Em contagem decrescente para fazer o 12.º teste do maior veículo espacial Starship, previsto para esta quinta-feira, a SpaceX lançou-se noutros voos. Um dia antes formalizou junto da SEC, o regulador dos mercados financeiros dos EUA, o pedido para avançar com a oferta pública inicial (IPO, em inglês) que levará a empresa à bolsa. O valor da operação não consta do documento apresentado, mas meios de comunicação como a Reuters ou o Wall Street Journal (WSJ) avançam que a empresa quererá angariar 75 mil milhões de dólares com a operação (64,7 mil milhões de euros).
A oferta pública inicial da SpaceX pode ultrapassar largamente o feito da petrolífera Saudi Aramco, que em 2019 fez um IPO de 26 mil milhões de dólares (22,4 mil milhões de euros), prometendo ser o maior IPO de sempre. O histórico da bolsa de valores dos Estados Unidos da América é mais modesto: a maior oferta inicial em Wall Street foi a da chinesa Alibaba, em 2014, por 22 mil milhões de dólares, nota a CNBC.
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Na documentação, a SpaceX explica que pretende ter as suas ações negociadas no Nasdaq, a bolsa constituída maioritariamente por empresas do setor tecnológico. O preço por ação só será definido mais à frente, mas a empresa já tem símbolo de transação: SPCX. A imprensa norte-americana adianta que a estreia pode ser feita já no próximo mês. A Reuters avança mesmo que a negociação pode arrancar a 12 de junho, um calendário semelhante ao reportado pelo WSJ.
O valor recorde da operação poderá deixar a SpaceX avaliada em 1,75 biliões de dólares (1,5 biliões de euros). A confirmar-se será a primeira vez que uma empresa se estreia em Wall Street com um valor de mercado de um bilião de dólares. Também levará a fortuna de Musk, que já é o homem mais rico do mundo, a outro patamar: o de bilionário (trillionaire).
“A SpaceX pode tornar-se uma referência pública de avaliação para uma indústria que, até agora, era de difícil acesso para investidores generalistas”, explica ao Observador Henrique Valente, analista da ActivTrades. “Mas uma operação desta dimensão, nesta fase do ciclo de mercado, será também um teste importante ao apetite dos investidores por novas histórias de crescimento.”
Até há uns anos, a SpaceX não demonstrava qualquer interesse pelo mercado devido ao maior escrutínio a que ficava sujeita. “A SpaceX pode tornar-se a próxima grande história para os mercados, mas uma empresa desta dimensão em bolsa também trará mais escrutínio e maior exigência de resultados”, realça o analista. E já teve de revelar alguns dos seus “segredos”.
O IPO da SpaceX poderá ser o primeiro de uma “vaga de mega-IPO”, diz Henrique Valente. Vários meios avançam que tanto a OpenAI como a Anthropic também se querem estrear em Wall Street, ainda que nenhuma delas tenha avançado já no processo. A tal vaga de mega-IPO “aumentaria a oferta de ações disponíveis e testaria a profundidade real da procura por empresas ligadas à tecnologia, à inteligência artificial e ao espaço”, nota Valente.

SpaceX apresenta-se ao mercado como mais do que uma empresa espacial, com a mão de ferro de Musk
A SpaceX foi criada em 2002 para cumprir o sonho de exploração espacial de Elon Musk, que também é dono da Tesla. Numa fase inicial, centrou-se no desenvolvimento de um foguetão reutilizável para baixar os custos das viagens espaciais. Musk é um apaixonado pela ficção científica e defende que a Humanidade deve ser extraplanetária, explorando a Lua e até Marte. Aliás, o empresário quer ter uma colónia humana em Marte, embora sublinhe que é um desafio considerável.
A exploração espacial é uma indústria que exige muito capital. Nos primeiros anos, a SpaceX esteve à beira da falência devido aos lançamentos falhados de foguetões. Até que, em 2011, a situação se inverteu, ao conseguir o primeiro contrato com a NASA. Com o fim do vaivém espacial (space shuttle), a agência espacial norte-americana estava à procura de soluções alternativas e estabeleceu uma relação com a SpaceX, que dura até hoje.
Na informação ao mercado, a empresa incluiu uma frase de Musk justamente sobre a “civilização espacial”. “Queremos acordar de manhã e pensar que o futuro vai ser fantástico — e é isso que significa ser uma civilização espacial. Trata-se de acreditar no futuro e de pensar que o futuro será melhor do que o passado. E não consigo imaginar nada mais emocionante do que ir lá fora e estar entre as estrelas.”
E, embora os lançamentos e as naves espaciais sejam a faceta mais conhecida, a SpaceX apresenta-se de forma diferente ao mercado. “(…) a SpaceX é a única empresa que está a construir infraestrutura integrada de hardware e software do futuro para o espaço, conectividade e inteligência artificial (IA)”, explica. A parte do espaço é fácil de explicar; a conectividade está ligada principalmente ao serviço de comunicação por satélite Starlink e a IA resulta da fusão, feita este ano, entre a SpaceX e a xAI, a empresa de IA de Musk criada em 2023. Uma vez que a xAI comprou o X, em 2025, a SpaceX também inclui o X, o antigo Twitter, comprado pelo empresário em outubro de 2022 por 44 mil milhões de dólares. A mudança de mãos levou à saída de bolsa do X, onde irá, assim, voltar.
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No prospeto, a empresa puxa dos galões dizendo que está posicionada para responder a uma oportunidade de mercado de 28,5 biliões de dólares (24,6 biliões de euros) nestas três áreas. Mas não deixa margem para dúvidas: a inteligência artificial (IA) é mesmo onde está a sua maior oportunidade, com 26,5 biliões de dólares, o equivalente a 22,9 biliões de euros.
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O documento revela ainda uma empresa fortemente controlada por Elon Musk, que ocupa o cargo de diretor executivo, diretor técnico e presidente do conselho de administração da SpaceX. Funções que desempenha desde 2002 e que, depois do IPO, pretende continuar a ocupar. No prospeto, torna-se claro que Musk adotou algumas medidas para continuar rei e senhor da SpaceX. “(…) a nossa estrutura de classes duplas [de ações, A e B] concentra o controlo dos direitos de voto nas mãos do senhor Musk e de outros detentores das nossas ações ordinárias da Classe B. Tal limitará ou impedirá a sua capacidade de influenciar as questões societárias e a eleição dos nossos administradores”, é possível ler.
Musk é o maior acionista da empresa (tem 849 milhões de ações classe A e 5,6 mil milhões de ações classe B) e o único nome listado para participações de no mínimo 5% do capital da SpaceX. Combinando as duas classes de ações, a 1 de maio, Musk era o detentor de 85,1% dos direitos de voto.
A segunda maior participação de ações de classe A da SpaceX (7,3%) pertencia a Antonio Gracias, CEO da empresa de investimentos Valor, aliado de Musk e um dos oito membros do conselho de administração da SpaceX.
Henrique Valente, da ActivTrades, considera que “a entrada em bolsa da SpaceX reforça o poder de Elon Musk, mas também mostra a sua capacidade de manter a narrativa de crescimento em movimento“. “À medida que a Tesla enfrenta maior concorrência e sinais de maturidade, Musk deslocou o foco para novas frentes, da inteligência artificial à robótica e ao espaço”, acrescenta.
Anthropic é rival, mas também "cliente". Até 2029, poderá pagar 45 mil milhões à SpaceX
O documento apresentado à SEC revela mais do que a situação financeira da SpaceX.
Também torna público um acordo entre a SpaceX e a Anthropic para que a dona do Claude possa aceder à capacidade de computação cloud da SpaceX. No documento, a Anthropic é referida como “cliente”, que aceitou, a 3 de maio de 2026, pagar mensalmente 1,25 mil milhões de dólares à SpaceX até maio de 2029. À conversão atual, representa cerca de 1,08 mil milhões de euros por mês.
Feitas as contas, a Anthropic poderá pagar até 45 mil milhões de dólares à SpaceX (38,8 mil milhões de euros).
“Esta estrutura permite-nos rentabilizar a capacidade computacional não utilizada na nossa infraestrutura, ao mesmo tempo que permite reatribuir essa capacidade às nossas próprias iniciativas internas, caso seja necessário no futuro”, explica a SpaceX no documento.
“Temos capacidade suficiente para ter computação para os nossos próprios modelos”, diz a SpaceX, que admite “entrar em contratos de serviços semelhantes” com mais empresas. E aproveitou para piscar o olho aos investidores: “Acreditamos que a nossa estratégia de dupla monetização oferece várias vias para gerar retorno sobre o capital investido”.
Empresa teve prejuízo de 4,9 mil milhões em 2025. Até março, já perdeu 4,3 mil milhões
Ao apresentar a documentação à SEC, a SpaceX tem de detalhar a situação financeira a possíveis futuros investidores. A empresa incluiu dados anuais de 2023, 2024, 2025 e do primeiro trimestre deste ano.
O retrato não é risonho: em 2025, a empresa teve um prejuízo de 4,9 mil milhões de dólares (cerca de 4,23 mil milhões de euros). Um cenário diferente de 2024, quando obteve lucros de 791 milhões de dólares (682,3 milhões de euros). Os prejuízos poderão agravar-se este ano, já que só no primeiro trimestre a SpaceX registou perdas de cerca de 4,3 mil milhões de dólares (3,7 mil milhões de euros), o que compara com um prejuízo de 528 milhões no período homólogo do ano passado.
A própria empresa alerta para “a sua história de prejuízos” e diz que “poderá não vir a alcançar a rentabilidade no futuro”. “Embora tenhamos registado um crescimento significativo das receitas nos últimos três anos, não podemos prever se iremos manter este nível de crescimento nem quando voltaremos a atingir a rentabilidade”, é possível ler. No que toca a receitas, a SpaceX fechou 2025 com 18,67 mil milhões de dólares (16,1 mil milhões de euros), o valor mais alto dos últimos três anos.
“O prospeto mostra uma empresa ainda longe de ser madura, mas já com escala relevante”, resume Henrique Valente, da ActivTrades. “O principal motor de receitas da SpaceX é a Starlink, que gerou cerca de 11,4 mil milhões de dólares em 2025, mais de metade das receitas totais da empresa”, destaca. “No primeiro trimestre de 2026, a Starlink voltou a ter um papel central, com receitas de cerca de 3,2 mil milhões de dólares num total de 4,7 mil milhões.” O documento revela que a Starlink tem 9.600 satélites ativos e 10,3 milhões de subscritores em 164 países (dados de 31 de março), tendo acrescentado mais 1,4 milhões de subscritores ao valor de 2025.
Mas os custos de ter um negócio orientado para o futuro, como defende Musk, pesam. “Ao mesmo tempo, os investimentos em satélites, na Starship e em novas áreas ligadas à inteligência artificial continuam a pesar sobre os resultados. Ou seja, a SpaceX já tem escala e fontes de receita relevantes, mas continua a ser uma empresa muito intensiva em capital”, diz Henrique Valente, da ActivTrades. “A avaliação no IPO vai depender sobretudo da confiança dos investidores na capacidade de Elon Musk voltar a transformar uma empresa tecnológica numa referência global, como aconteceu com a Tesla.”
Em 2025, a SpaceX apresentou custos e despesas de 21,3 mil milhões de dólares (18,4 mil milhões de euros), muito acima dos 13,5 mil milhões de dólares de 2024 (11,6 mil milhões de euros). A área da IA foi a que mais pesou, implicando custos de 9,6 mil milhões de dólares (8,2 mil milhões de euros).
A 31 de março, a SpaceX, sediada no Texas, tinha 22 mil funcionários a tempo inteiro, distribuídos pelas diferentes áreas de negócio e geografias onde a empresa opera.
Os vários riscos da SpaceX, das colisões com lixo espacial até à burocracia
Numa operação deste género, a documentação costuma ter uma área extensa dedicada aos riscos do negócio. No caso da SpaceX, só o sumário de riscos tem duas páginas. São mencionados vários fatores que podem afetar o desempenho das ações, como “falhas ou atrasos no desenvolvimento da Starship”, que possam ter implicações noutras áreas como “o lançamento de satélites de próxima geração” ou “de computação de IA orbital”. No negócio da Starlink, há o risco de “colisões com lixo espacial ou outras aeronaves” — a SpaceX considera que está a haver uma “proliferação contínua de satélites em baixa órbita”.
Também são mencionados riscos como “atrasos ou dificuldades” na área regulatória, desde as licenças necessárias para as atividades espaciais e para a divisão de conectividade. Nesses casos, são referidas as relações com reguladores norte-americanos como a FAA, responsável pela aviação, e a FCC, a comissão federal de comunicações.
A SpaceX refere ao longo do extenso documento as ambições de colónias na Lua ou em Marte. Classifica como riscos as várias iniciativas da empresa em áreas como “o desenvolvimento de capacidade computacional de IA em órbita em grande escala, o fabrico de chips de IA em grande escala, o estabelecimento de uma economia lunar, o desenvolvimento de sistemas de aumento humano e o transporte de pessoas e carga para a Lua e Marte que envolvem uma complexidade técnica significativa”. “Tais iniciativas podem não atingir a viabilidade comercial”, admite-se.

A futurologia de quem acredita numa fusão entre a SpaceX e a Tesla em 2027
A SpaceX ainda não chegou à bolsa, mas Dan Ives, analista da Wedbush que acompanha principalmente o setor tecnológico, já faz outro tipo de previsões.
“Ainda espero que a Tesla e a SpaceX se fundam em 2027, depois do IPO”, disse numa nota, pouco depois de a SEC divulgar o prospeto ao mercado. É de salientar que Musk já uniu algumas das suas empresas: primeiro, a xAI comprou o X e, este ano, a SpaceX engoliu a xAI.
O analista considera que Musk está a preparar o terreno para algo do género. “A Tesla já é dona de uma participação na SpaceX depois do investimento de dois mil milhões na xAI ter sido convertido em ações da SpaceX” na altura da fusão, este ano. No prospeto, é referido que a Tesla tem 18.990.195 ações da SpaceX, o equivalente a uma participação de 1%.
“O recente anúncio da criação de uma instalação conjunta da Terafab [iniciativa para fabricar chips] entre a SpaceX e a Tesla reforça ainda mais a ligação entre ambas, tornando mais viável a fusão das suas operações”, continua.
Nesta perspetiva, seria mais uma forma de o homem mais rico do mundo ganhar destaque. “Musk quer deter e controlar uma parte maior do ecossistema da IA e, passo a passo, o Santo Graal poderá consistir em unir a SpaceX e a Tesla de alguma forma, de modo a criar a ligação entre estas duas potências tecnológicas disruptivas que pretendem liderar a revolução da IA.”