Quando Alex (nome fictício) tinha cerca de 12 anos gostava de trepar às árvores com um amigo. Outra das brincadeiras entre os dois era correr um atrás do outro, como num jogo da apanhada. Mas foi por essa altura, conta, que percebeu ter uma “conexão muito grande com a natureza” e que o seu “coração pertencia ali”. Essa “conexão” terá evoluído, ainda nessa altura, para uma outra coisa: Alex diz que começou então a reconhecer-se como um animal, em particular um cão de raça border collie.
Mas a descoberta pessoal levou a episódios de bullying na escola, que o levaram a “esconder” este seu lado. Até há pouco tempo. Hoje, já adulto, fala abertamente sobre ser therian e aponta o dedo à Ordem dos Médicos Veterinários (OMV), que definiu orientações sobre como agir caso uma destas pessoas se dirija a um médico veterinário para ter uma consulta. A indicação, entende Alex, não faz sentido: “Sabemos plenamente que somos pessoas.” Ao Observador, o bastonário dos veterinários explica que a medida teve um caráter preventivo: sem casos conhecidos em Portugal, a verdade é que dos EUA e de alguns países europeus chegaram relatos de therians em busca de acompanhamento médico em clínicas veterinárias.
O comunicado foi partilhado internamente pelos profissionais inscritos na Ordem dos Veterinários, mas o conteúdo acabou por ser divulgado publicamente a meio de maio. O documento refere que “o médico veterinário, perante um teriantropo [ou therian], deve recusar a prática de atos de diagnóstico, prescrição e tratamento de doenças — atos médicos reservados a médicos com inscrição na Ordem dos Médicos”. E deve ainda explicar que “está legalmente habilitado apenas para tratar de animais e não pode prestar cuidados de saúde a pessoas, ainda que estas se identifiquem como animais”.
Nesse mesmo documento é ainda salientado que “a lei portuguesa reconhece e tutela expressamente certas dimensões da identidade pessoal (por exemplo, o direito à autodeterminação da identidade e expressão de género – Lei nº 38/2018), mas não prevê, nem tutela qualquer estatuto jurídico de ‘identidade animal’ da pessoa”.
Apesar de terem emitido esta orientação, a OMV garante ao Observador que “não houve nenhum caso registado” de therians a marcar consultas em clínicas para animais até ao momento. “A Ordem foi questionada por alguns membros sobre o que fazer na eventualidade de acontecer. As dúvidas surgiram por causa de uma tendência que, de facto, existe na Europa e nos EUA. Sabemos que a Ordem não atende pessoas, mas convém ter a base legal para nos protegermos. Temos de estar salvaguardados”, explica a OMV ao Observador.
A informação de que não havia casos de pessoas a tentar marcar consultas para si em clínicas veterinárias não surpreende Alex. Conta que lhe bastou “uma pesquisa no Google” para saber que não há casos registados. E, apesar dos casos registados noutros países, insiste: “A nossa comunidade sabe que se precisarmos de ir ao médico não vamos ao veterinário. Sabemos plenamente que somos pessoas e que o que temos é uma coisa espiritual.”
Alex diz também ter entrado em contacto “com várias pessoas da comunidade em Portugal”, concluindo que “não há registos” de elementos a procurar este tipo de acompanhamento clínico. “Nos EUA sim, isso acontece”, acaba por assumir, ressalvando que não é possível saber quantas marcações são feitas por pessoas que querem apenas denegrir a imagem dos therian.
A fronteira é clara para Alex: um ser humano não se dirige ao consultório de um veterinário quando procura acompanhamento médico para si mesmo. Mas não será tão clara para outros membros da comunidade — foi, de resto, por terem conhecimento de que pessoas therian estariam a contactar veterinários para receber tratamento médico que os profissionais em Portugal pediram linhas orientadoras mais claras à sua ordem, para o caso de serem confrontados com situações idênticas.
A Ordem dirigida por Pedro Fábrica não foi sequer a primeira a fazê-lo. Em fevereiro deste ano, o Colégio de Profissionais de Medicina Veterinária da Costa Rica divulgou uma mensagem através dos seus canais de comunicação. Nessa mensagem, a presidente, Silvia Coto, era direta: “Respeitando a diversidade identitária”, sublinhava a médica veterinária, a ideia de que um elemento therian pudesse ser observado ou acompanhado por um destes profissionais configuraria um “exercício ilegal de medicina humana e, assim, uma falha ética”. A responsável daquele organismo deixava ainda uma mensagem à população para que “não expusessem” os veterinários “a tais dilemas éticos”.
Ao Observador, o presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos sublinha a ainda escassez de investigações científicas sobre este fenómeno, que continua a ser uma experiência de um nicho da sociedade. Mas Miguel Ricou admite que os primeiros trabalhos feitos sobre esta comunidade apontam para a ideia de que “estas pessoas têm maiores dificuldades ao nível social” e que se refugiam na comunidade therian por terem encontrado ali uma forma de pertença e códigos de comunicação semelhantes.
Os especialistas distinguem dois planos: aquele em que a pessoa “sente” que tem determinadas características animais, mas tem a plena consciência de que essa sensação não é real; e um outro plano, quando passa a acreditar que tem efetivamente determinadas capacidades características de certos animais. Nesse segundo plano, pode estar em causa uma questão “patológica”.
“Não como biscoitos, nem comida de cão. Ninguém faz isso”
Mas, afinal, o que é ser therian? Vamos por partes, porque até Alex reconhece que é difícil explicar. “Teriantropia é o nome que se dá às pessoas therian, é um fenómeno identitário em que a pessoa se reconhece como um animal ou um ser não-humano, em termos espirituais, instintivos ou psicológicos. É uma experiência interna e constante, que faz parte da forma como a pessoa se perceciona a si mesma e não se relaciona em nada com fantasias ou elementos sobrenaturais”.
Além disso, sendo uma questão de perceção da identidade, “não tem nada a ver com um tipo de género” e também não se insere na comunidade LGBT, ressalva.
Alex explica ainda que todos os therian “sentem que certos padrões de comportamento ou instintos estão alinhados com um certo tipo de animal”. E, acrescenta, por ser uma experiência interna, a pessoa não precisa de se expressar fisicamente como um therian para o continuar a ser.
“A identidade therian existe independentemente da expressão externa”, afirma, referindo-se a um tipo de expressão externa específico, nomeadamente o uso de “acessórios como máscaras, caudas, orelhas…”, sendo que nada disto “é algo obrigatório”, diz.

Ser therian “não muda a vida de forma dramática, não significa que eu acredite que sou um animal“, continua Alex. “Não como biscoitos, nem comida de cão. Ninguém faz isso! A maioria das pessoas o que faz são pequenas coisas, como por exemplo cortar panquecas em forma de osso, por exemplo. É algo inofensivo.”
Alex diz também que o facto de ser therian “não tem impactos na socialização: não ladramos, não mordemos, um therian é uma pessoa totalmente normal”. Mas admite que por vezes podem “ter, sim, pensamentos ou ações que não se enquadram bem com a experiência humana”.
“Por exemplo, os therians gostam muito de espaços abertos, como florestas e campos” e cada pessoa pode ter “algum tipo de comportamento” específico relacionado com “o animal ou grupo de animais com que se relaciona”. Isto porque cada pessoa therian “pode identificar-se com um animal, dois ou até com um grupo de animais ou com nenhum em específico”, explica Alex. No seu caso, relaciona-se com um cão border collie.

Ainda no que toca a um determinado tipo de pensamentos ou ações associados ao animal com que cada pessoa se relaciona, os therian podem desejar agir de determinada forma e não o fazerem: “Por exemplo, quando alguém chateia uma pessoa, [um therian] pode querer rosnar, como pensamento instintivo, mas não o faz. No fundo, não afeta ninguém porque não vem cá para fora.”
Em declarações ao Observador, o presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos explica que “a maioria dos therian identifica-se com animais como lobos e cães e a explicação vem do mais comum: o lobo sempre foi um animal que, apesar de alguns sentidos associado ao mal, noutras culturas é apreciado e associado a algumas dimensões do humano. Os cães são da mesma família, se quisermos”, diz Miguel Ricou.
De pés e mãos no chão: uma forma de expressão online
Há ainda uma outra forma de os therian se expressarem externamente enquanto tal — e isso acontece “maioritariamente online”, diz Alex. Refere-se a “uma atividade chamada quadrobics” (nome sem tradução direta para português) e é uma espécie de tendência fitness que consiste em andar, correr ou andar a trote na posição de quatro apoios, imitando um animal.
A prática não está diretamente associada aos therian, mas acontece também nessa comunidade. Em redes sociais como o TikTok, utilizadores que se apresentam como membros desta comunidade e que usam máscaras, e por vezes caudas, fazem vídeos a correr de forma semelhante ao animal com que alegadamente se relacionam. E há até quem faça saltos altos que implicam grande impulso e impacto nas costas e nas mãos. Nestes vídeos vê-se ainda um pormenor: muitos dos therian que o fazem deslocam-se nesta posição com os dedos das mãos dobrados e apoiados na região infra-digital (o que, por vezes, provoca ferimentos).
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Num artigo da Women’s Health do Reino Unido de janeiro de 2025 lê-se que esta atividade “combina elementos de aeróbica e calistenia”. A prática, que não necessita de qualquer equipamento, “aumenta a agilidade e a força” e ajuda ainda “a melhorar a coordenação, o equilíbrio e a mobilidade”.
Esta prática física não é novidade, uma vez que já em 2008 o velocista japonês Kenichi Ito bateu o recorde mundial de corrida de 100 metros em quatro apoios. E quatro anos depois não só bateu o seu próprio recorde como entrou para o Guinness.
Máscaras e caudas são “forma de reforço de identidade”
Alex tinha 12 anos na primeira vez que usou uma cauda e orelhas. Decidiu levar os acessórios para a escola, por ter percebido que se relacionava com a natureza e com os animais (em específico os cães) de forma diferente.
“Para mim, isto é algo mais psicológico do que espiritual, no sentido em que vejo padrões e tenho instintos e alguns comportamentos que não se adequam à experiência humana“, conta. Para este therian, é difícil concretizar por palavras ou em exemplos aquilo a que se refere. Diz que “é difícil explicar” porque é algo que sente. “Não é como se, por exemplo a nível de instintos, fossem mais apurados, porque não sentimos que somos diferentes fisicamente. É uma experiência muito pessoal que não é física.”
Alex conta que “as caudas compram-se facilmente online e não são muito caras”. Existem caudas de vários tipos de animais e com vários comprimentos. “Mas as máscaras é mais complicado. As pessoas tendem a fazê-las elas próprias, quem compra são pessoas que estão há mais tempo na comunidade ou que já são adultas e com dinheiro.”
Na verdade, um dos passatempos de Alex é criar máscaras de therian para vender online ou oferecer. Conta que “todas são customizáveis”. “Normalmente são feitas de cartão, mas pode usar-se plástico ou até impressoras 3D. São revestidas de pêlo falso ou feltro e pintadas.”
Normalmente, diz, “as pessoas usam máscaras, não por ser confortável, mas porque faz com que se sintam melhor com elas mesmas. É uma forma de reforço de identidade”. Foi isto que aconteceu há vários anos quando decidiu levar uma cauda e duas orelhas para a escola. O que não esperava era que, à boleia desses acessórios, viessem episódios de bullying.
“No 6.º ano comecei a usar as orelhas e cauda e sofri muito bullying. Gozavam comigo. Ladravam-me só porque eu estava a usar orelhas e cauda. Eu não fazia nada, só andava pela escola, ia às aulas e ia à cantina. Temos consciência de que isto não é uma coisa normal, porque não se enquadra no comportamento da sociedade! Sofri bastante, tanto que até quase há um ano vivi com essa identidade escondida de toda a gente”, relata.
Identidade não se constrói apenas em criança — é um processo contínuo
Agora, Alex diz que “os sinais mais comuns de que alguém poderá ser um therian é sentir-se diferente das outras pessoas de uma forma que é difícil de explicar e ter instintos que não se alinham totalmente com o comportamento humano, ou ter uma ligação profunda com um animal específico”.
Mas há mais de uma década, quando tinha apenas 12 anos, tudo isto era novidade. Na altura, conta, não recorreu à internet para perceber melhor o que julgava estar a sentir, mas acabou por perceber que “há este tipo de identidade que é desassociada da pessoa” e que era isso que estava a acontecer consigo. “É um tipo de disforia difícil de explicar”, afirma.
Este “não é um tema novo e está longe disso”, diz o membro da Ordem dos Psicólogos, Miguel Ricou. “É um tema relativamente novo na nossa cultura ocidental e moderna. Mas, quando vamos a outras culturas, a confusão entre ser humano e animal (até em pessoas que se identificavam como feiticeiros, por exemplo) é algo frequente. A ideia de misturar a identidade do animal e a identidade da pessoa não é estranha, vê-se em filmes, nas referências ao passado”, acrescenta o especialista.
O psicólogo dá como exemplo “o minotauro e lobisomens, figuras míticas”. Segundo Ricou, “tem tudo que ver com as construções de identidade, que começam cedo, em crianças, e que depois parece que se vão sedimentando hoje cada vez mais no mundo online, porque as pessoas não têm com quem se identificar, pelo que é mais difícil construir uma identidade”.
A opinião do presidente da Sociedade de Psiquiatria e Saúde Mental vai no mesmo sentido. Conta que, “no passado, havia uma identidade muito mais linear e agora cada vez temos mais identidades variadas”. “A questão digital tem sido fator de estruturação. Há uma alteração progressiva da identidade digital, que tem impacto na identidade do sujeito, além da própria estrutura social atual: uma modernidade acelerada em que as pessoas são cada vez mais confrontadas com novas formas possíveis de ser”, afirma Luís Madeira.
O especialista aponta que, “antigamente, a identidade criava-se com os vizinhos, mas neste momento constrói-se com uma grande heterogeneidade de origens. As novas identidades são modeladas por aquilo que é possível do ponto de vista digital”.
A identidade vai-se “construindo ao longo da vida”, explica também o presidente do Conselho de Psicologia Clínica da Ordem dos Psicólogos. “As mudanças são mais marcadas no início e a ideia é chegarmos à idade adulta e até ali as modificações poderem acontecer. Mas nós somos um ser em construção, construímo-nos em função das nossas vivências, histórias, experiências… Depois temos também traumas, que influenciam mais negativamente, e que vão contribuindo para o que somos”, diz Miguel Ricou.
Segundo o especialista, “a identidade é um conceito sempre em construção, não é algo concreto, e nem é sempre algo 100% estável ao longo do tempo”. A afirmação explica, em parte, o porquê de Alex — atualmente maior de idade — continuar a percecionar-se a si próprio como therian. “Uma coisa é identificar-me com aquilo que imagino serem as características de algum animal. Mas o grande problema é confundir identidade com a ideia de ‘eu sou’“, explica o especialista. Segundo Miguel Ricou, “muitas vezes, a identidade exprime as nossas preferências, ideais ou o que gostávamos de ser”.
“Hoje em dia temos muito mais experiências de vida, o que significa que são essas experiências que nos tornam mais divergentes uns dos outros. Vamos-nos tornando pessoas mais diferentes ao longo da vida… E, nessa perspetiva, algumas pessoas criaram identificações com estes animais.”
Há pessoas mais propensas a criar identificações com animais?
O psicólogo Miguel Ricou admite que “há pessoas mais propensas a criar identificações com grupos sociais menos normativos”, mas recusa afirmar que seja especificamente identificações com animais.
Isto pode acontecer “com pessoas com maiores dificuldades de integração e adaptação à sociedade, por exemplo. Encontram nestes grupos, mais pequenos e com características mais marcadas, uma maior identificação entre as pessoas. Às vezes, as pessoas encontram nestes grupos (ou fenómenos) alguma forma de identificação que lhes permite ganhar uma maior capacidade de regulação emocional, por exemplo. E isso até as ajuda a funcionar melhor no resto da sua vida. Foi o caminho que as pessoas encontraram para se sentirem bem consigo próprias”, explica.
O presidente do Conselho de Psicologia Clínica e da Ordem dos Psicólogos faz questão de salientar que ainda “não há muitos estudos [sobre este tema] porque são fenómenos raros e escondidos e que, por isso, são difíceis de estudar”. Mas salienta que algumas das investigações que entretanto surgiram vão nesse sentido: “Indicam que estas pessoas têm maiores dificuldades ao nível social”, diz.
É por isso que, quase inevitavelmente, este fenómeno acontece mais nos mais jovens, “precisamente porque estão na fase de criação da identidade”. “E só depois é que surgem as dificuldades de identificação: é fácil gostarem de animais e de encontrarem aí um foco de identificação e um caminho que os faz sentir pertença”, explica Miguel Ricou.

Perturbação? Tudo “depende” da sua definição
É importante que, pelo menos numa primeira análise, olhemos para os therian com “normalidade”, defende Ricou. “Estamos no campo da normalidade a partir do momento em que não existe uma desadaptação em relação àquilo que é a realidade humana”, começa por apontar o especialista.
E só se considera uma perturbação dependendo da forma como definimos essa palavra, completa o presidente da Sociedade de Psiquiatria e Saúde Mental. “Se a norma é o que é mais comum, então qualquer coisa que se desvia da norma é anormal. Mas a maioria das definições de saúde tem como ‘normal’ as pessoas que não procuram ajuda e que acabam por estar em sofrimento psicológico”, diz Luís Madeira.
O presidente do Conselho de Psicologia Clínica da Ordem dos Psicólogos é muito concreto: se uma situação “não causar sofrimento, não temos de nos preocupar com isso”. Mas, se o oposto acontecer, pode ser necessária “uma intervenção”.
“Shift”. O momento em que Alex sente uma “mudança no estado psicológico”
Alex conta que se sente melhor quando usa acessórios como orelhas ou caudas. Mas porque é que isso acontece? Por vezes, de forma inesperada e involuntariamente, sente uma espécie de “sensação fantasma”, como se uma determinada parte do corpo animal fizesse parte do seu corpo — mesmo não estando ali fisicamente.
“Sente-se quase como um membro amputado, uma cauda, orelha, garras… Mas não vemos nada disso no nosso corpo, não acredito que estão literalmente lá, é uma sensação fantasma. Por exemplo, sentir as orelhas a virar em direção a sons ou a cauda a abanar quando estamos felizes”, explica. Ao colocar a cauda e a orelha falsa, Alex sente que essa sensação fantasma passa a ser algo real.
O que Alex diz sentir em alguns momentos tem um nome: “Shift.” Diz respeito ao momento em que os instintos animais se ativam e é algo que surge de forma inesperada, podendo durar entre poucos minutos e várias horas.
“É uma mudança temporária no estado psicológico da pessoa para um estado em que se sente idealmente próxima do animal com que se identifica. Normalmente, os shifts são descritos como estados psicológicos, mas também há therians que sentem instintos no corpo. Não é algo físico, é uma alteração interna, sensorial, emocional ou comportamental”, explica.
O shift que Alex mais sente é o fantasma. Mas há pelo menos mais quatro tipos, segundo diz. Existem shifts mentais, “em que a mente muda para uma espécie de ‘modo animal’ e os pensamentos ficam mais instintivos e menos verbais. Um therian felino, por exemplo, pode ficar mais atento aos sons e movimentos. Um canino pode observar mais e explorar. É como mudar o filtro mental”.
O sensorial, em que “as pessoas sentem do mesmo modo que um animal sentiria, a audição, visão e atenção mudam o foco e há estímulos que se tornam mais intensos, como cheiros. Estas pessoas podem, por exemplo, ficar hiperalerta a ruídos”. Também é referido o shift de sonho (que só acontece quando a pessoa está a dormir), em que existem “sonhos muito vívidos, alinhados com o animal em que se reconhecem”.
E também shifts comportamentais, “em que a identidade influencia o comportamento de forma natural; alguns movimentos e expressões ficam mais animalescos ou mais expressivos, pode haver vocalizações involuntárias” também, exemplifica Alex. Estas vocalizações, esclarece, não se traduzem necessariamente no ato de “ladrar”, mas num “bufar” claramente audível quando alguém está chateado. Os therian não ladram “no meio social, porque não é aceitável, as verbalizações fazem-se em privado ou bastante longe, ninguém ladra para outras pessoas”, acrescenta.
Estes momentos, no entanto, podem ser “controlados forçosamente”, diz Alex. É o que lhe acontece se estiver a trabalhar: “Se estiver a sentir mesmo muito a necessidade de ir lá fora ou para a floresta, mas tenho trabalho, então tenho de ir trabalhar.”
“Experiência subjetiva” pode “evoluir” para caso “patológico”
Aquilo que Alex diz sentir é precisamente isso, relativiza o presidente do Conselho de Psicologia Clínica da Ordem dos Psicólogos: “Uma sensação que a pessoa diz que tem. É uma espécie de experiência subjetiva.”
O especialista faz questão de estabelecer uma diferença entre este shift — que “é uma questão subjetiva, em que se quero acreditar que isto existe, consigo acreditar que existe” — e a ideia de “membro fantasma”, um “fenómeno muito bem descrito e estudado, que decorre de outra questão, porque um determinado membro esteve sempre comigo, desapareceu e agora o cérebro acha que ainda está lá”.
É preciso estar atento, alerta, caso questões subjetivas como estes alegados shifts comecem a causar sofrimento à pessoa. Ou, por outro lado, levem as pessoas a entrar em delírio e “a perder insight“, alerta Miguel Ricou, referindo-se à perda de discernimento ou de capacidade de raciocínio.
Um caso que inicialmente não era visto com preocupação pode “evoluir” para uma situação mais extrema “se as pessoas forem predispostas a isso”. “Para a doença mental, normalmente é preciso haver predisposição. Há muitos fatores e variáveis que se conjugam para que aconteça, como acontecimentos de vida ou coisas mais da própria pessoa. Alguém que descompense, é natural que chegue a este extremo”, explica o psicólogo.
E detalha quatro aspetos centrais que permitem concluir se há ou não motivo de preocupação.
Primeiro ponto: “Tem de haver uma anormalidade estatística”, ou seja, tem de existir um número reduzido de casos verificados, quase exceções à regra. Depois, é preciso verificar-se também uma “anormalidade sociocultural, ou seja, algo que não é prevalente de uma cultura específica”. E também uma “anormalidade pessoal (no sentido em que não identifico como normal uma certa coisa em mim) e ainda uma anormalidade funcional (em que este aspeto me prejudica)”.
Em termos estatísticos, “parece-me evidente este ponto, porque poucas pessoas sentem o mesmo, mas dentro da comunidade em si é tudo visto com normalidade”, diz Miguel Ricou. No que diz respeito à dimensão sociocultural, “não é normal, mas enquadrando isto na comunidade, é normal nesse contexto”. E em termos pessoais tudo isto “é normal para as pessoas da comunidade”.
“Portanto, onde é que vamos detetar uma patologia? À disfunção. [Ser therian e ter shifts] Provoca-me um disfuncionamento? Tenho alturas em que, para mim, é desconfortável e perturba o meu funcionamento? Faz-me sofrer sentir assim? Confunde-me ou perco o insight? Aí, sim, entramos mesmo numa questão patológica. Uma coisa é eu sentir mesmo que tenho cauda, mas saber que não tenho. Outra é sentir e não reconhecer que não tenho.”
Comunidade portuguesa é pequena e muito reservada
No ano passado, Alex voltou a assumir-se therian publicamente e a falar sobre este lado da sua vida porque o contexto mudou, “especialmente online”: “As pessoas começaram a expressar-se [online] mais abertamente, a serem como são na verdade e a não ligar ao que as outras pessoas pensam. Se me sinto bem, porquê esconder?” Agora faz vídeos para a sua página TikTok onde mostra o seu lado therian e, inclusivamente, partilha algumas das máscaras que cria.
Mas rapidamente Alex percebeu que o bullying que tinha vivido na escola também pode ser vivido fora desse ambiente. “Já aconteceu [agora enquanto adulto] as pessoas ladrarem-me na rua. Com therians, é uma experiência muito comum, as pessoas passam de carro e ladram. Qualquer pessoa da comunidade vai facilmente descrever uma experiência de assédio ou um episódio de bullying.”
Por esse motivo, a comunidade therian portuguesa — que diz ser pequena e reunir membros de todas as idades (incluindo adultos) — é muito “reservada, porque há preconceito e muita desinformação”. É também por este motivo que em Portugal não se realizam encontros entre therians, principalmente depois do encontro a 21 de fevereiro deste ano, em Madrid.
Nas Portas do Sol, uma das principais praças da capital espanhola, uma multidão reunia-se e ouvia-se gente a perguntar pelos therians, porque queriam “dar-lhes uma sova”, relatava o El País à época. Centenas de pessoas reuniram-se para assistir a este encontro, mas poucos therians acabaram por aparecer. Segundo o jornal espanhol, o momento repetiu-se em encontros marcados para muitas outras cidades espanholas, como Salamanca e Barcelona: praças ou parques cheios de curiosos, mas vazios de therians.


Especialistas dizem que pode haver “outros problemas” associados, como ansiedade social
Alex conta ainda que nem sempre é fácil conseguir a aceitação por parte das próprias famílias. Se há situações em que os pais acolhem e apoiam os filhos, o oposto também acontece e chegam a existir famílias em que a revelação “é motivo para expulsar a criança ou fazê-la dormir na rua”, diz.
A situação é complexa, considera o presidente do Conselho de Psicologia Clínica da Ordem dos Psicólogos. “Nada como pedir ajuda e conseguirmos trabalhar as questões de forma profissional e adequada, sem confronto e anulação direta, para evitar que a criança ou a pessoa se feche dentro de si própria”, explica Miguel Ricou.
“Pode ser importante conversar com os pais e acompanhar a criança, evitando patologizar a criança. Ou ainda trabalhar outros problemas associados a esta questão como depressões, ansiedade social, etc. Há casos mais graves que podem levar a situações preocupantes, que chegam a ter impacto no funcionamento da pessoa”, salienta. E deixa a ressalva de que “não podemos olhar para as questões do desenvolvimento humano como algo que possa ser normativizado e colocado em categorias”.
O especialista salienta ainda que existem outros fenómenos além do fenómeno therian, como é o caso dos furry, que “são outra coisa” mas também se inserem na fase de desenvolvimento infantil.
Alex, que diz também pertencer a essa comunidade, explica a diferença: “São conceitos completamente diferentes. Os furry são pessoas que gostam bastante da ideia de animais antropomórficos. Não é preciso fatos, isso é apenas uma forma de nos expressarmos mais abertamente. É uma comunidade muito mais focada na arte e expressão artística.”
O presidente da Sociedade de Psiquiatria e Saúde Mental, Luís Madeira, acrescenta que têm uma componente de diversão associada, de “entidades ficcionais com adereços”.
Artigo atualizado às 11h38 de dia 1 de junho com correção do cargo de Miguel Ricou