(c) 2023 am|dev

(A) :: Como o Irão controla Ormuz: acordos, taxas de segurança e condições de Teerão para deixar o petróleo passar

Como o Irão controla Ormuz: acordos, taxas de segurança e condições de Teerão para deixar o petróleo passar

O Agios Fanourios I, retido na costa de Dubai desde abril, passou o bloqueio iraniano após pagar taxas e a supervisão direta do Iraque. A travessia que deveria durar cinco horas, levou dois dias.

Marina Ferreira
text

O destino do navio Agios Fanourios I, carregado com petróleo bruto iraquiano, estava traçado: o Vietname. Mas desde o final de abril que a embarcação de 330 metros de comprimento estava retida na costa de Dubai, no meio da guerra de Israel e dos EUA com o Irão. A 10 de maio, no entanto, partiu em direção ao Estreito de Ormuz ao abrigo de um acordo direto com o Irão que contou com a supervisão próxima do próprio primeiro-ministro iraquiano.

O caso particular deste navio, que fez a travessia que é detalhada pela agência Reuters, é a prova do sistema de múltiplas etapas para a libertação de embarcações no Estreito de Ormuz, no momento em que vários países tentam reabastecer as suas reservas de energia, que diminuem perigosamente de dia para dia desde o início da guerra — com a NATO a ter já colocado em cima da mesa uma ação caso o bloqueio iraniano persista até julho.

A base do processo é precisamente cumprir à risca as ordens do Irão em cada etapa — da navegação, à inspeção, se o país assim o entender. Fica praticamente tudo nas mãos dos iranianos, com a supervisão de outras nações.

O processo para o Agios Fanourios I passar com petróleo, sem ser atacado, incluiu, revelam algumas fontes próximas, o pagamento de taxas em troca de passagem segura, um acordo diplomático exigente e uma monitorização próxima do Irão, a partir dos seus postos de controlo.

As fontes ouvidas pela agência internacional explicam como os combatentes da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que patrulhavam o estreito, e que inicialmente permitiram a passagem da embarcação, ordenaram, a certa altura, que o navio parasse. Ou seja, o caminho também não se fez sem obstáculos. O motivo era a suspeita de a embarcação carregar matéria contrabandeada, havendo assim necessidade de ser inspecionada.

Não foi isso que aconteceu, algumas horas depois a embarcação recebeu autorização iraniana para seguir caminho. É certo que a travessia do estreito deveria demorar cerca de cinco horas e acabou a levar dois dias, que se tornaram de calvário para os tripulantes, mas a passagem aconteceu. “Assim que fomos informados de que o Agios tinha passado por Ormuz, respirámos de alívio”, afirmou uma das fontes que fez a monitorização da viagem à Reuters.

Entre os países que estiveram na missão de vigilância das embarcações estiveram o país de destino do navio — Vietname, o Iraque, com um importante papel diplomático, bem como a Grécia. A Reuters nota que perto da rota da embarcação no estreito, outro navio foi atingido por um projétil, causando um pequeno incêndio nessa embarcação, mas sem causar danos ou risco para o Agios Fanourios I.

A empresa que gere a embarcação, a Eastern Mediterranean Shipping, garantiu à Reuters que nenhum pagamento direto foi efetuado ao Irão para que a travessia recebesse luz verde. Mas dois altos funcionários iranianos admitiram à Reuters que, por vezes, os navios são sujeitos a taxas de segurança e navegação, que variam de acordo com a carga. Nenhum dos funcionários forneceu valores específicos, mas um deles afirmou que “nem todos os países estão sujeitos a essas taxas”, sem revelar a lista de quem tem de pagar, ou não.