É o primeiro romance distópico de Guedes de Carvalho. Começa-se em 2066, acompanhando-se Laura Ganjavi, jornalista nascida no ano de 2000, filha de pai iraniano e mãe portuguesa. O futuro que o romancista imagina tem elementos que parecem pertencer à cogitação colectiva, e outros que parecem vir da sua cabeça. Como exemplos do primeiro, temos o avanço tecnológico que resulta numa utilização massiva de drones, que dominam os céus, ou em estradas cheias de carros sem condutor – que já existem. A gestão de recursos, que encabeça o romance, leva à escassez de água, num momento em que se afirma que já se está num ponto sem retorno, já nada é possível para se salvar o planeta. E, como segundos exemplos, temos os olhos das pessoas cobertos por… Eyephones.
O romance traz para a linha da frente vários problemas e, acima de tudo, traz as consequências futuras de um rumo que, sugere o autor, não sem razão, tem sido seguido a larga escala. Não é sem ironia que vemos as personagens a falar da simplificação de textos ou de apps. Numa prosa limpa, o autor apresenta a Centennial, app que resume o que aconteceu no último século. Ou melhor, nos últimos cem anos: cedo se percebe que a simplificação vai ao detalhe, até vocabular. E a própria app mostra um estado do mundo ao mostrar um estado psíquico: de letras gordas e com texto simples, está preparada para poder ser lida às pressas, não exigindo esforço ou atenção, e para mais tem versão áudio para exigir menos ainda. Em conversas, as personagens falam de escritas que não atrapalhem a vida ao leitor, afirmam que ninguém quer ler coisas complicadas, que a papa deve ser posta no prato e que não pode haver espaço para a dúvida. Ou seja, na prática, Guedes de Carvalho descreve um mundo em que a estupidificação se espraiou, e ao espraiar-se venceu.

Já perto da reforma, Ganjavi foi assistindo, ao longo da vida, a ciclos políticos que, de vez a vez, se iam encurtando. A moderação foi dando espaço a extremismos de um lado e de outro, e a sociedade fez-se dicotómica, maniqueísta. No campo político, as alianças tornaram-se voláteis, e as sociedades foram sendo consumidas por pressas. Ora, por todo o romance, vê-se o resultado da voracidade, que implica velocidade, que, por sua vez, implica preguiça. E, ao mesmo tempo, percebe-se, até por outra personagem, Ava Carina, a necessidade da leitura, da atenção, da lentidão, como garante de um mundo sustentável. Sem catequizar, mostrando, o autor constrói um cenário em que, abdicando-se da sedimentação e do estímulo da dúvida, se atinge um permanente estado de urgência que dispensa a reflexão e a razão. A própria ideia de estabilidade vai, neste contexto, ao ar: em vez disso, a vida é um frágil castelo de cartas à espera de uma queda, mantido a seguir por mais umas peças postas à pressa, sempre num equilíbrio tosco, precário.
O Meu Primeiro Apocalipse, por isso, não se debruça sobre um cenário político específico. Em vez disso, capta um certo clima, clima esse que já tem moldado e dominado a contemporaneidade: há uma atmosfera de aceleração e de desgaste, de reacção imediata, em que o radicalismo é uma postura incentivada para se opor a outro radicalismo, de ritmo exacerbado, de simplificação perigosa, num quadro é que a nuance é vista como hesitação. A própria complexidade é vista como suspeita: como se vê nas simplificações de texto, desconfia-se da capacidade de ler, de atentar, de demorar. Eis, por isso, um romance em que o espaço público é um emaranhado de afirmações absolutas, em que a disputa política não é negociação, diálogo ou sequer debate, mas palco privilegiado de antagonismo. Isto implica, até como os últimos anos em Portugal nos habituaram, que o diálogo seja chutado para canto, dando espaço à primazia do ruído.
Nisto, a personagem de Ganjavi vai mostrando a degradação da política e da cultura, mostrando até um futuro que pode adivinhar-se: em vez de parecer fantasia autoral, sabe a prolongamento plausível do presente. Nada no romance de Guedes de Carvalho parece demasiado inventado. Lê-se e pensa-se que tudo o que ali está é previsível, o que vai desde os tais drones que sobrevoam os carros sem condutor à necessidade constante de simplificar e abreviar. Este apocalipse será, por isso, o desgaste lento das estruturas em que se apoia a vida colectiva (a política, o pensamento, o debate, a linguagem, a atenção) até haver só a erosão da qualidade cívica e democrática, e não um acontecimento súbito ou espectacular, à maneira da Guerra dos Mundos: em vez de um episódio, é um processo. O autor conta tudo isto com uma prosa escorreita, desfiando perante o leitor uma tragédia que anuncia logo nas primeiras páginas do romance.
A autora escreve segundo a antiga ortografia.