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Direitos Humanos por marcação prévia

Uma coisa é discutir a cena triste de Ben Gvir, outra é fingir que qualquer barco com parolos, câmaras e slogans adquire, por milagre instantâneo,  imunidade diplomática e santidade jurídica.

José António Rodrigues do Carmo
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Ben-Gvir, o ministro das polícias de Israel é um ferrabrás que parece ter sido inventado pelos inimigos de Israel.

Interceptar uma flotilha saída da Turquia, carregada de idiotas úteis, activismo pago, câmaras e vontade de provocar, era uma operação juridicamente inatacável, politicamente delicada e comunicacionalmente explosiva.

A marinha israelita fez bem o que devia e impediu discretamente a violação do bloqueio naval de Gaza.

Mas depois apareceu Ben-Gvir, que ofereceu de bandeja aos organizadores da flotilha, exactamente aquilo que eles procuravam.

Os figurantes foram mostrados ajoelhados, de mãos atadas, enquanto o ministro passava por ali como se estivesse a inaugurar uma feira agrícola. Ben-Gvir não defendeu Israel. Prejudicou-o. Entregou à propaganda antissemita munições, legenda e distribuição gratuita. Netanyahu percebeu-o. Gideon Saar percebeu-o. Aliás, como qualquer pessoa com dois neurónios em activdade.

Só Ben-Gvir parece ter achado que transformar outros cretinos políticos em cenário para vídeos de redes sociais era prova de firmeza. A estupidez é um abismo a contemplar outro abismo.

Convém, porém, separar as coisas. A estupidez de Ben-Gvir não transforma automaticamente a flotilha numa missão franciscana, nem converte o bloqueio naval numa “violação do DI”, como certos comentadores se atropelam a declamar, sem qualquer noção do ridículo.  O relatório Palmer, elaborado na sequência de outra flotilha vinda da Turquia, em 2010, concluiu que o bloqueio naval de Gaza era uma medida legítima de segurança para impedir a entrada de armas por mar. O Manual de San Remo também não foi escrito por tenebrosos “sionistas”, e  admite a captura de navios que procurem violar um bloqueio, desde que este cumpra os requisitos legais e humanitários, como é o caso. Sim, em águas internacionais, se for entendido como conveniente.

Ou seja, uma coisa é discutir a cena triste de Ben Gvir, outra é fingir que qualquer barco com parolos, câmaras e slogans adquire, por milagre instantâneo,  imunidade diplomática e santidade jurídica.

A flotilha do Hamas não era uma arca de Noé da caridade universal. Era uma operação política. O seu objectivo não era levar pão, medicamentos ou tendas; era furar o bloqueio, ajudar o Hamas, produzir confronto e oferecer ao mundo a fotografia da indignação. Ben-Gvir, com a competência estratégica de um pirómano numa gasolineira, forneceu-a.

Foi a deixa esperada para a entrada em cena dos habituais sacerdotes da indignação selectiva. Pedro Sánchez, cínico como o seu mentor bolivariano, Zapatero, ergueu-se de imediato para exigir sanções, condenações e talvez uma missa socialista em honra da humanidade ofendida. É comovente ver o PSOE descobrir o Estado de direito quando o acusado é Israel. O mesmo universo político que carrega no baú dos tesourinhos deprimentes os GAL, Barrionuevo e outras relíquias da guerra suja contra a ETA, apresenta-se agora de túnica branca, olhar lacrimoso e dedo acusador. A hipocrisia é um radar moral que só detecta crimes quando o criminoso é o inimigo preferido.

Sánchez fala de Israel sempre que Espanha se lembra de falar dele. Com a mulher, o irmão, antigos ministros, Zapatero e o aparelho socialista mergulhados em investigações, processos, pântanos e suspeitas, Israel funciona como lavandaria moral. Não resolve problemas, mas perfuma o ambiente. Quando a casa cheira mal, aponta-se para o a casa do vizinho e exige-se uma comissão internacional sobre odores indesejáveis.

Portugal, como a pinta dos videirinhos, procurou rapidamente o lugar disponível na fotografia europeia da virtude na moda. Montenegro e Rangel condenaram Israel no tom compungido de quem receia chegar atrasado ao coro. A diplomacia portuguesa, em vez de dizer que a humilhação de tontinhos é inaceitável, mas que isso não torna automaticamente ilegal o bloqueio naval, preferiu juntar-se à  procissão geral. Quando não se sabe exactamente o que pensar, procura-se o grupo mais ruidoso e finge-se convicção. O CDS, seu parceiro de coligação, não gostou e por boas razões, mas o bom senso raramente é maioritário.

Apareceu também António José Seguro, subitamente muito desperto para a defesa dos direitos humanos, quando há judeu na costa. O Presidente Seguro derrama sobre o assunto uma comoção seleccionada com a pinça da escola guterrista dos contextos e dos pântanos: bastantes lágrimas de crocodilo para Gaza, furibunda indignação para denunciar Israel, pedantes  clichés da moda “antissionista”,  mas uma prudência monástica quando o assunto passa para o Irão, a China, a Rússia, Cuba, o Hamas, o Hezbollah ou outras fábricas conhecidas da dignidade humana. A consciência de AJS parece ter agenda e funcionar por marcação prévia, fechando quando o mau da fita  não fala hebraico.

Não se trata de exigir que Seguro fale de tudo, para isso já tivemos o antecessor. Trata-se apenas de notar o padrão. Israel é denunciado com prontidão, gesticulação e ganas; os regimes, milícias e paraísos penitenciários do antiamericanismo internacional recebem silêncio, respeito, perífrases ou abstracções piedosa sobre “a paz”. A especiosa  máquina moral do nosso Presidente aponta com precisão cirúrgica e microscópio para Jerusalém e ganha cataratas perante Teerão, Moscovo, Pequim, Havana ou os rapazes dos túneis e  rockets que transformaram Gaza numa base militar com berçários à superfície e a vida dos palestinianos  num inferno.

Depois, claro,  veio a televisão onde, por vezes, a complexidade entra de gravata e sai de pijama.

Azeredo Lopes, especialista em direito internacional nas horas vagas e em hipérboles tremendas nas horas de ponta, proclamou que a causa da flotilha era “justa”, que aqueles flotilheiros tontos,  financiados pela Irmandade Muçulmana, tinham “mais coragem do que nós” e que o bloqueio equivalia a “punição colectiva”. É um bolo de banalidades que fica bem em comícios para massas de baixo QI, mas falta saber se a coragem consiste hoje em juntar-se à multidão ignara que grita em rebanho contra Israel em todas as capitais europeias e nos campus universitários onde há judeus.

Até onde a vista alcança, coragem, no Ocidente contemporâneo, não é berrar libelos antissemitas diante de plateias que aplaudem sem sequer usar um neurónio. Coragem é recusar transformar o direito internacional num panfleto para consumo de adolescentes tardios.

A “causa justa” também merece exame. Justa porquê? Porque é contra Israel? Porque vem da Turquia, esse prodígio de liberalismo, pluralismo e ternura para com dissidentes? Porque faz o serviço objectivo do Hamas, apresentando como virtude  aquilo que ajuda a manter o bloqueio simbólico sobre qualquer solução que não passe pela deslegitimação de Israel?

Há causas justas e há causas que vestem colete de causas justas para esconder a velha obsessão: o único Estado judeu do mundo não pode vencer, não pode defender-se e, de preferência, não pode existir sem pedir desculpa.

Sérgio Sousa Pinto, que muitas vezes consegue pensar sem precisar de autorização da tribo, parece sofrer, como a Fiona do Schreck, uma metamorfose curiosa quando surge Israel no ecrã. A palavra “genocídio” aparece então como interruptor emocional. “Estado pária”, idem. São expressões tremendas, perfeitas para exorcizar indignações, mas péssimas para a inteligência. Genocídio não é uma interjeição. Estado pária não é certamente a única democracia do Médio Oriente, constantemente atacada há quase 80 anos e que se defende com regras e gastos avassaladores . Os políticos israelitas, como qualquer outros, podem cometer erros graves, abusos, excessos e decisões politicamente ruinosas. Ben-Gvir provou-o com zelo. Mas a transformação automática de cada acto israelita numa prova de essência criminosa não diz nada sobre Israel e diz tudo sobre quem já vem com  a má-fé a fervilhar e a sentença escrita antes dos factos.

A ironia é que toda esta gente orbita em perfeito equilíbrio. Ben-Gvir precisa dos activistas para representar o papel de Dirty Harry. Eles precisam dele para representar o papel de vítimas angelicais. Sánchez precisa de ambos para mascarar a corrupção com compaixão fingida. Montenegro precisa do caso para comprar a aprovação da esquerda. Seguro precisa de Israel para provar que a sua consciência humanista  respira, desde que não seja obrigada a olhar para Teerão, Pequim, Moscovo, Havana, Hamas ou Hezbolah. Azeredo Lopes precisa da flotilha para transformar direito internacional em sermão com a profundidade de um paiol. Sérgio Pinto precisa de Israel para suspender a lucidez e libertar o espalha brasas interior.

No fim, ficaram todos satisfeitos. A flotilha ganhou a aposta de provocação. Ben-Gvir ganhou likes entre os seus. Sánchez ganhou mais uma cortina de fumo. Montenegro ganhou um ponto na aprovação da esquerda. Seguro ganhou uma causa com baixo custo e alto rendimento moral. Azeredo Lopes ganhou uma homilia. Sérgio Pinto ganhou em falar por cima da Helena Matos.

E a realidade, coitada, ficou ajoelhada no chão, de mãos atadas, à espera que alguém a trate com mais dignidade do que estes campeões da moral tratam os factos. A grande especialidade do humanitarismo selectivo é escolher, com impressionante pontaria ideológica, quais os humanos que dá jeito defender.

Os judeus, nem pensar!