O Governo britânico divulgou esta quinta-feira um conjunto de documentos sobre a nomeação de André Mountbatten-Windsor como enviado especial para o comércio em 2001, que mostram, segundo a BBC, que a rainha Isabel II estava “muito interessada” em que o filho tivesse um “papel de destaque na promoção dos interesses do Reino Unido”. Na sequência de uma moção apresentada pelos Liberais Democratas, o parlamento autorizou a publicação dos registos, poucos dias depois de o ex-príncipe ter sido brevemente detido por suspeitas de má conduta no exercício de funções públicas. E após o Departamento de Justiça dos EUA ter divulgado documentos ligados à sua alegada relação com Jeffrey Epstein — milionário condenado por crimes sexuais que apareceu morto na prisão —, que esteve na origem do seu afastamento do cargo em 2011.
No total, foram divulgados 11 ficheiros que detalham a criação do cargo de “Representante Especial para o Comércio e Investimento” e o processo de nomeação de André. Num dos ficheiros, datado de 25 de fevereiro de 2000, David Wright, então diretor executivo do organismo governamental British Trade International, escreveu ao ministro dos Negócios Estrangeiros da época, Robin Cook, afirmando que “o desejo da rainha” era que o ex-príncipe fosse escolhido para o cargo e que “se encaixaria bem” com o fim da sua carreira na Marinha Britânica, relata a CNN.
Wright, segundo a BBC, afirmou ter escrito a nota após uma “conversa abrangente com o secretário particular da Rainha na quarta-feira, 23 de fevereiro”. O então diretor da British Trade International afirmou ainda que André poderia realizar “duas ou três visitas de promoção comercial especificamente dirigidas aos mercados estrangeiros todos os anos”. “Gostaríamos que o Duque de York estivesse disponível para receber visitantes comerciais ilustres do estrangeiro aqui em Londres e, talvez, servir de anfitrião em refeições ou receções, conforme apropriado”.
Precisamente um mês antes de David Wright ter escrito ao ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, uma carta datada de 25 de janeiro de 2000 e assinada pela diplomata Kathryn Colvin — embora não seja claro a quem se destinava — já fazia referência à possibilidade de André assumir o cargo. A carta, de acordo com a emissora britânica, incluía notas com o antigo secretário particular do ex-príncipe, Neil Blair, que afirmou que André “tendia a preferir os países mais sofisticados, particularmente aqueles que lideravam na tecnologia”.
No texto, Kathryn Colvin refere ainda ter sido informada de que o príncipe André demonstrava especial aptidão para áreas como alta tecnologia, comércio, juventude — incluindo escolas primárias e projetos de atividades ao ar livre —, eventos culturais, “com preferência pelo ballet em detrimento do teatro”, assuntos da Commonwealth, questões militares e negócios estrangeiros. “Neil Blair pediu especificamente que o Duque de York não fosse convidado para jogar golfe no estrangeiro. Esta era uma atividade privada e, se ele levasse os seus tacos, não jogaria em público”, pode ainda ler-se.
“Ele não tem muita experiência. Porque não alguém mais qualificado?”
Um dos documentos divulgados esta quinta-feira pelo Governo britânico, aparentemente elaborado pela British Trade International, intitula-se “Perguntas e Respostas para a Imprensa sobre o anúncio da nomeação do Duque de York”. Segundo a BBC, o texto reúne 24 perguntas e respostas destinadas a preparar os colaboradores do organismo governamental para eventuais questões da imprensa.
“Mas ele não tem muita experiência. Porque não alguém mais qualificado?” era uma das perguntas incluídas no documento, refere a emissora britânica. Já a resposta sugerida era: “A importância do envolvimento do Duque reside na visibilidade e no empenho que pode dedicar a este trabalho enquanto membro da Família Real […]. O Duque trará um apoio e uma visibilidade valiosos às atividades da British Trade International (BTI) no Reino Unido e no estrangeiro.”
Questionados sobre se André receberia remuneração pelo cargo, os colaboradores deveriam responder que “não”. O documento esclarecia ainda que a British Trade International suportaria as despesas de viagem e restantes custos associados, incluindo os da sua equipa de apoio, mas não da segurança pessoal do ex-príncipe, financiados pela Polícia Metropolitana.
Outro dos documentos divulgados sobre o ex-príncipe André consistia num briefing preparado antes de uma entrevista ao The Times, em 2001. No texto, a sua equipa pedia que sublinhasse a existência de um “acordo mútuo” com “o Palácio” em relação à sua tomada de posse. Mountbatten-Windsor foi também aconselhado a afirmar que “não havia hesitação” em aceitar o cargo, acrescentando, contudo, que, devido à sua “falta de experiência direta em negócios”, pretendia garantir “um período completo de integração”.
Encontrar os documentos divulgados “não foi uma tarefa simples”
Chris Bryant, atual ministro do Comércio do Reino Unido, afirmou em comunicado que encontrar os documentos divulgados “não foi uma tarefa simples” e que foi necessário procurar cada um deles “manualmente”. “Há 25 anos, os departamentos governamentais operavam, em grande parte, com sistemas de arquivo em papel”, referiu, citado pela BBC.
O atual ministro considera que os ficheiros mostram que “as autoridades e os ministros já estavam a considerar expandir o papel do Duque de York algum tempo antes da proposta formal” e diz que não foi encontrada “nenhuma evidência” de que tenha sido realizado um processo formal de verificação antes da nomeação de Mountbatten-Windsor para o cargo.
Em fevereiro, quando o Governo britânico aprovou a moção dos Liberais Democratas que exigia a publicação de todos os documentos governamentais relacionados com a nomeação de André como enviado especial para o comércio, Chris Bryant terá descrito o ex-príncipe como “rude, arrogante e prepotente”.
Em comunicado, o governo justifica o facto de ter omitido alguma informação dos documentos de forma a “remover o mínimo necessário de informação pessoal e informação cuja divulgação pudesse prejudicar as relações internacionais”.