Em meados de 1995, um jovem de 19 anos apareceu numa reportagem da televisão israelita com o símbolo do Cadillac do então primeiro-ministro Yitzhak Rabin nas mãos e uma ameaça na ponta da língua: “Chegámos ao carro dele e vamos chegar até ele também“. Rabin viria a ser assassinado em novembro desse ano por um radical israelita de extrema-direita, Yigal Amir, que se opunha aos Acordos de Oslo, por abrirem caminho ao processo de paz israelo-palestiniano e a um possível futuro pacífico de dois Estados. O rapaz da reportagem televisiva chamava-se Itamar Ben-Gvir.
A humilhação dos ativistas da flotilha humanitária detidos pelas forças israelitas é, pois, a última de uma longa história de polémicas de Ben-Gvir. De provocador líder do partido de extrema-direita radical Otzma Yehudit (Poder Judaico, em português), o político de 50 anos e apologista da supremacia judaica passou a poderoso ministro da Segurança Nacional do Governo de coligação liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
E, apesar do coro de críticas e do rasto de controvérsia por onde passa, Ben-Gvir tem segurado a sua posição no executivo, à custa dos seis assentos do seu partido no Knesset (o Parlamento israelita). Poucos, mas ainda assim importantes para assegurar a maioria de 64 elementos na câmara de 120 deputados, quando se aproximam novas eleições legislativas, após a aprovação da proposta de dissolução do parlamento na quarta-feira.
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Há 31 anos, Ben-Gvir estava ainda longe dos palcos políticos que ocupa hoje, mas já tinha trilhado um longo caminho de radicalização. Sem nunca se desviar da rota, o ministro esteve inúmeras vezes na mira da justiça, acusado de incitamento ao racismo ou apoio a organizações terroristas, e defendeu, como advogado, alguns extremistas nos tribunais. Tornou-se uma figura mediática, mas os atos cada vez mais radicais fizeram dele uma espécie de celebridade apenas junto da franja ultranacionalista de Israel, conquistando um espaço político difícil de ignorar.
Da intifada no final dos anos 80 ao extremismo que o levou a ser ‘barrado’ pelas IDF
Nascido em Jerusalém, no bairro suburbano de Mevasseret Zion, no dia 6 de maio de 1976, Itamar Ben-Gvir descende de uma família secular com raízes no Curdistão iraquiano e vive hoje no colonato de Kiryat Arba, em Hebron (Cisjordânia). Num perfil no jornal Haaretz, em 2016, quando ainda estava longe do cargo ministerial atual, recordou o seu passado: um pai que trabalhou numa empresa de combustíveis, uma mãe doméstica, um irmão e um cão.
Descreveu-se, então, como uma “criança com opiniões muito firmes” desde cedo. As opiniões terão começado a cristalizar-se com a primeira intifada, entre 1987 e 1993, também conhecida como ‘Guerra das Pedras’, na qual os palestinianos contestaram a ocupação israelita. “Houve um homicídio, depois outro, e depois outro, e isso levou-me a começar a pensar em como resolver isto“, recordou Ben-Gvir sobre esse período que coincidiu com a sua adolescência.
Foi então que se aproximou do movimento juvenil ligado ao Moledet, partido político de direita que preconizava a saída dos árabes israelitas de Israel. A visão antiárabe não era ainda suficiente e deu então novo passo para a extrema-direita, juntando-se ao Kach, do rabino ultranacionalista Meir Kahane.
Este partido, que tinha conseguido chegar em 1984 ao Knesset, seria não só proibido em 1988 por incitamento ao racismo — depois de propor, por exemplo, a revogação da cidadania para não judeus ou a proibição de casamentos e relações sexuais entre judeus e não judeus —, mas também considerado uma organização terrorista nos EUA e até em Israel.
“Encontrei neste movimento muito amor pelo povo judeu, muita verdade e muita justiça”, sublinhou Ben-Gvir. O partido saiu de cena, mas algumas ideias ficaram enraizadas no agora ministro da Segurança Nacional, ao ponto de ser ‘barrado’ de servir nas Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês). Quando cumpriu os 18 anos e se apresentou para o serviço militar, Ben-Gvir foi considerado demasiado extremista para as IDF; porém, é sob a sua tutela que operam agora a polícia ou os serviços prisionais de Israel.
As acusações e a defesa de extremistas radicais israelitas
Nos anos que se seguiram, Itamar Ben-Gvir foi inúmeras vezes acusado de incitamento ao racismo. Numa declaração antiga, chegou a confessar ter sido alvo de cerca de 50 acusações, com a esmagadora maioria a cair por terra ou a resultar em absolvição. De acordo com o Haaretz, defendeu-se a si mesmo em tribunal e acabou por ir estudar Direito na Ono Academic College of Law, onde se licenciou em 2008, um ano depois de ter sido condenado por incitamento ao racismo.
Aliás, a Ordem dos Advogados israelita exigiu que Ben-Gvir resolvesse três processos judiciais antes de poder realizar o exame de acesso ao organismo. Com a experiência que já tinha enquanto arguido, não foi surpresa que começasse depois a defender em tribunal colonos rebeldes envolvidos em construções ilegais ou radicais ultranacionalistas que eram suspeitos de terrorismo e de crimes de ódio.
“Não o faço pelo dinheiro”, alegava há uma década o advogado, continuando: “Na melhor das hipóteses, consigo cobrir as despesas com a gasolina. A razão pela qual o faço é porque acredito sinceramente que preciso de ajudar estas pessoas“.

Entre as pessoas que defendeu, por exemplo, estavam dois adolescentes ligados a um incêndio de origem criminosa na aldeia de Duma, na Cisjordânia, e que provocou a morte de três pessoas (os pais e um bebé de 18 meses); um homem acusado de incendiar a Igreja dos Pães e dos Peixes, em 2015; ou Bentzi Gopstein, diretor do grupo radical Lehava, que era contra a assimilação — através do casamento de judeus com pessoas de outras religiões — e que teria tolerado que igrejas fossem queimadas em Israel.
Simultaneamente, começou também a trabalhar como assessor parlamentar de Michael Ben-Ari, um antigo discípulo de Meir Kahane e que integrava o partido União Nacional (extrema-direita). Seria o primeiro passo mais a sério numa carreira política, agora já em idade adulta.
Ascensão política, mediatismo e o retrato de um assassino em massa
As ideias e os gestos radicais já sinalizavam desde cedo o posicionamento político claro na extrema-direita sionista. Por isso, numa fase de crescimento internacional de forças políticas neste extremo político, Ben-Gvir não hesitou em continuar a protagonizar momentos de tensão, controvérsia e agitação social. Quanto mais atenção mediática ganhava, mais tração política conseguia.
No entanto, a ascensão política não foi imediata. Não conseguiu entrar para o parlamento israelita nas eleições de 2013, quando integrava a terceira posição nas listas do Otzma Leyisrael. Nas eleições de 2019, Ben-Gvir tentou concorrer a um assento parlamentar novamente, mas viu esse objetivo adiado outra vez, com o partido a não ir além dos 83.600 votos. O mesmo sucederia noutras eleições antecipadas, em março de 2020, com o Poder Judaico a cair para 0,42% (menos de 20 mil votos).
Seria preciso esperar por março de 2021, em novo sufrágio antecipado. O Otzma Leyisrael era agora conhecido como Otzma Yehudit e Ben-Gvir o seu líder desde 2019, concorrendo numa lista conjunta com o Partido Sionista Religioso, do ultraconservador Bezalel Smotrich (igualmente ministro no atual executivo de Netanyahu, detendo a pasta das Finanças). Os votos desse ato eleitoral garantiram seis mandatos para a coligação, que somou cerca de 225 mil votos, e um dos eleitos era, finalmente, Ben-Gvir.
Nesse período tornou-se uma presença constante nos meios de comunicação, à boleia de inúmeras polémicas e provocações. Em maio de 2021, foi acusado pela polícia de agudizar o clima de tensão entre judeus e árabes em algumas cidades. Em outubro desse ano confrontou Ayman Odeh, que liderava a Lista Conjunta (uma união de quatro forças políticas de maioria árabe), pela visita daquele deputado do Knesset a um membro do Hamas em greve de fome num hospital israelita.
Já em 2022 chegaria a interromper declarações do então ministro da Segurança Pública, Omer Bar-Lev, em Hadera, na sequência de um ataque, para acusar o governante (e que se tornaria depois o seu antecessor no cargo) de ser um esquerdista e um fracasso, além de invadir uma conferência de imprensa do Conselho da Shura (Movimento Islâmico) para os culpar pela morte de militares das IDF.
Tudo isto, como recordou o jornal britânico The Guardian, enquanto, na parede de sua casa, Ben-Gvir tinha pendurado — até pelo menos ao ano 2020 — um retrato de Baruch Goldstein, o assassino responsável em 1994 pela morte a tiro de 29 palestinianos no Túmulo dos Patriarcas, a mesquita da cidade de Hebron.
Influência no Governo (e na sobrevivência política) de Netanyahu
Após o afastamento de alguns aliados políticos e com a fragmentação política no Knesset, Benjamin Netanyahu regressou ao cargo de primeiro-ministro em dezembro de 2022 graças a uma coligação alargada à extrema-direita, que voltaria a crescer nas eleições legislativas desse ano.
O acordo com Ben-Gvir e Smotrich garantiu a entrada dos dois polémicos políticos ultranacionalistas para o Governo, depois de, em março de 2021, Netanyahu ter considerado, em declarações recuperadas agora pelo jornal Times of Israel, que Ben-Gvir “não era adequado” para um cargo num executivo sob a sua liderança. “As suas posições não são as minhas”, chegou a referir ‘Bibi’ sobre os comentários racistas do líder do Poder Judaico.
Contudo, muito mudou desde então, não só na política interna israelita, mas também, e sobretudo, na frente externa, com a guerra em Gaza e, mais recentemente, no Irão e no Líbano, sem esquecer as batalhas judiciais do primeiro-ministro, acossado por um julgamento por suspeitas de corrupção.

Com uma magra maioria no Parlamento israelita e depois de anos marcados por sucessivas dissoluções, Netanyahu entregou um cargo preponderante a Ben-Gvir como forma de garantir a sua lealdade. Desde então, tolerou atos e declarações cada vez mais radicais — como ameaçar prender jornalistas ou rezar num lugar sagrado para os muçulmanos —, em nome de uma estabilidade política e de uma unidade nacional, em particular depois do ataque de 7 de outubro de 2023, face às ameaças externas a Israel, com Hamas, Hezbollah e o regime de Teerão à cabeça.
Mesmo com ameaças de rutura de Ben-Gvir — que, efetivamente, chegou a consumar entre janeiro e março de 2025, devido à aceitação do cessar-fogo em Gaza —, Netanyahu não retirou a confiança ao seu ministro da Segurança Nacional. O regresso ao executivo em março do ano passado assegurou a continuidade de uma maioria curta, mas estável. Para o futuro, é de esperar que Netanyahu mantenha também Ben-Gvir por perto, a fim de não deixar escapar mais eleitores para o espectro da extrema-direita ultranacionalista, num momento em que as várias frentes de batalha são vistas como um teste à própria existência do Estado israelita.
Humilhação de ativistas pode ditar a saída?
A condenação do comportamento de Itamar Ben-Gvir na humilhação de ativistas da flotilha humanitária foi transversal, ao estender-se até a aliados políticos de Israel, como os EUA, e mereceu um raro reparo público do próprio Benjamin Netanyahu. “Não se coaduna com os valores e as normas de Israel“, afirmou o primeiro-ministro israelita, num comunicado difundido pelo seu gabinete.
A mesma ideia foi veiculada por outro ministro, como Gideon Saar, titular da pasta dos Negócios Estrangeiros. “[Ben Gvir] desfez esforços tremendos, profissionais e bem-sucedidos realizados por tantas pessoas — desde soldados das IDF até funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros e muitos outros”, lamentou Sa’ar no X, que referiu ainda que Ben Gvir “não é a cara de Israel”.
https://twitter.com/IsraeliPM/status/2057095673669918753
Cresce a contestação à continuidade de Ben-Gvir no Governo israelita. Porém, a resposta a essa dúvida deverá ficar reservada para as próximas eleições, depois de os deputados do Knesset terem aprovado na quarta-feira a dissolução do parlamento israelita. A proposta reuniu 110 dos 120 votos, ninguém votou contra, tendo agora a dissolução de ser confirmada noutra votação, com posterior marcação das eleições, previsivelmente, até outubro.
Em causa na atual crise política não está a controvérsia registada com a flotilha humanitária, mas, sim, a isenção de ultraortodoxos relativamente ao cumprimento do serviço militar, uma exigência das fações religiosas mais conservadoras e que a justiça israelita já veio declarar que tem de ser revista. A questão ganha relevância num momento em que as IDF estão sob pressão ao nível do recrutamento e da disponibilidade de elementos, face às múltiplas frentes de batalha nos últimos anos, com os estudantes religiosos ultraortodoxos a representarem dezenas de milhares de elementos que as IDF não podem recrutar.
Contudo, Itamar Ben-Gvir não recua no seu comportamento e mantém a postura desafiadora para com os próprios colegas de Governo. O ministro da Segurança Nacional absteve-se de responder a Netanyahu, mas deixou uma réplica a Gideon Saar. “Há aqueles no governo que ainda não entenderam como se devem comportar com apoiantes de terroristas“, atirou, sentenciando: “Quem chega ao nosso território para apoiar o terrorismo e se identificar com o Hamas vai levar um soco e não lhe daremos a outra face”.
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