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(A) :: Virgílio Antunes, novo presidente dos bispos: “Muitas vezes, a Igreja não está à altura do Evangelho que recebeu para transmitir”

Virgílio Antunes, novo presidente dos bispos: “Muitas vezes, a Igreja não está à altura do Evangelho que recebeu para transmitir”

Em entrevista ao Observador, o novo presidente da Conferência Episcopal fala sobre os próximos passos na crise dos abusos — e admite que por vezes a Igreja se refugiou nas regras em vez do Evangelho.

João Francisco Gomes
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Diogo Ventura
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Bernardo Almeida
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Após seis anos como vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), o bispo de Coimbra, Virgílio Antunes, foi em abril eleito para presidir ao organismo que reúne todos os bispos católicos portugueses durante os próximos três anos. Como número dois da mais alta estrutura da Igreja Católica em Portugal, Virgílio Antunes esteve ao lado do anterior líder — o bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas — durante um dos períodos mais críticos da história recente do Catolicismo português, marcado pela investigação aos abusos sexuais de menores e pelas consequências do relatório da comissão independente.

A eleição de Virgílio Antunes contrariou as expectativas de quem contava com o cumprimento da antiga tradição de eleger o patriarca de Lisboa para o cargo e foi lida como um sinal de que os bispos desejavam a continuidade da direção anterior, sobretudo porque o tema dos abusos está longe de resolvido: o processo de atribuição de compensações financeiras continua em curso e falta ainda saber como é que a Igreja vai acompanhar, daqui para a frente, esta realidade. “Este dossiê não vai ser fechado”, garante Virgílio Antunes numa entrevista de fundo ao Observador, antecipando o que serão as grandes linhas da Igreja Católica em Portugal nos próximos anos e reconhecendo que não estava “preparado” para tudo o que viu no relatório da comissão. Neste âmbito, um dos pontos críticos é a definição da infraestrutura institucional que vai continuar a trabalhar na prevenção dos abusos e a lidar com eventuais denúncias futuras: há quem defenda a continuidade de uma externa à Igreja (como o Grupo VITA, liderado pela psicóloga Rute Agulhas) e há quem prefira que o assunto seja tratado pelas comissões internas existentes em todas as dioceses, ordens e congregações religiosas.

Numa entrevista ao programa Sob Escuta da Rádio Observador, gravada no Paço Episcopal de Coimbra, o bispo Virgílio Antunes fala dos vários temas que marcam a Igreja Católica contemporânea e garante que a primeira prioridade que levará para a CEP é “o anúncio da fé cristã” num mundo onde um “Cristianismo muito cultural” parece estar já dissociado da fé. As razões para este afastamento passam, em parte, pela existência de uma distância entre “acreditar em Deus” e aceitar pertencer a uma Igreja que, ao longo da história, “não esteve, ou não está, à altura do Evangelho que recebeu para transmitir”, refugiando-se frequentemente em “afirmar a força da lei, das normas ou das regras”, admite o bispo.

https://observador.pt/programas/sob-escuta/o-materialismo-nao-satisfez-a-condicao-humana-virgilio-antunes-e-a-igreja-catolica-num-mundo-a-procura-de-novas-espiritualidades/

Virgílio Antunes fala ainda sobre o lugar da Igreja Católica num mundo em guerra onde são, frequentemente, usados argumentos religiosos para justificar o conflito armado, garantindo que o conceito teológico de “guerra justa” não pode ser usado para justificar uma “agressão” e garantindo que os cristãos não rezam “contra” ninguém — ao contrário do que fez recentemente o secretário da Defesa dos EUA, que pediu a Deus uma “violência esmagadora” contra os inimigos do país. A poucos dias da publicação da primeira encíclica do Papa Leão XIV, dedicada aos desafios da inteligência artificial para a dignidade humana, Virgílio Antunes reconhece que a Igreja tem estado do lado dos “mais pessimistas” em relação às inovações tecnológicas, mas acredita que a IA pode “potenciar” o desenvolvimento humano.

Virgílio Antunes acredita ainda que, depois de um caminho de secularização que “não satisfez a condição humana”, o Ocidente está novamente à procura da espiritualidade. Mesmo no contexto de uma forte polarização entre diferentes caminhos dentro da instituição, diz o bispo, a Igreja tem atualmente a missão de responder a esse “desejo” humano. Admitindo que a Igreja Católica em Portugal tem sido pouco interventiva no debate público sobre a maioria dos assuntos à exceção de temas fraturantes como o aborto, a eutanásia ou a moral sexual, Virgílio Antunes reconhece que os bispos podem ter de ser “mais incisivos num leque variado de temas”, marcando posição numa sociedade secularizada, mas onde a Igreja pode ter uma voz de força. E, também com a atual realidade norte-americana em vista, o bispo afirma claramente: “A separação da Igreja e do Estado (…) foi o melhor bem que nos podia ter acontecido.”

“Um dos meus objetivos prioritários, que é de sempre, é levar por diante o anúncio da fé cristã e também da pertença à Igreja”

O senhor foi eleito em abril para suceder ao bispo José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima, após seis anos de um mandato claramente marcado pela questão dos abusos sexuais. Foi a direção anterior, por exemplo, que convocou a Comissão Independente, que espoletou todo este tema na Igreja nos últimos anos. Devemos assumir, ou é justo assumir, que a eleição do anterior vice-presidente é um sinal de que os bispos queriam continuar exatamente na mesma linha? A sua eleição é um sinal de continuidade?
Pode haver muitas e diferentes leituras, como tem havido. Eu não sei, porque o voto para a eleição do presidente, do vice-presidente e dos outros membros do Conselho Permanente é secreto. Há uma lista com os nomes de todos os bispos que são elegíveis e as pessoas votam sem comunicar as suas razões, nem as suas preferências, nem as suas motivações. E, portanto, em rigor, eu não sei.

Mas não há uma discussão prévia?
Não há uma discussão prévia. Se há, pode-se conversar com este, com aquele ou com aqueloutro. Mas, de facto, eu não entrei, por assim dizer, em nenhuma dessas conversas e conversações, que sempre existem nos corredores. As pessoas vão manifestando, com certeza. Mas a maior parte opta pelo silêncio e, portanto, por não manifestar nem a sua intenção de voto, nem as suas preferências, nem os seus gostos, nem a continuidade ou falta de continuidade. E, portanto, em rigor, eu não sei. Mas posso, de algum modo, também tirar alguma das minhas conclusões. Eu penso que o sentido da continuidade, particularmente no que diz respeito a este assunto dos abusos e outros que estão presentes na vida da Igreja em Portugal, pode ter tido alguma importância, uma vez que eu fazia parte do Conselho Permanente anterior, ao longo de seis anos.

Foi o vice-presidente.
Fui o vice-presidente e, portanto, acompanhei e participei de praticamente todas as diligências que tiveram lugar durante estes últimos seis anos.

https://observador.pt/2026/04/14/virgilio-antunes-bispo-de-coimbra-e-o-novo-presidente-da-conferencia-episcopal-portuguesa/

Já vamos falar concretamente sobre a questão dos abusos. Queria, nesta primeira fase, falar um pouco sobre a eleição. Muitos talvez tivessem apostado, por exemplo, na eleição do patriarca de Lisboa para presidente da Conferência Episcopal, porque parece haver uma tradição antiga em Portugal de, recorrentemente, o patriarca de Lisboa ser associado à liderança da Igreja. Podemos ver aqui, na eleição de dois bispos de dioceses fora de Lisboa, consecutivamente, o fim dessa tradição? Uma certa maior democratização do episcopado em Portugal?
Uma tradição que é simplesmente um costume. Tem a ver, porventura, com muitas circunstâncias e tem a ver com o respeito que todos temos sempre, e que a Igreja em Portugal tem sempre, pelo patriarca de Lisboa e pelo Patriarcado de Lisboa, por muitos e variados motivos. Desta vez, de facto, não foi assim e, portanto, de algum modo, foi a vontade dos bispos portugueses. Eu não sei nem o porquê, nem porque não, mas foi assim. E, portanto, vamos levar por diante a missão que nos foi confiada, no respeito por todos e, portanto, da melhor forma e com a melhor vontade.

"Uma coisa é acreditar em Deus, às vezes até fazer parte de uma tradição que é multissecular, e outra coisa é a profundidade da fé pessoal, da fé comunitária e depois da aceitação e da integração na Igreja, que é uma realidade que causa mais embaraço a muitas pessoas."

Que prioridades é que traz pessoalmente para a Conferência Episcopal? Em que aspetos é que quer deixar a sua marca pessoal?
Eu tenho quinze anos de bispo aqui na diocese de Coimbra e, de facto, nós somos um bocadinho também o lugar onde estamos, somos a tradição que temos, também somos a pessoa que somos e também vemos a Igreja com os nossos próprios olhos, e a sociedade, cada um de acordo com as suas convicções, com algumas certezas, algumas interrogações e inseguranças. Aquilo que eu tenho procurado sempre fazer na minha vida enquanto bispo foi investir muito na dimensão da evangelização do mundo. Aliás, foi esse o meu lema quando fui feito bispo: “Anunciamos Cristo crucificado.” Anunciamos ou pregamos, o que significa que é um desejo sempre de fazer chegar a mensagem do Evangelho mais longe e tendo em conta as circunstâncias em que nos encontramos. E, concretamente, a diocese de Coimbra é uma delas, mas espelha um pouco aquilo que é a realidade da nossa Igreja em Portugal e também da nossa sociedade. Portanto, eu acho que estamos num período da história da Humanidade, da história de Portugal e da história da Igreja em que a força do anúncio e do Evangelho é absolutamente necessária, porque estamos também no mundo da laicidade, no mundo da secularização, no mundo que pode viver — e vive — muitas vezes longe do Evangelho, mesmo que ainda tenha muitas manifestações de caráter religioso e alimente muitas tradições. Somos um cristianismo muito cultural. Portanto, um dos meus objetivos prioritários, que é de sempre, é levar por diante o anúncio da fé cristã e também da pertença à Igreja, porque muitas vezes são duas realidades dissociadas. Uma coisa é acreditar em Deus, às vezes até fazer parte de uma tradição que é multissecular, e outra coisa é a profundidade da fé pessoal, da fé comunitária, e depois da aceitação e da integração na Igreja, que é uma realidade que causa mais embaraço a muitas pessoas.

Porquê?
Porque, de facto, a Igreja, nós dizemos que é santa, mas é imperfeita e é pecadora. E, portanto, há muitas realidades com as quais as pessoas não se identificam. Seja o direito canónico, seja até na própria doutrina, seja depois naquilo que é a prática do dia a dia. E, depois, com as pessoas da Igreja, particularmente a identificação com as ideias, com os princípios, com as perspetivas, com as orientações, ou com o modo de ser e de estar de muitas pessoas da Igreja, particularmente daquelas que têm maior relevância. E as que têm maior relevância são os bispos e são os padres, portanto são os ministros ordenados.

Portanto, o que está a dizer, se bem percebi, é que pode haver muita gente que, embora tenha uma relação cultural com o Cristianismo e com a Igreja Católica…
…e até com Deus.

E até com Deus, não se está a rever na instituição.
Evidentemente. É aquilo que se tem passado em Portugal e também se passa no resto da Europa de uma forma muito concreta, e mesmo em outras partes do mundo. Mas no Ocidente isso talvez seja mais visível, seja mais notório. E nós, como entendemos que a fé em Deus, vivida no Cristianismo, tem uma relação muito próxima, muito direta com a inserção na vida da Igreja e na vida da comunidade cristã, esse é um desafio muitíssimo grande.

O senhor é biblista de formação, portanto a sua especialidade é a Bíblia. É nessa formação que assenta, por exemplo, aquilo que dizia recentemente à Ecclesia, que o Evangelho está antes da norma? Ou seja, antes das regras, está a mensagem de Jesus.
É evidente, mas é muito difícil nós conseguirmos conjugar aquilo que é o Evangelho, que é esse elenco, esse depósito e esse tesouro magnífico — não só de fé, numa dimensão religiosa, mas também numa dimensão cultural, numa dimensão pessoal —, e conseguirmos integrar tudo isso da forma mais adequada e de uma forma que seja abrangente para o maior número possível de pessoas. Porque depois também há os limites daquilo que é a ética, daquilo que é a prática da vida de todos os dias, daquilo que é o surgir de perspetivas novas, de ideologias, de tantas outras formas de encarar a vida. E é muito mais fácil acreditar que Deus existe, ou que a criação pode provir das mãos de Deus, ou ter uma perspetiva crente — do que propriamente depois identificar-se com uma religião concreta, inclusive com o Cristianismo, com todas as marcas que tem ao longo destes vinte séculos.

E acha que ao longo dos séculos a Igreja caiu na tentação de se afastar do centro da sua mensagem para se focar excessivamente em regras e normas?
Eu costumo distinguir entre a Igreja, porque a Igreja tem muitas faces, tem muitos rostos, tem muitos períodos, tem muitas pessoas. A Igreja, eu acredito que nunca se afastou daquilo que é a originalidade da mensagem de Jesus Cristo e da mensagem do Evangelho. Agora, ao longo da história, e também tem a ver com os diferentes momentos históricos, e não podemos balizar tudo, nem ler tudo com os olhos de hoje, mas muitas vezes a Igreja não esteve, ou não está, posso mesmo dizer no presente, à altura do Evangelho que recebeu para transmitir. E um dos refúgios mais fáceis, mais frequentes, mas às vezes mais perniciosos, é em vez do Evangelho afirmar a força da lei, ou das normas, ou das regras, que às vezes podem matar a letra e o espírito do Evangelho, mesmo que o objetivo de todas as leis eclesiásticas, de todas as perspetivas que nós procuramos desenvolver, seja, de facto, trazer por diante o Evangelho. Agora, é uma evidência para a sociedade, para a comunidade humana, e também é uma evidência para a própria Igreja, que tem de fazer esse momento crítico de si mesma, para ver se está ou não a corresponder.

Abusos na Igreja. “Ficámos com algumas surpresas, ficámos com algumas inseguranças, ficámos, enfim, abalados”

Em 2021, a Igreja foi amplamente elogiada pela decisão de avançar com a Comissão Independente. Depois disso, parece que as coisas começaram a correr mal, logo a partir daquele dia 3 de março de 2023, daquela conferência de imprensa de D. José Ornelas, que o próprio veio a assumir não ter sido feliz. Por exemplo, foi nessa conferência de imprensa que surgiu a célebre expressão de que a Igreja só tinha recebido uma lista de nomes, relativamente à questão dos padres alegadamente abusadores. Os bispos, quando lançaram a Comissão Independente, tinham um plano para o que fazer no dia a seguir a receberem o relatório?
Nós tínhamos uma ideia, e temos, acerca do que é a proteção dos menores, do que é o combate aos abusos de menores e de pessoas vulneráveis na Igreja Católica e na sociedade. Nós temos uma ideia bem clara, com, inclusivamente, a ajuda da Santa Sé, que foi publicando um conjunto de documentos totalmente elucidativos acerca destas questões. Agora, um plano estruturado com princípio, meio e fim, em que se soubesse exatamente tudo aquilo que ia acontecer e como ia acontecer, talvez não. O plano foi-se construindo ao longo destes tempos. Era uma realidade, e de algum modo ainda é, nova para todos nós. Nós estávamos longe de perceber quais seriam os contornos de toda esta questão, quais seriam os caminhos a seguir. Tínhamos a ideia bem definida, como continua bem definida. E, portanto, a seguir à apresentação do relatório da Comissão Independente no auditório da Gulbenkian, nós também ficámos com algumas surpresas, ficámos com algumas inseguranças, ficámos, enfim, abalados, interior e exteriormente, pelo conteúdo, pelo caráter e pela dimensão daquilo que percebemos ser uma realidade.

https://observador.pt/especiais/depois-de-lerem-relatorio-sobre-abusos-na-igreja-bispos-propoem-cinco-medidas-mas-avisam-que-ha-limitacoes-a-investigacao-dos-abusadores/

Não estavam à espera de que o relatório revelasse que o problema tinha uma dimensão tão grande em Portugal?
Nós queríamos que revelasse tudo. E a Comissão Independente, felizmente, teve um grandíssimo trabalho e teve uma liberdade absoluta, que eles sempre reconheceram, para desenvolver o seu trabalho da forma que achasse mais adequada, porque estávamos convencidos de que era necessário conhecer-se a realidade e que era necessário encontrar saídas para o futuro. Agora, que tivesse alguns destes contornos, eu, pessoalmente, não estava preparado, por assim dizer, até para tudo aquilo que eu vi e que é a realidade nua e crua que nós temos que enfrentar. Portanto, não havia um plano totalmente definido. O plano tem vindo a construir-se ao longo dos tempos.

Mas admite que pode ter passado para o público a ideia de que depois, com o relatório nas mãos, a Igreja começou a improvisar?
Não, não começou a improvisar. Inclusivamente porque, logo a seguir… Agora, o que é que vamos fazer? O que vamos fazer é levar por diante este processo. Naturalmente, a Comissão Independente tinha terminado o período que estava acordado e que eles próprios tinham visto que era o período mais adequado para se percecionar a realidade. E logo a seguir, para dar continuidade ao trabalho, constituímos o Grupo VITA com objetivos também eles bem claros, bem determinados, definidos. Algumas pessoas acham que os objetivos podem não ter sido os mais acertados e sobretudo que o modo de proceder pode não ter sido o mais adequado. Isto é uma realidade. Mas eu penso que foi uma forma determinada de abrir os caminhos do futuro e de dar continuidade a um processo que tinha tido a sua fase inicial com a Comissão Independente.

"A seguir à apresentação do relatório da Comissão Independente, nós também ficámos com algumas surpresas, ficámos com algumas inseguranças, ficámos, abalados, interior e exteriormente, pelo conteúdo, pelo caráter e pela dimensão daquilo que percebemos ser uma realidade. Eu, pessoalmente, não estava preparado para tudo aquilo que vi."

Desde a apresentação do relatório até hoje, o percurso da Igreja acabou por ficar marcado por vários pontos de controvérsia, sobretudo mais recentemente com a questão das compensações financeiras. Por exemplo, com o apagamento dos arquivos da Comissão Independente que obrigou o Grupo VITA a voltar a entrevistar algumas vítimas; as queixas de revitimização ao longo do processo; agora, no fim, a polémica em torno dos cortes que foram aplicados às compensações que foram recomendadas por uma comissão contratada pelos próprios bispos. A Igreja acabou por, ao longo deste processo, perder um certo capital de confiança que pode ter ganhado no início do processo ao convocar uma Comissão Independente para o assunto?
É evidente. Nós também gostamos que as pessoas confiem na Igreja e é necessário que confiem na Igreja, mas esse não é o primeiro objetivo. O primeiro objetivo é a luta contra os abusos na Igreja em Portugal. Esse é que é o objetivo determinado. Algumas pessoas poderão ter perdido alguma confiança, mas também tenho a certeza de que há muitas outras pessoas que ganharam uma confiança muito maior na Igreja porque viram que a Igreja procurou encontrar os meios mais adequados, para levar por diante todo este processo. Agora, evidentemente que, pelo meio, há pontos de vista. Há pessoas que concordam, há pessoas que não concordam… Às vezes também ouvimos um bocadinho de comentários e críticas muito vagos. Quando se fala de maior transparência… A transparência, eu acho que esteve [presente]. Nunca se revelaram os nomes das pessoas, nem dos abusados, nem dos abusadores. Isso era um pressuposto, absolutamente. O facto de a própria Comissão Independente não ter apresentado os nomes e os dados: apresentou dados objetivos, mas, com certeza, anonimizados. Isso fazia parte integrante de todo o processo e era uma condição de confiança por parte das vítimas. Caso contrário, as pessoas não iam expor-se. Todo o tecido está construído à volta da confiança que as vítimas podiam ter, deviam ter e podem continuar a ter na Igreja Católica, que está empenhada em levar por diante este processo, mesmo que uma vez ou outra, de facto, possa não redundar numa maior confiança na instituição. Nós gostamos que as pessoas confiem e é necessário que confiem até para exporem as suas próprias situações.

Uma crítica que foi feita várias vezes à Igreja foi a de que pediram à Comissão Independente para, de certa forma, mostrarem que estavam atentos ao assunto, mas que depois da apresentação do relatório da Comissão Independente, na verdade sentiram que vos tinha sido apresentada uma realidade tão maior do que estavam à espera, que procuraram rapidamente seguir em frente.
Mas seguimos em frente, continuando a implementar outras medidas e criando os instrumentos para dar continuidade. Não se chega às compensações sem haver um caminho e um trabalho feito. Mesmo isto de assumir as compensações às vítimas dos abusos sexuais na Igreja Católica em Portugal, de uma forma livre, para além daquilo que está estabelecido no direito, nos casos [com] todas as prescrições e mais algumas, com os presumíveis abusadores falecidos, com base na confiança nas palavras que as pessoas nos dizem e nos testemunhos que nos narram… Eu acho que isso é um sinal evidente de que podíamos ter cortado — não seria bom para ninguém, mas é um sinal evidente de que foi decidido levar por diante o processo e continuamos com a mesma disponibilidade para levar por diante o processo.

Essa questão dos cortes nas compensações acabou por ser a polémica mais recente e acabou por marcar o desfecho do processo. A Igreja já está em condições de explicar exatamente o que é que aconteceu? Porque é que contrataram uma comissão de juristas para recomendar valores a atribuir e depois acabaram por cortá-los para cerca de metade? Foi mais ou menos avançado esse valor.
Sim, foi. A comissão, que felizmente fez o seu trabalho, e se dedicaram, e foi muito generosa, foi um trabalho longo, foi um trabalho minucioso. Primeiro, a comissão para ouvir as vítimas, que tinham que ser ouvidas. Não se podia simplesmente partir para uma compensação sem ter ouvido as pessoas. É evidente, pode falar-se de revitimização e também é evidente que, em todas as ocasiões em que as vítimas têm de falar novamente do seu caso e do seu processo, é um transtorno interior, que causa com certeza um grande mal-estar, como temos ouvido de tantas vítimas. Mas isso era absolutamente necessário. E como disse o Grupo VITA, e eu não estive em nenhuma auscultação, mas confio plenamente que as pessoas foram tratadas com todo o respeito, procurando minimizar todos os efeitos colaterais que essa escuta pudesse vir a causar. Depois, é evidente que a comissão para a atribuição dos montantes também tinha um regulamento que aceitou, e que previa que faria uma proposta e a decisão final caberia à Conferência Episcopal, como veio a acontecer. E também já repeti noutras ocasiões que os motivos fundamentais… Chamamos-lhe corte, mas rigorosamente não foi um corte, porque não havia um montante estabelecido. Havia uma proposta. Tendo em conta a jurisprudência portuguesa, tendo em conta aquilo que se passou noutros países do mundo, na Europa — não falamos do outro lado do Atlântico, onde a questão é radicalmente diferente; os acordos que fazem lá são de outra ordem, têm outros fundamentos — tendo em conta concretamente aqui a Espanha, a França, etc., tendo em conta o nível de vida da população portuguesa, nós achámos que, não ficando, nem devíamos ficar, abaixo daquilo que se praticou e que se está a praticar na Europa e que, portanto, também nesse aspeto não devíamos ser uma exceção. Algumas pessoas não acharam bem que se dissesse que a nossa circunstância era muito diferente. Não entenderam as razões e as motivações.

A questão é: a tal comissão de juristas que recomendou os valores não teve em conta todos esses fatores? A jurisprudência, a comparação com outros países?
Teve, com certeza, de acordo com o critério que definiram e que estabeleceram. Nós, de facto, tínhamos a responsabilidade de aprovar os montantes finais, pois acabámos por achar que devia ser de outra forma.

E foi, só para esclarecer, foi metade? Foi um corte pela metade?
Cerca de metade. Foi sempre o que disse o meu antecessor e, portanto, cerca de metade. Vai entre os 9 mil e os 45 mil euros.

Na Assembleia Plenária de abril já estavam atribuídas 57 compensações e ainda estavam por analisar nove casos que deverão receber também uma compensação. A equipa de juristas, entretanto, já terminou as funções. Como é que vão ser resolvidos estes nove casos?
Está em curso. Já foram ouvidas. Agora há mais um ou dois casos de pessoas que já tinham feito a sua sinalização, mas que não tinham comparecido à entrevista, ou por estarem no estrangeiro, ou por não terem tido possibilidade, e que também estão a ser considerados. E os tais nove casos. Uma vez que a Comissão para a Atribuição das Compensações cessou as suas funções com a entrega do seu relatório, tivemos de constituir um outro pequeno grupo de trabalho, uma outra comissão, para exercer essa função, que são dois membros do Grupo VITA, a coordenadora das comissões diocesanas para o abuso de menores na Igreja em Portugal, a Dr.ª Carla Rodrigues, assim como a Dr.ª Rute Agulhas e a Dr.ª Alexandra, do Grupo VITA, e o Dr. Pedro Vaz Pato, jurista. A Dr.ª Carla também é uma jurista. E, portanto, vamos agora esperar que esse trabalho fique concluído, que se sigam os critérios estabelecidos tanto na regulamentação anterior, como aquilo que são os montantes atribuídos, fazendo exatamente a comparação dos casos, para se perceber…

Para estar em linha com os casos anteriores.
Em linha com os casos anteriores.

No total, quanto dinheiro é que a Igreja vai, ou terá gasto, com todo este processo?
A Igreja em Portugal, primeiro, gastou um montante bastante avultado com a Comissão Independente. Está a gastar outro montante avultado com o Grupo VITA. Eu não estou a reclamar que gastemos, são os dados. E, depois, com as compensações propriamente ditas, agora o número de cor não me recordo, mas anda à volta de um milhão e meio, um milhão e seiscentos mil, por aí assim. O bolo todo ultrapassa, com certeza, os dois milhões de euros.

A sua eleição, sendo, como já dissemos, o anterior vice-presidente da Conferência Episcopal, pode ser lida também como um sinal de que os bispos pretendem, de alguma forma, fechar este dossiê dos abusos em continuidade com a direção anterior? Ou seja, o seu objetivo é, digamos, concluir, fechar este dossiê?
Disse isso logo após o momento da minha eleição: o nosso objetivo não é fechar dossiês, muito menos este dossiê, porque este dossiê não vai ser fechado. É um dossiê que vai continuar aberto na Igreja em Portugal, e na Igreja no mundo. Portanto, não se trata de fechar dossiês. Trata-se de fechar alguns momentos deste percurso relativo aos abusos em Portugal. [Houve] a fase da Comissão Independente. A fase do Grupo VITA, poderá não ser um encerramento, tal como está no nosso acordo até ao fim de junho, porque provavelmente — estamos a tratar disso agora, como disse também —, vai haver alguma continuidade de algumas pessoas, ou de alguma forma, de alguém que não está propriamente só nas comissões diocesanas. Mas o objetivo é que, depois, as comissões diocesanas, que felizmente estão a trabalhar e têm membros muito qualificados do ponto de vista jurídico, psicológico, psiquiátrico, pedopsiquiátrico, etc., deem continuidade a todo este processo, que não é para encerrar. Isso era a palavra que nós não gostaríamos de ouvir nem dizer.

O assunto, obviamente, não vai desaparecer da agenda da Igreja, e a Igreja continuará a ter mecanismos de prevenção, mas também mecanismos de denúncia.
Evidentemente.

Esses mecanismos serão idealmente centralizados nas comissões diocesanas?
Nós fizemos já uma reunião, agora no princípio do mês de maio, com o Grupo VITA e com as comissões diocesanas. Convidámos todas as comissões diocesanas, exatamente para pormos a questão direta: qual deve ser o modo de atuação da Igreja em Portugal no futuro, após estas duas fases que temos estado a viver? Naturalmente, isto é motivo de discussão e de debate, e estamos totalmente abertos a essa discussão e a esse debate, para encontrarmos as melhores formas, sabendo que as comissões vão ser o suporte fundamental do combate aos abusos, e também da escuta e, portanto, de qualquer denúncia. Mas ainda estamos a ver como conjugar tudo isto, entre a coordenação das comissões diocesanas, as próprias comissões diocesanas, e o atualmente existente Grupo VITA. Ainda não temos uma conclusão definitiva sobre isto. E logo que haja, nós com certeza daremos conta dela.

A minha pergunta é se uma eventual centralização deste processo em comissões que dependem da hierarquia, não vai, de certa maneira, contra a necessidade de combater o clericalismo que o próprio D. Virgílio tem dito várias vezes, que é uma prioridade.
Com certeza, essa é a discussão central, no fundo.

É preciso uma entidade externa, no fundo, ou não considera?
Há pessoas que pensam, exatamente, que é necessária uma entidade externa, pelo menos numa primeira fase de escuta, porque o acompanhamento também já está, em grande parte, a ser feito pelas comissões diocesanas, que enviam para os psicólogos ou para os psiquiatras. Mas essa, de facto, é a discussão central. Algumas pessoas continuam a achar que deve ser uma entidade externa. Mas entendamos que o Grupo VITA, assim como a Comissão Independente, foram comissões independentes, mas alguma ligação com a Igreja também têm, porque foi a Igreja que as nomeou, que as financiou, e foram instrumentos muitíssimo importantes. Outras pessoas acham que as comissões diocesanas devem assumir a totalidade desta responsabilidade, e nós, no fundo, enquanto diretrizes da Santa Sé, o que temos é a obrigatoriedade da existência das comissões diocesanas. Tudo o que foi para além disso foi o caminho que nós fomos descobrindo, e penso que de forma bastante mais pacífica do que aquilo que se passou noutros lugares do mundo, se pensarmos na França, com o CIASE [Commission Indépendante sur les Abus Sexuels dans l’Église], e se pensarmos na Espanha, com o Defensor do Povo e as comissões dependentes diretamente da Conferência Episcopal. Portanto, o caminho não está ainda traçado, totalmente traçado. Nós vamos construindo o nosso caminho paulatinamente. Também procuramos ouvir, porque são muitas dezenas de pessoas que estão nas comissões diocesanas. Essas pessoas têm de ser ouvidas, já lhes demos uma primeira possibilidade de auscultação, e vamos continuar a fazer o trabalho.

"Este dossiê não vai ser fechado. É um dossiê que vai continuar aberto na Igreja em Portugal, e na Igreja no mundo, evidentemente."

“A tecnologia, a inteligência artificial ou seja o que for, não pode perturbar aquilo que é a condição humana, antes pelo contrário”

Estamos a gravar esta entrevista a poucos dias da publicação da Magnifica Humanitas, a primeira encíclica do Papa Leão XIV, sobre a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial. A sua eleição ocorre num contexto muito particular. Por um lado, numa altura de mudança de Papa, um ano depois da mudança do Papa. Por outro lado, num mundo marcado por novos desafios, relativamente aos quais a Igreja, sob este novo Papa, parece querer posicionar-se. Este é um deles, a guerra é o outro. De que maneira é que este contexto também poderá marcar o seu mandato?
O meu mandato não é a coisa mais importante no meio disto tudo. O importante é que a Igreja continue a realizar a sua missão, que tenha boas relações com as outras entidades que fazem parte das nossas sociedades, naturalmente de perspetivas diferentes, formas de ver diferentes. Eu acho que só o título — ainda só vi o título — da primeira encíclica do Papa Leão XIV é sugestivo, é atual, vem ao encontro de um dos grandes problemas… Começa por não ser um problema, é uma realidade, a inteligência artificial e esta nova forma de estarmos no mundo, mas que precisa efetivamente de uma reflexão aprofundada, e neste caso o Papa fará com certeza, à luz da revelação, à luz da tradição da Igreja, à luz do magistério, à luz de tudo, mas tendo em conta aquilo que são as preocupações da humanidade. E nós percebemos que estas questões não são só uma preocupação da Igreja. Hoje são uma preocupação alargada e bastante generalizada, mesmo pelos mais sonhadores, defensores e por aquelas pessoas que acreditam na bondade natural e sem qualquer sombra de corrupção da mente humana, dos desenvolvimentos.

https://observador.pt/2026/05/18/papa-leao-xiv-dedica-a-inteligencia-artificial-a-primeira-enciclica-magnifica-humanitas/?utm_source=observador_alerts&utm_medium=alerts_bell_site&utm_campaign=immediate&utm_content=article

E do desenvolvimento tecnológico.
É uma questão para todos.

A questão da inteligência artificial, sobre a qual versa esta nova encíclica do Papa, poderá ser a grande transformação antropológica do nosso tempo, tal como a revolução industrial foi no passado, no fim do século XIX. Que papel é que as comunidades religiosas podem ter neste momento de transformação, concretamente a Igreja Católica em Portugal?
Nestas questões das novidades — isto é uma novidade que já se ia adivinhando lentamente, mas que teve agora nestes últimos anos um crescimento exponencial —, há sempre os otimistas, que acham que isto vai dar tudo certo, que isto não tem problema absolutamente nenhum, e há também aqueles pessimistas que acham que isto é sempre a maior desgraça que vem aí agora. E às vezes na Igreja também estamos um bocadinho do lado destes mais pessimistas. É evidente que é uma revolução, mas a humanidade já passou por muitas revoluções, não só a revolução industrial, mas revoluções tecnológicas e culturais, e até civilizacionais, as relações entre os povos… Nós já passámos por muitas, felizmente. Felizmente porque são sempre sinal de crescimento, mas também trazem algumas preocupações. Agora, o que eu acho e que nós achamos importante, e eu espero que seja isso que diz o Papa Leão XIV, é que o ser humano tem de continuar a ser sempre pessoa humana, com os seus direitos, com os seus deveres, com a sua realidade, com a sua dignidade, que não pode ser maculada por nada nem por ninguém, e que portanto temos de encontrar os caminhos adequados para que o ser humano, como indivíduo, como pessoa, como sociedade, organizado em sociedade, encontre os caminhos para o seu bem-estar, para a sua tranquilidade, para a paz, e que não seja perturbado por elementos estranhos. A tecnologia, a inteligência artificial ou seja o que for, não pode perturbar aquilo que é a condição humana, antes pelo contrário, deve ajudar a desenvolver e a potenciar e a crescer nas suas relações, nos seus anseios de realização e de felicidade, na sua dimensão espiritual, que é uma dimensão tão cara à própria Igreja, à própria revelação cristã.

Nesse sentido, poderá haver quem tenha a tentação de ver na Igreja uma instituição mais imobilista, que olha para os desenvolvimentos tecnológicos com desconfiança à partida. O facto de o Papa dedicar a sua primeira encíclica justamente ao tema da inteligência artificial também mostra uma mudança de perspetiva da Igreja em relação aos grandes temas da contemporaneidade? A Igreja está mais atenta e interessada em ver aqui, mais do que uma ameaça, uma oportunidade?
Não tenho dúvida nenhuma. Se pensarmos no século XVIII, no século XIX, e numa grande parte do século XX, essa atitude por parte da Igreja-instituição pode ter razão de ser. A partir do Concílio Vaticano II, com aquela grande marca que abriu a este diálogo, este encontro com a humanidade toda, com as diferentes sociedades, culturas, religiões, penso que agora a situação é bem diferente. Quando o Papa Paulo VI escreveu que o desenvolvimento é o novo nome da paz, com certeza não tinha a noção daquilo que seriam os desenvolvimentos posteriores. Mas a intuição fundamental estava ali, e quando o Concílio Vaticano II disse “tudo aquilo que é humano interessa à Igreja”, não como um problema, mas como uma realidade e como um caminho, isso está lá. E tem sido aquilo que tem vindo a nortear. O pontificado, concretamente, do Papa Francisco, abriu-nos a alguns temas que no passado também pareceria absolutamente inadequado ou desadequado tocar. A questão da ecologia, com as polarizações, com as ideologias à volta da dimensão, porventura, pouco crente, nada crente ou ateia…

Do ambientalismo.
Do ambientalismo, etc., e o Papa entrou na questão. A questão da Fratelli Tutti, que é outro documento fabuloso, da fraternidade universal. Também havia alguns grupos, meios, sociedades que procuravam capturar esta ideia da fraternidade como uma novidade, o racionalismo, enfim, e o Papa entrou nesta questão. Agora a própria inteligência artificial pode parecer uma questão absolutamente técnica, e o Papa volta a entrar e de uma forma que vai ser aberta, eu acho que vai ser uma grande revelação.

Porque vê no tema mais do que uma questão informática, técnica, tecnológica, um desafio antropológico.
A centralidade é sempre a antropologia entendida na perspetiva cristã, numa ligação com Deus, que nunca é uma antropologia fechada sobre si mesma, que é a nossa característica cristã de entender a antropologia.

Este tempo atual parece, de certa maneira, marcado por um paradoxo. Por um lado, a dinâmica de secularização do século XX continua a aprofundar-se, e estes progressos como a inteligência artificial, por exemplo, parecem fazer-nos aproximar de um mundo cada vez mais afastado da sua dimensão espiritual e religiosa. Por outro lado, tem havido sinais de um possível ressurgimento religioso, por exemplo, entre os mais jovens. Vimos aqueles números em França, por exemplo, vemos uma série de relatos que mostram um certo apelo da religião e da espiritualidade relativamente aos mais jovens. Que leitura é que faz deste momento da história?
O grande teólogo alemão Karl Rahner e outros que depois vieram na sequência disseram algumas frases muito marcantes sob esse ponto de vista. Concretamente: o século XXI vai ser um século místico. Não naquele sentido etéreo, desencarnado, longe do mundo e longe das realidades, mas onde a dimensão espiritual, inclusivamente religiosa, vai ter uma marca muito profunda. Porque nós vimos de uma situação histórica muito diferente. Materialismos de todas as feições, com todas as matrizes, e até o próprio modo de vida, o materialismo prático, acabou por dominar grande parte das sociedades, e levaram inclusivamente à secularização, até ao secularismo, à luta contra o religioso e contra a presença das igrejas, etc. E isso não satisfez a condição humana. Nós não estamos mais ricos hoje, por esse motivo, do que estaremos quando valorizarmos adequadamente esta dimensão mística, religiosa, espiritual, crente. E, portanto, eu penso que isso é mesmo uma realidade. E há sinais evidentes, em algumas regiões do mundo. Eu gosto muito de olhar para o Oriente, e o Oriente está num crescimento do Cristianismo, no meio daquela pluralidade…

Ainda é minoritário, mas…
Absolutamente minoritário. São zero vírgula qualquer coisa das populações. Mas há um crescendo e há uma descoberta. Depois, se olharmos, de facto, para a Europa, que, em alguns casos, bateu no fundo, no que diz respeito à dimensão religiosa, crente, também é uma Europa a renascer de outra forma, com outros modelos de vivência da fé. Mas, depois, mesmo o mundo secularizado, o mundo não crente, está continuamente à procura de novas espiritualidades. Esta importação que nós temos estado a fazer para o Ocidente, das espiritualidades orientais, mais baseadas na pacificação, no corpo humano, na pessoa humana, nas realidades que nos circundam, são sinais desse desejo e dessa ânsia. E no que diz respeito à fé cristã, eu penso que também está a haver uma redescoberta. Quando o Papa João Paulo II falou na nova evangelização, tinha em conta um percurso feito pela humanidade, concretamente, a Europa, que é sempre aquilo que está mais debaixo do nosso foco, e os anseios que estão aí. E penso que são evidentes.

“A separação da Igreja e do Estado foi o melhor bem que nos podia ter acontecido”

Um dos aspetos deste fenómeno de reaproximação dos mais jovens à religião, não só parece ter algumas dessas explicações que estava a apontar — uma certa necessidade de sentido e comunidade entre uma geração, essencialmente, marcada pela dinâmica de secularização das últimas décadas —, mas também parece, de certa maneira, ter, pelo menos, alguns pontos de contacto com uma certa radicalização política, uma viragem à direita, mais entre os jovens rapazes. Isto é um problema para a Igreja? De outra forma: ao mesmo tempo que parecem estar a vir mais jovens rapazes para as igrejas, também estão a ir mais jovens rapazes, por exemplo, para a direita radical? Há aqui alguma sobreposição?
O mundo é um todo. As pessoas são as mesmas. Nós, às vezes, é que tentamos segmentar de tal maneira, aqueles que são crentes, aqueles que são cristãos, que são católicos, que são isto, que são ateus. O caldo cultural e civilizacional é o mesmo. E, portanto, estes fenómenos podem, de facto, tocar-se. A coisa mais normal é que se toquem, porque se tocam dentro de cada pessoa, de cada comunidade e de cada sociedade. Estamos num período, de facto, de algumas radicalizações, extremas-direitas, extremas-esquerdas, tanto do ponto de vista partidário, como do ponto de vista cultural. Estas questões mesmo [entre os] crentes, os criacionismos, outras formas de entender o evolucionismo, de entender a realidade. Nós estamos no tempo das polarizações. E a Igreja, com certeza, não está fora destes contextos. E nós também sentimos, dentro da Igreja, esta realidade e algumas dificuldades. Isto de ir assim sempre ao centro, do ponto de vista cultural, do ponto de vista religioso, do ponto de vista da vivência e da fé, das expressões, etc., é uma realidade que cada vez existe menos.

E mesmo dentro da Igreja há uma certa polarização.
Mesmo dentro da Igreja. E causa algum mal-estar, porque há pessoas que se sentem provocadas, porque não se identificam com essas formas de viver a sua fé ou de viver a sua vida.

"Materialismos de todas as feições, com todas as matrizes, e até o próprio modo de vida, o materialismo prático, acabou por dominar grande parte das sociedades, e levaram inclusivamente à secularização, até ao secularismo, à luta contra o religioso e contra a presença das igrejas, etc. E isso não satisfez a condição humana."

No contexto de um certo ressurgimento da espiritualidade e do Cristianismo no contexto, por exemplo, do debate público europeu, preocupa-o o regresso de um discurso que, já mais do que falar em Cristianismo, parece novamente estar a falar da Cristandade, da ideia de um projeto político europeu assente numa visão política do Cristianismo, que de certa maneira até é uma instrumentalização do Catolicismo para propagar ideias anti-imigração, contra quem vem de fora, de outras religiões? Isto é uma preocupação para a igreja.
Claro que preocupa. A Igreja, com a história que tem, com o conhecimento que tem e com a mensagem que tem, só tem a obrigação, a necessidade e a urgência de não se deixar capturar nem enclausurar por ninguém, nem por movimento nenhum, nem por grupo nenhum, nem por nenhuma ideologia. E, portanto, tudo aquilo que é capturar a Igreja, ou a Igreja mesma se oferecer como suporte para esse tipo de perspetivas, é prejudicial, porque alguns ficarão de fora. E a Igreja tem de ser o espaço em que, de diferentes perspetivas, culturas, até ideologias, se tem de encontrar uma realidade comum. E o que dá unidade a tudo isto, de facto, é a mensagem primordial, é o Evangelho, é a pessoa de Jesus, e depois é uma tradição, e é uma perspetiva de continuidade. E, portanto, tudo aquilo que é radicalização de perspetivas com o apoio da Igreja, é prejudicial. Ou da Igreja ou de outras religiões, noutras latitudes. É o mesmo tipo de problema. Aquilo que, para nós, foi um momento dramático, a separação da Igreja e do Estado, porque veio trazer alguns transtornos numa pertença, estabilidade existente, foi o melhor bem que nos podia ter acontecido. Nós ficámos desamarrados, enquanto Igreja, para levarmos por diante, umas vezes com o acordo e o consenso de muitas pessoas, outras vezes caminhando assim quase como solitários, mas bem persuadidos de algo importante que temos, uma missão que temos no meio do mundo.

É curioso que toque aí no assunto da separação Igreja-Estado. Este discurso da Cristandade tem sido um fator importante do mundo em guerra em que vivemos. Vemos isso de forma particularmente clara nos Estados Unidos, onde o discurso religioso tem estado impregnado na retórica do Secretário da Defesa, por exemplo, que chega a fazer celebrações religiosas no Pentágono a rezar a Deus por uma violência esmagadora contra os inimigos e que procura situar a guerra como um conflito entre o Ocidente cristão e um inimigo infiel, um inimigo estrangeiro. A este pretexto, o que é que lhe pareceu, por exemplo, a intervenção do Papa Leão XIV sobre este tema na viagem a África no mês passado? Houve ali uma tensão muito clara entre a perspetiva do Papa e o governo dos Estados Unidos, que parece estar a defender justamente o Ocidente cristão.
Eu penso que para o mundo foi o melhor que podia ter acontecido, foi o Papa ter a coragem, a lucidez de fazer as declarações que fez, tanto no voo como em outras circunstâncias que já pôde fazer. Se não o tivesse feito, teria ficado amordaçado. Não é o Papa em si mesmo, porque o Papa com certeza sobrevive mesmo com essas dificuldades, mas seria a própria mensagem do Cristianismo. Nós, como cristãos, não lutamos contra inimigos. O que temos de procurar é unir pessoas divididas. Não lutamos contra países que são islâmicos, ou que são evangélicos, ou que são hindus, ou que são católicos. Nós temos é que unir as pessoas na prossecução das causas fundamentais da humanidade, que são causas comuns. Nós não rezamos contra ninguém. No dia em que nós voltarmos a rezar contra alguém, perdemos radicalmente aquilo que é o suporte fundamental da nossa identidade. Portanto, todo esse tipo de discurso, venha de onde vier, não podemos concordar com ele, temos que o denunciar e nós próprios, enquanto Igreja, temos de ter a coragem, mesmo cá dentro, de trabalhar para que não haja defensores de discursos dessa forma.

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No caso concreto dos Estados Unidos, aquilo que dizia, elogiando a separação entre a Igreja e o Estado, no caso concreto dos Estados Unidos parece estar a fazer-se o caminho contrário. Ainda agora, o próprio governo dos Estados Unidos, para celebrar os 250 anos da independência do país, celebrou uma espécie de cerimónia religiosa em que pretendia uma espécie de regresso a um país formalmente cristão. O discurso religioso tem estado cada vez mais presente na retórica do governo. Isto é uma preocupação para a Igreja, paradoxalmente?
Nós em Portugal também continuamos a ter boas relações com o Estado, continuamos a ter relações com qualquer tipo de governo e continuamos a participar, muitas vezes, em celebrações de caráter público, não de caráter político ou partidário nesse sentido, mas de caráter público, porque a identidade mais profunda do nosso povo português é a matriz judaico-cristã e a implantação da Igreja e isso é reconhecido. Agora, isso é uma coisa, e podemos mesmo celebrar a missa num lugar público, mas isso não significa, nem pode significar, de modo nenhum, que o Estado passou enquanto tal a ser confessional, ou passou a ter uma dimensão religiosa. Há de ser sempre no respeito por todas as pessoas, também pedindo que nos respeitem a nós, que às vezes também temos essa dificuldade. Mas não podemos confundir os planos.

Muitos viram na intervenção do Papa, ainda relativamente à questão da guerra, uma rejeição daquilo que sempre foi a doutrina da Igreja, a ideia de que pode haver guerras justas se a causa for justa e não houver outra forma de combater um determinado mal. A Igreja está a mudar a opinião sobre a guerra?
A guerra justa é um conceito muito difícil, tem tido muitas leituras e interpretações ao longo da história. Mesmo os teólogos, os moralistas e os canonistas digladiaram-se, cada um para fazer valer a sua perspetiva. Nós entendemos que a guerra justa… É difícil compreender esse conceito. Nós temos o direito de nos defendermos, que é uma coisa bastante diferente. A defesa é uma coisa. A provocação da guerra, o aniquilar outras nações ou outros povos, o respeito pelo direito internacional, que também está, de algum modo, em crise, particularmente em algumas das suas instituições, porque não tiveram a capacidade ou porque deixaram de ser reconhecidas por algumas potências. Isso sim, agora, andarmos a proclamar a guerra justa como forma de agressão, seja a quem for, não é evangélico e não pode ser defendido pela Igreja.

Portanto, a guerra justa nunca é uma agressão?
A guerra justa não é uma agressão.

Já lhe fizeram esta pergunta em alguns contextos: parece-lhe que a Igreja em Portugal tem estado, de certa maneira, ausente destes debates? Não há um contraste entre o vigor com que o Papa Leão, por exemplo, se tem pronunciado sobre estes assuntos e os responsáveis da Igreja em Portugal no debate público sobre o tema?
É uma crítica que tenho ouvido, de facto, muito frequentemente. Nós, em Portugal, não temos a tradição de ser muito interventivos no que diz respeito à exposição pública sobre alguns destes temas. Há alguns temas que são eleitos, como é o tema da vida, há muitas manifestações sobre a questão da eutanásia, sobre tudo isso que tem a ver com a vida. Neste caso da paz e de lutar contra a guerra, também tem havido bastantes posições. Inclusivamente, os nossos comunicados da Conferência Episcopal Portuguesa é raro não trazerem — o último voltou a trazer — estas referências à questão da guerra. Agora, não somos assim uma Igreja demasiado interventiva ou com grandes parangonas no que diz respeito a estas questões. E, depois, também nem tudo chega à comunicação social. Muito daquilo que se diz e que se faz nas nossas dioceses, nas nossas paróquias, também não é publicitado na comunicação. Mas somos, também nesse aspeto, talvez um país de brandos costumes.

Tocou aí num assunto, o aborto e a eutanásia, que são claramente entendidos como dois assuntos… O Papa Francisco chegou a chamar-lhes obsessões de um certo posicionamento público da Igreja.
Sim, o Papa Francisco [falava do] aborto, eutanásia e das questões da sexualidade.

Ele dizia que pode haver quem ache que a Igreja só se preocupa com os pecados abaixo da cintura. O facto de haver uma certa obsessão com esses temas — que são temas, pelo menos a questão do aborto, que parecem relativamente resolvidos na sociedade portuguesa — pode depois retirar uma certa força às intervenções da Igreja relativamente a outros assuntos?
Pode, efetivamente, porque a sociedade caminhou em perspetivas bastante diferentes daquilo que é o pensamento da Igreja. A tal questão da dificuldade de identificação com uma Igreja, que, em alguns aspetos, tem um discurso com o qual não se concorda, ou que diverge bastante daquilo que é o sentir, talvez, mais comum. Agora, também é uma evidência que essas questões tocam aquilo que é centralíssimo na antropologia e na defesa da dignidade da pessoa humana. Portanto, nas questões da vida, é a pessoa humana, direta e explicitamente, que está em causa, assim como nas questões da guerra. Essas questões deviam passar também a fazer parte do foco fundamental. E, porventura, outras. A questão da injustiça, das injustiças que existem no mundo, a questão da pobreza. O Sínodo dos Bispos falou da pobreza, que é uma realidade que nós talvez passemos um pouco por cima, por não sentirmos, como noutros continentes, a pressão do tema. Mas talvez nós devamos ser mais incisivos num leque variado de temas e não nos focarmos, pura e simplesmente, em dois ou três, que também tocam diretamente a questão da dignidade humana.

Não lhe parece que a ausência de um posicionamento sobre uma série de assuntos que dizem respeito ao pensamento cristão sobre o mundo pode levar a que muitos católicos encontrem, junto de forças políticas que dizem falar em nome da fé, uma pertença até maior do que, por exemplo, junto dos bispos? Há esse risco?
Os católicos também são inteligentes e têm capacidade de discernimento e conseguem distinguir a fonte de onde bebem de outras fontes. E, portanto, riscos, com certeza, sempre existem. Todos nós temos uma capacidade para alguma independência e autonomia, mas também temos a possibilidade de ser manipulados por perspetivas, por pessoas, por ideias. O que é importante é que a pessoa tenha a clarividência, tenha o discernimento, não só de ver a mensagem, mas também o histórico e a fonte de onde ela brota. Mas riscos existem.

Participou no Sínodo sobre a Sinodalidade, um acontecimento central do pontificado do Papa Francisco. Podemos discutir se a palavra sinodalidade já entrou ou não no léxico comum. Mas, enfim, podemos falar, na prática, de uma tentativa de tornar a Igreja um pouco mais horizontal, de envolver a totalidade dos fiéis na definição dos caminhos da Igreja, em contraste com uma ideia antiga mais piramidal ou mais hierárquica. Esta inovação do Papa Francisco, este ímpeto reformista de trazer os leigos para o centro da tomada de decisão, parece agora ter acalmado, de certa maneira, com o Papa Leão XIV? A título de exemplo, o encontro que o Papa Leão convocou para outubro deste ano, sobre os dez anos de Amoris Laetitia, um encontro sobre as questões da família — em que o D. Virgílio vai participar porque é presidente da Conferência Episcopal —, apenas foram convocados os presidentes das Conferências Episcopais, portanto apenas bispos. Não foram convidados leigos e, ironicamente, não foram convidados famílias, por exemplo. A sinodalidade pode estar a esvaziar-se?
Penso que não. Em primeiro lugar, do ponto de vista pessoal, para mim foi o grande acontecimento eclesial da minha vida, em que eu pude participar, uma vez que não pude participar em nenhum concílio. Gostaria [risos], mas não estou a ver que seja fácil. Este Sínodo sobre a Sinodalidade, Comunhão, Participação e Missão, foi um acontecimento. Um acontecimento eclesial, mas também um acontecimento com repercussões para fora da Igreja, porque há muitas outras instituições, de caráter diferente, que podem fazer algum caminho também, nesta perspetiva da participação, da escuta e da envolvência de todos. Aquilo que nós estamos a fazer é dar continuidade ao Concílio Vaticano II. Passaram estas décadas todas, avançámos em alguns aspetos, mas noutros tínhamos ficado ainda muito parados, muito quietos, muito inativos. Agora, a sinodalidade não está parada. Ainda hoje chegou uma comunicação do Secretariado Geral do Sínodo com os timings adequados para a realização das próximas fases, até à grande assembleia de 2028, a nível das dioceses, a nível continental e, depois, a assembleia da Igreja universal. E, nas dioceses, há muito trabalho que se tem vindo a fazer e que, às vezes, não conhecemos bem, mas a mentalidade fundamental está a mudar.

"Aquilo que, para nós, foi um momento dramático, a separação da Igreja e do Estado, porque veio trazer alguns transtornos numa pertença, estabilidade e existente, foi o melhor bem que nos podia ter acontecido. Nós ficámos desamarrados, enquanto Igreja."

Já não é só o padre que manda na paróquia?
De modo nenhum. Eu podia dar muitos exemplos do que se passa, tanto na diocese de Coimbra, como noutras dioceses no nosso país e no mundo. Basta eu fazer uma visita pastoral a uma região da diocese, em que todo o trabalho, toda a preparação, toda a programação, todo o acompanhamento é feito pela equipa de animação pastoral, com o pároco. É um sinal evidente de que algo mudou e que os conselhos pastorais são chamados para manifestar os seus pontos de vista, e as assembleias das paróquias e das unidades pastorais. Há um caminho. E, depois, o modo como o povo de Deus, os leigos e os ministros ordenados, se relacionam. Um dos temas fundamentais do Sínodo são as relações. Porque esta mudança do estilo de relações é que acaba por ser aquilo que é mais transformador, e que tem de continuar a deixar de ser uma relação piramidal, uma pessoa que manda, que sabe, que conhece, e todas as pessoas que lhe obedecem. Isso está a mudar radicalmente.

Não vê, portanto, um risco de esvaziamento do Sínodo?
Há dificuldades. Nem todas as comunidades, nem todos os ministros ordenados acompanham, da mesma forma, o processo. Portanto, os processos são muito lentos. Mas está em curso e há uma transformação já sentida e que vai continuar a sentir-se. E há já muitas estruturas eclesiais, que estão ao serviço desse desenvolvimento da sinodalidade. Isso é uma evidência.

A verdade é que esta aposta na sinodalidade acabou por ser um dos alvos principais dos setores mais tradicionalistas dentro da Igreja, que se opunham ao Papa Francisco. O Papa Leão tem agora uma tarefa difícil de procurar a unidade da Igreja, depois do pontificado do Papa Francisco, que deixou muitas fissuras entre grupos. Só para dar dois exemplos, a nível mundial: temos, de um lado, a Fraternidade São Pio X, grupo ultratradicionalista, que está a caminho de entrar em cisma com Roma, se ordenar bispos sem o mandato do Papa, sem autorização de Roma. Por outro lado, temos os bispos alemães e a decisão, por exemplo, de abençoar casais homossexuais, também sem autorização de Roma. Portanto, estas tensões que se têm vivido no interior da Igreja, são claramente uma preocupação do Papa Leão. Que diagnóstico é que faz desta realidade no caso português?
Falou de alguns extremos. A questão da comunidade de São Pio X não é uma novidade de agora. [Vem] do Concílio Vaticano II, depois todo o percurso até agora. Já tinha havido uma declaração formal de cisma, depois houve o levantamento da declaração formal de cisma como caminho de aproximação, e agora voltamos a ter esta questão. Depois o Caminho Sinodal Alemão também é um caminho sui generis, com as dificuldades todas que temos vindo a sentir. Uma vez o Papa Francisco disse que já temos uma Igreja Protestante na Alemanha, não precisamos de duas. E depois há muitas outras manifestações de algumas dificuldades de unidade na Igreja. É evidente. O Papa Leão chegou com o seu lema da unidade, a partir da teologia de Santo Agostinho, das suas convicções pessoais e daquilo que é a sua observação da Igreja. Ele estava no Dicastério dos Bispos, portanto conhecia muitíssimo bem aquilo que se passava e que se passa no nosso mundo. E, portanto, tem uma tarefa, de facto. Tem, não: temos. Porque isto acaba por afetar a todos. Naturalmente, a responsabilidade do Papa é de abrir caminhos, dar orientações e discernir as melhores formas de estabelecer a unidade da Igreja. Mas a questão está aí.

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E em Portugal? Perguntava-lhe que diagnóstico é que faz destas tensões em Portugal.
Em Portugal, as coisas normalmente chegam cá um bocadinho mais tarde.

E com menos força.
E com menos força. Mas chegam, e já chegaram, evidentemente. No que diz respeito ao episcopado português, não é uma questão sentida. Alguns até dizem que somos muito homogéneos, senão muito cópia do mesmo estilo e do mesmo modelo. Há diferenças, mas penso que de facto somos todos moderados.

Não há fações em combate?
Não há fações. E, sobretudo, nós em Portugal, e os bispos portugueses, têm sempre quase esta mística da fidelidade a Roma, ao Santo Padre, ao sucessor de Pedro. E, portanto, nós procuramos estar sempre com o Papa. E neste caso também estamos. Estivemos com o Papa Francisco e agora estamos com o Papa Leão. Agora, a outro nível, entre o clero, sobretudo entre os movimentos e pessoas individuais que bebem perspetivas que vêm de todos os lados… O mundo digital propaga tudo e mais alguma coisa. E, portanto, as pessoas, com certeza, vão às vezes para aqui, para ali, atrás das sugestões que às vezes vêm mais ao encontro daquilo que é o seu modo de ser, o seu modo de sentir. Também existe esta questão em Portugal.

E é um desafio para os próximos três anos da Conferência Episcopal? Estar atento a estas tensões?
É um desafio. Estar atento, sim, mas procurarmos encontrar caminhos de unidade, à semelhança daquilo que o Santo Padre nos irá, com toda a certeza, propor.

A necessidade do Papa Leão de procurar a unidade dentro da Igreja pode também levar a mudanças no modo como se vinha evoluindo em alguns temas, como a questão da ordenação de mulheres, eventualmente o debate sobre o celibato, a questão da comunidade LGBT? Para quem, no pontificado do Papa Francisco, esperava grandes revoluções, vai agora ter, de certa maneira, de pôr um bocadinho de gelo nos pulsos?
O Papa Francisco, algumas vezes, lançou alguns destes temas para o debate. E é bom que se debatam as coisas. Mas, depois, quando chegaram alguns momentos decisivos, teve o discernimento adequado para dizer “não é tempo, não vamos por aí”. O caso do sínodo da Amazónia.

A ordenação de homens casados.
As expectativas que se depositaram… Que alguns setores depositaram; havia outros radicalmente contra, evidentemente. E o Papa disse “não, não vamos por aí”. A questão do diaconado feminino, a comissão de investigação, a comissão de estudo, uma comissão, duas comissões, os resultados mais conclusivos, menos conclusivos, e o próprio Papa Francisco [disse], “vamos adiante, não vamos por aí”. Eu sou daqueles que pensam que a Igreja não vai dar passos, neste sentido, de roturas, ou de decisões que venham a causar roturas profundas. E identifico-me plenamente com essa forma de levar a Igreja por diante, porque as roturas são sempre prejudiciais. Às vezes é difícil unir pontas. É muito difícil. Mas as roturas criam, de facto, fossos que depois são absolutamente intransponíveis. E a Igreja de Cristo tem que lutar por ser uma Igreja unida, com todas as dificuldades que isso acarreta.

O sínodo de que falávamos ainda tem vindo a produzir efeitos. Recentemente têm vindo a ser publicados os relatórios dos grupos de trabalho subsequentes ao sínodo, os dez grupos. O mais polémico foi claramente aquele sobre os temas controversos, que tocava, por exemplo, na questão do acolhimento de católicos homossexuais. O relatório foi muito aplaudido pelo setor mais progressista. Condena, por exemplo, as terapias de conversão, abre espaço a uma reflexão sobre a integração destas pessoas no contexto da Igreja. Ao mesmo tempo o relatório foi alvo de críticas muito duras pelo setor mais conservador. Que caminho é que vão ter estes temas que saíram do sínodo? Vai haver debates e relatórios e depois vai ficar tudo na mesma? Ou é de esperar algum tipo de transformação?
Já não está tudo na mesma. É que já não está tudo na mesma. No que diz respeito à Amoris Laetitia, que há pouco referiu, já não está tudo na mesma. Mas não é simplesmente o preto ou o branco, o sim ou o não. Tem que se encontrar é caminhos. A questão do acolhimento de todas as pessoas na Igreja e de uma maior integração, seja qual for o seu estado, o seu estatuto… É evidente que a Igreja tem que trabalhar para que todos possam ter um lugar nela. Depois também há algumas regras, algumas condições, alguns princípios que não podem pôr em causa aquilo que é nem o Evangelho, nem a Tradição legítima. Tradição com maiúscula.

Um dos pilares da Igreja.
Um dos pilares. É a Escritura e é a Tradição. Não podem pôr em causa, pura e simplesmente, porque isso corresponderia a uma desintegração. Agora, a atenção à pessoa, ou às pessoas, às famílias. A Amoris Laetitia foca-se muito nas “famílias”, não já só na “família”. Nesta questão das identidades sexuais, etc., as pessoas têm que ser acolhidas, têm de sentir-se felizes e tem que se ajudar a fazer caminho. A Igreja faz sempre uma proposta de caminho, não é simplesmente sim ou não. Que caminho é que a Igreja te propõe para que consigas levar por diante um projeto de vida? E isso vai continuar, portanto, estes aspetos vão continuar. Não são de solução fácil, nenhum deles. Até porque depois há os tais polos, um a dizer que sim e outro a dizer que não. Às vezes dizemos progressistas e conservadores.

Esses rótulos ainda vão funcionando. Sabemos do que estamos a falar.
Sabemos do que estamos a falar. Mas é um caminho a fazer, que vai ser muito longo, também muito difícil, mas que vai encontrar possibilidades de saída. E as pessoas vão ser cada vez mais bem acolhidas na Igreja.

Esta semana, soubemos a notícia de que o Presidente da República convidou o Papa Leão XIV para visitar Portugal no próximo ano. São os 110 anos de Fátima e os 10 anos da canonização dos pastorinhos.
E os 500 anos das relações diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé.

Exatamente. E suponho que este convite também tenha sido de alguma maneira articulado com a Igreja Católica.
Sim. Nós já tínhamos, enquanto Igreja Católica, dirigido uma carta ao Papa. Ainda foi assinada pelo D. José Ornelas como presidente da Conferência Episcopal, com o acordo explícito de toda a Conferência Episcopal, a convidar o Papa, depois de algumas conversas informais que tinha havido já com o Santo Padre. E o senhor Presidente da República fez muitíssimo bem em fazer aquilo que o Estado português pode fazer — se achar bem e achou bem fazer — porque todos nós tínhamos muito gosto de ter o Papa Leão XIV em Portugal.

Com estes dois convites, é muito provável que venha mesmo a concretizar esta viagem?
Eu acho que é irrecusável, mas, de facto, a agenda do Papa é feita com muita antecedência. Mas eu espero que seja no próximo ano, por todos estes motivos e porque nós queremos o Papa em Portugal. E o Papa também quer vir a Portugal. Se não for, que seja noutra ocasião, que são todas boas e será sempre bem-vindo.