Comecemos pelo que não está em causa. Nenhum país aceita depender apenas de boa vontade diplomática. A tradição da guerra justa – o termo pode ser infeliz, mas não vale a pena inventar a roda – sobre a qual Agostinho e Tomás de Aquino tanto escreveram, existe precisamente porque o pacifismo absoluto é um luxo moral a que os mais vulneráveis não se podem permitir. Mas o realismo não funciona só para um lado.
Clausewitz escreveu que a guerra é a continuação da política por outros meios. Mas o inverso, ou pelo menos uma reinterpretação da ideia do general prussiano, também é verdadeiro: guerra e armamento sem política são apenas despesa.
Defesa genuína tem características reconhecíveis. Identifica a ameaça, define os meios proporcionais, estabelece o que não pode ser substituído por diplomacia e o que pode. Tem debate público: os parlamentos discutem as prioridades e os custos de oportunidade, os cidadãos percebem o que estão a financiar e o que deixam de financiar em troca. Tem integração estratégica: o investimento militar é parte de uma política de segurança mais ampla, que inclui alianças, instituições multilaterais e canais diplomáticos. E porquê? Porque armamento sem enquadramento político produz frequentemente as ameaças que pretende prevenir.
A questão, portanto, não é se a Europa deve ter capacidade de defesa. Deve. A questão é se o que se está a fazer merece esse nome.
É preciso ser claro: a paz não é mera ausência de guerra. A paz é fruto da justiça e pressupõe o cuidado ativo pelas condições que permitem às pessoas viver com dignidade. Por isso, ainda que possua o maior e mais potente arsenal militar do mundo, e não esteja envolvido em qualquer conflito, um estado que não promove a justiça não vive em paz.
Quem arma os seus exércitos enquanto esvazia escolas e hospitais não está a defender os seus cidadãos. Está a abandoná-los de outra maneira. O desenvolvimento humano integral não pode ser subordinado à lógica dos mercados nem às conveniências da geopolítica. Há uma hierarquia de bens, e ela exige escolhas. E quem o disse algumas vezes foram os insuspeitos João Paulo II e Bento XVI.
No entanto, os recursos não são ilimitados. As sociedades democráticas e liberais enfrentam hoje um beco sem saída: por um lado, o investimento em defesa é inevitável, mas drena talentos e recursos essenciais para produzir armamento que não gera, necessariamente, qualquer riqueza futura; por outro, abdicar da saúde e do estado social é um suicídio, porque estas sociedades sustentam-se precisamente na garantia de bem-estar aos cidadãos. É verdade que o prémio nobel da economia, James M. Buchanan, escreveu que a forma através da qual os governos tentam sair deste dilema é através de emissão de dívida, mas também Lyndon Johnson tentou pagar a Guerra do Vietname e o Medicare simultaneamente e isso gerou uma inflação massiva nos anos 70. Ou seja, um encargo pesado para uma geração futura.
O nosso objetivo atual deveria ser evitar esta armadilha. Se a resposta ao justificado receio geopolítico for uma corrida cega ao armamento, financiada pelo desmantelamento silencioso do Estado Social ou por um endividamento que asfixiará o nosso futuro económico, o continente estará a sabotar a sua própria segurança a partir de dentro.
Uma democracia fraturada, em que os cidadãos perdem o acesso à saúde, à educação e à mobilidade social, torna-se internamente frágil. Torna-se terreno fértil para populismos, polarização extrema e desconfiança nas instituições. A verdadeira força de dissuasão do modelo europeu nunca foi apenas militar; foi, acima de tudo, a sua coesão social e o seu compromisso inabalável com a dignidade humana.
Precisamos de forças armadas eficientes e modernizadas? Sem dúvida. Mas integradas num projeto político lúcido. Fazer crer que a simples acumulação de mísseis, drones e blindados garante a paz, ignorando o custo de oportunidade que isso impõe à vida quotidiana e à prosperidade das populações, não é realismo estratégico. É uma perigosa ilusão. Em última análise, uma nação só está verdadeiramente defendida quando os seus cidadãos sentem, no seu dia-a-dia, que têm um modo de vida e uma sociedade que valem a pena ser defendidos. Não estou certo de que isso aconteça connosco.