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(A) :: Cuba afirma estar "disposta a falar sobre tudo", mas acusa EUA de "criar diferentes pretextos para uma agressão militar"

Cuba afirma estar "disposta a falar sobre tudo", mas acusa EUA de "criar diferentes pretextos para uma agressão militar"

Embaixador cubano na ONU considera que “retórica belicista” dos EUA dificulta negociações entre países. Mesmo após acusações a Raúl Castro, sublinha que Cuba continua interessada numa relação de paz.

Margarida Vieira dos Santos
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O embaixador de Cuba nas Nações Unidas garante que Havana continua disponível para dialogar com os Estados Unidos, mesmo depois de Washington ter acusado formalmente Raúl Castro, irmão de Fidel Castro e uma das figuras políticas mais influentes da ilha nas Caraíbas, por um crime ocorrido em 1996. Ainda assim, em entrevista ao The New York Times — a primeira concedida por um representante do governo cubano ao jornal norte-americano em anos —, Ernesto Soberón Guzmán disse não acreditar que a administração de Donald Trump esteja disposta a negociar de boa-fé, acusando-a de criar pretextos que possam justificar uma eventual agressão militar contra Cuba.

“Cuba está disposta a falar sobre tudo com os Estados Unidos. Não há nenhum assunto tabu nas nossas conversas, com base na reciprocidade e na igualdade”, disse Guzmán ao jornal. “Obviamente, não ajuda um clima de diálogo e confiança em que quase todos os dias haja declarações como: ‘Estamos prontos para tomar Cuba’”, disse, referindo-se aos recentes comentários de Donald Trump em resposta a algumas perguntas dos jornalistas na Sala Oval.

O embaixador cubano nas Nações Unidas considera ainda que a “retórica belicista” dos Estados Unidos está a dificultar qualquer entendimento entre os dois países. “Criar diferentes pretextos para uma agressão militar contra Cuba, que é o que estão a criar, não ajuda”, afirmou.

Segundo Ernesto Soberón Guzmán, a própria entrevista ao jornal norte-americano fez parte de um esforço de Havana para demonstrar aos norte-americanos que Cuba continua interessada numa relação de paz e cooperação com Washington, apesar da intensificação da campanha de pressão da administração de Donald Trump contra a ilha e das recentes acusações contra Raúl Castro, relacionadas com o abate de duas avionetas civis pelas forças cubanas, em 1996, provocando a morte de quatro pessoas.

“A democracia em Cuba não é a razão pela qual os Estados Unidos estão a exercer pressão”

Num contexto de crescente tensão, Marco Rubio dirigiu-se ao povo cubano, em espanhol, para mostrar a hipótese de uma “nova relação” entre os países. No Dia da Independência de Cuba, o secretário de Estado norte-americano defendeu que as dificuldades no país não são provocadas pelos Estados Unidos, mas sim pelos próprios líderes da ilha das Caraíbas. “A verdadeira razão pela qual vocês não têm eletricidade, combustível ou alimentos é porque aqueles que controlam o vosso país saquearam milhares de milhões de dólares, mas nada foi usado para ajudar o povo”, disse, referindo-se à GAESA, um conglomerado militar cubano que controla até 70% da economia, segundo o The New York Times.

Na mensagem publicada nas redes sociais, o responsável norte-americano afirmou ainda que a administração de Donald Trump quer oferecer 100 milhões de dólares (cerca de 86 milhões de euros) em comida e medicamentos à população. Questionado pelo jornal norte-americano, o embaixador cubano das Nações Unidas disse que Cuba planeia aceitar a ajuda, mas que, simultaneamente, também a considerou um “insulto à inteligência humana”. 

Ainda na semana passada, o diretor da CIA, John Ratcliffe, viajou para Havana para discutir a segurança e situação económica da ilha, exigindo que a ilha implemente reformas económicas significativas. Soberón Guzmán defende que existem várias áreas com potencial para cooperação mutuamente benéfica com os Estados Unidos, nomeadamente a gestão da migração, o turismo, a agricultura, a produção de medicamentos e o combate ao narcotráfico, de acordo com o jornal norte-americano.

Ainda assim, o diplomata cubano sublinhou que Havana não aceita ser instruída por Washington, apontando críticas a elementos do sistema político norte-americano, como o colégio eleitoral. “A democracia em Cuba não é a razão pela qual os Estados Unidos estão a exercer pressão”, acrescentou ainda, acusando os Estados Unidos de manterem relações com vários regimes não democráticos.