolução e o desmesurado amor a tudo o que era novo.

Quando o meu pai morreu, alguns dos seus amigos recordaram-no como o maior repórter que conheceram. O cheiro dos jornais, as histórias à mesa, mares nunca dantes navegados, as personagens sinistras, os alimentos intragáveis que há nos lugares longínquos, os bastidores do poder, as manias secretas dos chefes de estado, amantes dignas de James Bond, segredos de estado, represálias, os sacanas, os revezes dos justos: foi essa a vida do meu pai e da minha mãe, que ouvi sempre como toda a vida os ouvi a ambos, a uma distância, através de uma linha telefónica do presente para o passado, linha interrompida, manchada de glórias entretanto abafadas pela vida, por lamentos, por erros, por oportunidades perdidas ou que nunca vieram, pelas quais todos esperámos e continuamos a esperar, aquela grande coisa que mudará tudo para sempre e nunca veio, a pessoa misteriosa que nos baterá à porta com uma mensagem vinda do paraíso, figura que tarda, atrasado carteiro que morreu entretanto e só nós é que não sabemos. E então olho duramente para a minha vida e vejo-os a ambos, ao meu pai e à minha mãe, nos seus sonhos tremendos, nas mesmas exactas ilusões, nos seus passados heróicos: também eu à espera do carteiro que tombou na curva da estrada e traria a carta que mudaria tudo.

Hoje já só leio em papel jornais literários. Não compro jornais todos os dias. Chegam pelo correio vindos de outros países. Assino jornais sem cheiro como este. Ainda é a primeira coisa que faço a cada manhã: ler os jornais. Mas a cada vez que entro numa tabacaria ou abro um semanário, a cada vez que me encontro com o papel de que são feitos os jornais, num folheto, no diário da terra, numa agenda cultural, a cada dia, semana, a cada manhã, estou diante da minha vida inteira, do lugar de onde vim, estou diante da memória dos meus, da minha origem, da razão de ser de tudo.