Em Outubro de 2016, num discurso de campanha em Green Bay, Wisconsin, Donald Trump proferiu pela primeira vez uma das suas expressões mais marcantes: “Está na hora de drenar o pântano [drain the swamp] em Washington, DC. É por isso que estou a propor um pacote de reformas éticas para tornar o nosso governo honesto outra vez.” A ideia de “esvaziar o pântano” foi fundamental para a imagética política de Trump e para a mobilização eleitoral de muitos eleitores que votaram em Trump pela primeira vez em 2016.
Para ganhar, Trump precisou de mobilizar mais do que a base ideológica conservadora e Republicana. Matematicamente, é impossível ser eleito nos Estados Unidos apenas com base no eleitorado ideológico e fiel a um dos partidos; é preciso expandir esta base, juntando-lhe outros grupos de eleitores, com motivações diferentes. Em 2016, Donald Trump combinou o voto ideológico conservador (motivado, por exemplo, pelo assunto do aborto) com o voto dos perdedores da globalização, bem como o voto anti-establishment e anti-corrupção. Em 2024, juntou-lhe o voto anti-incumbente descontente com a inflação. Estes grupos não concordam em tudo e movem-se por razões diferentes. Drenar o pântano foi um discurso e uma forma de atrair o grupo de eleitores descontentes com o “sistema político”.
Mas, em aparente contradição com a retórica anti-corrupção de limpeza do pântano, ao longo do último ano, a Casa Branca tornou-se num veículo de enriquecimento pessoal para Trump e a sua família. Em Janeiro deste ano, Donald Trump processou o IRS (a autoridade fiscal norte-americana) em 10 mil milhões de dólares, alegando falhas na proteção das suas declarações fiscais, que tinham sido divulgadas ilegalmente em 2019 e 2020 por um contratado da agência. O processo foi recentemente “resolvido” pela própria administração de Trump: o Departamento de Justiça, liderado pelo seu antigo advogado de defesa pessoal, Todd Blanche (actual Procurador-Geral), comprometeu-se a criar um fundo de 1,8 mil milhões de dólares de dinheiro público disponível para “vítimas de perseguição judicial” por parte da Administração Biden. Claro que os beneficiários deste fundo serão escolhidos por uma comissão nomeada pelo próprio Procurador-Geral e pela administração Trump. No dia seguinte, num documento de uma página, o mesmo Departamento de Justiça comprometeu-se a encerrar para sempre todas as auditorias e investigações fiscais em curso a Trump, aos seus filhos Don Jr. e Eric, à Trump Organization e a todas as empresas relacionadas (cerca de 500 empresas). O acordo concede a Trump e família uma imunidade fiscal permanente sobre tudo o que declararam até agora. É uma imunidade fiscal sem precedente na história do IRS. A legalidade é muito dúbia e o conflito de interesses é total.
Não é um caso isolado. Em Maio de 2025, Trump aceitou do Qatar um Boeing 747 avaliado em 400 milhões de dólares. A família Trump construiu, em paralelo, um império de criptomoedas que acrescentou mais de 7,1 mil milhões de dólares à sua fortuna pessoal em apenas seis meses. As criptomoedas são, aliás, um óptimo veículo para subornos escondidos: quem quiser agradar Donald Trump, ou obter uma decisão favorável do presidente norte-americano, sabe bem o que tem de fazer e a quem enviar o recibo. O padrão é evidente: o cargo político tornou-se um activo comercial ao serviço do enriquecimento privado, em violação de todas as regras legais e éticas que regem um Estado de direito democrático.
O cientista político norte-americano Stephen Hanson explica a situação de forma concisa e directa, mas extraordinariamente esclarecedora. Se é verdade que a corrupção consiste na utilização de cargos públicos para extrair benefícios privados, esta definição só tem força normativa se o líder, os políticos e os eleitores distinguirem cognitivamente o bem público do interesse privado. Acredito que esta separação não exista na cabeça de Donald Trump: é-lhe verdadeiramente estranho pensar que existe um interesse político dos Estados Unidos separado do seu próprio interesse pessoal.
Stephen Hanson e Jeffrey Kopstein recuperaram recentemente, a partir de Max Weber, o conceito de Estado patrimonial para definir a lógica de muitos regimes contemporâneos, desde o regime consolidado de Putin à lógica patrimonialista de Donald Trump. Num Estado patrimonial, quem governa utiliza o Estado como património privado: distribui cargos, recursos e favores com base na lealdade pessoal, na família e nos amigos, em vez de seguir regras impessoais e instituições independentes. Os Estados modernos, pelo contrário, baseiam-se numa lógica de funcionamento racionalizada e impessoal, que não varia consoante o cidadão em causa ou o governo temporal.
Para Weber, o Estado patrimonial era a forma mais antiga de organização dos Estados. O desenvolvimento e a modernidade implicavam uma transição para um Estado de base burocrática, racional, legalista e não-discricionária. Provavelmente, ao escrever no início do século passado, o sociólogo alemão teria dificuldade em imaginar a complexidade, sofisticação e capacidades dos Estados modernos no século XXI. Mas Weber também não imaginou que a reversão – de um Estado moderno e impessoal para um Estado patrimonial – era, afinal de contas, perfeitamente possível.
Mas porque é que os norte-americanos aceitam esta reversão de um Estado impessoal para um Estado patrimonial? Três lógicas são comuns. Alguns têm uma ideia puramente instrumental da função do Estado: se o governo estiver a fazer coisas boas ou a implementar as políticas que preferem, desvalorizam o modo e os procedimentos através dos quais o Estado as alcança. De acordo com esta lógica, os apoiantes de Donald Trump desculpam os seus métodos.
Em segundo lugar, é habitual ouvirmos a afirmação de que “os outros também fazem”, uma lógica proferida infinitamente mais vezes do que demonstrada. Quem a invoca raramente se dá ao trabalho de provar que a ilegalidade ou desonestidade em causa são, de facto, normas prevalentes na sociedade. Na prática, serve para justificar um nivelamento por baixo e para legitimar comportamentos que se sabem reprováveis, projectando-os sobre um pano de fundo imaginado de degradação geral. Frequentemente, é simplesmente uma forma estratégica de exercer o poder, mesmo que quem invoca o argumento saiba que está a abrir uma porta para problemas muito maiores, e qualitativamente distintos, dos que alega combater.
Finalmente, e em terceiro lugar, temos o cinismo fatalista e resignado: “a política sempre foi assim”. A tónica aqui é ligeiramente diferente da ideia de que “os outros também fazem” ou da motivação estratégica e instrumental. Este cinismo parte de uma perspectiva enraizada e profundamente desmoralizada de quem já não acredita que é possível ambicionar sociedades melhores ou que a política, com todos os seus defeitos, vale a pena. Este cinismo é essencial para mobilizar eleitorado previamente apático ou abstencionista para projectos populistas e é também uma fórmula de radicalização. Comentadores, elites e eleitores esquecem-se frequentemente de que o descontentamento, ainda quando justificado, não desemboca por si só num projecto político radical. O cinismo fatalista é uma das formas mais eficazes de conseguir essa conversão.
Olhando para os desenvolvimentos da política norte-americana durante o último ano, registo que este cinismo fatalista e resignado é mais do que uma simples causa da emergência do populismo como força política. Mais do que isso, o populista contemporâneo, quando governa, precisa do cinismo para sobreviver e se sustentar. Para se manter no poder, precisa de apagar a discrepância entre a retórica que o levou ao poder e os factos da sua prática política e governativa.
A discrepância é, em certa medida, óbvia: o populista chega ao poder com a retórica de romper com um sistema corrupto e de drenar o pântano, mas, uma vez no governo, invariavelmente reproduz e amplifica os comportamentos que supostamente denunciou. Utiliza o poder político para benefício e enriquecimento próprio, beneficia amigos e aliados de forma ilegítima e instrumentaliza a justiça. Como conciliar, então, a retórica e os factos? É aqui que o cinismo desempenha um papel fundamental e estrutural na lógica populista. Se os eleitores acreditarem, de facto, que nenhum governante seria diferente e que acreditar noutra forma de governar é uma ingenuidade ou uma impossibilidade, então a discrepância evapora-se e tudo é desculpável.